sábado, 24 de outubro de 2009

OS COMEDORES DE GENTE PARTE VI


Tudo parecia incrível. Quando entrei na casa, examinei os documentos de Kreimer. O homem era russo, um proprietário de terras da Criméia. Seu diário revelava que passara muita fome em uma terrível experiência de escassez. Talvez isso tivesse... mas é melhor calar tais suposições.

Resolvi permanecer no castelo até que algum oficial passasse por esse caminho. Certamente alguém do Departamento de Matas e Florestas nos faria uma visita em breve, isto era certo como o passar das horas, já não tinha nada a temer. Kreimer havia atentado contra minha vida e sua morte fora inteiramente acidental, pois eu mal tinha tocado nele, minha consciência estava limpa. Além do mais, ali, naquele lugar cercado de mata, não existiam meios de me comunicar com as autoridades.

Enterramos Kreimer naquela noite no terreno da propriedade e decidi matar todos os cachorros na manhã seguinte, um por um.

Naquela noite não consegui dormir. Estava ciente do mesmo farfalhar em meu quarto, um som misterioso de coisas sem corpos movendo-se na escuridão. Então me levantei, acendi a lamparina, fumei e li até de madrugada quando finalmente cai num sono agitado.

Chegamos agora a parte mais aterrorizante de minha história. Como aconteceu, não creio que seja capaz de dizer, mas, após alguns dias, não sentia a menor disposição de deixar o Castelo de Caim, como passei a chamar a estranha construção onde me encontrava. A princípio, o que me deteve naquele lugar, pareceu-me mera curiosidade. E também, é claro, a decisão de aguardar a chegada de alguma autoridade para que pudesse narrar a verdade do que ocorrera a Kraimer. Mas depois de uns poucos dias, comecei a sentir cm crescente horror e consternação, que me apegava cada vez mais àquele lugar, que, de fato, exercia sobre mim poderoso fascínio. Fiquei tolerante até com os cachorros e assim menos inclinado a exterminá-los. Afinal...

Foi no quarto dia, creio eu, que passei a uma nova fase dessa obsessão peculiar, já que esta é a única palavra que encontro para isso. O horror que sentia por aquele lugar – e por tudo que estivesse ligado a ele – desaparecera completamente e descobri que não apenas poderia suportar o Castelo de Caim, mas que até apreciava a torre e seus arredores. Já não me amedrontava com os ruídos na escuridão da noite. Sentia, ao contrário, algo quase prazeroso neles.

Minha consciência parecia entorpecida e nublada. Comecei a sentir como se minha própria personalidade estivesse sofrendo uma alteração. Lembro agora com horror da horripilante mudança que se insinuava em mim naquele lugar amaldiçoado, mas, na ocasião, acredite se quiser não senti a náusea com a qual agora a considero, a metamorfose anormal que vi alastrando-se em mim, o novo e vil personagem que invadia e envolvia meu ego como uma possessão demoníaca.

É difícil descrever, por menor que seja; impossível passar até mesmo a mínima noção do efeito, do caráter das influências estranhas e ocultas daquele ambiente...


Continua...

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

OS COMEDORES DE GENTE PARTE V


Eu havia andado uns duzentos metros, talvez, quando ouvi os ganidos e gemidos transformarem-se no barulho de uma matilha em perseguição cerrada. Surpreso que já tivessem levantado a caça, virei-me. A matilha ladrando, agitada, com o rabo em pé, corria em minha direção!

Por um instante fiquei imóvel, incapaz de acreditar que era a caça deles. Mas, uma segunda olhada foi suficiente para me certificar. As bestas corriam para mim como que enlouquecidas e Kreimer as incitava com gritos de caça como se fosse um bando de beagles. Com uma súbita imprecação de raiva e terror, abaixei a cabeça e corri no rumo da mata à toda velocidade.

Ainda bem que eu era um corredor naqueles tempos e em boa forma. Um tropeção; um passo em falso e estaria acabado. Tinha de percorrer mais de duzentos metros e os animais estavam à metade dessa distância quando deles dei-me conta. Corri como um homem que sente a morte agarrada ao seu pescoço, soluçando, praguejando numa onda de terror. Meu coração subia pela garganta e quase me sufocando como a mão de um inimigo. Quando alcancei o abrigo das árvores, estava esgotado, reduzido a um par de pulmões despedaçados e amassados, respirando como um fole quebrado. Com o que restava de minha força frenética, escalei uma árvore e olhei para baixo, para os demônios malhados que uivavam, saltando como lobos enlouquecidos. Em dois minutos, Kraimer apareceu.

“Mil desculpas, meu caro jovem”, ele gritou, “os animais soltaram-se. Eu, simplesmente, não pude detê-los”.

“Seu demônio”; solucei, “e não o vi e ouvi incitá-los, seu assassino infernal?!”

“De jeito nenhum! Você está enganado, eu lhe garanto”, ele falou calmamente, embora me olhando de um modo esquisito, quase como se estivesse faminto. “Eu estava gritando para contê-los.”

“Diga ao criado para levá-los ao canil, pois tenho algo a lhes dizer.”

“Claro, ele vai levá-los de volta,” ele respondeu fazendo uma exagerada demonstração de boa vontade, e deu as ordens necessárias. Com uma palavra, os cães, que pareciam estar totalmente sob o domínio do cingalês, saíram trotando atrás dele para o canil.

Quando estavam a uma distância razoável, desci e fiquei frente a Kreimer e o que vi foi um homem de revolver na mão. Ele poderia estar com quantas armas fossem, mas, na mesma hora eu já estava em seu pescoço. Então, algo estranho aconteceu ao agarrá-lo, ele se dobrou como papel em meus braços e escorregou para o chão. Eu caí por cima dele com todo o meu peso e o rosto lívido voltou-se para mim. Ao ver seus olhos vidrados, soube que estava morto. O coração cedera feito um pistão quebrado.

Cheio de horror, gritei para o cingalês que só atendeu-me após o terceiro grito. Ele veio correndo e curvou-se sobre o rosto do morto.

“Não é de se estranhar,” falou lentamente “Era um homem mau. Os deuses, lá do céu, devem tê-lo castigado ou, talvez, quem sabe, algum demônio da floresta” e olhou-me, cheio de medo.

“Ajude-me a levá-lo à casa”, disse eu. E sem mais uma palavra, carregamos o corpo de volta à estranha torre, que, até aquele momento, tinha sido o seu lar.

“Sim, ele era um homem mau,” balbuciou o cingalês gravemente, “ele caçava outros homens.”

“O que é que você está me dizendo?” espantei-me, horrorizado. “Você quer dizer que o homem era um... um louco?”.

“Não”, respondeu ele, sério. Ele me fez seu escravo e devia obedecê-lo. Os estranhos que se perdiam na mata e chegavam aqui, ele os caçava com os cães e então...”

“E então o quê?,” perguntei, mas não obtive resposta.

Continua...