quarta-feira, 2 de setembro de 2009

OS COMEDORES DE GENTE


Do livro A Travessia Dourada, Sirdar Ikbhal Ali Shah, tradução Clarisse de Paula Ilg

Ajmir, no coração da Índia, mais que qualquer outro lugar nesse país, é o maior ponto de encontro dos peregrinos muçulmanos, pois a tumba de um célebre santo atrai gente de toda parte do Oriente! Todo filho do Islã deseja visitar Ajmir quando está na Índia.
Ao chegarmos sob chuva, pedimos abrigo num sarai, mas já estava superlotado. Mais água descia do telhado de palha que do céu. Qurban Ali, oficial indiano aposentado e agora peregrino de mão-cheia, e eu, sentamo-nos num catre, tentando manter-nos tão secos quanto possível, enquanto uma cela estava a ser varrida para nós do outro lado do amplo pátio do sarai.
O velho Qurban Ali foi ver quanto tempo ainda levaria para que pudéssemos entrar no lugar onde nos haviam prometido abrigo para a noite.
Quando as lamparinas de óleo cru, que pareciam antigas lamparinas romanas de barro cozido, foram acesas e meu companheiro peregrino ainda não voltara, fui ver o que havia acontecido.
Qurban Ali encontrara um velho amigo, outro peregrino do norte, e, empoleirado no alto de seus pacotes, malas de zinco e sacos de bagagem ele, o amigo de Qurban Ali, lá estava. Impossível imaginar alguém menos parecido com um peregrino que esse homem, possuidor de uma vasta cultura, muito viajado e que havia sido um estudante pesquisador em mais de uma universidade européia. O amigo de Qurban Ali havia agora renunciado ao mundo e dedicava-se a visitar um santuário após o outro, mas naquele momento, o objeto de interesse dos dois amigos era a história que ele estava contando ao perplexo Qurban Ali, sobre um seu outro amigo, da universidade. A história da viagem dele para a Europa e do seu encontro com um homem que se tornara canibal... Era assim:
***
Tão logo a prancha do navio foi içada em Colombo e vi o rosto bronzeado de um inglês de meia-idade sob um chapéu gasto pelo uso, achei que conhecia o homem. A toda hora me encontrava face a face com ele enquanto o vapor abria caninho pelo mar aberto em direção a Aden. Além de um olhar furtivo, esse homem estranho e arredio resistia a qualquer contato, mas algo me fascinava nesse meu companheiro de viagem – ele exercia uma influência misteriosa sobre mim.
Certa noite, quando as estrelas pendiam do céu em cachos como enormes e brilhantes pedaços de lua, este cenário maravilhoso emocionou-me de tal forma que minha xícara de café escapou-me da mão, rolou pelo parapeito do convés e foi cair no colo de alguém sentado em sua espreguiçadeira. O homem acordou sobressaltado, como de um transe, e, enquanto me apressava em desculpar-me, deparei-me com o mesmo homem silencioso e misterioso que, pensei, vinha fazendo de tudo para me evitar.
Depois de reiteradas desculpas, resolvi aproveitar a oportunidade.
“Desculpe”, disse eu “mas já não nos encontramos antes?”
“Sim!” grunhiu. “Sim, talvez nos tenhamos encontrado na lua.”
Aquele seu grunhido – como se fosse um maneirismo – evocou uma profusão de lembranças, e atrevi-me a dizer com certo humor: “Não nos encontramos na lua, velho amigo”, falei. “Ora, Charlie, vamos lá, não se lembra daquela aula de patologia?”
Retesou-se quase que imperceptivelmente e então relaxou, e recordamos todo o companheirismo de nossos tempos universitários.
Continua...
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