quinta-feira, 10 de setembro de 2009

OS COMEDORES DE GENTE PARTE III


A furiosa gritaria impediu o meu caminho. Parei e fiquei escutando. Seria seguro seguir por ali? Certamente não era seguro ficar onde estava, e o tumulto, embora soasse ameaçador, pelo menos me tiraria daquela situação perigosa – talvez para me colocar noutra pior. Bem, eu havia chegado ao limite das minhas forças e não tinha escolha. Decidi “enfrentar as dificuldades” e apertei o passo em direção do que parecia ser uma matilha solta e firme no encalço de sua presa. Então, parei de súbito, mais uma vez, pois me ocorreu que eu mesmo poderia ser a “caça”, o objeto daquela busca ruidosa. Quando parei, notei que a mata se tornara menos densa. Prosseguindo, emergi de repente para a luz do sol num insólito cenário.
Numa clareira cercada pela mata, uma ilha de campo entre dois mares de floresta, erguia-se o prédio mais estapafúrdio que até hoje me foi dado ver. Sim, sim, é verdade, pois isso não é ficção mas um fato. Imagine uma torre medieval retirada da Inglaterra ou Normandia, plantada em plena paisagem cingalesa! Em um dos lados havia uma construção comprida e baixa, obviamente o canil, e, saindo de lá vi um grupo de uns vinte cães de caça de uma raça que fui absolutamente incapaz de identificar. Não havia dois iguais e calculei que pertenciam a um cruzamento de sabujo com outras raças maiores, muitos deles pelo menos tinham inconfundíveis características de cães de caça. Eu havia visto cachorros assim nas cidades portuguesas da Índia, e acredito que nenhum tenha sido trazido de Pondicherry.
Atrás deles estava uma curiosa figura, um homem branco, de pijama listrado, com calças enfiadas em botas de cano longo amarradas com cadarço até em cima, como botas de campanha. Usava um chapéu para o sol e àquela distância não pude ver sue rosto. Mas naquele momento não podia ocupar-me com idiossincrasias pessoais ou aparências, pois os cães, assim que me avistaram, deram um latido longo e avançaram em minha para onde eu me encontrava, como uma onde cheia de manchas.
“Cuidado” gritei, erguendo o rifle, “se seus cachorros me atacarem, atirarei – e meu alvo não será os cachorros”.
O dono deles escutou, mesmo àquela distância, e deu uma ordem com um grito brusco. No mesmo instante as feras ficaram imóveis, ganindo e gemendo como uma alcatéia de lobos desapontados. Lentamente, caminhei até o homem com o capacete solar e então pude ver seus olhos – eram olhos inquietos de um libertino.
“É tarde para caçar”, disse eu, “mas seus cães me tiraram de um apuro. Eu estava perdido na mata”.
“Muitas pessoas perdem-se lá” ele respondeu com uma estranha, porém refinada entonação, com forte sotaque estrangeiro. “É por isso que trago os cães para fora. As pessoas perdidas que eles... er... salvaram não foram poucas.”
“E uma casa estranha a sua, desculpe-me por falar assim”, arrisquei... “Igual ao castelo do ogro nos contos de fadas, não é?”
“Castelo do ogro”, ele repetiu. Você acha? Bem, você deve estar exausto. É melhor entrar e deitar-se um pouco”.
Virou-se e, assobiando para os cães dirigiu-se à torre. Seu interior era bastante confortável e evidentemente foi adaptado ao clima tropical. A sala ocupava o térreo e dois quartos arejados ficavam no segundo andar. Quanto ao terceiro, só o vi uma vez...
Soube que o nome de meu anfitrião era Kreimer ou assim o denominarei. Era um homem corpulento, desajeitado e visivelmente preguiçoso. Devia ter uns cinquenta anos, era gordo e com um ar doentio. Seu único criado era um cingalês, uma criatura de extraordinária suavidade.
Continua...
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