sexta-feira, 4 de setembro de 2009

OS COMEDORES DE GENTE PARTE II


Ele fora reprovado duas vezes nos exames finais; o professor tinha sido duro com ele, pensava. A guerra chegou, ele serviu o exército e depois de um breve caso de amor foi para o Oriente afim de espairecer. Mas, agora estava voltando e não queria saber de nenhum de seus velhos fantasmas. Se Muriel foi para o Canadá ou casou-se com outro, não lhe importava. Só queria passar um verão tranqüilo na Inglaterra depois de um período terrível nas selvas do Ceilão.

Apenas quando o comissário estava a apagar as luzes é que notamos que estávamos do lado errado do convés, onde dormiam as mulheres. Mas Charles Munro – embora este não seja o seu verdadeiro nome, por razões óbvias – além de ser um consumado jogador de criket e um imitador de seu bardo nacional, era também um bom contador de histórias. O que ele começou a me contar sobre suas experiências naquele confim de mundo, interessou-me tanto que fomos para o lado do convés reservado aos homens. Em dez minutos nós também havíamos já armado nossos colchões e o escutava novamente.

“Você não se dedicou por muito tempo às suas pesquisas botânicas?” Perguntei

“Bem” falou ele com aquele jeito arrastado de falar dos escoceses que lhes é tão peculiar. “Veja só, eu me meti numa espécie de negócio... um negócio de comedores de gente”

“Comedores de gente?! Meu Deus, então você esteve entre os canibais?!” 

O que ele me contou levou-o mais próximo de ser um comedor de gente do que qualquer homem civilizado desejaria. Ainda bem que o encantamento foi quebrado. Pelo que entende de sua narrativa, especializara-se em farmacologia, em Knady, e, em pesquisa de campo, viajou para coletar algumas ervas que os nativos acreditavam ter o poder de curar a malária. Um dia, partiu à procura de uma dessas regiões inexploradas da ilha onde nem os aviões conseguiam penetrar. Charlie estava alucinado; não se importava com o que lhe pudesse acontecer. Seria um explorador, um descobridor de ervas que livraria a humanidade da febre. Mas agora deixarei que ele use suas próprias palavras.


***

“Desesperado, vaguei sem destino, sentindo o terror da selva. Ela enfraquecia e paralisava minha força de vontade. Estava realmente perdido naquelas infindáveis e impiedosas extensões verdejantes, sem qualquer esperança de sair ou ser resgatado. Como fui idiota em não seguir o conselho o conselho do shikari[1]. Eu não conhecia o Ceilão, não tinha nem imaginado que pudesse encontrar-me em semelhante situação. Abatido e exausto, fui-me arrastando, tropeçando e debatendo-me mecanicamente, sentindo o peso do rifle como a viga de uma casa sobre os meus ombros cansados.

De repente ouvi o latido de um cão de caça à distância. O som, embora ameaçador, reascendeu minhas bruxuleantes esperanças. Se o seguisse, ele poderia tirar do labirinto em que me debatia sem forças. Novamente, o latido distante soou quieto ar do final da tarde. Então, como se todos os portões do Hades tivessem sido escancarados, seguiu-se um coro de latidos e gritos tão medonhamente assustadores como nunca, jamais ouvira antes.


Continua... 

[1] shikari: caçador nativo
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