terça-feira, 15 de setembro de 2009

OS COMEDORES DE GENTE PARTE IV



Mas eu não estava em situação de me indispor com as circunstâncias, e, após um excelente jantar temperado com curry, que poderia ter sido preparado no melhor restaurante de Calcutá, fui conduzido ao meu quarto e dormi como uma pedra. Sonhei... e meus sonhos não foram nada agradáveis. Um tanto caóticos e indescritíveis esses meus sonhos, mas o tema central era uma sensação enervante de um constante farfalhar acompanhado de um ameaçador latido de cães.
O som fantasmagórico continuou por toda a noite, como as folhas num bosque varrido pelo vento em junho e, embora estivesse dormindo, tinha a sensação de proximidade como que uma presença incorpórea que me enchia de vaga inquietação. Acordei desanimado e quase tão cansado como na noite anterior, porém, me lavei e me vesti, e ao descer fiz a melhor cara que pude. Kreimer estava na sala e não gostei nada do que estava fazendo.
À principio, pensei que estava bebendo um copo de vinho, mas, ao me aproximar, vi, com horror que não era vinho.
“Bom dia”, disse ele, bastante amável ao terminar sua bebida. “Você parece surpreso com a natureza de meu refresco, entretanto são ordens médicas.”
“De fato”, disse eu de um modo muito inadequado, desejando por uma razão instintiva estar a mil milhas desse homem.
“É, eu acho sangue fresco maravilhoso como aperitivo matinal”, continuou com indiferença. “Já experimentou?”
“Deus meu, não!” respondi subitamente com raiva, sem saber por quê.
“Mas leite você bebe, não?” perguntou como se estivesse surpreso. “E o que é o leite senão sangue branco?”.
Não respondi e nos sentamos para o desjejum, com kedgeri[1] e café, bem servido por seu criado cingalês. Como aceitei seu convite para ficar ali uma semana, eu não sei. O homem exercia um estranho fascínio, e sempre me senti atraído por personagens fora do comum.
“Este é um ótimo local de chitah[2],” disse ele enquanto acendia um charuto. “Eu os caço com os cães. Que tal tentar a sorte depois do almoço? Você não vai precisar de armas, os cachorros fazem todo o trabalho. É melhor começar logo, enquanto não esta quente, se você não se importa.”
Ele havia tocado um dos meus pontos fracos. Naturalmente que não se caça chitah dessa maneira, mas eu estava interessado em conhecer um novo método. Em dez minutos, ele havia conduzido os cachorros para fora e me esperava à porta.
“Aliás”, disse ele, olhando-me de um modo estranho, “os cachorros não estão acostumados com você e admito que sejam um tanto imprevisíveis com estranhos. Você poderia andar até a mata e observar os acontecimentos escondido. Meu criado e eu levaremos os cães na direção contrária, e, como por aqui tudo é plano, você terá uma excelente visão quando levantarmos uma das pintadas. O que você acha?”
Olhei para os cachorros, saltando, mordendo, rosnando, e ele não teve que me perguntar duas vezes. Então, enquanto ele e criado seguravam os cachorros pelas correias, encaminhei-me para o paredão de árvores, cerca de quatrocentos metros dali.
Continua...



[1] kedgei: prato típico de pescado, ovos e arroz
[2] chitah: guepardo; predador da espécie felina muito veloz

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

OS COMEDORES DE GENTE PARTE III


A furiosa gritaria impediu o meu caminho. Parei e fiquei escutando. Seria seguro seguir por ali? Certamente não era seguro ficar onde estava, e o tumulto, embora soasse ameaçador, pelo menos me tiraria daquela situação perigosa – talvez para me colocar noutra pior. Bem, eu havia chegado ao limite das minhas forças e não tinha escolha. Decidi “enfrentar as dificuldades” e apertei o passo em direção do que parecia ser uma matilha solta e firme no encalço de sua presa. Então, parei de súbito, mais uma vez, pois me ocorreu que eu mesmo poderia ser a “caça”, o objeto daquela busca ruidosa. Quando parei, notei que a mata se tornara menos densa. Prosseguindo, emergi de repente para a luz do sol num insólito cenário.
Numa clareira cercada pela mata, uma ilha de campo entre dois mares de floresta, erguia-se o prédio mais estapafúrdio que até hoje me foi dado ver. Sim, sim, é verdade, pois isso não é ficção mas um fato. Imagine uma torre medieval retirada da Inglaterra ou Normandia, plantada em plena paisagem cingalesa! Em um dos lados havia uma construção comprida e baixa, obviamente o canil, e, saindo de lá vi um grupo de uns vinte cães de caça de uma raça que fui absolutamente incapaz de identificar. Não havia dois iguais e calculei que pertenciam a um cruzamento de sabujo com outras raças maiores, muitos deles pelo menos tinham inconfundíveis características de cães de caça. Eu havia visto cachorros assim nas cidades portuguesas da Índia, e acredito que nenhum tenha sido trazido de Pondicherry.
Atrás deles estava uma curiosa figura, um homem branco, de pijama listrado, com calças enfiadas em botas de cano longo amarradas com cadarço até em cima, como botas de campanha. Usava um chapéu para o sol e àquela distância não pude ver sue rosto. Mas naquele momento não podia ocupar-me com idiossincrasias pessoais ou aparências, pois os cães, assim que me avistaram, deram um latido longo e avançaram em minha para onde eu me encontrava, como uma onde cheia de manchas.
“Cuidado” gritei, erguendo o rifle, “se seus cachorros me atacarem, atirarei – e meu alvo não será os cachorros”.
O dono deles escutou, mesmo àquela distância, e deu uma ordem com um grito brusco. No mesmo instante as feras ficaram imóveis, ganindo e gemendo como uma alcatéia de lobos desapontados. Lentamente, caminhei até o homem com o capacete solar e então pude ver seus olhos – eram olhos inquietos de um libertino.
“É tarde para caçar”, disse eu, “mas seus cães me tiraram de um apuro. Eu estava perdido na mata”.
“Muitas pessoas perdem-se lá” ele respondeu com uma estranha, porém refinada entonação, com forte sotaque estrangeiro. “É por isso que trago os cães para fora. As pessoas perdidas que eles... er... salvaram não foram poucas.”
“E uma casa estranha a sua, desculpe-me por falar assim”, arrisquei... “Igual ao castelo do ogro nos contos de fadas, não é?”
“Castelo do ogro”, ele repetiu. Você acha? Bem, você deve estar exausto. É melhor entrar e deitar-se um pouco”.
Virou-se e, assobiando para os cães dirigiu-se à torre. Seu interior era bastante confortável e evidentemente foi adaptado ao clima tropical. A sala ocupava o térreo e dois quartos arejados ficavam no segundo andar. Quanto ao terceiro, só o vi uma vez...
Soube que o nome de meu anfitrião era Kreimer ou assim o denominarei. Era um homem corpulento, desajeitado e visivelmente preguiçoso. Devia ter uns cinquenta anos, era gordo e com um ar doentio. Seu único criado era um cingalês, uma criatura de extraordinária suavidade.
Continua...

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

OS COMEDORES DE GENTE PARTE II


Ele fora reprovado duas vezes nos exames finais; o professor tinha sido duro com ele, pensava. A guerra chegou, ele serviu o exército e depois de um breve caso de amor foi para o Oriente afim de espairecer. Mas, agora estava voltando e não queria saber de nenhum de seus velhos fantasmas. Se Muriel foi para o Canadá ou casou-se com outro, não lhe importava. Só queria passar um verão tranqüilo na Inglaterra depois de um período terrível nas selvas do Ceilão.

Apenas quando o comissário estava a apagar as luzes é que notamos que estávamos do lado errado do convés, onde dormiam as mulheres. Mas Charles Munro – embora este não seja o seu verdadeiro nome, por razões óbvias – além de ser um consumado jogador de criket e um imitador de seu bardo nacional, era também um bom contador de histórias. O que ele começou a me contar sobre suas experiências naquele confim de mundo, interessou-me tanto que fomos para o lado do convés reservado aos homens. Em dez minutos nós também havíamos já armado nossos colchões e o escutava novamente.

“Você não se dedicou por muito tempo às suas pesquisas botânicas?” Perguntei

“Bem” falou ele com aquele jeito arrastado de falar dos escoceses que lhes é tão peculiar. “Veja só, eu me meti numa espécie de negócio... um negócio de comedores de gente”

“Comedores de gente?! Meu Deus, então você esteve entre os canibais?!” 

O que ele me contou levou-o mais próximo de ser um comedor de gente do que qualquer homem civilizado desejaria. Ainda bem que o encantamento foi quebrado. Pelo que entende de sua narrativa, especializara-se em farmacologia, em Knady, e, em pesquisa de campo, viajou para coletar algumas ervas que os nativos acreditavam ter o poder de curar a malária. Um dia, partiu à procura de uma dessas regiões inexploradas da ilha onde nem os aviões conseguiam penetrar. Charlie estava alucinado; não se importava com o que lhe pudesse acontecer. Seria um explorador, um descobridor de ervas que livraria a humanidade da febre. Mas agora deixarei que ele use suas próprias palavras.


***

“Desesperado, vaguei sem destino, sentindo o terror da selva. Ela enfraquecia e paralisava minha força de vontade. Estava realmente perdido naquelas infindáveis e impiedosas extensões verdejantes, sem qualquer esperança de sair ou ser resgatado. Como fui idiota em não seguir o conselho o conselho do shikari[1]. Eu não conhecia o Ceilão, não tinha nem imaginado que pudesse encontrar-me em semelhante situação. Abatido e exausto, fui-me arrastando, tropeçando e debatendo-me mecanicamente, sentindo o peso do rifle como a viga de uma casa sobre os meus ombros cansados.

De repente ouvi o latido de um cão de caça à distância. O som, embora ameaçador, reascendeu minhas bruxuleantes esperanças. Se o seguisse, ele poderia tirar do labirinto em que me debatia sem forças. Novamente, o latido distante soou quieto ar do final da tarde. Então, como se todos os portões do Hades tivessem sido escancarados, seguiu-se um coro de latidos e gritos tão medonhamente assustadores como nunca, jamais ouvira antes.


Continua... 

[1] shikari: caçador nativo

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

OS COMEDORES DE GENTE


Do livro A Travessia Dourada, Sirdar Ikbhal Ali Shah, tradução Clarisse de Paula Ilg

Ajmir, no coração da Índia, mais que qualquer outro lugar nesse país, é o maior ponto de encontro dos peregrinos muçulmanos, pois a tumba de um célebre santo atrai gente de toda parte do Oriente! Todo filho do Islã deseja visitar Ajmir quando está na Índia.
Ao chegarmos sob chuva, pedimos abrigo num sarai, mas já estava superlotado. Mais água descia do telhado de palha que do céu. Qurban Ali, oficial indiano aposentado e agora peregrino de mão-cheia, e eu, sentamo-nos num catre, tentando manter-nos tão secos quanto possível, enquanto uma cela estava a ser varrida para nós do outro lado do amplo pátio do sarai.
O velho Qurban Ali foi ver quanto tempo ainda levaria para que pudéssemos entrar no lugar onde nos haviam prometido abrigo para a noite.
Quando as lamparinas de óleo cru, que pareciam antigas lamparinas romanas de barro cozido, foram acesas e meu companheiro peregrino ainda não voltara, fui ver o que havia acontecido.
Qurban Ali encontrara um velho amigo, outro peregrino do norte, e, empoleirado no alto de seus pacotes, malas de zinco e sacos de bagagem ele, o amigo de Qurban Ali, lá estava. Impossível imaginar alguém menos parecido com um peregrino que esse homem, possuidor de uma vasta cultura, muito viajado e que havia sido um estudante pesquisador em mais de uma universidade européia. O amigo de Qurban Ali havia agora renunciado ao mundo e dedicava-se a visitar um santuário após o outro, mas naquele momento, o objeto de interesse dos dois amigos era a história que ele estava contando ao perplexo Qurban Ali, sobre um seu outro amigo, da universidade. A história da viagem dele para a Europa e do seu encontro com um homem que se tornara canibal... Era assim:
***
Tão logo a prancha do navio foi içada em Colombo e vi o rosto bronzeado de um inglês de meia-idade sob um chapéu gasto pelo uso, achei que conhecia o homem. A toda hora me encontrava face a face com ele enquanto o vapor abria caninho pelo mar aberto em direção a Aden. Além de um olhar furtivo, esse homem estranho e arredio resistia a qualquer contato, mas algo me fascinava nesse meu companheiro de viagem – ele exercia uma influência misteriosa sobre mim.
Certa noite, quando as estrelas pendiam do céu em cachos como enormes e brilhantes pedaços de lua, este cenário maravilhoso emocionou-me de tal forma que minha xícara de café escapou-me da mão, rolou pelo parapeito do convés e foi cair no colo de alguém sentado em sua espreguiçadeira. O homem acordou sobressaltado, como de um transe, e, enquanto me apressava em desculpar-me, deparei-me com o mesmo homem silencioso e misterioso que, pensei, vinha fazendo de tudo para me evitar.
Depois de reiteradas desculpas, resolvi aproveitar a oportunidade.
“Desculpe”, disse eu “mas já não nos encontramos antes?”
“Sim!” grunhiu. “Sim, talvez nos tenhamos encontrado na lua.”
Aquele seu grunhido – como se fosse um maneirismo – evocou uma profusão de lembranças, e atrevi-me a dizer com certo humor: “Não nos encontramos na lua, velho amigo”, falei. “Ora, Charlie, vamos lá, não se lembra daquela aula de patologia?”
Retesou-se quase que imperceptivelmente e então relaxou, e recordamos todo o companheirismo de nossos tempos universitários.
Continua...