quarta-feira, 15 de julho de 2009

O PARAÍSO DA CANÇÃO PARTE FINAL


Escalou, escalou, escalou... até que, finalmente, alcançou um muro que rodeava toda a serra. Tão pronto conseguiu subir pos suas paredes escarpadas, deparou-se com outro muro, muito mais difícil de transpor. Depois deste, encontrou mais outro e mais outro e mais outro.
Ao chegar do outro lado do quinto muro, Ahangar encontrou um vale admiravelmente parecido com o seu, isto é, o vale onde morava. Pessoas vieram saudá-lo, e, ao vê-las. O jovem percebeu que estava acontecendo algo bem estranho.
Meses mais tarde, coxeando, encurvado como um velho, o forjador de espadas chegou caminhando de volta ao seu povoado natal, dirigindo-se imediatamente à sua humilde cabana. Mal a noticia se espalhou pela região, o povo se concentrou à sua porta para ouvir então o relato de tal aventura. Falando, novamente, em nome de todos, Hasan, o esgrimista, chamou por Ahangar.
Quando Ahanghar, atendendo ao chamado surgiu à janela, todos se espantaram e caíram no mais completo silêncio, ao constatarem o quanto tinha envelhecido.
"Bem, mestre Ahangar, chegaste ao Vale do Paraíso?"
"Sim... cheguei".
"E como é lá? Pode nos contar?"
Com um cansaço e um desânimo que nunca havia sentido antes, Ahangar olhou para o povo ali, reunido à sua frente, e, procurando as palavras, assim falou: "Subi, subi, subi... quando, porém, parecia que não encontraria nenhum sinal de vida humana em lugar tão ermo, tão desolado, depois de enfrentar muitos desafios e me desfazer das desilusões, cheguei a um vale, exatamente igual a este aonde vivemos. Observei as pessoas. Não só eram como nós; éramos nós. Para cada Hasan, cada Aisha, cada Ahangar, para cada um dos que aqui estão há outro igualzinho lá, naquele vale. Quando as vemos, tais coisas parecem semelhanças e reflexos nossos. Mas, na verdade, nós é que somos parecidos com elas e nós é que somos seus reflexos... somos nós os seus gêmeos..."
A gente toda pensou que Ahangar tivesse enlouquecido com todo o sofrimento pelo qual certamente passara afim de alcançar o vale e Aisha casou-se com Hasan, o esgrimista.
Ahangar envelheceu e logo morreu e aqueles que tinham escutado a sua história, diretamente de sua voz, primeiro murcharam, depois envelheceram e logo morreram, pois sentiam que estava para acontecer algo sobre o qual não tinham o menor poder e sobre a qual não havia esperanças e deste modo perderam qualquer interesse pela vida.
***
Apenas uma vez, a cada mil anos, este segredo é visto pelo homem. Assim que o vê, muda. Ao contar os fatos como são fenece e morre.
Todos acreditam que esse acontecimento é uma catástrofe e que, por isso, nada devem saber sobre ele, pois tal é a natureza de suas vidas, que não podem compreender que possuem mais de eu, mais de uma esperança, mais de uma oportunidade, lá em cima, no paraíso da canção de Ahangar, o poderoso forjador de espadas.
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