sexta-feira, 19 de junho de 2009

O CAVALEIRO NEGRO PARTE IV


Leite de Leoa Parte III

Durante meses, nada de maior importância aconteceu na vida de Ibn Haidar até o rei adoecer... aí, foi como se sobre o mundo descesse um pesado véu de escuridão.
Em todo o reino, as pessoas iam pelas ruas, tristes e chorosas, como se já estivessem de luto.
Os animais guardaram silêncio; as árvores murcharam e, inclusive o sol, parecia fraquejar. Nenhum doutor, em toda a face da terra, pode descobrir o que afligia o soberano, até que o mais sábio dentre eles, o doutor entre os doutores, assim se pronunciou: “A enfermidade do rei só poderá ser curada com uma dose do leite de leoa trazido da ‘Terra do Não Ser’”.
Imediatamente, os dois genros, do rei se ofereceram de bom grado para a missão e saíram cavalgando do palácio, plenamente decididos a conquistarem a glória de salvar ao seu Senhor e Mestre.
Depois de muitos dias, chegaram a uma encruzilhada aonde se sentava um homem sábio.
O caminho dividia-se em três direções e os dois jovens valentes foram incapazes de se decidirem por qual deles seguir. Explicaram-se ao homem sábio que lhes disse o seguinte: “Estes três caminhos possuem nome. O primeiro se chama ‘O Caminho Daqueles que agem como Nós, o Vinculo de Sangue’; O segundo Caminho é ‘O Caminho Daqueles que pensam e agem como Nós, o Vinculo de Decisão’; e o terceiro caminho é ‘O Caminho da Verdade’”.
O primeiro genro do rei disse: “Tomarei o Caminho de Sangue”, posto que, por causa do parentesco com sua Majestade é que estou aqui”. E em seguida, esporeando o cavalo seguiu o seu destino através do ‘Caminho de Sangue’.
O segundo genro do rei disse: “Tomarei o ‘Caminho da Decisão’, posto que ser decidido faz parte de meu caráter”. E então, esporeando o cavalo, partiu pelo ‘Caminho da Decisão’.
Não demorou muito, o primeiro jovem chegou diante de um homem que se encontrava a entrada de uma cidade e perguntou que lugar era aquele em que viera parar.
“Vieste parar na entrada da ‘Terra do Não Ser’, respondeu o homem “mas daqui não podes passar até que tenhas jogado comigo uma partida de xadrez”.
Assim, os dois se sentaram e jogaram, e o jovem genro do rei, perdeu. Perdeu seu cavalo; a armadura; o dinheiro e finalmente, a liberdade. O homem o fez então entrar na cidade e o vendeu como escravo a um comerciante de carne assada e lá ele ficou por muito tempo.
Ao segundo genro do rei aconteceu à mesma coisa, sendo este, entretanto, vendido como escravo a um confeiteiro.
Após alguns meses, sem qualquer sinal de retorno dos dois jovens cavaleiros, Ibn Haidar sentiu que a pedra esquentava em seu bolso e fazendo como sempre quando isto acontecia, viu surgir a sua frente a égua negra: “Enfim, é chegada a hora... Sobe em mim”.
A égua o levou pelos mesmos caminhos que os dois homens haviam percorrido antes, até que chegaram ao lugar onde se sentava o homem sábio e o cavaleiro negro contou-lhe a sua missão.
O homem ouviu, tal como ouvira os dois outros viajantes, e também lhe deu a opção de escolher entre os três caminhos e Ibn Haidar disse imediatamente: “Escolho o ‘Caminho da Verdade’”.
Antes, porém que desaparecesse caminho adentro foi advertido pelo sábio: “Escolhestes corretamente. Continua o teu caminho, mas, assim que chegares ao jogador de xadrez; em vez de sentar-te e jogar com ele, desafia-o para um combate”.
Ibn Haidar seguiu seu caminho e quando encontrou o jogador de xadrez à porta de entrada da cidade e este pediu-lhe que jogasse com ele uma partida, o cavaleiro negro desembainhou sua espada e gritou seu grito de guerra: “Pela verdade e não por enganos. Enfrenta a realidade, não batalhas de mentiras. Contempla diante de ti “o filho do leão”
O jogador de xadrez acabou por render-se sem luta e contou a Ibn Haidar o que havia se passado aos outros dois seus cunhados.
O homem conduziu a Ibn Haidar pela cidade e mostrou-lhe aonde mantinham presas as leoas e o jovem Cavaleiro Negro, depois de burlar aos guardas e domar as feras; encheu três frascos de leite, pondo dois deles em cada um dos lados do alforje, enquanto o terceiro o guardou debaixo de seu turbante, por precaução contra qualquer perda ou dano, que os frascos, por via das dúvidas, pudessem vir a sofrer. Foi então ao mestre confeiteiro e ao vendedor de carne assada e pagou pela liberdade dos cunhados que, por causa de sua vestimenta de cavaleiro, não o reconheceram. Nessa noite, entretanto, ambos, que sabiam que o estranho cavaleiro havia conseguido o leite das leoas, roubaram-lhe dois dos frascos e fugiram da cidade encobertos pelo manto protetor das sombras.
Ibn Haidar deu-lhes tempo para que alcançassem o palácio e só então, montou a égua mágica, que mais rápida que uma flecha, o levou aos aposentos do rei enfermo aonde se encontravam reunidos os doutores, os cortesãos, assim como os dois jovens genros do rei que muito se admiraram em vê-lo ali.

Continua...
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