quarta-feira, 17 de junho de 2009

O CAVALEIRO NEGRO PARTE II



Leite deLeoa

Coxeando, o corcunda, sob aplausos e vivas da multidão (que, na verdade, se manifestava dessa maneira mais por hábito do que por se sentir exatamente feliz, pois, interiormente desagradava-lhe a idéia de ter um homem desses como membro da casa reinante) chegou em frente à sacada onde se encontrava a família reunida pra reclamar o seu prêmio, ou seja, a mão da princesa.
Os dois primeiros escolhidos, o filho do ministro e o filho do emir; trocaram olhares e murmuraram entre si, mas o rei dirigindo-se a eles, disse: “A palavra de um rei, uma vez dada, não pode ser retirada. Deixemos então, que esta tola menina case-se com o bufão ou com qualquer outro, assim ela o queira. Pelo menos, tenho dois genros leais e valentes”.
Todavia, o que ninguém sabia, é que o jovem manco fingia ser aquilo que parecia ser. Debaixo da desagradável aparência, apenas um disfarce, estava o famoso príncipe Ibn Haidar, cujo nome quer dizer “filho do leão”, e há tempos fugia de uma implacável perseguição e mesmo tendo conseguido por noiva a filha do rei, não se deu a conhecer a ninguém. A princesa também não se deu conta de quem era seu esposo e apesar de seu aspecto ela o amou mesmo assim.
Após o casamento das três jovens, a princesa caçula e seu marido não foram morar em nenhuma ala do palácio, destinadas aos recém-casados, mas sim, nos estábulos, posto que o rei, furioso com escolha feita por sua filha mais moça, assim o havia determinado, e ambos, confortados pelo amor que os uniam, aceitaram com resignação a vida de pobreza e exílio que a sorte lhes havia preparado.
Ibn Haidar tinha o costume de caminhar, ao entardecer, fora da cidade, entregando-se a contemplação em uma pequena gruta abandonada.
Alguns meses depois, encontrou-se com um ancião, que lhe disse: ”Filho do Leão, ouve o que tenho a te dizer. Deves esperar até o dia do leite de leoa. Quando ouvires dele falar, deverás agir rapidamente para retomar a tua vida.”
O ancião tirou então de dentro de um saquinho pendurado em sua cintura uma pedra transparente que entregou a Ibn Haidar e tornou a dizer: “Toma esta pedra e no tempo determinado a esfrega em tua mão direita pensando em uma moeda pequena e gasta, desse modo poderás chamar a Mágica égua azeviche”.
O velho, após fazer e dizer o que devia, seguiu o seu caminho.
Passado um certo tempo, o rei precisou partir para a guerra a fim de defender os seus domínios. Para enfrentar o inimigo, o próprio rei saiu à frente de seu exército, tendo ao seu lado os seus comandantes e os dois valentes genros, deixando para trás o coxo e disforme Ibn Haidar.
Após sucessivas batalhas, os invasores ganharam terreno e nesse momento, Ibn Haidar sentiu a pedra esquentar dentro de seu bolso, retirou-a e a esfregou em sua mão direita pensando na moeda pequena e gasta. Enquanto assim o fazia, surgiu à sua frente uma esplendida égua da cor do azeviche que lhe disse: “Meu senhor, veste-te com as roupas que estão em meu alforje e cavalguemos para a guerra”.
Tão logo pôs a armadura de cavaleiro, o jovem príncipe saltou sobre o dorso da égua que saiu voando pelos céus até chegar ao campo de batalha.
O misterioso cavaleiro então, lutou tenazmente do alvorecer ao anoitecer, até que o inimigo caísse, derrotado, quase dizimado diante de sua bravura.
O rei foi em direção ao cavaleiro e agradecido, jogou-lhe sobre os ombros o seu próprio manto, dizendo-lhe: “Abençoado sejas, cavaleiro, pois lutaste corajosamente em favor do bem contra o mal que nos ameaçava e nós te seremos gratos para sempre”.
Ibn Haidar, porém, nada disse. Apenas inclinou-se perante o rei, levantando a lança em saudação e, esporeando a égua mágica, subiu até as nuvens e voltou ao seu lugar.

Continua...
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