sexta-feira, 15 de maio de 2009

A SOMBRA


 

Hans Christian Andersen

 

 

Nas terras quentes, sim, o sol queima de fato. Os habitantes tornam-se morenos, da cor do mogno, chegando a ficarem negros, nas mais quentes delas. Certa vez, um sábio, vindo das terras frias, foi às terras quentes. Imaginava ele que ali poderia andar à vontade, como em sua pátria. Pois não tardou a convencer-se do contrário. Como todas as pessoas de bom senso, tinha ele de ficar dentro de casa. Portas e venezianas permaneciam fechadas o dia inteiro, como se todos os moradores tivessem dormido ou saído de casa. A rua onde ele morava; estreita, de casas altas; fora construída de maneira que o sol batia nela de manhã à tarde. Era, realmente, insuportável. O sábio das terras frias, homem moço, inteligente, tinha a impressão de estar dentro de um forno. Aquela temperatura o afetou, e, ele emagreceu muito. Até sua sombra encolheu: tornou-se muito menor do que era na sua terra natal, pois o sol também a afetou. Só se reanimava à noitinha, quando o sol se escondia. Dava gosto ver. Assim que a luz era trazida à sala, a sombra se estendia tanto que se alongava. Tinha de espreguiçar-se muito para recuperar as forças. O sábio ia espairecer no balcão e, à medida que as estrelas iam aparecendo no ar límpido e puro, era como se ela recuperasse nova vida. Em todas as sacadas – nas terras quentes todas as janelas têm sacadas – os moradores saiam para respirarem o ar fresco, pois até quem já tem cor de mogno, de tão queimado, precisa de ar. Havia então uma alegria geral. Sapateiros,alfaiates, o povo todo vinha para o meio da rua. Eram trazidas mesas e cadeiras, as luzes ardiam, mais de mil luzes. Um falava, outro cantava, alguns passeavam, carros rodavam e os burros andavam – tlim - tlim - tlim – ao soar das campainhas. Mortos eram sepultados ao som de cantos sacros, os meninos da rua soltavam bombas, os sinos das igrejas repicavam; enfim, era intenso o movimento na rua. Somente na casa situada em frente àquela onde morava o sábio estrangeiro tudo estava quieto. No entanto, ali devia morar alguém, pois cresciam flores no balcão, e, muito viçosas, por sinal, apesar do calor. Ora, não poderiam elas crescerem sem que alguém as regasse. Portanto, devia morar alguém na casa. Também ali a porta se abria ao anoitecer, mas dentro da casa havia escuridão, pelo menos no aposento da frente; no interior soava música. O sábio estrangeiro achava a casa extraordinária, mas talvez só o fosse para ele, que achava tudo extraordinário naquelas terras quentes – a não ser o sol implacável . O locador da casa onde residia o estrangeiro disse não saber quem alugara a tal casa fronteira, pois não via ninguém ali. Quanto à música, achava-a terrívelmente monótona: - É como quando alguém estuda uma peça musical sem nunca conseguir aprendê-la direito, repetindo sempre a mesma peça. “Hei de aprendê-la”, parece alguém dizer. Mas não o consegue, por mais que toque.

O estrangeiro dormia em frente à porta aberta da sacada. Uma noite despertou e viu a cortina em frente à porta erguer-se, agitada pelo vento, e pareceu-lhe que vinha da escada fronteira um brilho estranho. Todas as flores cintilavam como chamas, nas mais garridas cores, e, de pé, no meio delas, achava-se uma esbelta e graciosa jovem; era como se também ela brilhasse, com um esplendor que chegava a ferir a vista. Mal desperto do sono, ele arregalou os olhos. De um salto estava de pé, e foi de mansinho colocar-se atrás da cortina. Todavia, a jovem já lá não se achava, e também o brilho se desvanecera. Nem as flores resplandeciam mais: apenas estavam viçosas, como sempre. A porta permanecia entreaberta, e, dos fundos da casa, vinha uma música suave e enternecedora, capaz de despertar os mais doces pensamentos. Era tudo muito estranho. Quem moraria ali? Onde ficaria a entrada da casa? Todo o andar térreo era tomado por lojas, uma ao lado da outra; os moradores não poderiam andar sempre atravessando as lojas.

 

 Continua...  

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