quarta-feira, 20 de maio de 2009

A SOMBRA PARTE V


- Como somos, então, companheiros de viagem – disse o sábio, um dia, à Sombra – e como crescemos juntos, desde a infância, não seria melhor nos tratarmos por tu? É bem mais amigável.

- Boa idéia – respondeu a Sombra, que era agora o verdadeiro amo. – O senhor fala com sinceridade e boas intenções; por isso, serei também sincera e bem intencionada. Sendo um homem culto, o senhor há de saber como a natureza humana é esquisita. Certas pessoas não suportam o contato do papel cinzento, logo se sentem mal; outras sentem calafrios percorrerem-lhe o corpo quando se risca uma vidraça com um prego. Pois eu tenho essa mesma sensação desagradável quando o ouço tratar-me por tu; sinto-me humilhado, rebaixado à minha antiga condição. Veja o senhor, repare ser este um sentimento intimo, sem ser propriamente orgulho. Não posso deixá-lo tratar-me por tu; mas de boa vontade, direi, o tratarei por tu... já é meio caminho andado!

E a Sombra passou a tratar por “tu” o seu velho e desbancado amo.

“Assim também é demais”, pensou o sábio. “Eu, a tratá-la por ‘senhor’, e ela a tratar-me por tu’!”.

Porém, o sábio, mesmo achando tudo absurdamente fora do comum, resolveu suportá-lo. Chegaram a uma estação de águas, onde havia vários hospedes e, entre eles, uma bela princesa. Sofria ela do mal de enxergar demais, doença bastante inquietante. Logo percebeu ela que o dito recém-chegado era um homem muito diferente de todos os outros. “Dizem que ele esta aqui para fazer a barba crescer. Mas eu sei que o verdadeiro motivo é outro... ele não tem sombra”.

Curiosa, tratou a princesa de falar com o estranho senhor, já no primeiro passeio. Como filha do rei, não precisava de muitos rodeios.

- Sua doença é não poder projetar sua sombra – disse ela.

- Vossa Alteza já deve estar experimentando considerável melhora! Disse a Sombra – sei que seu mal é enxergar demais. Pois é evidente que o mal está passando. Vossa Alteza recuperou a saúde. Tenho a mais extraordinária das sombras. Não vê a pessoa que sempre está comigo? Qualquer pessoa possui uma sombra, é comum. Eu, entretanto, não gosto das coisas assim. Não é costume dar ao criado a libré, roupa mais luxuosa que a nossa? Dessa forma, mandei arranjar a minha sombra, fazendo dela um homem. Veja, olhe lá, que ata lhe dei uma sombra própria. Isso me saiu bem caro... mas sempre quis para mim o que há de bom e de melhor.

“O quê?”... pensou a princesa. “Teria eu, de fato, recobrado a saúde? Esta é, com efeito, a melhor estação de águas que existe! Nos dias de hoje, água faz maravilhas! Mas, não irei embora, pois agora é que está começando a ficar divertido por aqui. Gostei bastante deste estrangeiro. Tomara que sua barba não cresça, assim não poderá ir-se de vez”.  

À noite, no grande salão de baile, a princesa e a Sombra dançaram juntos. Ela era leve, mas a Sombra o era muito mais... jamais dançara com um cavalheiro assim. Contou-lhe de que país viera. Ele, a Sombra, o conhecia, uma vez que já estivera lá, porém a princesa, por essa ocasião estivera ausente. Ele espiara pelas janelas, para cima e para baixo, vira coisas por demais interessantes e por tal motivo sabia responder a conversa da princesa, fazendo certas alusões que a deixaram sobremaneira perplexa, e então, ficou ela convencida de que este homem era o mais sábio ser sobre a terra. Ela sentiu tamanho respeito por todo aquele saber, que, quando tornaram a dançar, estava já irremediavelmente apaixonada.   

Continua...                          

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