terça-feira, 19 de maio de 2009

A SOMBRA PARTE IV



- Digo-lhe que lá estive, e, o senhor compreende, vi tudo o que se podia ver. O senhor, se tivesse estado lá, não teria se tornado o homem que eu me tornei. Ao mesmo tempo, aprendi a conhecer minha natureza íntima, inata, e assim descobri o meu parentesco com a poesia. Quando eu estava em sua companhia, nem pensava nisso. Mas, o senhor sabe, ao erguer e ao por do sol, eu me tornava estranhamente. Ao lua, então, eu chegava quase a ser mais nítida que o senhor. Naquele tempo, porém, não conhecia minha própria natureza. Na ante-sala tudo compreendi. Tornei-me adulto. Sai de lá pronta, madura. Mas o senhor não mais estava nas terras quentes. Como homem, envergonhei-me de meu estado. Eu precisava de botinas, de roupas, de todo esse verniz humano, pelo qual se conhece o homem. Refugiei-me debaixo da saia da doceira, e lá fiquei escondido. A mulher nem sequer imaginava o que estava ocultando. Só saí ao anoitecer. Andei pelas ruas, ao luar. Alonguei-me pelas paredes, o que me faz uma cócega deliciosa nas costas. Subi e desci as ruas, espiando através das janelas mais altas, para dentro das salas, olhando por sobre os telhados, onde ninguém mais poderia olhar, e vi o ninguém via, poderia ou deveria ver! Pensando bem, é um mundo bem baixo, este! Eu nem queria ser homem, se não se admitisse, como se admite, que ser homem é o que há de mais importante. Vi as coisas mais incríveis, entre mulheres, homens, pais de família, e até entre as meigas e inocentes criancinhas – Vi – prosseguiu a Sombra – coisas que ninguém deveria ver, soube coisas que ninguém deveria saber, mas, que, sem dúvida, todos gostariam muito, isto é: os podres do vizinho. Tivesse eu escrito para um jornal, e este teria tido leitores bastante ávidos! Mas eu escrevia diretamente às pessoas em questão. Foi um Deus-nos-acuda, em todas as cidades em que passava. Todos tinham medo de mim, e asseguravam-me sua imensa estima. Os professores me tratavam como igual, os alfaiates davam-me roupas novas e assim fiquei bem suprido delas. O moedeiro cunhava moedas para mim, e as mulheres falavam o quanto eu era bonita. Foi desse modo que tornei-me o homem que hoje sou. E agora me despeço. Eis o meu cartão. Moro do lado do sol e estou sempre em casa nos dias chuvosos.

Dizendo isso, a Sombra se foi e o sábio disse aos seus botões. – Mas que estranho...


Passaram-se os anos e novamente a Sombra tornou a aparecer.

-Como vai? – perguntou.

- Ah... – disse o sábio. – Escrevo sobre coisas verdadeiras, boas e belas, mas ninguém me lê. Estou desesperado. Sofro tanto com isso...

- Pois eu não – disse a Sombra. – Estou engordando. É o melhor que se pode fazer. O senhor não entende este mundo, sofre e se preocupa com ele. O senhor devia viajar. Vou fazer uma viagem, no verão. Quer vir comigo? Gostaria de ter um companheiro de viagem. Quer acompanhar-me, como sombra? Será um grande prazer tê-lo comigo. Pagarei as despesas.

- O senhor está indo longe demais! – protestou o sábio.

- Depende – disse a Sombra. – Uma viagem, torno a dizer, lhe faria muito bem. Se quiser ser minha sombra, pode viajar sem gastar um tostão.

- Isso é demais! – disse o sábio.

- O mundo é assim – retrucou a Sombra – E assim sempre será!

E a Sombra foi-se embora.

O sábio não estava nada bem agora. Atormentavam-no tristezas e atribulações. Falava sobre o verdadeiro, o bom e o belo, mas para a maioria das pessoas suas palavras eram como rosas atiradas a uma vaca, ou enfim, como diz a Bíblia, o livro sagrado, “pérolas jogadas aos porcos”. Acabou adoecendo.

- O senhor está mais parecendo uma sombra!- diziam-lhe os conhecidos.

E o sábio sentia calafrios, tomado de maus pensamentos.

- O senhor deveria ir a uma estação de águas – disse-lhe a Sombra, que o veio visitar. – É o que resta fazer. Vou leva-lo comigo, em atenção a nossa velha amizade. Pagarei as despesas, e o senhor fará a descrição da viagem, para me distrair um pouco pelo caminho. Quero ir a uma estação de água. Minha barba não cresce como deve. É também uma doença, uma vez que deve-se ter barba. Tenha juízo e aceite a oferta. Viajaremos como companheiros.

Partiram. A Sombra era o amo e o amo era a sombra e a sombra nova do sábio, encolheu-se tanto até sumir. A Sombra que fez-se homem, andava sempre junto do sábio. Andavam de carro, a cavalo ou a pé e conforme a posição do sol, iam lado a lado ou à frente um do outro, com a Sombra mantendo-se na posição de amo. O sábio pouco se incomodava com isso: era homem tolerante, de bom coração, um sujeito brando e amável.

 

Continua...

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