domingo, 17 de maio de 2009

A SOMBRA PARTE III


- Então de fato és tu? – respondeu o sábio. Pois é extraordinário! Nunca pensei que uma velha sombra pudesse regressar, feito gente.

- Diga-me quanto tenho que pagar – insistiu a Sombra. – Não quero saber de dívidas de espécie alguma.

- Como podes falar assim? – disse o sábio. - Que dívidas, nada! Estás livre! Tua felicidade me causa grande satisfação. Senta-te, velho amigo, e conta-me como as coisas se passaram e o que viste na casa fronteira, lá nas terras quentes.

- Vou contar – respondeu a Sombra, sentando-se. – Mas, vais me prometer nunca dizer, aqui na cidade, a quem quer que seja, e onde quer que me encontres, que eu já fui sua sombra. Pretendo casar-me. Posso sustentar mais do que uma família.

- Podes ficar tranqüilo – disse o sábio. – Não direi a ninguém quem tu és. Dou-te minha palavra de honra. Um homem, uma palavra!

- Uma palavra, uma sombra! – disse a Sombra, que assim devia falar.

Era realmente espetacular, fora de série, constatar de fato o quanto a sombra se tornara um homem. Trajava-se, com esmero, as mais finas roupas pretas, calçando sapatos de verniz e na cabeça, uma cartola que podia ser reduzida a copa e aba, para não falar do que já sabemos: corrente de ouro e anéis de diamantes. A Sombra, trajava-se mesmo com bastante elegância, e, era justamente isso, precisamente, que a fazia parecer-se um homem.

- Agora vou contar – disse a Sombra.

Pisou fortemente, de propósito, com os sapatos de verniz, na manga da nova sombra do sábio, que jazia aos pés de seu amo como um cão; talvez o fizesse por arrogância; talvez quisesse mesmo é que a outra sombra lhe ficasse presa aos pés. A outra sombra, porém, manteve-se quieta, para bem tudo ouvir; provavelmente gostaria de saber como poderia uma sombra libertar-se e chegar a ser dona de si.

- Sabe quem morava na casa em frente? – Perguntou-lhe a Sombra. – A mais linda de todas as criaturas, a Poesia! Lá estive durante três semanas, o que equivale a ter vivido três mil anos e lido tudo quanto já foi escrito em prosa e verso. Digo-o, pois é a verdade. Tudo vi e tudo sei.

- A Poesia! – exclamou o sábio. – Sim, sim... Não é raro ela viver como um eremita, nas grandes cidades. A Poesia! Via-a de relance, uma única vez. Por um instante, rapidamente, no momento em que o sono me fechava os olhos, ela apareceu na sacada e brilhou como a aurora boreal. Conta! Conta! Estavas na sacada, entraste pela porta e...

- E vi-me então na ate-sala – disse a Sombra. – O senhor sempre esteve olhando para a ante-sala. Lá não havia luz nenhuma; tudo estava na penumbra, mas havia um série de portas, uma em frente a outra, todas abertas, numa sucessão interminável de salas e quartos. Neles, sim, havia luzes e eu teria sido absorvida por elas, se tivesse chegado junto a donzela. Fui, porém, cautelosa. Pus-me a andar devagar, como andam as pessoas inteligentes.

- E que viste então? – Perguntou o sábio.

- Tudo vi e tudo lhe contarei. Mas, antes... longe de parecer orgulho de minha parte, todavia, como homem livre, com os conhecimentos que possuo, para não falar de minha posição e de minha excelente condição de vida, gostaria que me tratasses por “senhor”.

- Perdão – disse o sábio. – É um hábito antigo, e fortemente arraigado. O senhor tem toda razão. Farei por onde me lembrar. Mas, enfim, conte-me tudo quanto viu.

- Contarei tudo – disse a Sombra. – Pois tudo vi e tudo sei.

- Como eram as salas? – perguntou o sábio. Eram como a mata verdejante? Eram como o interior da santa igreja? Ou eram como o céu estrelado, visto do alto das montanhas?

- Havia tudo ali – disse a Sombra. – De qualquer modo, não percorri todo o interior da casa. Permaneci na primeira sala, na penumbra, mas em vantajosa posição. Ali tudo vi. E de tudo sei. Estive na corte da Poesia, na ante-sala.

- Mas o que viu o senhor? Passavam pela sala todos os deuses da antiguidade? Lutavam ali os antigos heróis? Ou doces criancinhas brincavam e contavam seus sonhos?   


Continua...

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