sábado, 16 de maio de 2009

A SOMBRA PARTE II


 

Uma noite, o estrangeiro estava sentado no balcão. Dentro da sala, atrás dele, ardia uma vela. Era, portanto, natural que sua sombra se projetasse na parede da casa fronteira. Lá estava ela, diretamente à sua frente, entre as flores da sacada. Quando o estrangeiro se mexia, a sombra mexia-se também, como é natural.

- Creio que minha sombra é a única coisa que se vê lá, do outro lado – disse o sábio. – Vejam só, como ela fica bem ali, entre as flores. A porta está entreaberta, a sombra devia aproveitar a ocasião e entrar, dar uma olhada por lá e depois voltar e me contar o que viu. Sim, mostra-te útil, sombra! Disse ele pilheriando. – Faze-me o favor de entrar lá! Então? Vais ou não vais? – e acenou a cabeça para a sombra, que respondeu com um igual aceno. – Vai, mas não fiques por lá!

O estrangeiro ergueu-se, e a sombra, na sacada da casa fronteira, ergueu-se também. Ele voltou-se e a sombra também. Se alguém tivesse observado com atenção, teria visto perfeitamente a sombra entrar pela porta entreaberta, no momento em que o estrangeiro entrou em seu quarto e deixou a cortina cair atrás de si.         

 Na manhã seguinte, o sábio saiu para tomar café e ler os jornais.

- Que é isso? – disse ele ao sair à rua inundada de sol. – Estou sem sombra! Quer dizer que ela se foi embora ontem a noite e não voltou mais! Coisa bem aborrecida! Ficou agastado, não tanto por ter a sombra ido embora, mas por saber que existia a história de um homem sem sombra; nas terras frias todos a conheciam, e se o sábio, ao chegar contasse a sua história, todos o acusariam de estar imitando – ele não precisava imitar ninguém. Resolveu, por isso, não falar sobre o caso, no que agiu de modo muito sensato.

A noite, voltou ao balcão. Colocou a vela atrás de si, pois sabia que a sombra gosta de ter o dono como abrigo. Todavia não conseguiu atraí-la. Fez-se pequeno, fez-se grande, mas a sombra não tornou a aparecer. “Hum!”, murmurou ele. E de nada adiantou.

Era bem aborrecido aquilo. Nas terras quentes, porém, tudo cresce muito depressa. E passado oito dias, percebeu com grande satisfação que nova sombra lhe crescia dos pés quando andava ao sol; sem dúvida, a raiz ficara. Três semanas mais tarde, tinha uma sombra razoável. Quando regressou às terras do norte, ela foi crescendo durante a viagem, mais e mais, até estar tão grande que a metade já teria bastado.

O sábio voltou então para casa e escreveu vários livros sobre tudo o que há de verdadeiro, de bom e de belo neste mundo. Passaram-se os dias e passaram-se os anos. Muitos anos.

Certo dia, estava ele em casa, à noitinha, quando bateram à porta de mansinho.

- Entra! – disse ele.

Mas ninguém entrou. Abriu a porta, e teve a mais estranha sensação, ao ver em sua frente um homem extremamente magro, mas muito bem trajado. Um distinto cavalheiro haveria de ser.

- Com quem tenho a honra de falar? – perguntou o sábio.

- Bem que o imaginei! – exclamou o distinto cavalheiro. – Então não me conhece mais? Ganhei um bocado de corpo! Agora, sim, tenho carne e roupas. O senhor certamente nunca pensou em ver-me em tal estado de prosperidade, não é? Não reconhece sua velha sombra? Com certeza nunca imaginou que um dia eu voltaria. Pois as coisas me têm corrido muito bem desde que o deixei. Progredi em todos os sentidos. A fortuna me sorriu. Se for preciso, tenho o bastante para comprar minha liberdade.

Assim dizendo, o distinto cavalheiro chocalhou o seu relógio do qual pendia um molho de preciosos pingentes e com a outra mão mostrou a grossa corrente de ouro que trazia ao redor do pescoço. Seus dedos, cheios de anéis de diamantes, todos legítimos, resplandeciam.

- Não posso me refazer de meu espanto! – disse o sábio. – Que quer dizer tudo isso?

- De fato, é algo fora do comum – disse a sombra. – Mas também o senhor não conta entre as pessoas comuns, e eu, o senhor bem o sabe, desde criança, segui as suas pegadas. Assim que me julguei bastante madura para andar só no mundo, tomei meu próprio rumo. Hoje vivo nas melhores condições, mas veio-me uma espécie de saudade, um desejo, uma vontade de tornar a vê-lo ainda uma vez antes do senhor morrer, uma vez que o senhor vai mesmo morrer! Além do quê, queria novamente ver estas terras, minha pátria, a qual tanto amo. Sei que já arranjou outra sombra. Tenho algo a pagar a ela ou ao senhor? Se tiver, é só dize-lo, por favor.

 

Continua...        

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