sexta-feira, 22 de maio de 2009

A SOMBRA PARTE FINAL


A sombra percebeu o sentimento da princesa, já que a mesma só faltava atravessá-la com o olhar. Dançaram mais uma vez, e ela esteve prestes a dizer-lhe que o amava. Moça sensata, porém, pensou em sua terra – um reino- e nos muitos homens sobre os quais iria reinar. “Ele é um homem inteligente”, disse consigo mesma; “e isso é bom, além do quê, dança admiravelmente... e isso também é muito bom... mas terá esse homem um conhecimento realmente profundo? Pois, isso é importante... talvez a o fato mais importante. Preciso observá-lo melhor”. E aí, ela pôs-se a interrogá-lo sobre os assuntos mais variados e difíceis assuntos, perguntas que, ela mesma, não conseguiria responder. A Sombra fez uma cara muito estranha...

- O senhor não sabe responder! - disse a princesa.

- Isso faz parte do que aprendi em criança- disse a Sombra. – Mas creio que minha sombra, ali perto da porta, saberá responder por mim.

- Sua sombra?- Exclamou a princesa. – Isso seria extraordinário!

- Não afirmo com absoluta certeza – disse a Sombra – mas acredito que ela o possa fazer. Acompanha-me desde tanto tempo que nem sei, sempre atenta, sempre ouvindo tudo... Sim, acredito que ela saberá responder a Vossa Alteza, entretanto, chamo-lhe a atenção para um fato: minha sombra gosta de fazer-se passar por homem, e orgulha-se tanto disso, que, para mantê-la bem-humorada – e só de bom-humor é que responde direitinho – terá, então, de ser tratada exatamente como se um homem de verdade fosse...

- Coisa assaz interessante – disse a princesa. Aproximou-se do sábio, junto à porta, e falou-lhe sobre o sol e lua, sobre os homens e ele respondeu com inteligência e erudição.

“Que homem deve ser esse para ter uma sombra tão sábia?” Pensou a princesa. Seria um verdadeiro beneficio para o meu povo e o meu reino se eu o escolhesse para marido. Pois é o que vou fazer”.

Não tardaram os dois, a princesa e a Sombra, a concordarem. Mas ninguém deveria saber de nada antes que ela voltasse ao seu reino.

- Ninguém, nem minha sombra – disse a Sombra, que tinha lá os seu próprios pensamentos.

Assim chegaram ao país em que reinava a princesa.

- Ouve, meu caro amigo – disse a Sombra ao sábio. – Sou agora felicíssimo e tão poderoso como qualquer pessoa no mundo ambicionaria vir a ser. Quero, por isso, fazer algo por ti. Morarás comigo, para sempre, no palácio, passearás em minha companhia na carruagem real, e receberás cem mil táleres por ano, porém deverás deixar que todos te chamem de “sombra”. Não dirás que és um homem. Uma vez por ano, quando eu assomar ao balcão, ao sol, para ser visto, deves ficar deitado aos meus pés, como convém a uma sombra. Vou casar-me com princesa, sabes? As núpcias acontecerão hoje a noite.

- Não! Isso também é demais! – disse o sábio. – Não quero, nem posso fazer tal coisa. Seria enganar, ludibriar não só a princesa, mas a uma nação inteira. Vou contar tudo! Vou dizer que sou o homem e que tu és a minha sombra, vestida de homem.

- Ninguém acreditará em ti – atalhou a Sombra. – Toma juízo ou chamo os guardas.

- Vou falar com a princesa agora mesmo! – disse o sábio.

- Pois vou eu primeiro! – retrucou a Sombra. – Tu vais é para a prisão.

E para lá ele foi, o sábio, já que os guardas, sabendo que assim é que gostaria a princesa, obedeciam a poderosa Sombra.

 

- Estás tremendo! – disse a princesa, quando a Sombra foi vê-la. – Aconteceu alguma coisa? Não vás adoecer, logo hoje, a noite de nosso casamento.

- Sim, minha querida... aconteceu... aconteceu a coisa mais horrível que pode suceder a um homem. – respondeu a Sombra. O pobre cérebro de um sombra não suporta muito... imagina que minha sombra enlouqueceu e pensa ser um homem e o pior, o pior de tudo, imagina, minha querida, acusa-me de ser eu, em verdade, a sua sombra!

- Isso é terrível – disse a princesa. – Ela está presa, não está?

- Claro que está, mas temo que nunca se restabelecerá.

- Ó, pobre sombra... – disse a princesa. – Pobre sombra infeliz. Seria um verdadeiro beneficio poupá-la dessa existência. Pensando bem, creio ser mesmo necessário eliminá-la de vez, mas sem o mínimo de alarde.

- É muito duro ter que ser desse jeito – disse a Sombra. - Foi-me, durante muito tempo, uma serva fiel... – Soltou, então, um profundo suspiro de pesar ...

- És um nobre caráter – argumentou a princesa.


À noite, toda a cidade estava festivamente iluminada; os canhões troavam: “bum, bum, bum!”... os soldados apresentavam armas... Que bodas maravilhosas! 

A princesa e a Sombra apareceram ao balcão, para deixarem-se ver e aplaudir pelo povo. O sábio, porém, nada viu nem ouviu daquilo tudo... nem sua nova sombra, que há muito havia se encolhido, com medo de tudo... no calabouço escuro e fedido, jazia somente o corpo inerte e desconhecido de um homem, que de tão magro e envelhecido não passava apenas de uma sombra.

 

Disse certa vez um poeta (Fernando Pessoa?): “Neste mundo que esquecemos, somos sombras de quem somos...”                    

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