domingo, 31 de maio de 2009

O CORDEIRO DA LÃ DOURADA


Do livro TRÊS HISTÓRIAS DO DESTINO; Edições Dervish 

Por Virgínia Allan


Era uma vez e não era uma vez... o que digo? Era uma vez um homem muito pobre, pobre mesmo de marré, marré, marré... viúvo, que tinha apenas um pequeno filho. Eles viviam num lugarejo; sem qualquer recurso, e, para prover o seu sustento e o do filho, ele tinha que percorrer léguas e léguas de distância. 

O tempo passou, o homem envelheceu e o menino cresceu, então chegou sua vez de partir em busca do que fazer. E o rapaz muito pobre saiu em busca de sua sorte.

Depois de tanto andar, finalmente o rapaz encontrou um homem que deu-lhe uma flauta e um emprego de pastor.

Na manhã seguinte, o homem o acordou muito cedo e mandou que saísse com o rebanho para ver se servia para o trabalho. O rapaz era muito ativo e esperto, não ficava dormindo no ponto, isto é, o dia inteiro, mas sim tocando o rebanho de um lado pro outro ao som de sua flauta.

Dentre as ovelhas, havia um cordeiro de lã dourada, que tão logo ouvia a flauta, punha-se a dançar. O rapaz amou o cordeirinho e resolveu, ao fim de seu trabalho, pedi-lo para si em pagamento.

Ao cair da tarde, o pastor retornou a casa do homem, que, tranqüilamente o esperava à porta. Ficou muito satisfeito ao contar as ovelhas e ver que não faltava nenhuma, além de estarem muito bem dispostas e alimentadas. Desse modo, aceitou o rapaz que lhe disse nada querer de pagamento há não ser o cordeiro de lã dourada. Embora fosse também apegado ao cordeiro, o homem concordou em dá-lo, pois achou o rapaz bom demais em sua tarefa de pastor de ovelhas.

Depressa se passou um ano inteiro e o jovem resolveu partir levando consigo o cordeirinho.

Depois de muito andarem, já anoitecia, quando, enfim chegaram a um vilarejo, parando então em frente a uma granja, onde o jovem pediu abrigo.

A filha do granjeiro quando viu o cordeiro de lã tão macia e dourada, tentou roubá-lo. Assim, a meia-noite levantou-se e, pé ante pé foi até o bichinho e para seu espanto, ao agarrá-lo, ficou presa no seu pêlo, sem poder soltar-se.

Na manhã seguinte, o jovem precisava seguir viagem, mas como não conseguia desprender a moça do cordeiro, e não deixaria de jeito algum o bichinho para trás, teve que levar os dois.

Mais adiante, ainda no vilarejo, o pastor pôs-se a tocar a flauta e o cordeirinho logo começou a pular e a dançar com a moça presa ao seu pêlo.

Na esquina, uma mulher que colocava o pão no forno ouviu a flauta do pastor e viu o cordeiro dançando com a moça grudada em sua lã. Pegando a pá, correu para assustá-la para ver se ela largava de tolice. Mas a moça não parou de dançar então a mulher bateu-lhe com a pá. No mesmo instante, a pá grudou na moça e a mulher na pá e como o jovem pastor precisava continuar lá se foram todos a dançar: a mulher grudada na pá, a pá na moça e a moça no cordeiro de bonito e dourado pêlo.

Em pouco tempo chegaram a uma igreja...

Ao ouvir o som da flauta o padre saiu a averiguar o que estava acontecendo. Ao ver tão estranha romaria; quem mais parecia zombaria, com a mulher com a pá na costa da moça e a moça por sua vez, presa a lã do cordeiro que não parava de dançar, pois o pastor estava a flauta a tocar, começou a repreendê-los, mandando que deixassem de tolices. Mas como o que ele dizia entrava por um ouvido e saia pelo outro ficou com raiva e deu, com sua bengala, uma boa bordoada nas costas da mulher e para sua surpresa, lá a bengala ficou grudada e ele, por sua vez, grudado nela. O rapaz que não podia parar sua jornada seguiu em tão boa companhia.

Não demorou chegaram a um vilarejo real. Já escurecia e o pastor parou de tocar a flauta. Então, o padre preso pela bengala às costas da mulher que se achava presa às costas da moça pela pá e a moça que por sua vez estava presa ao cordeiro de lã dourada; caíram exaustos de tanto dançar.

Uma velha e boa senhora, vendo aquela situação ofereceu ao pastor a sua casa afim de que descansassem e pudessem; na manhã seguinte seguir viagem.                                             

O pastor aceitou a oferta, muito agradecido. Foi quando perguntou se algo novo por ali tinha acontecido.

A boa senhora lhe disse que a filha do rei estava bem doentinha. Não dava uma risada, a coitada. Nenhum remédio, nenhum doutor no mundo conseguiu curá-la. O rei que era rico, rico, rico de marré, marré, marré... já tentara de tudo. Mandou até correr uma proclamação de que aquele que a fizesse sorrir a receberia como esposa, mas até agora... nada!   

Na manhã seguinte, o rapaz levantou muito cedo, ansioso em tentar a sorte. Assim foi correndo apresentar-se diante do rei e lhe disse os motivos porque estava ali.

O rei, sem contar conversa, rapidamente, levou-o ao salão em que se encontrava a princesa e o pastor começou a tocar a sua flauta. Lá o cordeiro entrou dançando e saltitando com a jovem grudada em seu pêlo; trazendo em suas costas a pá e a mulher na ponta da pá, com a bengala do padre grudada em suas costas, e o padre sem poder soltar-se da bengala.

A princesa, ao ver tal cena, não se conteve e caiu na risada.

O cordeiro ao perceber tamanho contentamento começou a saltitar, sacudindo-se sem parar, desprendendo a moça, a mulher e o padre, que, finalmente, livres, puderam dançar de livre e espontânea vontade.

O padre, a pedido do rei, casou a princesa e o pastor e foi feito capelão do reino. A mulher tornou-se cozinheira da corte e a moça foi feita dama de honra da princesa.

A festança durou uma semana e em todo reino só houve alegria e comilança, com muita dança. Ah... se as cordas dos violinos não tivessem arrebentado... 

Eu bem que me lembrei de vocês e vinha trazendo comigo, com muito cuidado, uma garrafa de vinho antigo e uma bandeja cheia de salgados e doces; mas um instante de distração e lá tropecei e cai.

Pra meu desgosto e também o de vocês, a garrafa de vinho quebrou-se e a bandeja foi ao chão. Era doce e salgado pra tudo quanto era lado...

Porém, deixem estar, que não há de faltar. Provar do amargo e do doce, nessa vida, é dever de todo cristão e sempre haverá ocasião.

Oportunidade e confusão, por ai, há de montão. Eu devolvo agora, tudo o que pequei no lugar onde encontrei... Com licença meu senhor; minha senhora, adeus, vou embora e acabou-se a história. 

 

 

 

 

 

 

  



 

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