quarta-feira, 6 de maio de 2009

CAOS X TURISMO X CAOS... PARTE V


SUPERANDO O TURISMO PARTE III

Hakim Bey

Talvez os maiores e mais sutis praticantes da arte da viagem tenham sido os sufis, os místicos do Islã. Antes da era dos passaportes, imunizações, linhas aéreas e outros impedimentos à viagem livre, os sufis perambulavam descalços em um mundo onde fronteiras tendiam a ser mais permeáveis que hoje em dia, graças ao transnacionalismo do Islã e à unidade cultural do Dar al- Islam, o mundo islâmico.

Os grandes viajantes islâmicos medievais, como Ibn Battuta e Naser Khusraw, deixaram registros de várias jornadas - da Pérsia ao Egito, ou mesmo do Marrocos à China - que nunca saíam de uma paisagem de desertos, camelos, praças de caravana, bazares, e diligência. Alguém sempre falava árabe, embora mal, e a cultura islâmica permeava os mais remotos lugarejos, embora superficialmente. Ler os contos de Sinbad o marujo (das 1001 Noites) nos dá a impressão de um mundo onde até a terra incognita era estática - apesar de todas as maravilhas e estranhezas – de algum modo familiar, de algum modo islâmica. Dentro dessa unidade, que ainda não era uma uniformidade, os sufis formavam uma classe especial de viajantes. Não guerreiros, não mercadores, e não muito bem peregrinos ordinários também, os dervixes representam a espiritualização do nomadismo puro.

De acordo com o Corão, a Grande Terra de Deus e tudo nela são "sagrados", não apenas como criações divinas mas também porque o mundo material está cheio de "indicadores", ou sinais de realidade divina. Ainda mais, o próprio Islã nasce entre duas jornadas, a hijra de Maomé (ou "vôo" de Mecca a Medina) e sua hajj, ou viagem de volta. A hajj é o movimento em direção à origem e centro para cada muçulmano até hoje, e a peregrinação anual tem cumprido papel vital não apenas na unidade religiosa do Islã, mas também em sua unidade cultural.

O próprio Maomé exemplifica cada tipo de viagem no Islã: - sua juventude com as caravanas do Verão e do Inverno, de Mecca, como mercador; suas campanhas como guerreiro, seu triunfo como um humilde peregrino. Embora um líder urbano, ele também é o profeta do beduíno e ele mesmo é um tipo de nômade, um "hóspede temporário[1]" - um "órfão". Dessa perspectiva a viagem quase pode ser vista como um sacramento. Toda religião santifica a viagem em algum grau, mas o Islã é virtualmente inimaginável sem ela.

O Profeta disse: "Procure o conhecimento, mesmo longe como a China". Desde o início o Islã eleva a viagem sobre todo o utilitarismo "mundano" e dá a ela uma dimensão epistemológica ou até mesmo gnóstica. "A jóia que nunca deixa a mina nunca é polida", diz o sufi Saadi. "Educar" é "indicar a saída", dar ao pupilo uma perspectiva além da paroquialidade e mera subjetividade.

Alguns sufis podem ter feito todas as suas viagens no Mundo Imaginário dos sonhos arquetípicos e visões, mas um grande número deles tomou as exortações do Profeta bem literalmente. Até hoje dervixes perambulam por todo o mundo islâmico - mas até o século 19 eles perambulavam em verdadeiras hordas, centenas ou até milhares de uma vez, e cobriam vastas distâncias. Todos em busca de conhecimento.

Extra-oficialmente existiam dois tipos básicos de perambulação sufi: o tipo "cavalheiro acadêmico", e o dervixe mendicante. A primeira categoria inclui Ibn Battuta (que colecionou iniciações sufi da forma que alguns cavalheiros ocidentais já colecionaram graus maçônicos); e - num nível muito mais sério - o "Maior Xeque" Ibn Arabi, que circulou lentamente pelo século 13 de sua nativa Espanha através do norte da África, pelo Egito até Mecca e finalmente até Damasco.

Na verdade Ibn Arabi deixou registros de sua procura por santos e aventureiros na estrada, que puderam ser coletados de seus volumosos escritos para formar um tipo de rihla, ou "texto de viagem" (um gênero reconhecido da literatura islâmica), ou autobiografia. Acadêmicos comuns viajaram à procura de textos raros sobre teologia ou jurisprudência, mas Ibn Arabi procurou apenas os mais altos segredos do esotericismo e as mais elevadas "aberturas" para o mundo da iluminação divina; para ele toda "jornada aos horizontes exteriores" era também uma "jornada aos horizontes interiores" da psicologia espiritual a da gnose.

Das visões que experimentou em Mecca, apenas, ele escreveu um trabalho de 12 volumes (As revelações de Mecca), e também deixou esboços preciosos de centenas de seus contemporâneos, dos maiores filósofos da época a humildes dervixes e "loucos", mulheres anônimas, santos e "Mestres Escondidos". Ibn Arabi gozou de uma relação especial com Khzer, o imortal e desconhecido profeta, o "Homem Verde", que algumas vezes aparece para sufis andarilhos em dificuldade, para resgatá-los do deserto ou para iniciá-los. Khzer, de certa maneira, pode ser chamado de santo padroeiro dos dervixes viajantes - e seu protótipo. (Ele apareceu pela primeira vez no Corão como um andarilho misterioso e companheiro de Moisés no deserto).

O Cristianismo já incluiu umas poucas ordens de mendicantes andarilhos (de fato, São Francisco organizou uma depois de encontrar com dervixes na Terra Sagrada, que podem tê-lo presenteado com uma "túnica de iniciação" - a famosa túnica de retalhos que ele usava quando voltou à Itália) -, mas o Islã gerou dúzias, talvez centenas dessas ordens.

Enquanto o sufismo cristalizava da frouxa espontaneidade dos primeiros dias para uma instituição com regras e graus, a "viagem por conhecimento" também foi regularizada e organizada.

Manuais elaborados de deveres para dervixes foram produzidos, incluindo métodos para tornar a viagem numa forma de meditação muito específica. Todo o próprio "caminho" sufi foi simbolizado em termos de uma viagem intencional.

Em alguns casos itinerários eram fixados (por exemplo, a Hajj); outros envolviam espera pela aparição de "sinais", coincidências, intuições, "aventuras" como aquelas que inspiraram as viagem dos cavaleiros arturianos. Algumas ordens limitavam o tempo gasto em um lugar a 40 dias; outras fizeram uma regra de nunca dormir duas vezes no mesmo lugar. As ordens severas, como a dos Naqshbandis, transformaram a viagem em um tipo de coreografia em tempo integral, na qual todo movimento era pré-ordenado e feito para aperfeiçoar a consciência.

Em contraste, as ordens mais heterodoxas (como a dos Qalandars) adotaram uma "regra" de total espontaneidade e abandono - "desemprego permanente", como um deles chamava – uma distração de proporções boêmias - um "cair fora" ao mesmo tempo escandaloso e completamente tradicional. Vestidos de maneira colorida, carregando suas tigelas de esmola, machados e estandartes, devotos da música e da dança, despreocupados e alegres (algumas vezes ao ponto de serem dignos de repreensão!), ordens como a dos Nematollahis da Pérsia do século 19 cresceram a proporções que alarmaram sultões e teólogos - muitos dervixes foram executados por "heresia".

Hoje os verdadeiros Qalandars sobrevivem principalmente na Índia, onde seus desligamentos da ortodoxia incluem a apreciação pela maconha e o sincero ódio ao trabalho. Alguns são charlatães, alguns são simplesmente mendigos - mas um número surpreendente deles parece ser gente de sucesso... como posso colocar isso?... gente de auto-realização, marcada por uma distinta aura de graça, ou baraka.

Todos os tipos diferentes de sub-viagem que descrevemos são unidos por certas forças estruturais e vitais compartilhadas. Tal força pode ser chamada de uma visão de mundo "mágica", uma percepção da vida que rejeita o "meramente" aleatório em favor de uma realidade de sinais e maravilhas, de coincidências cheias de significado e "descobertas". E qualquer um que já tenha experimentado isso testemunhará, a viagem intencional imediatamente expõe uma pessoa a essa influência "mágica".

 

Continua...


[1] Quod erat:  No "original", sojourner.

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