segunda-feira, 11 de maio de 2009

CAOS X TURISMO X CAOS... PARTE VII


SUPERANDO O TURISMO PARTE V 

Hakim Bey

Um complemento dessa "técnica" (ou "Zen") das relações humanas pode ser encontrado na maneira do sufi de se relacionar com o mundo em geral. O mundo "cotidiano" - da falsidade social e negatividade, das emoções usurárias, da consciência inautêntica ("mauvaise conscience"), grosseria, má vontade, desatenção, reação impulsiva, falso espetáculo, discurso vazio, etc, etc – tudo isso não mais guarda interesse para o dervixe viajante. Mas aqueles que dizem que o dervixe abandonou "esse mundo" - a "Grande Terra de Deus" - estão enganados.

O dervixe não é um gnóstico dualista que odeia a biosfera (que certamente inclui a imaginação e as emoções, assim como a própria "matéria"). Os primeiros muçulmanos ascetas certamente se fecharam para tudo. Quando Rabiah, a santa de Basra, foi convocada para sair de sua casa e "testemunhar as maravilhas das criações de Deus", ela respondeu: "Venham para dentro da casa e vejam-nas", isto é, venham para dentro do coração da contemplação, da unidade que está acima da pluralidade da realidade. "Contração" e "Expansão" são ambos termos sufi para estados espirituais. Rabiah estava manifestando a Contração: um tipo sagrado de melancolia que foi metaforizado como a "Caravana do Inverno", do retorno à Mecca (o centro, o coração), da inferioridade e do ascetismo ou auto-negação. Ela não era uma dualista que odiava o mundo, nem mesmo uma puritana moralista inimiga da carne. Ela estava simplesmente manifestando um certo tipo de graça específica.

O dervixe viajante, contudo, manifesta um estado mais típico do Islã em suas energias mais exuberantes. Ele de fato procura a Expansão, alegria espiritual baseada na verdadeira multiplicidade da generosidade divina na criação material. (Ibn Arabi tem uma divertida "prova" de que esse mundo é o melhor mundo - pois, se não fosse, então Deus não seria generoso - o que é absurdo. Q. E. D[1]) De modo a apreciar os múltiplos indicadores da Grande Terra precisamente como o desenvolvimento dessa generosidade, o sufi cultiva o que pode ser chamado de olhar teofânico: - a abertura do "Olho do Coração" às experiências de certos lugares, objetos, pessoas, eventos, como locações da passagem do brilho da Luz divina.

O dervixe viaja, por assim dizer, tanto no mundo material como no "Mundo da Imaginação", simultaneamente. Mas para o olho do coração esses mundos se interpenetram em alguns pontos.

Pode-se dizer que eles se revelam ou "desvelam" mutuamente. No fim, eles são "um" - e só nosso estado de desatenção hipnotizada, nossa consciência mundana, nos impede de experimentar essa identidade "profunda" a todo momento. O propósito da viagem intencional, com suas "aventuras" e seu desenraizamento de hábitos, é arrebatar o dervixe de todos os efeitos hipnóticos da ordinariedade. A viagem, em outras palavras, é para induzir um certo estado de consciência, ou "estado espiritual" - o da Expansão. Para o andarilho, cada pessoa que se encontra age como um "anjo", cada templo que se visita pode destrancar algum sonho iniciatico, cada experiência da Natureza pode vibrar com a presença de algum "espírito ou lugar". De fato, até o mundano e ordinário pode de repente ser visto como elevado (como no grande haiku de viagem do poeta Zen japonês Basho) - um rosto na multidão ou uma estação de trem, corvos em fios telefônicos, brilho do sol em uma poça...

Obviamente ele não precisa viajar para experimentar esse estado. Mas a viagem pode ser usada - isto é, uma arte da viagem pode ser adquirida - para maximizar as chances de atingir tal estado. É uma meditação em movimento, como as artes marciais taoístas. A Caravana do Verão seguia em frente, para fora de Mecca, para as ricas tradições da Síria e do Iêmen. Do mesmo modo o dervixe está "movendo-se para fora" (é sempre "dia da mudança"), indo para a frente, partindo, em "feriado perpétuo", como um poeta expressou, com um Coração aberto, um olho atento (e outros sentidos), um desejo por significado, uma sede de conhecimento. Deve-se ficar alerta, já que qualquer coisa pode de repente revelar-se como um sinal. Isso soa como um tipo de "paranóia" - embora "metanóia" talvez seja um termo melhor - e de fato encontra-se "loucos" entre os dervixes, "os atraídos", inundados por influxos divinos, perdidos na Luz. No Oriente os insanos são cuidados e admirados como santos indefesos, porque a "doença mental" algumas vezes pode aparecer como um sintoma de muita santidade mais que de pouca "razão". A popularidade da maconha entre os dervixes pode ser atribuída ao seu poder de induzir um tipo de atenção intuitiva que constitui uma insanidade controlada: - metanóia herbal. Mas a viagem em si pode intoxicar o coração com a beleza da presença teofânica. É uma questão de prática - o polimento da jóia -, de remoção do musgo da pedra rolante.

Nos velhos dias (que ainda estão acontecendo em algumas partes remotas do Leste) o Islã pensava em si mesmo como um mundo inteiro, um mundo vasto, um espaço com grande latitude, dentro do qual o Islã abraçava o todo da sociedade e da natureza. Essa latitude aparecia em nível social como tolerância. Havia espaço o bastante, até para tais grupos marginais como dervixes loucos andarilhos. O próprio sufismo - ou pelo menos sua ortodoxia austera e seu aspecto "sóbrio" - ocupava uma posição central no discurso cultural. "Todo mundo" entendia a viagem intencional pela analogia com a chuva de granizo - todos entendiam os dervixes, mesmo que os desaprovassem.

 

 

Continua...



[1] demonstrandum ("que era pra ser demonstrado")

Postar um comentário