sábado, 2 de maio de 2009

CAOS & TURISMO & CAOS... PARTE II



MITOS DO CAOS

Hakim Bey

Tradução: Daniel Pellizzari, Patricia Décia & Renato Resende



Caos invisível (po-te-kitea)

Indomável, intransponível

Caos da escuridão absoluta

Intocado & intocável

-- canto Maori

 

 

O Caos empoleira-se numa montanha de céu: um pássaro gigantesco, como uma asa-delta amarela ou uma bola de fogo vermelha, com seis pés & quatro asas – ele não tem rosto, mas dança & canta.

Ou o Caos é um cão negro de pêlos compridos, cego & surdo, sem as cinco vísceras. Caos, o Abismo, é anterior a tudo, depois vem a Terra/Gaia, & então o Desejo/Eros. Desses três surgiram dois pares – Érebo & Noite ancestral, Éter & Luz diurna.

 

Nem Ser, nem Não-ser

Nem ar, nem terra, nem espaço:

o que estava escondido? Onde? Sob a proteção de quem?

O que era a água, profunda, insondável?

Nem morte, nem imortalidade, dia ou noite...

mas o UNO soprado por si mesmo, sem vento. Nada mais. Escuridão envolvendo escuridão, 

água não-manifesta.

O UNO, escondido pelo vazio,

sentiu a geração do calor, tornou-se ser

na forma de Desejo, primeira semente da Mente...

O que estava por cima e o que, por baixo?

Existiam semeadores, existiam poderes:

energia embaixo, impulso em cima.

Mas quem pode ter certeza?

(Rig Veda)

 

Tiamat, o Oceano de Caos, expele lentamente de seu ventre Lama & Saliva, os Horizontes, o Céu & Sabedoria líquida. Esses rebentos crescem barulhentos & pretensiosos – ela pensa em destruí-los.

Mas Marduk, o deus da guerra babilônico, levanta-se em rebelião contra a Velha Bruxa & seus Monstros do Caos, totens infernais – o Verme, a Ogre Fêmea, o Grande Leão, o Cachorro Louco, o Homem Escorpião, a Tempestade Trovejante – dragões vestindo suas glórias como deuses - & a própria Tiamat é uma serpente marinha gigante.

Marduk a acusa de fazer os filhos se rebelarem contra os pais – ela ama Neblina & Nuvens, princípios da desordem. Marduk será o primeiro a reinar, a inventar o governo. Durante a batalha, ele trucida Tiamat & com o seu corpo encomenda o universo material. Inaugura o império da Babilônia - & então, com os miúdos & as tripas sangrentas do filho incestuoso de Tiamat, ele cria a raça humana para servir aos deuses para sempre & aos altos sacerdotes & reis sacramentados.

Zeus Pai & os deuses do Olimpo travam guerra contra Mãe Gaia & os Titãs, esses partidários do Caos, da velhas formas de caça & coleta, das longas andanças sem destino, da androginia & da licenciosidade das bestas.

Amon-Ra (Ser) senta-se sozinho no Oceano do Caos primordial da MADRE masturbando-se & criando todo os outros deuses – mas o Caos também se manifesta como o dragão Apophis a quem Ra deve destruir (juntamente com seu estado de glória, sua sombra & sua mágica) para que o faraó possa governar com segurança – um ritual de vitória recriado diariamente nos templos Imperiais para confundir os inimigos do Estado, da Ordem cósmica.

Caos é Hun Tun, Imperador do Centro. Um dia, o Mar do Sul, Imperador Shu, & o Mar do Norte, Imperador Hu (shu hu – relâmpago), visitaram Hun Tun, que sempre os recebeu bem. Desejando retribuir sua gentileza, eles disseram: "Todos os seres têm sete orifícios para ver, ouvir, comer, cagar etc. – mas o pobre velho Hun Tun não tem nenhuma! Vamos perfurar alguns nele!" E assim fizeram – um orifício por dia – até que, no sétimo dia, o Caos morreu.

Mas... o Caos também é um enorme ovo de galinha. Dentro dele, P’an-ku nasce & cresce por 18 mil anos – finalmente o ovo se abre, divide-se entre céu & terra, yin & yang. Então P’an-ku transformase na coluna que sustenta o universo – ou talvez se torna o universo (respiração >> vento, olhos >> sol & lua, sangue & fluídos >> rios & mares, cabelo & cílios >> estrelas & planetas, esperma >> pérolas, medula >> jade, suas pulgas >> seres humanos etc.).

Ou, ainda, transforma-se no homem/monstro, Imperador Amarelo. Ou transforma-se em Lao-tsé, profeta do Tao. Na verdade, o pobre velho Hun Tun é o próprio Tao.

 "A música da natureza não existe além das coisas. As várias aberturas, gaitas, flautas, todos os seres vivos, juntos, formam a natureza. O ‘EU’ não pode produzir coisas & as coisas não podem produzir o ‘EU’, que existe por si mesmo. As coisas são o que são espontaneamente, não por causa de alguma outra coisa. Tudo é natural sem saber por que o é. As 10 mil coisas tem 1o mil estados diferentes, todos em movimento como se existisse um Senhor Verdadeiro para movê-las – mas, se procuramos por evidências desse Senhor, não conseguimos encontrá-las." (Kuo Hsiang).

Cada consciência iluminada é um "imperador", cuja única forma de reinado é não fazer nada para não atrapalhar a espontaneidade da natureza, o Tao. O "sábio" não é o próprio Caos, mas um dos seus servidores leais – uma das pulgas de P’an-ku, um pedaço de carne do filho monstruoso de Tiamat. "Céu é Terra", diz Chuang-tsé, "nasceram no mesmo momento em que eu nasci, & eu & as 10 mil coisas formamos um ser único".

O Anarquismo Ontológico tende a discordar apenas da total quietude do taoísmo. Em nosso mundo, o Caos tem sido destituído por jovens deuses, moralistas, falocratas, padres-banqueiros, senhores adequados para escravos. Se a rebelião provar-se impossível, pelo menos algum tipo de guerra santa clandestina deve ser iniciada. Que ela siga as bandeiras da guerra do dragão negro anarquista, Tiamat, Hun Tun.

O Caos nunca morreu.

Continua...

Postar um comentário