terça-feira, 12 de maio de 2009

CAOS & TURISMO & CAOS... PARTE VIII


SUPERANDO O TURISMO PARTE VI

Hakim Bey

Hoje em dia, entretanto, o Islã vê a si mesmo como um mundo parcial, cercado de infiéis e hostilidade e sofrendo rupturas internas de toda sorte. Desde o século 19 o Islã perdeu sua consciência global e o senso de sua própria vastidão e completude. Por isso o Islã não pode mais achar facilmente um lugar para todo indivíduo e grupo marginalizado, em um padrão de tolerância e ordem social. Os dervixes agora aparecem como uma diferença intolerável na sociedade. Todo muçulmano deve agora ser o mesmo, unido contra todos os forasteiros e gerados do mesmo protótipo. Claro que os muçulmanos sempre "imitaram" o Profeta e viram Sua imagem como a norma - e isso agiu como uma poderosa força unificadora para o estilo e substância dentro do Dar al-Islam. Mas "hoje em dia" os puritanos e reformadores esqueceram que essa "imitação" não foi dirigida apenas a um mercador do início da Idade Média chamado Mohammed, mas também ao Insan al-Kamil (o "Homem Perfeito" ou "Humano Universal"), um ideal de inclusão mais que de exclusão, um ideal de cultura integral, não uma atitude de pureza em perigo, não uma xenofobia disfarçada de piedade, não o totalitarismo, não a reação.

O dervixe é perseguido hoje em dia na maior parte do mundo islâmico. O Puritanismo sempre abraçou os aspectos mais atrozes do modernismo em sua cruzada de despir a Fé de "adesões medievais" como o sufismo popular. E certamente o caminho do dervixe andarilho não pode prosperar em um mundo de aviões e poços de petróleo, de hostilidades nacionalistas/chauvinistas (e por isso de fronteiras impenetráveis), e do puritanismo que suspeita de toda diferença como de uma ameaça. Esse puritanismo triunfou não só no Leste, mas bem perto de casa também. Ele é visto no "tempo da disciplina" do capitalismo-muito-tardio moderno, e na rigidez porosa da hiper-conformidade consumista, e também na reação hipócrita e na histeria sexual da "Direita Cristã". Onde, em tudo isso, podemos encontrar espaço para a poética (e parasitária!) vida da Perambulação Sem Rumo - a vida de Chuang Tzu (que cunhou esse slogan) e seus frutos taoístas – a vida de São Francisco e seus devotos descalços - a vida de (por exemplo) Nur All Shah Isfahani, um poeta sufi do século 19 que foi executado no Irã pela horrível heresia do dervixismo andarilho?

Aqui está o outro lado do "problema do turismo": - o problema do desaparecimento da "perambulação sem rumo". Possivelmente os dois estão diretamente relacionados, de modo que quanto mais o turismo se torna possível, mais o dervixismo se torna impossível. Na verdade, podemos muito bem perguntar se esse pequeno ensaio sobre a deliciosa vida dos dervixes possui o menor traço de relevância no mundo contemporâneo. Poderá esse conhecimento nos ajudar a superar o turismo, mesmo dentro da nossa própria consciência e vida? Ou é meramente um exercício de nostalgia por possibilidades perdidas - uma indulgência fútil de romantismo?

Bem, sim e não. Claro, eu confesso que sou romântico sem cura sobre a forma da vida dervixe, ao ponto de que por um tempo eu virei minhas costas ao mundo cotidiano e a segui eu mesmo. Porque claro, ela não desapareceu realmente. Decadente sim - mas não desaparecida para sempre. O pouco que eu sei cobre viagens aprendi naqueles poucos anos - tenho um débito com as "adesões medievais" que nunca conseguirei pagar - e eu nunca vou me arrepender do meu "escapismo" por um momento sequer. Mas, eu não considero a forma do dervixismo como a resposta para o "problema do turismo". A forma perdeu sua eficácia. Não há sentido em tentar "preservá-la" (como se fosse um picles, ou um espécime de laboratório) - não há nada tão patético quanto a mera "sobrevivência".

Mas, por baixo das charmosas formas exteriores do dervixismo está a matriz conceitual, por assim dizer, que nós chamamos de viagem intencional. Nesse ponto nós não deveríamos sofrer nenhuma vergonha da "nostalgia". Nós perguntamos se queremos e vamos superar "o turista interior", a falsa consciência que nós separa da experiência dos sinais da Grande Terra. O caminho do dervixe (ou do taoísta, ou do franciscano, etc.) nos interessa - finalmente - não só na medida que pode nos prover com uma chave - não A chave, talvez - mas... uma chave. E claro – ele provê.

Uma chave fundamental para o sucesso na Viagem é claro, a atenção. Nós chamamos de "paying attention" em inglês & "preter attention" em francês (em árabe, contudo, dá-se atenção), sugerindo que somos tão avaros com nossa atenção quanto somos com nosso dinheiro. Muito frequentemente parece que ninguém está "prestando atenção", que todo mundo está poupando sua consciência - o quê? poupando pros tempos difíceis? - e jogando água nos fogos de conhecimento por medo de todo o combustível disponível seja consumido em um único holocausto de saber intolerável.

Esse modelo de consciência parece suspeitamente "capitalista", contudo - como se de fato nossa atenção fosse um recurso limitado, que uma vez esgotado fosse irrecuperável para sempre. Uma usura de percepção agora aparece: - cobramos juros no nosso pagamento-de-atenção, como se ela fosse um empréstimo mais que um gasto. Ou como se nossa consciência fosse ameaçada por um entrópico "heat-death", contra o qual a melhor defesa deve consistir em um desinteressante estado hipnótico de meia-atenção hesitante - uma miséria de recursos psíquicos - uma recusa de perceber o inesperado ou e saborear a miraculosidade do ordinário - uma falta de generosidade.

Mas e se nós tratássemos nossas percepções como presentes em vez de pagamentos? E se nós déssemos nossa atenção em vez de pagá-la (paying it)? De acordo com a nova lei da reciprocidade, o presente é retribuído com um presente - não há gasto, nem falta, nem débito de capital, nem penúria, nem punição por dar nossa atenção e nem fim para a potencialidade da atenção.

Nossa consciência não é uma mercadoria, nem é um acordo contratual entre o ego cartesiano e o abismo do Nada, nem é simplesmente uma função de alguma máquina de carne com uma garantia limitada. Verdade, eventualmente nós nos desgastamos e quebramos. Em um certo sentido a poupança das nossas energias faz sentido - nós nos "poupamos" para os momentos realmente importantes, as descobertas, as "experiências de pico".

Mas se nós vermos a nós mesmos como bolsas de moeda vazias - se nós bloquearmos as"portas da percepção" como camponeses amedrontados pelos uivos de lobos boreais - se nós nunca "prestarmos atenção" - como iremos reconhecer a proximidade e o advento desses momentos preciosos, dessas aberturas?

 

Continua... 

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