segunda-feira, 4 de maio de 2009

CAOS & TURISMO & CAOS... PARTE IV



SUPERANDO O TURISMO - Segunda Parte

Hakim Bey


As verdadeiras raízes do turismo não se encontram na peregrinação (ou mesmo na troca "justa"), mas na guerra. Estupro e pilhagem foram as formas originais de turismo, ou melhor, os primeiros turistas seguiram diretamente rumo à agitação da guerra, como urubus humanos procurando em meio à carniça do campo de batalha por um butim imaginário - por imagens.

O Turismo surgiu como um sintoma de um Imperialismo que era total -econômico, político e espiritual.

O que é realmente incrível é que tão poucos turistas tenham sido assassinados por tal mísero punhado de terroristas. Talvez uma cumplicidade secreta exista entre esses reflexos opostos. Ambos são gente sem lugar, soltos de todas as âncoras, à deriva num mar de imagens. O ato terrorista exista apenas na imagem do ato - sem a CNN, sobrevive apenas um espasmo de crueldade sem sentido. E os atos do turista existem apenas nas imagens desse ato, os instantâneos e souvenirs; de outro modo nada resta a não ser as cobranças em cartas de companhias de cartão de crédito e um resíduo de "milhas grátis" de alguma companhia aérea em colapso. O terrorista e o turista são talvez os mais alienados de todos os produtos do capitalismo pós-imperial. Um abismo de imagens os separa dos objetos de seu desejo. De uma forma estranha, eles são gêmeos.

Nada nunca realmente toca a vida de um turista. Todo ato do turista é mediado. Qualquer um que já tenha testemunhado uma falange de americanos ou japoneses que encheriam um ônibus avançando sobre alguma ruína ou ritual deve ter notado que até o olhar coletivo deles é mediado pelo meio do olho multi-facetado da câmera, e que a multiplicidade de câmeras, video-câmeras e gravadores forma um complexo de brilhantes e clicantes escamas em uma armadura de mediação pura. Nada orgânico penetra essa carapaça insetóide que serve tanto como casca protetora quanto como mandíbula predadora, abocanhando imagens, imagens, imagens. No seu extremo essa mediação toma a forma do passeio guiado, em que toda imagem é interpretada por um especialista licenciado, um condutor de almas ou guia dos Mortos, um Virgílio virtual no Inferno da ausência de sentido - um funcionário menor do Discurso Central e sua metafísica da apropriação - um cafetão de êxtases não-corpóreos.

O verdadeiro espaço do turista não é a locação do exótico, mas, sim o lugar-sem-lugar (literalmente a "utopia") do espaço mediano, espaço limiar, entre-espaço - o espaço da própria viagem, a abstração industrial do aeroporto, ou a dimensão maquinal do avião ou ônibus.

Então o turista e o terrorista - esses fantasmas gêmeos dos aeroportos da abstração – sofrem uma fome idêntica pelo autêntico. Mas o autêntico se retira sempre que eles se aproximam. Câmeras e armas ficam no caminho daquele momento de amor que é o sonho escondido de todo terrorista e turista.

Para sua miséria secreta, tudo o que eles podem fazer é destruir. O turista destrói significado, e o terrorista destrói o turista. O turismo é a apoteose e a quintessência do "Fetichismo da Mercadoria". É o Cargo Cult[1] definitivo - a adoração de "bens" que nunca chegarão, porque foram exaltados, elevados à glória, deificados, adorados e absorvidos, tudo no plano do espírito puro, além do fedor da mortalidade (ou moralidade).

Você compra turismo - você leva nada além de imagens. Turismo, como a Realidade Virtual, é uma forma de Gnose, de desprezo-ao-corpo e transcendência do corpo. A "viagem" turística definitiva terá lugar no Cyberespaço, e será CyberGnose - uma ida e volta ao parinirvana[2] no conforto de sua própria "central de trabalho". Pluga aí, deixa a Terra pra trás!

O modesto objetivo desse livrinho é se dirigir ao viajante individual que decidiu resistir ao turismo.

Ainda que no fim nós descubramos ser impossível "purificar" nós mesmos e nossa viagem de toda mancha e traço do turismo, ainda sentimos que uma melhora pode ser possível.

Nós não apenas desdenhamos o turismo por sua vulgaridade e sua injustiça,e por isso desejamos evitar qualquer contaminação (consciente ou inconsciente) por sua virulência viral – nós também ousamos entender a viagem como um ato de reciprocidade mais que de alienação. Em outras palavras, nós não desejamos meramente evitar as negatividades do turismo, mas ainda mais atingir a viagem positiva, que visualizamos como uma relação produtiva e mutuamente aperfeiçoadora entre eu e outro, hóspede e anfitrião - uma forma de sinergia inter-cultural em que o todo excede a soma das partes.

Nós gostaríamos de saber se a viagem pode ser realizada de acordo com uma economia secreta de baraka, de acordo com a qual não apenas o templo mas também os peregrinos tenham "benções" a aspergir.

Antes da Era da Mercadoria, nós sabemos, houve uma Era do Presente, da reciprocidade, do dar e receber. Nós aprendemos isso dos contos de certos viajantes, que encontraram restos do mundo do Presente

entre certas tribos, na forma de potlachou trocas rituais, e resgistraram suas observações de práticas tão estranhas.

Não há muito tempo atrás ainda existia um costume entre ilhéus do Mar do Sul de viajar vastas distâncias por canoas apoiadas por bóias, sem compasso ou sextante, com o fim de trocar presentes valiosos e inúteis (objetos de arte cerimoniais ricos em mana) de ilha a ilha num padrão complexo de reciprocidades sobrepostas[3].

Suspeitamos que muito embora a viagem no mundo modernos parece ter sido apropriada pela Mercadoria - muito embora as redes de reciprocidade convivial pareçam ter sumido do mapa - muito embora o turismo pareça ter vencido - ainda assim - nós continuamos a suspeitar que outros caminhos ainda persistem, outras estradas, não-oficiais, não marcadas no mapa, talvez até mesmo "secretas" - caminhos ainda ligados à possibilidade de uma economia do Presente, rotas de contrabandistas para espíritos livres, conhecidos apenas pelas guerrilhas geomânticas[4] da arte da viagem.

Na verdade, nós não apenas "suspeitamos" disso. Nós sabemos disso. Nós sabemos que existe uma arte da viagem.

 


[1] Cargo Cult: Movimento religioso nativo encontrado na Melanésia que defende que, na virada do milênio, os espíritos dos mortos retornariam e trariam com eles cargas de bens modernos para distribuir entre seus parentes.

 

[2] Festa cerimonial de certos povos nativos do noroeste da costa do Pacífico em que o anfitrião distribui presentes de acordo com o status de cada visitante.

[3] Para mais informação Malinowiski, Bronislaw Os Argonautas do Pacífico Sul Ocidental.

[4] Relativo à "geomância" - representação de divindado por linhas e formas, ou por características geográficas.

 

Postar um comentário