domingo, 3 de maio de 2009

CAOS & TURISMO & CAOS... PARTE III




Autor: Hakim Bey

Título: Superando o Turismo

Título Original: Overcoming Tourism

Tradução: Hudz (eu_hudz2@hotmail.com)

Data Publicação Original: ????

 

 

Esta obra não possui direitos autorais e deve ser reproduzida no todo ou em parte, além de ser liberada a sua distribuição, preservando o seu conteúdo e o nome de seu autor. 

 

Nos Velhos Dias o turismo não existia. Ciganos, Tinkers[1] e outros nômades de verdade até hoje vagam por seus mundos à vontade, mas ninguém iria por isso pensar em chamá-los de "turistas".

O turismo é uma invenção do século XIX - um período da história que algumas vezes parece ter se alongado em uma duração não natural. De várias formas, nós ainda estamos vivendo no século XIX.

O turista procura Cultura porque - no nosso mundo - a cultura desapareceu no bucho do Espetáculo, a cultura foi destruída e substituída por um shopping ou um talk-show - porque a nossa educação é nada mais que a preparação para uma vida inteira de trabalho e consumo - porque nós mesmos cessamos de criar. Embora os turistas pareçam estar fisicamente presentes na Natureza ou na Cultura, na verdade pode-se chamá-los de fantasmas assombrando ruínas, sem nenhuma presença corpórea. Eles não estão lá de verdade, mas sim movem-se por uma paisagem mental, uma abstração ("Natureza", "Cultura"), coletando imagens mais que experiência. Muito freqüentemente suas férias são passadas em meio à miséria de outras pessoas e até somam-se a essa miséria. Recentemente algumas pessoas foram assassinadas no Egito só por serem turistas.

Contemple... o Futuro. Turismo e terrorismo - qual é mesmo a diferença?

Das três razões arcaicas para viagens – chamemos-las "guerra", "troca" e "peregrinação" - qual deu à luz o turismo? Alguns responderiam automaticamente que deve ser a peregrinação. O peregrino vai "lá" para ver, o peregrino normalmente traz na volta algum souvenir; o peregrino "dá um tempo" na vida diária; o peregrino tem objetivos não-materiais. Assim, o peregrino antecipa o turista.

Mas o peregrino passa por uma mudança na consciência, e para o peregrino essa mudança é real. Peregrinação é uma forma de iniciação, e iniciação é uma abertura para outras formas de cognição.

Podemos detectar algo da diferença entre o peregrino e o turista, contudo, comparando seus efeitos nos lugares que visitam. Mudanças em um local - uma cidade, um santuário, uma floresta - podem ser sutis, mas pelo menos podem ser observadas. O estado da alma pode ser uma questão de conjectura, mas talvez possamos dizer algo sobre o estado do (aspecto) social.

Locais de peregrinação como Mecca podem servir como grandes bazares para troca. E eles podem até servir como grandes centros de produção, (como a indústria da seda em Benares) – mas seu "produto" primário é baraka, ou maria. Essas palavras (uma árabe, outra polinésia) são usualmente traduzidas como "benção", mas elas também levam uma carga de outros significados. 

O dervixe[2] errante que dorme em um santuário para sonhar com um santo morto (um do "Povo das Tumbas") procura iniciação ou avanço no caminho espiritual; uma mãe que leva uma criança doente a Lurdes[3] procura cura; uma mulher sem filhos no Marrocos espera que o Marabout[4] a torne fértil se ela amarrar um trapo na velha árvore que cresce sobre a cova; o viajante para Mecca anseia pelo próprio centro da Fé, e quando a Cidade Sagrada entra no campo de visão das caravanas o hajji entoa "Labbaika Allahumma!" - "Eu estou aqui, Ó Senhor!".

Todos esses motivos são reunidos pela palavra baraka, que às vezes parece ser uma substância palpável, mensurável em termos de aumento de carisma ou "sorte". O santuário produz baraka. E o peregrino a leva embora. Mas benção é um produto da Imaginação - e assim não importa quantos peregrinos levem-na embora, sempre há mais. Na verdade, quanto mais eles levam, mais benção o santuário pode produzir (pois um santuário popular cresce com cada prece atendida).

Dizer que baraka é "imaginária" não é chamá-la de "irreal". Ela é real o bastante para aqueles que a sentem. Mas bens espirituais não seguem as regras de oferta e demanda como os bens materiais. Quanto maior a demanda por bens espirituais, maior a oferta. A produção de baraka é infinita.

Em contraste, o turista não deseja baraka, mas diferença cultural. O peregrino – podemos dizer - deixa o "espaço secular" do lar e viaja para o "espaço sagrado" do santuário para experimentar a diferença entre "secular" e "sagrado". Mas essa diferença permanece intangível, sutil, invisível ao olhar "profano", espiritual, imaginária. A diferença cultural, contudo, é mensurável, aparente, visível, material, econômica, social.

A imaginação do "primeiro mundo" capitalista está exaurida. Ela não pode imaginar nada diferente. Então o turista deixa o espaço homogêneo do "lar" pelo espaço heterogêneo dos "climas estrangeiros" não para receber uma "benção", mas simplesmente para admirar o pitoresco, a mera visão ou instantâneo da diferença, para ver a diferença.

O turista consome diferença.

Mas a produção de diferença cultural não é infinita. Ela não é "meramente" imaginária. Tem raízes na linguagem, paisagem, arquitetura, costume, gosto, cheiro. É muito física. Quanto mais ela é desgastada ou levada embora, menos sobra. O social pode produzir só certa quantia de "significado", só certa quantia de diferença. Quando ela acaba, acaba.

No decorrer dos séculos, talvez, um dado lugar sagrado tenha atraído milhões de peregrinos - e ainda assim, de algum modo, apesar de toda a contemplação e admiração e reza e compra de souvenirs - o lugar reteve seu significado. E agora - depois de 20 ou 30 anos de turismo – esse significado se perdeu. Aonde ele foi? Como isso aconteceu?

 

Continua...

 


[1] Tinkers: Grupo étnico de andarilhos oriundo da Irlanda.

[2] dervixe: A palavra dervixe descreve um sufi que está à porta da iluminação. Um sufi é um membro masculino da ordem dos dervixes rodopiantes, famosos em todo mundo. É um místico. A palavra sufi vem da palavra-raiz grega 'sophos' que significa sabedoria. (Segundo o Xeque Abdullah Khalis El-Mevlevi, "... a palavra sufi...[vem] da palavra árabe Sûf, que significa lã. Outra palavra para sufis é tassawwuf que significa ‘de lã'.")

[3] Lourdes: (Em gascão Lorda; em português Lurdes) comunidade francesa situada no departamento dos Altos Pirineus, região do Midi-Pyrénées Um dos maiores centros de peregrinação do mundo católico junto a Fátima, Roma, Czestochowa, Guadalupe e Aparecida.

[4] Marabout: Um santo ou ermitão muçulmano, especialmente no norte da África.

 

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