quarta-feira, 13 de maio de 2009

CAOS & TURISMO & CAOS... PARTE FINAL


SUPERANDO O TURISMO PARTE FINAL

Hakim Bey


Nós precisamos de um modelo de cognição que enfatize a "mágica" da reciprocidade: - dar atenção é receber atenção, como se o universo de alguma maneira misteriosa retribuísse nossa cognição com um influxo de graça natural. Se nós nos convencêssemos que a atenção segue uma regra de "sinergia" mais que uma lei de investimento, nós poderíamos começar a superar em nós mesmos a banal mundanidade da desatenção cotidiana, e a abrir-nos a "estados mais elevados".

Em qualquer caso, permanece um fato que a não ser que aprendamos a cultivar tais estados, a viagem nunca vai significar mais que turismo. E para aqueles de nós que ainda não são adeptos da viagem Zen, o cultivo desses estados demanda de fato um gasto inicial de energia. Nós temos inibições a reprimir, hesitações a conquistar, hábitos de introversão e apego aos livros a quebrar, ansiedades a sublimar. Nossa consciência caseira de terceira classe parece segura e aconchegante comparada com os perigos e desconfortos da Estrada, com sua novidade eterna, sua constante demanda pela nossa atenção. O "medo da liberdade" envenena nosso inconsciente, apesar de nosso consciente desejo por liberdade na viagem. A arte que estamos procurando raramente ocorre como um talento natural. Ela deve ser cultivada - praticada - aperfeiçoada. Nós devemos conjurar a vontade da viagem intencional.

É um truísmo reclamar que a diferença está desaparecendo do mundo - e é verdade, também. Mas algumas vezes é incrível descobrir o quão auto-regenerativo e orgânico o diferente pode ser. Mesmo na América, terra dos shoppings e tvs, diferenças regionais não apenas sobrevivem mas sofrem mutações e prosperam nos interstícios, nas fissuras que zigue-zagueiam no monolito, por baixo da atenção do Olhar da Mídia, invisível até para a burguesia local. Se todo o mundo está se tornando unidimensional, nós precisamos olhar entre as dimensões.

Eu penso na viagem como fractal em sua natureza. Ela tem lugar fora do mapa-como-texto, fora do consenso oficial, como aqueles padrões escondidos e encravados que se aninham dentro das infinitas bifurcações das equações não-lineares, no estranho mundo da matemática do caos. Em verdade o mundo não foi completamente mapeado, porque as pessoas e suas vidas cotidianas foram excluídas do mapa, ou tratadas como "estatísticas sem rosto", ou esquecidas. Nas dimensões fractais da realidade não-oficial todos os seres humanos - e até vários grandes lugares - continuam únicos e diferentes. "Puros" e "não corrompidos"? Talvez não. Talvez ninguém e lugar nenhum já tenham sido realmente puros. A pureza é um fogo-fátuo, e talvez até uma forma perigosa de totalitarismo. A vida é gloriosamente impura. A vida erra.

Nos anos 50 do século 20 os situacionistas franceses desenvolveram uma técnica para viagem que chamam de derive, a "errância". Eles estavam enojados consigo mesmos por nunca deixarem a rotina usual e os caminhos de suas vidas dirigidas pelo hábito; eles perceberam que nunca haviam visto Paris. Começaram a desenvolver expedições aleatórias e sem estrutura pela cidade, caminhando durante o dia, bebendo à noite, abrindo seus próprios mundinhos rígidos para uma terra incógnita de favelas, subúrbios, jardins e aventuras. Eles se transformaram em versões revolucionárias do famoso flaneur de Baudelaire, o caminhante ocioso, o sujeito desterrado do capitalismo urbano. A perambulação sem rumo deles virou uma prática de insurreição.

E agora, alguma coisa permanece possível - perambulação sem rumo, a errância sagrada. A viagem não pode ser confinada ao permissível (e agonizante) olhar do turista, para quem o mundo inteiro é inerte, um caroço de pitoresquidade, esperando para ser consumido - porque toda a questão da permissão é uma ilusão. Nós podemos emitir nossos próprios vistos de viagem. Nós podemos nos permitir participar, experimentar o mundo como uma relação viva e não como um parque temático. Nós carregamos dentro de nós mesmos os corações de viajantes, e não precisamos de experts para definir nossas complexidades mais que fractais, para "interpretar" por nós, para mediar nossas experiências por nós, para nos vender de volta as imagens de nossos desejos.

A errância sagrada é renascida. Mantenham-na secreta.

 

 

 

 

 

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