sexta-feira, 1 de maio de 2009

CAOS & TURISMO & CAOS...


Guerras, conflito aberto entre irmãos (Israel x Palestina), abandono, falta de emprego, gripe suína, gripe aviaria, febre aftosa, AIDS, câncer, poluição, falta de ar, tuberculose, violência generalizada estúpida e gratuita, tráfico de drogas... é, apesar de tudo, “o pulso ainda pulsa” só não se sabe por quanto tempo... Vejamos o lado bom disso tudo: Hum... Sei que existe, mas não consigo pensar em nada agora, no momento percebo apenas um medo crescente, o pânico se espalhando por entre a população... um lugar pra se esconder... tem para onde correr? Parece que retornamos a Idade das Trevas... Opa! Não Levem a sério... há luz no finzinho do túnel... É que tenho lido o Decameron e talvez seja apenas influência da leitura... Eu tinha um sonho... Meu grande sonho era um dia poder viajar para os lugares mais distantes, ir para o Oriente, andar nas terras de Alah, infelizmente, vejo este desejo cada vez mais distante, embora é claro, tudo possa mudar em questões de segundos, porém, como disse, minha visão anda toldada pela falta de esperança. Sei que as coisas boas e ruins costumam vir misturadas, entretanto, ultimamente, não consigo separar o joio do trigo... costumo advogar causas (e continuarei advogando), que, em minha opinião, parecem justas, (como a da Palestina, por exemplo), mas, em outras coisas, tenho chegado a um ponto que nem sei mais... Para levantar minha moral e ver que nunca, nem tudo está perdido, tenho dois textos de Hakim Bey que pretendo postar aqui, sobre CAOS e “TURISMO” pois falem o quiserem do “velho” (e falam muito... tenho achado cada coisa a respeito dele, que, acho, partem de pessoa equivocadas, que, certamente não entenderam ainda o que ele quer dizer, fazer ou provocar) a verdade é que seu pensamento me interessa e em muitas coisas tem a ver com meu próprio pensar... então não preciso eu mesma escrever, o que, por sua vez já está tão bem escrito, fazer isso, como diria um certo senhor que conheço “seria reinventar a roda”... Talvez nem o tempo poderá provar se é certo ou justo o que dizem  os detratores de Hakim Bey, o fato é que o “velho” possui uma visão sobre tudo pra lá de interessante... Bom, esta é a minha opinião, tirem vocês as suas próprias conclusões. 

 

CAOS

Hakim Bey

Tradução:Daniel Pellizzari, Paticia Décia & Renato Resende

 

 

O CAOS NUNCA MORREU. Bloco não-lapidado primordial, único monstro venerável, inerte e espontâneo, mais ultra-violeta do que qualquer mitologia (como as sombras frente à Babilônia), a original e indiferenciada unidade-do-ser ainda se irradia serena como as flâmulas negras dos Assassinos[1], aleatória & perpetuamente intoxicada.

O Caos surgiu antes de todos os princípios de ordem & entropia, não é nem um deus nem um verme, seus desejos insensatos circundam & definem todas as coreografias possíveis, todos os éteres & flogistons: suas máscaras são cristalizações de seu próprio rosto inexistente, como nuvens. Tudo na natureza é perfeitamente real, incluindo a consciência; não há absolutamente nada com o que se preocupar. Não apenas os grilhões da Lei foram quebrados; eles nunca existiram: demônios nunca vigiaram as estrelas, o Império nunca se iniciou, Eros nunca deixou a barba crescer. Não, ouça, o que aconteceu foi o seguinte: eles mentiram para ti, venderam-te idéias de bem & mal, fizeram-te perder a confiança em teu próprio corpo & sentir vergonha por teus dons de profeta do caos, inventaram palavras de desprezo para teu amor molecular, te hipnotizaram com distrações, te entediaram com a civilização & todas suas emoções usurárias.

Não há transformação, nem revolução, nem luta, nem caminho; já és o monarca de tua própria pele - tua liberdade inviolável espera para ser completada apenas pelo amor de outros monarcas: uma política de sonho, urgente como o azul do céu. Para desfazer todos os direitos & hesitações ilusórios da história, é necessária a economia de uma lendária Idade da Pedra: xamãs ao invés de padres, bardos ao invés de senhores, caçadores ao invés de policiais, coletores dotados de preguiça paleolítica, gentis como sangue, saindo nus por aí ou pintados como pássaros, equilibrados na onda da presença explícita, o agora-e-sempre atemporal. Agentes do caos deitam olhares flamejantes sobre qualquer coisa ou pessoa capaz de prestar testemunho à sua condição, à sua febre de lux et voluptas. Estou desperto apenas naquilo que amo & desejo ao ponto do terror: todo o resto é apenas mobília coberta, anestesia cotidiana, merda na cabeça, tédio subreptiliano de regimes totalitários, censura banal & dor inútil. Avatares do caos agem como espiões, sabotadores, criminosos do amour fou, nem generosos nem egoístas, acessíveis como crianças, educados como bárbaros, esfolados por obsessões, desempregados, sensualmente tresloucados, lobos angelicais, espelhos para contemplação, olhos como flores, piratas de todos os signos & sentidos. Cá estamos nos arrastando pelas rachaduras nos muros da igreja estado escola & fábrica, todos os monólitos paranóides. Cortados da tribo por uma nostalgia furiosa, escavamos em busca de palavras perdidas, bombas imaginárias. O último feito possível é aquele que define a percepção em si, um invisível cordão dourado que nos conecta: dança ilegal nos corredores do tribunal. Se eu te beijasse aqui eles chamariam isso de ato de terrorismo: vamos então levar nossas pistolas para a cama & acordar a cidade à meia-noite, como bandidos bêbados celebrando com uma fuzilaria a mensagem do gosto do caos. 


Continua...       


[1] O autor refere-se aos Hassasin ou Hashisheen, membros de uma seita islâmica secreta que durante as Cruzadas emboscavam líderes cristãos. Eles agiam supostamente sob a influência de haxixe, daí seu nome. (N.T)

 

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