sexta-feira, 8 de maio de 2009

CAOS X TURISMO X CAOS... PARTE VI




SUPERANDO O TURISMO PARTE IV

Hakim Bey


Um psicólogo poderia explicar esse fenômeno (com adoração ou com desdém reducionista) como "subjetivo", enquanto o crente pio o tomaria como literal. Do ponto de vista do Sol nenhuma interpretação domina a outra, nem é suficiente em si mesma, para explicar as maravilhas do Caminho. No sufismo, o "objetivo" e o "subjetivo" não são considerados opostos, mas complementos. Do ponto de vista do pensador bi-dimensional (científico ou religioso) tal paradoxo cheira a proibido.

Outra força subjacente a todas as formas de viagem intencional pode ser descrita pela palavra árabe adab. Em um nível adab significa simplesmente "boas maneiras", e no caso de viagem essas maneiras são baseadas nos costumes antigos dos nômades do deserto, para quem perambulação e hospitalidade são atos sagrados. Nesse sentido o dervixe comparilha tanto os privilégios quanto as responsabilidades do hóspede.

A hospitalidade beduína é uma nítida sobrevivente da economia primordial do Presente - uma relação de reciprocidade. O andarilho deve ser aceito (o dervixe deve ser alimentado) - mas por isso o andarilho assume o papel prescrito pelo costume antigo - e deve dar algo em troca ao anfitrião. Para o beduíno essa relação é quase uma forma de clientagem: - o partir do pão e a partilha do sal constituem uma forma de relação familiar. Gratidão não é uma reação suficiente a tal generosidade. O viajante deve consentir em uma adoção temporária - menos que isso seria uma ofensa ao adab.

A sociedade islâmica retém no mínimo uma ligação sentimental com essas regras, e por isso cria um nicho especial para o dervixe, o do hóspede em tempo integral. O dervixe retribui o presente da sociedade com o presente da baraka. Na peregrinação comum o viajante recebe baraka de um lugar, mas o dervixe reverte o fluxo e traz baraka a um lugar. O sufi pode pensar em si mesmo (ou si mesma) como um peregrino permanente - mas para o povo comum e caseiro do mundo cotidiano o sufi é um tipo de santuário (per)ambulante.

Agora o turismo em sua própria estrutura quebra a reciprocidade entre anfitrião e hóspede. Em inglês, um "hospedeiro" (host) pode ter hóspedes - ou parasitas. O turista é um parasita – pois nenhuma quantia de dinheiro pode pagar por hospitalidade. O verdadeiro viajante é um hóspede e por isso serve a uma função muito real, até hoje, em sociedades nas quais ideais de hospitalidade ainda não desapareceram da "mentalidade coletiva". Ser um anfitrião, nessas sociedades, é um ato meritório. Então, ser um hóspede é também conferir mérito.

O viajante moderno que "pega" o espírito simples dessa relação será perdoado dos muitos lapsos no intrincado ritual do adab (Quantas xícaras de café? Onde se põe os pés? Como ser divertido? Como demonstrar gratidão?, etc), peculiar a uma cultura específica. E se alguém se der ao trabalho de dominar algumas das formas tradicionais do adab, e empregá-las com sinceridade vinda do coração, então tanto hóspede como anfitrião ganharão mais do que colocaram na relação, e esse mais é o sinal inconfundível da presença do Presente.

Outro nível de significado da palavra "adab" a conecta com cultura (já que cultura pode ser vista como a soma de todas as "maneiras" e costumes); na utilização moderna o Departamento de "Artes e Letras" em uma Universidade seria chamado de adabiyyat. Ter adab, nesse sentido, é ser "polido" (como aquela gema bem viajada) -, mas isso não tem nada a ver necessariamente com "belas artes" ou com ser letrado, ou com ser um urbanóide ou mesmo "culto". É uma questão do "coração".

"Adab" é algumas vezes usado como uma definição-em-uma-palavra para cisma. Mas modos insinceros (ta´arof, em persa) e cultura insincera são igualmente evitados pelos sufi - "Não há ta´arof no Tasssawuf (sufismo)", como os dervixes dizem; "Darvishi" é um adjetivo sinonímico para informalidade, a qualidade relaxada do povo do Coração - e para adab espontâneo, por assim dizer. Os verdadeiros hóspedes e anfitriões nunca fazem um esforço óbvio para cumprir as "regras" da reciprocidade - eles podem seguir o ritual criteriosamente ou podem mudar os modos criativamente, mas em qualquer caso eles darão a suas ações uma profunda sinceridade que se manifesta como graça natural. "Adab" é um tipo de amor.


Continua...

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