domingo, 31 de maio de 2009

O CORDEIRO DA LÃ DOURADA


Do livro TRÊS HISTÓRIAS DO DESTINO; Edições Dervish 

Por Virgínia Allan


Era uma vez e não era uma vez... o que digo? Era uma vez um homem muito pobre, pobre mesmo de marré, marré, marré... viúvo, que tinha apenas um pequeno filho. Eles viviam num lugarejo; sem qualquer recurso, e, para prover o seu sustento e o do filho, ele tinha que percorrer léguas e léguas de distância. 

O tempo passou, o homem envelheceu e o menino cresceu, então chegou sua vez de partir em busca do que fazer. E o rapaz muito pobre saiu em busca de sua sorte.

Depois de tanto andar, finalmente o rapaz encontrou um homem que deu-lhe uma flauta e um emprego de pastor.

Na manhã seguinte, o homem o acordou muito cedo e mandou que saísse com o rebanho para ver se servia para o trabalho. O rapaz era muito ativo e esperto, não ficava dormindo no ponto, isto é, o dia inteiro, mas sim tocando o rebanho de um lado pro outro ao som de sua flauta.

Dentre as ovelhas, havia um cordeiro de lã dourada, que tão logo ouvia a flauta, punha-se a dançar. O rapaz amou o cordeirinho e resolveu, ao fim de seu trabalho, pedi-lo para si em pagamento.

Ao cair da tarde, o pastor retornou a casa do homem, que, tranqüilamente o esperava à porta. Ficou muito satisfeito ao contar as ovelhas e ver que não faltava nenhuma, além de estarem muito bem dispostas e alimentadas. Desse modo, aceitou o rapaz que lhe disse nada querer de pagamento há não ser o cordeiro de lã dourada. Embora fosse também apegado ao cordeiro, o homem concordou em dá-lo, pois achou o rapaz bom demais em sua tarefa de pastor de ovelhas.

Depressa se passou um ano inteiro e o jovem resolveu partir levando consigo o cordeirinho.

Depois de muito andarem, já anoitecia, quando, enfim chegaram a um vilarejo, parando então em frente a uma granja, onde o jovem pediu abrigo.

A filha do granjeiro quando viu o cordeiro de lã tão macia e dourada, tentou roubá-lo. Assim, a meia-noite levantou-se e, pé ante pé foi até o bichinho e para seu espanto, ao agarrá-lo, ficou presa no seu pêlo, sem poder soltar-se.

Na manhã seguinte, o jovem precisava seguir viagem, mas como não conseguia desprender a moça do cordeiro, e não deixaria de jeito algum o bichinho para trás, teve que levar os dois.

Mais adiante, ainda no vilarejo, o pastor pôs-se a tocar a flauta e o cordeirinho logo começou a pular e a dançar com a moça presa ao seu pêlo.

Na esquina, uma mulher que colocava o pão no forno ouviu a flauta do pastor e viu o cordeiro dançando com a moça grudada em sua lã. Pegando a pá, correu para assustá-la para ver se ela largava de tolice. Mas a moça não parou de dançar então a mulher bateu-lhe com a pá. No mesmo instante, a pá grudou na moça e a mulher na pá e como o jovem pastor precisava continuar lá se foram todos a dançar: a mulher grudada na pá, a pá na moça e a moça no cordeiro de bonito e dourado pêlo.

Em pouco tempo chegaram a uma igreja...

Ao ouvir o som da flauta o padre saiu a averiguar o que estava acontecendo. Ao ver tão estranha romaria; quem mais parecia zombaria, com a mulher com a pá na costa da moça e a moça por sua vez, presa a lã do cordeiro que não parava de dançar, pois o pastor estava a flauta a tocar, começou a repreendê-los, mandando que deixassem de tolices. Mas como o que ele dizia entrava por um ouvido e saia pelo outro ficou com raiva e deu, com sua bengala, uma boa bordoada nas costas da mulher e para sua surpresa, lá a bengala ficou grudada e ele, por sua vez, grudado nela. O rapaz que não podia parar sua jornada seguiu em tão boa companhia.

Não demorou chegaram a um vilarejo real. Já escurecia e o pastor parou de tocar a flauta. Então, o padre preso pela bengala às costas da mulher que se achava presa às costas da moça pela pá e a moça que por sua vez estava presa ao cordeiro de lã dourada; caíram exaustos de tanto dançar.

Uma velha e boa senhora, vendo aquela situação ofereceu ao pastor a sua casa afim de que descansassem e pudessem; na manhã seguinte seguir viagem.                                             

O pastor aceitou a oferta, muito agradecido. Foi quando perguntou se algo novo por ali tinha acontecido.

A boa senhora lhe disse que a filha do rei estava bem doentinha. Não dava uma risada, a coitada. Nenhum remédio, nenhum doutor no mundo conseguiu curá-la. O rei que era rico, rico, rico de marré, marré, marré... já tentara de tudo. Mandou até correr uma proclamação de que aquele que a fizesse sorrir a receberia como esposa, mas até agora... nada!   

Na manhã seguinte, o rapaz levantou muito cedo, ansioso em tentar a sorte. Assim foi correndo apresentar-se diante do rei e lhe disse os motivos porque estava ali.

O rei, sem contar conversa, rapidamente, levou-o ao salão em que se encontrava a princesa e o pastor começou a tocar a sua flauta. Lá o cordeiro entrou dançando e saltitando com a jovem grudada em seu pêlo; trazendo em suas costas a pá e a mulher na ponta da pá, com a bengala do padre grudada em suas costas, e o padre sem poder soltar-se da bengala.

A princesa, ao ver tal cena, não se conteve e caiu na risada.

O cordeiro ao perceber tamanho contentamento começou a saltitar, sacudindo-se sem parar, desprendendo a moça, a mulher e o padre, que, finalmente, livres, puderam dançar de livre e espontânea vontade.

O padre, a pedido do rei, casou a princesa e o pastor e foi feito capelão do reino. A mulher tornou-se cozinheira da corte e a moça foi feita dama de honra da princesa.

A festança durou uma semana e em todo reino só houve alegria e comilança, com muita dança. Ah... se as cordas dos violinos não tivessem arrebentado... 

Eu bem que me lembrei de vocês e vinha trazendo comigo, com muito cuidado, uma garrafa de vinho antigo e uma bandeja cheia de salgados e doces; mas um instante de distração e lá tropecei e cai.

Pra meu desgosto e também o de vocês, a garrafa de vinho quebrou-se e a bandeja foi ao chão. Era doce e salgado pra tudo quanto era lado...

Porém, deixem estar, que não há de faltar. Provar do amargo e do doce, nessa vida, é dever de todo cristão e sempre haverá ocasião.

Oportunidade e confusão, por ai, há de montão. Eu devolvo agora, tudo o que pequei no lugar onde encontrei... Com licença meu senhor; minha senhora, adeus, vou embora e acabou-se a história. 

 

 

 

 

 

 

  



 

sábado, 30 de maio de 2009

MORRO DO PAVIO



Lá no morro do Pavio

Vive o vento em assobio

Levanta folha de palmeira

Quebra galho de ingazeira


Lá no morro do Pavio

É tudo por um fio

Mas não tem insegurança

Que descarte a esperança

 

Lá no morro do Pavio

Não tem tempo ruim

Cada manhã é mais clara que a outra

E se chove ou faz frio

De repente, surge um lugar quentinho

 

Lá no morro do Pavio

A amizade não é apenas uma lembrança

Maria canta e embala uma criança

Há pelada no campinho

E uma boa pescaria no rio

 

Lá no morro do Pavio

Tem abrigo pros aflitos

As horas demoram a passar

Porém tem sempre coisas boas

Pra se fazer e se pensar

 

Lá no morro do Pavio

Quando bate o desassossego e a saudade

Surge logo uma novidade

E tudo então se transforma em canção

Na roda de um violão

 

Ai, quem me dera compadre

Matar essa vontade

Voltar ao morro do Pavio

E ouvir de novo do vento o assobio


Quem me dera compadre

Voltar aos tempos de criança

E sem saber dançar

Entrar na rodadança

 

Estranha nostalgia o peito me invade

Dor de magoa magoada

Que nunca sara

Ai... É o tempo compadre, que nunca pára

 

quinta-feira, 28 de maio de 2009

SEM POR QUE


Nicolas "Rodrigo" Sagrav



Para ser sincero
Os meus segredos
Eu guardo com medo
De me julgarem
Imperfeito

Porém sou eu
Algoz mais tirano
Dos meus defeitos
Da minha forma
Tão sem nexo de amar

E sozinho
Tenho seguido
Procurando
Quem sabe num sorriso
Um abraço
Um abrigo
Onde possa esconder
Meu universo inteiro

E vou
Na fumaça rala
No espaço quadrado
Infinito saber

Pois sei
Sem esperança
E por isso me espalho
Querendo ser
Todos de uma só vez

 

 

terça-feira, 26 de maio de 2009

UMA HISTÓRIA SEM FIM


Foto:Raphael Alves



Era uma vez um menino que saiu a passear... Sem olhar para trás, nem percebeu a longa fila de patos que lentamente subia a ladeira...

"Sim... vai daí..."
"Humm... Espera os patos subirem a ladeira...

"Sim... vai daí.."
"Espera os patos subirem a ladeira..."

"Sim... vai daí.." 
"Espera os patos subirem a ladeira.." 




sábado, 23 de maio de 2009

UM TOQUE DE ETERNIDADE... RAKON


É um senhor ainda moço, que mora numa cidade chamada Socorro... é um senhor calmo, baixo, um pouco distante...

 

 

Rakon, eu soube, é o nome deste senhor tão interessante... que, às vezes passa, desavisado, olhando para os lados... 



 Não que seja distraído... na verdade, senhor Rakon é muito sábio... e gosta de filosofar... pensar sobre a vida quieto em algum lugar... longe de qualquer desassossego, longe da pressa dos outros seres... 

UM TOQUE DE ETERNIDADE... RAKON

Puxa... e como pensa este senhor... pensa sobre tudo... sobre a vida, sobre a morte, sobre a boa e a má sorte, pensa sobre a dor, pensa sobre o amor... pensa até não aguentar... e, pra não chorar (suas conclusões não são das mais otimistas) fecha os graúdos e redondos olhos e finge que dorme...



Depois disso tudo... agora realmente cansado, levanta e vai para o quarto esperar o amigo Gustavo... 




Rakon e Gustavo - amor incondicional 

Um bonito rapaz que toca guitarra como nunca se viu... Senhor Rakon o mima e o super-protege e aguarda, sempre ansioso, por sua chegada... pois sabe que amizade igual é jóia rara... e ter um amigo de verdade é dar e receber amor... é sentir um toque mágico e suave, com sabor de eternidade.


(Fotos retiradas dos arquivos de Gustavo Marcos Bonfá) 

 

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A SOMBRA PARTE FINAL


A sombra percebeu o sentimento da princesa, já que a mesma só faltava atravessá-la com o olhar. Dançaram mais uma vez, e ela esteve prestes a dizer-lhe que o amava. Moça sensata, porém, pensou em sua terra – um reino- e nos muitos homens sobre os quais iria reinar. “Ele é um homem inteligente”, disse consigo mesma; “e isso é bom, além do quê, dança admiravelmente... e isso também é muito bom... mas terá esse homem um conhecimento realmente profundo? Pois, isso é importante... talvez a o fato mais importante. Preciso observá-lo melhor”. E aí, ela pôs-se a interrogá-lo sobre os assuntos mais variados e difíceis assuntos, perguntas que, ela mesma, não conseguiria responder. A Sombra fez uma cara muito estranha...

- O senhor não sabe responder! - disse a princesa.

- Isso faz parte do que aprendi em criança- disse a Sombra. – Mas creio que minha sombra, ali perto da porta, saberá responder por mim.

- Sua sombra?- Exclamou a princesa. – Isso seria extraordinário!

- Não afirmo com absoluta certeza – disse a Sombra – mas acredito que ela o possa fazer. Acompanha-me desde tanto tempo que nem sei, sempre atenta, sempre ouvindo tudo... Sim, acredito que ela saberá responder a Vossa Alteza, entretanto, chamo-lhe a atenção para um fato: minha sombra gosta de fazer-se passar por homem, e orgulha-se tanto disso, que, para mantê-la bem-humorada – e só de bom-humor é que responde direitinho – terá, então, de ser tratada exatamente como se um homem de verdade fosse...

- Coisa assaz interessante – disse a princesa. Aproximou-se do sábio, junto à porta, e falou-lhe sobre o sol e lua, sobre os homens e ele respondeu com inteligência e erudição.

“Que homem deve ser esse para ter uma sombra tão sábia?” Pensou a princesa. Seria um verdadeiro beneficio para o meu povo e o meu reino se eu o escolhesse para marido. Pois é o que vou fazer”.

Não tardaram os dois, a princesa e a Sombra, a concordarem. Mas ninguém deveria saber de nada antes que ela voltasse ao seu reino.

- Ninguém, nem minha sombra – disse a Sombra, que tinha lá os seu próprios pensamentos.

Assim chegaram ao país em que reinava a princesa.

- Ouve, meu caro amigo – disse a Sombra ao sábio. – Sou agora felicíssimo e tão poderoso como qualquer pessoa no mundo ambicionaria vir a ser. Quero, por isso, fazer algo por ti. Morarás comigo, para sempre, no palácio, passearás em minha companhia na carruagem real, e receberás cem mil táleres por ano, porém deverás deixar que todos te chamem de “sombra”. Não dirás que és um homem. Uma vez por ano, quando eu assomar ao balcão, ao sol, para ser visto, deves ficar deitado aos meus pés, como convém a uma sombra. Vou casar-me com princesa, sabes? As núpcias acontecerão hoje a noite.

- Não! Isso também é demais! – disse o sábio. – Não quero, nem posso fazer tal coisa. Seria enganar, ludibriar não só a princesa, mas a uma nação inteira. Vou contar tudo! Vou dizer que sou o homem e que tu és a minha sombra, vestida de homem.

- Ninguém acreditará em ti – atalhou a Sombra. – Toma juízo ou chamo os guardas.

- Vou falar com a princesa agora mesmo! – disse o sábio.

- Pois vou eu primeiro! – retrucou a Sombra. – Tu vais é para a prisão.

E para lá ele foi, o sábio, já que os guardas, sabendo que assim é que gostaria a princesa, obedeciam a poderosa Sombra.

 

- Estás tremendo! – disse a princesa, quando a Sombra foi vê-la. – Aconteceu alguma coisa? Não vás adoecer, logo hoje, a noite de nosso casamento.

- Sim, minha querida... aconteceu... aconteceu a coisa mais horrível que pode suceder a um homem. – respondeu a Sombra. O pobre cérebro de um sombra não suporta muito... imagina que minha sombra enlouqueceu e pensa ser um homem e o pior, o pior de tudo, imagina, minha querida, acusa-me de ser eu, em verdade, a sua sombra!

- Isso é terrível – disse a princesa. – Ela está presa, não está?

- Claro que está, mas temo que nunca se restabelecerá.

- Ó, pobre sombra... – disse a princesa. – Pobre sombra infeliz. Seria um verdadeiro beneficio poupá-la dessa existência. Pensando bem, creio ser mesmo necessário eliminá-la de vez, mas sem o mínimo de alarde.

- É muito duro ter que ser desse jeito – disse a Sombra. - Foi-me, durante muito tempo, uma serva fiel... – Soltou, então, um profundo suspiro de pesar ...

- És um nobre caráter – argumentou a princesa.


À noite, toda a cidade estava festivamente iluminada; os canhões troavam: “bum, bum, bum!”... os soldados apresentavam armas... Que bodas maravilhosas! 

A princesa e a Sombra apareceram ao balcão, para deixarem-se ver e aplaudir pelo povo. O sábio, porém, nada viu nem ouviu daquilo tudo... nem sua nova sombra, que há muito havia se encolhido, com medo de tudo... no calabouço escuro e fedido, jazia somente o corpo inerte e desconhecido de um homem, que de tão magro e envelhecido não passava apenas de uma sombra.

 

Disse certa vez um poeta (Fernando Pessoa?): “Neste mundo que esquecemos, somos sombras de quem somos...”                    

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A SOMBRA PARTE V


- Como somos, então, companheiros de viagem – disse o sábio, um dia, à Sombra – e como crescemos juntos, desde a infância, não seria melhor nos tratarmos por tu? É bem mais amigável.

- Boa idéia – respondeu a Sombra, que era agora o verdadeiro amo. – O senhor fala com sinceridade e boas intenções; por isso, serei também sincera e bem intencionada. Sendo um homem culto, o senhor há de saber como a natureza humana é esquisita. Certas pessoas não suportam o contato do papel cinzento, logo se sentem mal; outras sentem calafrios percorrerem-lhe o corpo quando se risca uma vidraça com um prego. Pois eu tenho essa mesma sensação desagradável quando o ouço tratar-me por tu; sinto-me humilhado, rebaixado à minha antiga condição. Veja o senhor, repare ser este um sentimento intimo, sem ser propriamente orgulho. Não posso deixá-lo tratar-me por tu; mas de boa vontade, direi, o tratarei por tu... já é meio caminho andado!

E a Sombra passou a tratar por “tu” o seu velho e desbancado amo.

“Assim também é demais”, pensou o sábio. “Eu, a tratá-la por ‘senhor’, e ela a tratar-me por tu’!”.

Porém, o sábio, mesmo achando tudo absurdamente fora do comum, resolveu suportá-lo. Chegaram a uma estação de águas, onde havia vários hospedes e, entre eles, uma bela princesa. Sofria ela do mal de enxergar demais, doença bastante inquietante. Logo percebeu ela que o dito recém-chegado era um homem muito diferente de todos os outros. “Dizem que ele esta aqui para fazer a barba crescer. Mas eu sei que o verdadeiro motivo é outro... ele não tem sombra”.

Curiosa, tratou a princesa de falar com o estranho senhor, já no primeiro passeio. Como filha do rei, não precisava de muitos rodeios.

- Sua doença é não poder projetar sua sombra – disse ela.

- Vossa Alteza já deve estar experimentando considerável melhora! Disse a Sombra – sei que seu mal é enxergar demais. Pois é evidente que o mal está passando. Vossa Alteza recuperou a saúde. Tenho a mais extraordinária das sombras. Não vê a pessoa que sempre está comigo? Qualquer pessoa possui uma sombra, é comum. Eu, entretanto, não gosto das coisas assim. Não é costume dar ao criado a libré, roupa mais luxuosa que a nossa? Dessa forma, mandei arranjar a minha sombra, fazendo dela um homem. Veja, olhe lá, que ata lhe dei uma sombra própria. Isso me saiu bem caro... mas sempre quis para mim o que há de bom e de melhor.

“O quê?”... pensou a princesa. “Teria eu, de fato, recobrado a saúde? Esta é, com efeito, a melhor estação de águas que existe! Nos dias de hoje, água faz maravilhas! Mas, não irei embora, pois agora é que está começando a ficar divertido por aqui. Gostei bastante deste estrangeiro. Tomara que sua barba não cresça, assim não poderá ir-se de vez”.  

À noite, no grande salão de baile, a princesa e a Sombra dançaram juntos. Ela era leve, mas a Sombra o era muito mais... jamais dançara com um cavalheiro assim. Contou-lhe de que país viera. Ele, a Sombra, o conhecia, uma vez que já estivera lá, porém a princesa, por essa ocasião estivera ausente. Ele espiara pelas janelas, para cima e para baixo, vira coisas por demais interessantes e por tal motivo sabia responder a conversa da princesa, fazendo certas alusões que a deixaram sobremaneira perplexa, e então, ficou ela convencida de que este homem era o mais sábio ser sobre a terra. Ela sentiu tamanho respeito por todo aquele saber, que, quando tornaram a dançar, estava já irremediavelmente apaixonada.   

Continua...                          

terça-feira, 19 de maio de 2009

A SOMBRA PARTE IV



- Digo-lhe que lá estive, e, o senhor compreende, vi tudo o que se podia ver. O senhor, se tivesse estado lá, não teria se tornado o homem que eu me tornei. Ao mesmo tempo, aprendi a conhecer minha natureza íntima, inata, e assim descobri o meu parentesco com a poesia. Quando eu estava em sua companhia, nem pensava nisso. Mas, o senhor sabe, ao erguer e ao por do sol, eu me tornava estranhamente. Ao lua, então, eu chegava quase a ser mais nítida que o senhor. Naquele tempo, porém, não conhecia minha própria natureza. Na ante-sala tudo compreendi. Tornei-me adulto. Sai de lá pronta, madura. Mas o senhor não mais estava nas terras quentes. Como homem, envergonhei-me de meu estado. Eu precisava de botinas, de roupas, de todo esse verniz humano, pelo qual se conhece o homem. Refugiei-me debaixo da saia da doceira, e lá fiquei escondido. A mulher nem sequer imaginava o que estava ocultando. Só saí ao anoitecer. Andei pelas ruas, ao luar. Alonguei-me pelas paredes, o que me faz uma cócega deliciosa nas costas. Subi e desci as ruas, espiando através das janelas mais altas, para dentro das salas, olhando por sobre os telhados, onde ninguém mais poderia olhar, e vi o ninguém via, poderia ou deveria ver! Pensando bem, é um mundo bem baixo, este! Eu nem queria ser homem, se não se admitisse, como se admite, que ser homem é o que há de mais importante. Vi as coisas mais incríveis, entre mulheres, homens, pais de família, e até entre as meigas e inocentes criancinhas – Vi – prosseguiu a Sombra – coisas que ninguém deveria ver, soube coisas que ninguém deveria saber, mas, que, sem dúvida, todos gostariam muito, isto é: os podres do vizinho. Tivesse eu escrito para um jornal, e este teria tido leitores bastante ávidos! Mas eu escrevia diretamente às pessoas em questão. Foi um Deus-nos-acuda, em todas as cidades em que passava. Todos tinham medo de mim, e asseguravam-me sua imensa estima. Os professores me tratavam como igual, os alfaiates davam-me roupas novas e assim fiquei bem suprido delas. O moedeiro cunhava moedas para mim, e as mulheres falavam o quanto eu era bonita. Foi desse modo que tornei-me o homem que hoje sou. E agora me despeço. Eis o meu cartão. Moro do lado do sol e estou sempre em casa nos dias chuvosos.

Dizendo isso, a Sombra se foi e o sábio disse aos seus botões. – Mas que estranho...


Passaram-se os anos e novamente a Sombra tornou a aparecer.

-Como vai? – perguntou.

- Ah... – disse o sábio. – Escrevo sobre coisas verdadeiras, boas e belas, mas ninguém me lê. Estou desesperado. Sofro tanto com isso...

- Pois eu não – disse a Sombra. – Estou engordando. É o melhor que se pode fazer. O senhor não entende este mundo, sofre e se preocupa com ele. O senhor devia viajar. Vou fazer uma viagem, no verão. Quer vir comigo? Gostaria de ter um companheiro de viagem. Quer acompanhar-me, como sombra? Será um grande prazer tê-lo comigo. Pagarei as despesas.

- O senhor está indo longe demais! – protestou o sábio.

- Depende – disse a Sombra. – Uma viagem, torno a dizer, lhe faria muito bem. Se quiser ser minha sombra, pode viajar sem gastar um tostão.

- Isso é demais! – disse o sábio.

- O mundo é assim – retrucou a Sombra – E assim sempre será!

E a Sombra foi-se embora.

O sábio não estava nada bem agora. Atormentavam-no tristezas e atribulações. Falava sobre o verdadeiro, o bom e o belo, mas para a maioria das pessoas suas palavras eram como rosas atiradas a uma vaca, ou enfim, como diz a Bíblia, o livro sagrado, “pérolas jogadas aos porcos”. Acabou adoecendo.

- O senhor está mais parecendo uma sombra!- diziam-lhe os conhecidos.

E o sábio sentia calafrios, tomado de maus pensamentos.

- O senhor deveria ir a uma estação de águas – disse-lhe a Sombra, que o veio visitar. – É o que resta fazer. Vou leva-lo comigo, em atenção a nossa velha amizade. Pagarei as despesas, e o senhor fará a descrição da viagem, para me distrair um pouco pelo caminho. Quero ir a uma estação de água. Minha barba não cresce como deve. É também uma doença, uma vez que deve-se ter barba. Tenha juízo e aceite a oferta. Viajaremos como companheiros.

Partiram. A Sombra era o amo e o amo era a sombra e a sombra nova do sábio, encolheu-se tanto até sumir. A Sombra que fez-se homem, andava sempre junto do sábio. Andavam de carro, a cavalo ou a pé e conforme a posição do sol, iam lado a lado ou à frente um do outro, com a Sombra mantendo-se na posição de amo. O sábio pouco se incomodava com isso: era homem tolerante, de bom coração, um sujeito brando e amável.

 

Continua...

domingo, 17 de maio de 2009

A SOMBRA PARTE III


- Então de fato és tu? – respondeu o sábio. Pois é extraordinário! Nunca pensei que uma velha sombra pudesse regressar, feito gente.

- Diga-me quanto tenho que pagar – insistiu a Sombra. – Não quero saber de dívidas de espécie alguma.

- Como podes falar assim? – disse o sábio. - Que dívidas, nada! Estás livre! Tua felicidade me causa grande satisfação. Senta-te, velho amigo, e conta-me como as coisas se passaram e o que viste na casa fronteira, lá nas terras quentes.

- Vou contar – respondeu a Sombra, sentando-se. – Mas, vais me prometer nunca dizer, aqui na cidade, a quem quer que seja, e onde quer que me encontres, que eu já fui sua sombra. Pretendo casar-me. Posso sustentar mais do que uma família.

- Podes ficar tranqüilo – disse o sábio. – Não direi a ninguém quem tu és. Dou-te minha palavra de honra. Um homem, uma palavra!

- Uma palavra, uma sombra! – disse a Sombra, que assim devia falar.

Era realmente espetacular, fora de série, constatar de fato o quanto a sombra se tornara um homem. Trajava-se, com esmero, as mais finas roupas pretas, calçando sapatos de verniz e na cabeça, uma cartola que podia ser reduzida a copa e aba, para não falar do que já sabemos: corrente de ouro e anéis de diamantes. A Sombra, trajava-se mesmo com bastante elegância, e, era justamente isso, precisamente, que a fazia parecer-se um homem.

- Agora vou contar – disse a Sombra.

Pisou fortemente, de propósito, com os sapatos de verniz, na manga da nova sombra do sábio, que jazia aos pés de seu amo como um cão; talvez o fizesse por arrogância; talvez quisesse mesmo é que a outra sombra lhe ficasse presa aos pés. A outra sombra, porém, manteve-se quieta, para bem tudo ouvir; provavelmente gostaria de saber como poderia uma sombra libertar-se e chegar a ser dona de si.

- Sabe quem morava na casa em frente? – Perguntou-lhe a Sombra. – A mais linda de todas as criaturas, a Poesia! Lá estive durante três semanas, o que equivale a ter vivido três mil anos e lido tudo quanto já foi escrito em prosa e verso. Digo-o, pois é a verdade. Tudo vi e tudo sei.

- A Poesia! – exclamou o sábio. – Sim, sim... Não é raro ela viver como um eremita, nas grandes cidades. A Poesia! Via-a de relance, uma única vez. Por um instante, rapidamente, no momento em que o sono me fechava os olhos, ela apareceu na sacada e brilhou como a aurora boreal. Conta! Conta! Estavas na sacada, entraste pela porta e...

- E vi-me então na ate-sala – disse a Sombra. – O senhor sempre esteve olhando para a ante-sala. Lá não havia luz nenhuma; tudo estava na penumbra, mas havia um série de portas, uma em frente a outra, todas abertas, numa sucessão interminável de salas e quartos. Neles, sim, havia luzes e eu teria sido absorvida por elas, se tivesse chegado junto a donzela. Fui, porém, cautelosa. Pus-me a andar devagar, como andam as pessoas inteligentes.

- E que viste então? – Perguntou o sábio.

- Tudo vi e tudo lhe contarei. Mas, antes... longe de parecer orgulho de minha parte, todavia, como homem livre, com os conhecimentos que possuo, para não falar de minha posição e de minha excelente condição de vida, gostaria que me tratasses por “senhor”.

- Perdão – disse o sábio. – É um hábito antigo, e fortemente arraigado. O senhor tem toda razão. Farei por onde me lembrar. Mas, enfim, conte-me tudo quanto viu.

- Contarei tudo – disse a Sombra. – Pois tudo vi e tudo sei.

- Como eram as salas? – perguntou o sábio. Eram como a mata verdejante? Eram como o interior da santa igreja? Ou eram como o céu estrelado, visto do alto das montanhas?

- Havia tudo ali – disse a Sombra. – De qualquer modo, não percorri todo o interior da casa. Permaneci na primeira sala, na penumbra, mas em vantajosa posição. Ali tudo vi. E de tudo sei. Estive na corte da Poesia, na ante-sala.

- Mas o que viu o senhor? Passavam pela sala todos os deuses da antiguidade? Lutavam ali os antigos heróis? Ou doces criancinhas brincavam e contavam seus sonhos?   


Continua...