segunda-feira, 27 de abril de 2009

CONDICIONAMENTO PARTE IV


A aceitação não crítica dos famosos peritos em certas áreas está perfeitamente ok. As pessoas me citarão novamente: “Ah, você sempre diz, por exemplo, que não é preciso redescobrir isso e aquilo, ou saber como funciona para que lhe faça bem”. Não, mas isso está certo numa área em que um grau de desenvolvimento tenha sido alcançado, e as aplicações extras de todos os antibióticos e assim por diante, continuam. Você pode ter uma aceitação não crítica de certas coisas, mas em certas áreas, as questões precisam ser feitas e as respostas procuradas. Perguntar ou questionar não significa necessariamente duvidar ou desafiar: “Eu não acredito nisso”. “Como posso acreditar nisso?”, ou “Eu deveria acreditar nisso?”. Na Tradição[1], os termos de referência estão à disposição. O seu espectro mais abrangente existe sob todo tipo de circunstâncias, e ninguém jamais disse ou escreveu que a pessoa deveria abandonar ou tentar combater alguns dos condicionamentos básicos, valiosos e necessários que as pessoas adquirem através da educação normal e de contatos sociais, econômicos e outros – todos eles são perfeitamente necessários. Mas a pessoa tem o direito – não apenas o direito, mas também a responsabilidade para consigo mesma, de estar numa busca, numa jornada de compreensão e descoberta de desenvolvimento harmonioso que resulta de encontrar respostas para as próprias perguntas. Não respostas que nutrem a pergunta e instantaneamente surge a resposta, e então a pessoa assimila essa resposta e segue para a pergunta número 2 ou 3. Há perguntas que é melhor não fazer. Algumas respostas são melhores se apenas ouvidas e não pensadas. Você poderia dizer: “Bem, isso se aproxima muito do condicionamento” – não, porque o condicionamento é a imposição de certos termos de referência, quer se queira quer não, quer seja sentido quer não. Receba ou não um ‘feedback’ da resposta, a pessoa aceita. “Os ingleses são assim” – eu mesmo, uma parte de mim é uma criatura de condicionamento quando sou afegão: “Nós afegãos somos assim, e ponto”. E eles não toleram nenhuma contradição nesses termos... Nós podemos aceitar que alguém diga: “Nós egípcios somos assim”, porque se estivermos nesse nível de nacionalismo Neandertal, tudo bem, não há discussão. “Nós somos assim, nós somos assado” – tudo bem, o que você faz nessa situação? Vai embora, cumprimenta a pessoa com um aperto de mãos, briga ou não faz nada. Assim isso não é terrivelmente grave. É quando essa atitude leva a um curso de ação que implica numa ação desarmoniosa, que você está usando o termo de referência ou ponto de vista errado. Se você for a um jantar e puser seu cotovelo na sopa do seu vizinho, e ele disser: “Isto é inaceitável”, e você responder: “Nós afegãos sempre fizemos isso” – você não será convidado outra vez. Isto é fazer a coisa errada no momento errado, é jogar a carta errada – é falta de educação, e contribui muito pouco para aumentar a reputação dos afegãos. De modo que você não o faz. A menos que seja muito estabanado, conseguir evitar enfiar seu cotovelo na sopa dos outros não representa um problema assim tão grande. Você não diz: “Sou um homem livre, esta é uma democracia partilhada por todos, por isso vou pôr o meu dedo na sua orelha se tiver vontade” – não, pois isso é invadir a liberdade alheia. Impedir-se de agredir outra pessoa não é diminuir a sua liberdade – esta é uma coisa injustificada. Se a imprensa, televisão, os partidos políticos ou uma facção de qualquer grupo impuser a sua opinião sobre os outros – pois compreensivelmente estão soprando o seu próprio trompete – isso não quer dizer que a pessoa vá sair por aí com uma espécie de olhar assombrado, espiando por cima dos ombros, esperando ser condicionada, tentando evitá-lo a todo custo e esse tipo de coisas – as pessoas já são suficientemente preocupadas. Eles não estão trocando um condicionamento por outro. Algumas pessoas dizem: “Ah sim, você passou a ser um desses sufis, e tudo o que eles fazem é substituir o condicionamento”. Não, o condicionamento que a pessoa média possui foi assimilado ou imposto sem que ela exercitasse muito da sua faculdade crítica – quer porque não foi necessário, porque não foi conveniente, ou porque não havia outra alternativa. Os termos de referência, textos, pontos de vista e outras coisas da Tradição são coisas explicadas às pessoas para que as aceitem, com a quantidade de habilidade crítica que são capazes de empregar. Basicamente elas precisam sentir alguma coisa pelo que estão recebendo, e acreditar que aquilo lhes trará desenvolvimento. Não existe nenhum sinal exterior, nenhuma promessa nem nada parecido na natureza – não existe e não vai existir. É responsabilidade da pessoa separar o joio do trigo, e ela não se opõe a si mesma no processo de fazê-lo. Caso isto seja uma coisa muito mística ou muito complicada... Esta é uma frase que você ouve, que se diz: “Estou numa batalha comigo mesmo”. “Que parte de mim está lidando com a minha negativa?” – e coisas desse tipo. As pessoas antagonizam-se consigo mesmas freqüentemente porque...

Continua...


[1]Tradição Sufi: Pensamento de sabedoria interior com pelo menos 1200 anos de aplicação, desenvolvimento constante e harmônico.

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