domingo, 26 de abril de 2009

CONDICIONAMENTO PARTE III


Bem, você pode tomar uma pessoa, um grupo de pessoas, uma comunidade ou um país e martelá-los constantemente com um aspecto, uma interpretação ou outra coisa até o ponto em que aquilo é aceito como uma escritura sacramentada, tim tim por tim tim, aquilo “é”, e ponto final. Certo. Você poderia argumentar, e foi argumentado, que se tomássemos, digamos, um aspecto do desenvolvimento harmonioso dentro de um contexto cósmico, e o repetissimos constantemente, você realmente conseguiria fixá-lo na cabeça das pessoas. Se fosse baseado numa verdade válida, onde estaria o dano? Não haveria nenhum grande dano, mas seria impor uma limitação, porque você estaria dando a uma pessoa, a uma comunidade ou a um povo o que poderíamos chamar de “antolhos” – e eles só enxergariam aquilo. Agora, por definição, um estudo constante e intenso de um conceito verdadeiro e harmonioso não pode ser necessariamente mau. Infelizmente o que acontece é que... – se estivermos considerando esse aspecto em particular, você deve levar em consideração uma das coisas mais confusas que existem no cosmos, ou seja, o intelecto humano. O que acontece é o seguinte: há uma pequena porção de um conceito verdadeiro e harmonioso – ok. Depois desse conceito ter sido “dominado”, por assim dizer – se a as pessoas tiverem sido condicionadas a olhar para ele, elas usarão o seu grande, profundo e assim chamado valioso intelecto para penetrar, segundo crêem, mais e mais profundamente nesse determinado conceito, quando na realidade um domínio sobre ele num grau muito inferior seria suficiente. O próximo passo é estender e penetrar o conceito inteiro a partir de uma frente razoavelmente ampla – não uma frente exagerada, porque afinal, os conceitos estão ligados, e vão a várias direções, e é muito complicado. A mente humana é assim – encorajar as pessoas a se especializarem é bom até um determinado ponto, mas depois os seres humanos assumirão o comando e se especializarão em demasia, e ficarão especializados a ponto de sua participação se tornar tão refinada que eles não têm literalmente nenhuma oportunidade de exercitá-la. Vou dar um exemplo muito banal, mas essas coisas acontecem e lhe mostram. Eu tinha um gato que teve uma infecção nos olhos, então eu o levei ao veterinário. Como ele não sabia o que fazer receitou gotas disso e daquilo. Eu estive fora durante um mês e quando voltei, os olhos do gato estavam num péssimo estado, então telefonei a vários conhecidos para saber quem era a pessoa mais entendida em gatos – e eles me disseram fulano de tal. Eu levei o gato até a indicação e o mostrei a um sujeito, que me disse: “Ah, você quer ver o Professor Fulano de Tal...” E eu disse: “Certo, onde está ele?”, e eles me deram o seu número de telefone. Eu liguei e perguntei: “Posso falar com o sr. fulano de tal?” – “De que se trata?” – “É o meu gato”. E então o homem disse: “Eu sou o professor tal, e só lido com olhos de gatos”. E eu disse: “É exatamente o que eu preciso – olhos de gato” – “Sim”, disse ele, “mas qual é problema com os olhos do gato?” – “Pálpebras invertidas”, respondi, e ele disse: “Estarei aí em cinco minutos”. Então, passados não cinco, mas vinte minutos, ele chegou. Salivando de excitação, foi logo dizendo: “Eu tenho um livro que trata da inversão em olhos de gatos”. Era verdade – ele era o maior perito vivo nesse assunto, em que as pálpebras se invertem porque os músculos estão estirados, e quando o gato pisca, elas reviram – então é preciso operar os músculos e simplesmente apertar as pálpebras. Bem, ele era o maior perito do mundo e tinha um livro para prová-lo. Mais tarde ele operou o gato e tudo saiu perfeitamente bem. Agora, você poderia dizer que isso foi ótimo, que foi uma grande ajuda e muito útil para aquele gato em particular. Mas quando eu estava lá, o tal professor disse: “Sabe, foi bom que o seu gato não tenha quebrado uma perna ou algo assim, pois eu não saberia o que fazer”. Bem, o sujeito é um cirurgião veterinário, um professor de medicina veterinária, e diz que não poderia salvar a perna do gato – mas pálpebras invertidas – “Ah, maravilha!” Agora, como eu digo, este é um exemplo, um exemplo típico. Se você tomá-lo em relação à área intelectual – este é o padrão de pensamento: devemos ter peritos e especialistas em certas áreas – certamente. Mas há um ponto além do qual a especialização torna-se tão estreita que, primeiramente, as próprias áreas são freqüentemente esquecidas. Todo o treinamento que usam para chegar lá... Eles não têm a habilidade para exercitar essa técnica, ou sequer para ensiná-la. Assim, eles praticamente se liquidaram nesse ápice. Esse homem provavelmente está sentado ao lado do telefone esperando uma chamada para pálpebras invertidas, ao passo que ele poderia estar na rua tratando de pernas de gatos ou de outra coisa qualquer. Como eu digo, é um exemplo banal, porém é um exemplo de excesso de especialização em que a pessoa atinge o topo de sua carreira – tudo bem, no que concerne àquele gato, foi maravilhoso que uma tal pessoa existisse – mas ele poderia ter se ampliado um pouquinho mais, e ter sido capaz de ensinar. Assim, que todo esse palavrório realmente significa é que infelizmente, se você encorajar o intelecto humano, o sistema educacional, o ambiente cultural para investigar excessivamente certas áreas baseando-se em termos de referência que eles pegaram e refinaram mais e mais, isso não traz desenvolvimento do modo como nós o consideramos na Tradição. Desenvolvimento significa não apenas um foco mais restrito, mas um foco em diferentes níveis simultaneamente, passando de um para outro, ou utilizando dois ou três, do mesmo modo como, ao usar uma mão, a pessoa emprega vários músculos, tendões e outras coisas ao mesmo tempo. Certamente, é possível desenvolver um músculo de uma maneira especificamente difícil e deixar que os outros atrofiem. Isso não adianta muito – coisas como: “eu tenho o dedo indicador mais desenvolvido do mundo” – bem, isso é ótimo, mas como você descasca uma maçã? O que é melhor, descascar uma maçã ou desenvolver o dedo indicador? Esta é uma discussão em que as pessoas se envolvem o tempo todo.

Continua...

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