sábado, 25 de abril de 2009

CONDICIONAMENTO PARTE II




Afinal, as questões ligadas à arte ou ao gosto podem ser muito pessoais. Quer dizer, pessoalmente eu não gosto nem um pouco de alguns quadros impressionistas. Eu posso criticá-los do meu ponto de vista pessoal: eu não gosto da disposição, das cores utilizadas, das figuras, simplesmente não gosto deles – é uma coisa pessoal. Mas se um determinado artista tiver desenhado algo impressionista, se ele for um verdadeiro artista, um verdadeiro artesão, então ele tem o direito – depois de ter aprendido o básico necessário da pintura, do desenho ou do que for – de ampliar-se na área de sua escolha. Eu discordo, por exemplo, e o fiz com grande prazer, em Paris, há muitos anos atrás, - quando as pessoas pedalavam suas bicicletas em cima de telas de cores diferentes e rolavam sobre telas cobertas de tintas. Bem, com alguma relutância suponho que isso poderia ser chamado de arte, mas não creio que alguém fazendo isso possa realmente chamar-se de artista – ele pode ser um grande ginasta pintado rolando sobre telas cobertas de tinta. Eu não gosto de Picasso, por exemplo, mas sem dúvida ele era um excelente artista e artesão. O que ele quis desenhar depois de ter desenvolvido suas técnicas e o cubismo era um direito e um privilégio seu. Eu não estou me desviando do assunto. O que estou dizendo é que se eu detesto Picasso, esta é uma questão de gosto pessoal meu. Esta é uma área que permite discussões e as pessoas discutem ad infinitum sobre esse tipo de coisas, e não há nenhum mal nisso. Quero dizer, “não preste nenhuma atenção nele, ele é um tradicionalista”. Sim, eu gosto das coisas tradicionais. Mas discutir sobre a escansão de uma poesia ou algo do gênero é perfeitamente viável, perfeitamente razoável. Ao tomar posições muito arraigadas baseado em certos valores fundamentais – você não faz concessões nesses princípios, está certo, mas você pode ter flexibilidade. Há uma diferença entre ser flexível e vaguear sem destino – o que eu chamo de uma ‘atitude de borboleta’, esvoaçando de flor em flor. Em geral, um dos meus maiores inimigos no mundo é o condicionamento, porque ele pressupõe, na minha experiência, força que foi imposta sobre um indivíduo, um grupo, uma sociedade ou um país – seja força política, força intelectual, econômica ou de outro tipo – que muito freqüentemente os pressionou a desenvolver uma atitude comum, uma reação comum a certas coisas. Há áreas em que, a fim de expressar-se adequadamente, ajustar-se, na medida do possível, adequadamente, e desenvolver-se adequadamente de uma maneira harmoniosa, o ser humano deve ter liberdade. Liberdade não é licenciosidade. A linha entre os dois tornou-se cada vez mais turva. “Eu posso dizer o que quiser, pois sou um homem livre, esta é uma democracia, e isto é liberdade” – não. Você não pode dizer o que quiser se isso perturbar, amedrontar, ou ofender outra pessoa. Não se trata apenas de uma descortesia. É licenciosidade: é violação da liberdade alheia. Nós temos as artes liberais, incluindo a poesia e o teatro, e você pode escrever uma peça que poderia ser considerada obscena ou pornográfica pela média, este não é o exercício correto da liberdade. Isto não é um ponto de vista atrasado, antiquado, ortodoxo. Qualquer violação da liberdade alheia representa uma ofensa à sua própria tão falada “liberdade”.
Quando falo da liberdade de um desenvolvimento harmônico, esta liberdade também é limitada. É limitada pela sua responsabilidade, pela responsabilidade de um povo, de um país, ou pela responsabilidade universal. O que eles querem conseguir? Qual é a sua definição de liberdade? Quais são os termos de referência que utilizam? E quais as verdades nas quais se apóiam? Se estas coisas forem definidas em função do indivíduo ou da comunidade, se elas forem definidas constante e regularmente, elas não adquirem as acrescencias, cracas, ferrugens e tudo mais que obscurece a sua verdadeira natureza. Este é um aspecto da verdade “verde” ou da verdade “azul” – certo. A sua cor é quase irrelevante. A sua base é, digamos, uma verdade em diferentes circunstâncias. Pode aparecer sob formas, cores, sentidos, significados ou qualidades diferentes – mas a base é imutável. Assim, o que tem isso a ver com condicionamento?



Continua...

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