terça-feira, 28 de abril de 2009

CONDICIONAMENTO PARTE FINAL




 

Suponha que haja um grau significativo de condicionamento em uma determinada área, e a pessoa seja consciente disso. Você não está particularmente feliz com isso, não é demasiadamente terrível – eles pegam outra coisa, digamos, da Tradição, e a impõem sobre o seu condicionamento básico. Isso certamente provocará um certo grau de hostilidade. Você não pode dizer: “Bem, isso da Tradição é mais pesado do que aquele pouco de condicionamento, portando é melhor” – ou então: “É mais leve, portanto mais arejado, e portanto mais valioso” e esse tipo de imposição. Você não se condiciona, você não se persuade a sair de um e entrar em outro no sentido de trocar um condicionamento por outro usando um julgamento crítico que está adquirindo, de forma que imperceptivelmente ele se acerca de você: de repente você acorda de manhã e está pensando de uma maneira totalmente diferente - não. Seu bom senso inato o avaliou, considerou-o harmônico e permitiu que entrasse. Você poderia dizer: “Anos atrás, eu não achava que um tasbi[1] fosse qualquer coisa além de um mero colar de contas”. Bem, se em algum ponto alguém lhe dissesse: “Você não vai considerar isso como um colar de contas, você vai considerá-lo como um item de uso fantástico” – e houvesse um terrível conflito dentro de você, e você o aceitasse mesmo que o seu condicionamento fosse contra isso – isso não estaria certo. Não precipite situações como essa. Aceite-o, ele pode ser um colar de contas. E elas podem ser muito boas, podem significar algo e as pessoas as usam. A pessoa desenvolve uma harmonia com elas e as usa – e isso passa a ser uma parte harmoniosa da sua natureza. Se você impuser a si mesmo, estará arriscando a famosa disputa consigo mesmo, a batalha consigo mesmo. Você tem que entender que vinte, trinta, quarenta ou cinqüenta anos de condicionamento não são eliminados em tantos meses, e nem todos os condicionamentos precisam ser extirpados. É, simplesmente, que, algumas coisas precisam ser gradualmente removidas e outras gradualmente introduzidas – mas coisas que harmonizam com você. O que eu digo é geralmente bom senso razoável, mas você não precisa pensar apenas – eu ia dizer nos meus termos, mas isso é um pouco difícil – você não precisa dizer, por exemplo: “O que faria o meu professor nessas circunstâncias?”, porque você cometeria um erro. Você nunca saberia, e poderia ser uma coisa bastante ridícula ou extraordinária, e, portanto você não o faz – este é um condicionamento do ponto de vista subjetivo. Você não se condiciona, você se harmoniza consigo mesmo. Você aceita termos de referência, pontos de vista, coisas, pessoas, lugares com os quais sente uma conexão – você não precisa necessariamente explicar por quê. Certamente você não precisa explicar a si mesmo por quê nos termos de referência convencionais: “Eu fui a tal e tal lugar e me senti como que arrebatado”, ou isso e aquilo. Bem, você sabe que sentiu alguma coisa, que pensou alguma coisa, que teve uma sensação. Não caia na armadilha de tentar recondicionar-se. Assimilação pela harmonia é uma coisa; imposição é outra. Imposição é a coisa mais fácil, e provoca a maioria dos problemas, especialmente se for uma inquisição hostil, limitadora ou aprisionante. Porque as pessoas estão sempre tentando escapar disso – elas não sabem necessariamente como ou o quê especificamente as está ameaçando. Elas sabem apenas que algo está errado. No momento em que sentirem uma harmonia ou uma fase dele, elas o agarram e o incorporam. Assim você não levanta uma grande barreira contra tudo e contra todos no caso deles estarem aprofundando o condicionamento. Você mantém uma atitude normal e razoável em relação a várias coisas – você exercita a faculdade crítica quando necessário, e em áreas em que tenha termos de referência ou perícia. Quanto ao resto não se preocupe.

 

Do livro: O Caminho do Buscador; Edições Dervish

Omar Ali Shah: Professor, escritor e orador, considerado ainda hoje, uma das maiores autoridades da ciência  sufi contemporânea.  Nascido em 1922 e morto em 2005, Omar Ali Shah era filho de Sirdar Ikbal Ali Shah e irmão de Idries Shah, uma linhagem que remonta ao profeta Mohammed e aos Imperadores Sassânidas da Pérsia.     


[1] Tasbi: Espécie de colar com 99 contas, o maior, e 33, o menor; o rosário árabe também chamado de masbarrah.

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