quinta-feira, 30 de abril de 2009

SENTE-SE E FUME AO MEU LADO


De: Virgínia Allan

Para: Nicolas "Rodrigo" Sagrav

 

 

Não... obrigada... eu não fumo mas, por favor, não se preocupe comigo... pode se sentar e fumar ao meu lado... não me sinto incomodada... ao contrário... vai meu pensamento disperso na fumaça do cigarro

Uma pausa, uma tragada... solte a baforada odiada por tantos no silêncio de minha solidão...

Gosto do cheiro que impregna o ar... incenso poderoso que pra longe espanta a dor de mal pensar... 

Um copo cheio de uma bebida qualquer e um fumante solitário é tudo de que preciso para inspirar-me e apaziguar meu coração

Não se preocupe comigo, não...

Sejamos bem-vindos ao paraíso almejado pra onde nos leva uma tragada de cigarro

É bom saber, na verdade, é um alivio, que estamos entre amigos

terça-feira, 28 de abril de 2009

CONDICIONAMENTO PARTE FINAL




 

Suponha que haja um grau significativo de condicionamento em uma determinada área, e a pessoa seja consciente disso. Você não está particularmente feliz com isso, não é demasiadamente terrível – eles pegam outra coisa, digamos, da Tradição, e a impõem sobre o seu condicionamento básico. Isso certamente provocará um certo grau de hostilidade. Você não pode dizer: “Bem, isso da Tradição é mais pesado do que aquele pouco de condicionamento, portando é melhor” – ou então: “É mais leve, portanto mais arejado, e portanto mais valioso” e esse tipo de imposição. Você não se condiciona, você não se persuade a sair de um e entrar em outro no sentido de trocar um condicionamento por outro usando um julgamento crítico que está adquirindo, de forma que imperceptivelmente ele se acerca de você: de repente você acorda de manhã e está pensando de uma maneira totalmente diferente - não. Seu bom senso inato o avaliou, considerou-o harmônico e permitiu que entrasse. Você poderia dizer: “Anos atrás, eu não achava que um tasbi[1] fosse qualquer coisa além de um mero colar de contas”. Bem, se em algum ponto alguém lhe dissesse: “Você não vai considerar isso como um colar de contas, você vai considerá-lo como um item de uso fantástico” – e houvesse um terrível conflito dentro de você, e você o aceitasse mesmo que o seu condicionamento fosse contra isso – isso não estaria certo. Não precipite situações como essa. Aceite-o, ele pode ser um colar de contas. E elas podem ser muito boas, podem significar algo e as pessoas as usam. A pessoa desenvolve uma harmonia com elas e as usa – e isso passa a ser uma parte harmoniosa da sua natureza. Se você impuser a si mesmo, estará arriscando a famosa disputa consigo mesmo, a batalha consigo mesmo. Você tem que entender que vinte, trinta, quarenta ou cinqüenta anos de condicionamento não são eliminados em tantos meses, e nem todos os condicionamentos precisam ser extirpados. É, simplesmente, que, algumas coisas precisam ser gradualmente removidas e outras gradualmente introduzidas – mas coisas que harmonizam com você. O que eu digo é geralmente bom senso razoável, mas você não precisa pensar apenas – eu ia dizer nos meus termos, mas isso é um pouco difícil – você não precisa dizer, por exemplo: “O que faria o meu professor nessas circunstâncias?”, porque você cometeria um erro. Você nunca saberia, e poderia ser uma coisa bastante ridícula ou extraordinária, e, portanto você não o faz – este é um condicionamento do ponto de vista subjetivo. Você não se condiciona, você se harmoniza consigo mesmo. Você aceita termos de referência, pontos de vista, coisas, pessoas, lugares com os quais sente uma conexão – você não precisa necessariamente explicar por quê. Certamente você não precisa explicar a si mesmo por quê nos termos de referência convencionais: “Eu fui a tal e tal lugar e me senti como que arrebatado”, ou isso e aquilo. Bem, você sabe que sentiu alguma coisa, que pensou alguma coisa, que teve uma sensação. Não caia na armadilha de tentar recondicionar-se. Assimilação pela harmonia é uma coisa; imposição é outra. Imposição é a coisa mais fácil, e provoca a maioria dos problemas, especialmente se for uma inquisição hostil, limitadora ou aprisionante. Porque as pessoas estão sempre tentando escapar disso – elas não sabem necessariamente como ou o quê especificamente as está ameaçando. Elas sabem apenas que algo está errado. No momento em que sentirem uma harmonia ou uma fase dele, elas o agarram e o incorporam. Assim você não levanta uma grande barreira contra tudo e contra todos no caso deles estarem aprofundando o condicionamento. Você mantém uma atitude normal e razoável em relação a várias coisas – você exercita a faculdade crítica quando necessário, e em áreas em que tenha termos de referência ou perícia. Quanto ao resto não se preocupe.

 

Do livro: O Caminho do Buscador; Edições Dervish

Omar Ali Shah: Professor, escritor e orador, considerado ainda hoje, uma das maiores autoridades da ciência  sufi contemporânea.  Nascido em 1922 e morto em 2005, Omar Ali Shah era filho de Sirdar Ikbal Ali Shah e irmão de Idries Shah, uma linhagem que remonta ao profeta Mohammed e aos Imperadores Sassânidas da Pérsia.     


[1] Tasbi: Espécie de colar com 99 contas, o maior, e 33, o menor; o rosário árabe também chamado de masbarrah.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

CONDICIONAMENTO PARTE IV


A aceitação não crítica dos famosos peritos em certas áreas está perfeitamente ok. As pessoas me citarão novamente: “Ah, você sempre diz, por exemplo, que não é preciso redescobrir isso e aquilo, ou saber como funciona para que lhe faça bem”. Não, mas isso está certo numa área em que um grau de desenvolvimento tenha sido alcançado, e as aplicações extras de todos os antibióticos e assim por diante, continuam. Você pode ter uma aceitação não crítica de certas coisas, mas em certas áreas, as questões precisam ser feitas e as respostas procuradas. Perguntar ou questionar não significa necessariamente duvidar ou desafiar: “Eu não acredito nisso”. “Como posso acreditar nisso?”, ou “Eu deveria acreditar nisso?”. Na Tradição[1], os termos de referência estão à disposição. O seu espectro mais abrangente existe sob todo tipo de circunstâncias, e ninguém jamais disse ou escreveu que a pessoa deveria abandonar ou tentar combater alguns dos condicionamentos básicos, valiosos e necessários que as pessoas adquirem através da educação normal e de contatos sociais, econômicos e outros – todos eles são perfeitamente necessários. Mas a pessoa tem o direito – não apenas o direito, mas também a responsabilidade para consigo mesma, de estar numa busca, numa jornada de compreensão e descoberta de desenvolvimento harmonioso que resulta de encontrar respostas para as próprias perguntas. Não respostas que nutrem a pergunta e instantaneamente surge a resposta, e então a pessoa assimila essa resposta e segue para a pergunta número 2 ou 3. Há perguntas que é melhor não fazer. Algumas respostas são melhores se apenas ouvidas e não pensadas. Você poderia dizer: “Bem, isso se aproxima muito do condicionamento” – não, porque o condicionamento é a imposição de certos termos de referência, quer se queira quer não, quer seja sentido quer não. Receba ou não um ‘feedback’ da resposta, a pessoa aceita. “Os ingleses são assim” – eu mesmo, uma parte de mim é uma criatura de condicionamento quando sou afegão: “Nós afegãos somos assim, e ponto”. E eles não toleram nenhuma contradição nesses termos... Nós podemos aceitar que alguém diga: “Nós egípcios somos assim”, porque se estivermos nesse nível de nacionalismo Neandertal, tudo bem, não há discussão. “Nós somos assim, nós somos assado” – tudo bem, o que você faz nessa situação? Vai embora, cumprimenta a pessoa com um aperto de mãos, briga ou não faz nada. Assim isso não é terrivelmente grave. É quando essa atitude leva a um curso de ação que implica numa ação desarmoniosa, que você está usando o termo de referência ou ponto de vista errado. Se você for a um jantar e puser seu cotovelo na sopa do seu vizinho, e ele disser: “Isto é inaceitável”, e você responder: “Nós afegãos sempre fizemos isso” – você não será convidado outra vez. Isto é fazer a coisa errada no momento errado, é jogar a carta errada – é falta de educação, e contribui muito pouco para aumentar a reputação dos afegãos. De modo que você não o faz. A menos que seja muito estabanado, conseguir evitar enfiar seu cotovelo na sopa dos outros não representa um problema assim tão grande. Você não diz: “Sou um homem livre, esta é uma democracia partilhada por todos, por isso vou pôr o meu dedo na sua orelha se tiver vontade” – não, pois isso é invadir a liberdade alheia. Impedir-se de agredir outra pessoa não é diminuir a sua liberdade – esta é uma coisa injustificada. Se a imprensa, televisão, os partidos políticos ou uma facção de qualquer grupo impuser a sua opinião sobre os outros – pois compreensivelmente estão soprando o seu próprio trompete – isso não quer dizer que a pessoa vá sair por aí com uma espécie de olhar assombrado, espiando por cima dos ombros, esperando ser condicionada, tentando evitá-lo a todo custo e esse tipo de coisas – as pessoas já são suficientemente preocupadas. Eles não estão trocando um condicionamento por outro. Algumas pessoas dizem: “Ah sim, você passou a ser um desses sufis, e tudo o que eles fazem é substituir o condicionamento”. Não, o condicionamento que a pessoa média possui foi assimilado ou imposto sem que ela exercitasse muito da sua faculdade crítica – quer porque não foi necessário, porque não foi conveniente, ou porque não havia outra alternativa. Os termos de referência, textos, pontos de vista e outras coisas da Tradição são coisas explicadas às pessoas para que as aceitem, com a quantidade de habilidade crítica que são capazes de empregar. Basicamente elas precisam sentir alguma coisa pelo que estão recebendo, e acreditar que aquilo lhes trará desenvolvimento. Não existe nenhum sinal exterior, nenhuma promessa nem nada parecido na natureza – não existe e não vai existir. É responsabilidade da pessoa separar o joio do trigo, e ela não se opõe a si mesma no processo de fazê-lo. Caso isto seja uma coisa muito mística ou muito complicada... Esta é uma frase que você ouve, que se diz: “Estou numa batalha comigo mesmo”. “Que parte de mim está lidando com a minha negativa?” – e coisas desse tipo. As pessoas antagonizam-se consigo mesmas freqüentemente porque...

Continua...


[1]Tradição Sufi: Pensamento de sabedoria interior com pelo menos 1200 anos de aplicação, desenvolvimento constante e harmônico.

domingo, 26 de abril de 2009

CONDICIONAMENTO PARTE III


Bem, você pode tomar uma pessoa, um grupo de pessoas, uma comunidade ou um país e martelá-los constantemente com um aspecto, uma interpretação ou outra coisa até o ponto em que aquilo é aceito como uma escritura sacramentada, tim tim por tim tim, aquilo “é”, e ponto final. Certo. Você poderia argumentar, e foi argumentado, que se tomássemos, digamos, um aspecto do desenvolvimento harmonioso dentro de um contexto cósmico, e o repetissimos constantemente, você realmente conseguiria fixá-lo na cabeça das pessoas. Se fosse baseado numa verdade válida, onde estaria o dano? Não haveria nenhum grande dano, mas seria impor uma limitação, porque você estaria dando a uma pessoa, a uma comunidade ou a um povo o que poderíamos chamar de “antolhos” – e eles só enxergariam aquilo. Agora, por definição, um estudo constante e intenso de um conceito verdadeiro e harmonioso não pode ser necessariamente mau. Infelizmente o que acontece é que... – se estivermos considerando esse aspecto em particular, você deve levar em consideração uma das coisas mais confusas que existem no cosmos, ou seja, o intelecto humano. O que acontece é o seguinte: há uma pequena porção de um conceito verdadeiro e harmonioso – ok. Depois desse conceito ter sido “dominado”, por assim dizer – se a as pessoas tiverem sido condicionadas a olhar para ele, elas usarão o seu grande, profundo e assim chamado valioso intelecto para penetrar, segundo crêem, mais e mais profundamente nesse determinado conceito, quando na realidade um domínio sobre ele num grau muito inferior seria suficiente. O próximo passo é estender e penetrar o conceito inteiro a partir de uma frente razoavelmente ampla – não uma frente exagerada, porque afinal, os conceitos estão ligados, e vão a várias direções, e é muito complicado. A mente humana é assim – encorajar as pessoas a se especializarem é bom até um determinado ponto, mas depois os seres humanos assumirão o comando e se especializarão em demasia, e ficarão especializados a ponto de sua participação se tornar tão refinada que eles não têm literalmente nenhuma oportunidade de exercitá-la. Vou dar um exemplo muito banal, mas essas coisas acontecem e lhe mostram. Eu tinha um gato que teve uma infecção nos olhos, então eu o levei ao veterinário. Como ele não sabia o que fazer receitou gotas disso e daquilo. Eu estive fora durante um mês e quando voltei, os olhos do gato estavam num péssimo estado, então telefonei a vários conhecidos para saber quem era a pessoa mais entendida em gatos – e eles me disseram fulano de tal. Eu levei o gato até a indicação e o mostrei a um sujeito, que me disse: “Ah, você quer ver o Professor Fulano de Tal...” E eu disse: “Certo, onde está ele?”, e eles me deram o seu número de telefone. Eu liguei e perguntei: “Posso falar com o sr. fulano de tal?” – “De que se trata?” – “É o meu gato”. E então o homem disse: “Eu sou o professor tal, e só lido com olhos de gatos”. E eu disse: “É exatamente o que eu preciso – olhos de gato” – “Sim”, disse ele, “mas qual é problema com os olhos do gato?” – “Pálpebras invertidas”, respondi, e ele disse: “Estarei aí em cinco minutos”. Então, passados não cinco, mas vinte minutos, ele chegou. Salivando de excitação, foi logo dizendo: “Eu tenho um livro que trata da inversão em olhos de gatos”. Era verdade – ele era o maior perito vivo nesse assunto, em que as pálpebras se invertem porque os músculos estão estirados, e quando o gato pisca, elas reviram – então é preciso operar os músculos e simplesmente apertar as pálpebras. Bem, ele era o maior perito do mundo e tinha um livro para prová-lo. Mais tarde ele operou o gato e tudo saiu perfeitamente bem. Agora, você poderia dizer que isso foi ótimo, que foi uma grande ajuda e muito útil para aquele gato em particular. Mas quando eu estava lá, o tal professor disse: “Sabe, foi bom que o seu gato não tenha quebrado uma perna ou algo assim, pois eu não saberia o que fazer”. Bem, o sujeito é um cirurgião veterinário, um professor de medicina veterinária, e diz que não poderia salvar a perna do gato – mas pálpebras invertidas – “Ah, maravilha!” Agora, como eu digo, este é um exemplo, um exemplo típico. Se você tomá-lo em relação à área intelectual – este é o padrão de pensamento: devemos ter peritos e especialistas em certas áreas – certamente. Mas há um ponto além do qual a especialização torna-se tão estreita que, primeiramente, as próprias áreas são freqüentemente esquecidas. Todo o treinamento que usam para chegar lá... Eles não têm a habilidade para exercitar essa técnica, ou sequer para ensiná-la. Assim, eles praticamente se liquidaram nesse ápice. Esse homem provavelmente está sentado ao lado do telefone esperando uma chamada para pálpebras invertidas, ao passo que ele poderia estar na rua tratando de pernas de gatos ou de outra coisa qualquer. Como eu digo, é um exemplo banal, porém é um exemplo de excesso de especialização em que a pessoa atinge o topo de sua carreira – tudo bem, no que concerne àquele gato, foi maravilhoso que uma tal pessoa existisse – mas ele poderia ter se ampliado um pouquinho mais, e ter sido capaz de ensinar. Assim, que todo esse palavrório realmente significa é que infelizmente, se você encorajar o intelecto humano, o sistema educacional, o ambiente cultural para investigar excessivamente certas áreas baseando-se em termos de referência que eles pegaram e refinaram mais e mais, isso não traz desenvolvimento do modo como nós o consideramos na Tradição. Desenvolvimento significa não apenas um foco mais restrito, mas um foco em diferentes níveis simultaneamente, passando de um para outro, ou utilizando dois ou três, do mesmo modo como, ao usar uma mão, a pessoa emprega vários músculos, tendões e outras coisas ao mesmo tempo. Certamente, é possível desenvolver um músculo de uma maneira especificamente difícil e deixar que os outros atrofiem. Isso não adianta muito – coisas como: “eu tenho o dedo indicador mais desenvolvido do mundo” – bem, isso é ótimo, mas como você descasca uma maçã? O que é melhor, descascar uma maçã ou desenvolver o dedo indicador? Esta é uma discussão em que as pessoas se envolvem o tempo todo.

Continua...

sábado, 25 de abril de 2009

CONDICIONAMENTO PARTE II




Afinal, as questões ligadas à arte ou ao gosto podem ser muito pessoais. Quer dizer, pessoalmente eu não gosto nem um pouco de alguns quadros impressionistas. Eu posso criticá-los do meu ponto de vista pessoal: eu não gosto da disposição, das cores utilizadas, das figuras, simplesmente não gosto deles – é uma coisa pessoal. Mas se um determinado artista tiver desenhado algo impressionista, se ele for um verdadeiro artista, um verdadeiro artesão, então ele tem o direito – depois de ter aprendido o básico necessário da pintura, do desenho ou do que for – de ampliar-se na área de sua escolha. Eu discordo, por exemplo, e o fiz com grande prazer, em Paris, há muitos anos atrás, - quando as pessoas pedalavam suas bicicletas em cima de telas de cores diferentes e rolavam sobre telas cobertas de tintas. Bem, com alguma relutância suponho que isso poderia ser chamado de arte, mas não creio que alguém fazendo isso possa realmente chamar-se de artista – ele pode ser um grande ginasta pintado rolando sobre telas cobertas de tinta. Eu não gosto de Picasso, por exemplo, mas sem dúvida ele era um excelente artista e artesão. O que ele quis desenhar depois de ter desenvolvido suas técnicas e o cubismo era um direito e um privilégio seu. Eu não estou me desviando do assunto. O que estou dizendo é que se eu detesto Picasso, esta é uma questão de gosto pessoal meu. Esta é uma área que permite discussões e as pessoas discutem ad infinitum sobre esse tipo de coisas, e não há nenhum mal nisso. Quero dizer, “não preste nenhuma atenção nele, ele é um tradicionalista”. Sim, eu gosto das coisas tradicionais. Mas discutir sobre a escansão de uma poesia ou algo do gênero é perfeitamente viável, perfeitamente razoável. Ao tomar posições muito arraigadas baseado em certos valores fundamentais – você não faz concessões nesses princípios, está certo, mas você pode ter flexibilidade. Há uma diferença entre ser flexível e vaguear sem destino – o que eu chamo de uma ‘atitude de borboleta’, esvoaçando de flor em flor. Em geral, um dos meus maiores inimigos no mundo é o condicionamento, porque ele pressupõe, na minha experiência, força que foi imposta sobre um indivíduo, um grupo, uma sociedade ou um país – seja força política, força intelectual, econômica ou de outro tipo – que muito freqüentemente os pressionou a desenvolver uma atitude comum, uma reação comum a certas coisas. Há áreas em que, a fim de expressar-se adequadamente, ajustar-se, na medida do possível, adequadamente, e desenvolver-se adequadamente de uma maneira harmoniosa, o ser humano deve ter liberdade. Liberdade não é licenciosidade. A linha entre os dois tornou-se cada vez mais turva. “Eu posso dizer o que quiser, pois sou um homem livre, esta é uma democracia, e isto é liberdade” – não. Você não pode dizer o que quiser se isso perturbar, amedrontar, ou ofender outra pessoa. Não se trata apenas de uma descortesia. É licenciosidade: é violação da liberdade alheia. Nós temos as artes liberais, incluindo a poesia e o teatro, e você pode escrever uma peça que poderia ser considerada obscena ou pornográfica pela média, este não é o exercício correto da liberdade. Isto não é um ponto de vista atrasado, antiquado, ortodoxo. Qualquer violação da liberdade alheia representa uma ofensa à sua própria tão falada “liberdade”.
Quando falo da liberdade de um desenvolvimento harmônico, esta liberdade também é limitada. É limitada pela sua responsabilidade, pela responsabilidade de um povo, de um país, ou pela responsabilidade universal. O que eles querem conseguir? Qual é a sua definição de liberdade? Quais são os termos de referência que utilizam? E quais as verdades nas quais se apóiam? Se estas coisas forem definidas em função do indivíduo ou da comunidade, se elas forem definidas constante e regularmente, elas não adquirem as acrescencias, cracas, ferrugens e tudo mais que obscurece a sua verdadeira natureza. Este é um aspecto da verdade “verde” ou da verdade “azul” – certo. A sua cor é quase irrelevante. A sua base é, digamos, uma verdade em diferentes circunstâncias. Pode aparecer sob formas, cores, sentidos, significados ou qualidades diferentes – mas a base é imutável. Assim, o que tem isso a ver com condicionamento?



Continua...

sexta-feira, 24 de abril de 2009

CONDICIONAMENTO



Omar Ali Shah

Tradução:Beatriz Telles Rudge

As pessoas são condicionadas a reagir. Às vezes elas não param para pensar: “Será que eu deveria dar esse telefonema? Eu preciso telefonar? Para quem?” O que elas estão fazendo é reagir à palavra impressa – Saiu nos jornais, deve ser verdade”, ou “Eu vi na televisão”, ou ainda: “Meu comentarista favorito disse isso, portanto eu devo fazê-lo”. As pessoas são condicionadas desde o seu tempo de criança; elas são doutrinadas, num grau maior ou menor, do ponto de vista do nacionalismo, da religião, da política e de outras coisas. Como eu já disse, uma certa quantidade de pensamentos ou atitudes condicionadas é perfeitamente razoável. A pessoa deveria e deve crescer e aprender ou entender qual é a sua nacionalidade, ou aquela na qual acredita, o seu status social, a sua história familiar – eles devem ter certos termos de referência, certos pontos de vista. Mas além de um determinado ponto, eles precisam aprender, e deveriam ser ajudados e ensinados a desenvolver termos de referência próprios, a adquirir pontos de vista válidos próprios, a ter certos valores próprios. Quando eu digo que eles precisam ser ensinados, isso não significa que tenham que ser condicionados no sentido de que aprendam através da repetição, maquinalmente, ou seja, que precisem escutar diversas vezes a mesma coisa até que aprendam. O ensinamento significa tornar-lhes disponíveis informações de todos os tipos, de forma que possam lê-las, entendê-las, associá-las com eles próprios, e considerá-las sólidas. Isso não acontece imediatamente – não acontece em nenhuma idade específica, não depende do grau de inteligência ou de instrução da pessoa. É uma coisa constante, que se desenvolve o tempo todo: pontos de vista, termos de referência e outras coisas buscadas em valores significativos. As pessoas podem ser ajudadas a desenvolver esses pontos de vista, atitudes e compreensão por meio da explicação – não necessariamente por interpolação ou interpretação. Uma certa quantidade de interpretação sempre entra nas explicações. Qualquer explicação que você receba de alguém sobre alguma coisa – qualquer coisa – contém um certo caráter subjetivo. Se você perguntar a dez pessoas o que elas acham de um determinado tapete, provavelmente você obterá dez pontos de vista diferentes. Um deles poderia ser: “Nós vimos o tapete e a sua cor era horrível”. Esta pode ser uma avaliação subjetiva porque elas não gostaram daquela cor particular. Se você tomar essa interpretação e então disser que aquele tapete é horrível, como são horríveis todos os tapetes iguais àquele – que pode ser Herari, um Tabriz, ou algo, dado que eles têm cores em comum – você não foi condicionado apenas por aquela frase, pois o condicionamento na verdade leva muito mais tempo. Porém nessa pequena área, da apreciação do Herari ou de outros tapetes, você passa a considerá-los terríveis – “porque quando perguntei a alguém ‘que eu conheço’ – ou ‘em cuja opinião eu confio’, ou ‘em cujo discernimento eu me apoio’, o que ele achava do tapete, ele respondeu: “É horrível”’. Assim, isso passa a ser um termo de referência. Isso não quer dizer que você precisa examinar, experimentar, analisar e duvidar automaticamente de todas as explicações ou opiniões alheias. A pessoa tem, pode ter e deveria ser encorajada a ter uma certa quantidade de discussão sobre certas coisas...


Continua...

quarta-feira, 22 de abril de 2009

REFLEXÕES DE UMA ALIENIGENA SOBRE O ESTRANHO COMPORTAMENTO DOS SERES HUMANOS PARTE... E AMANHECI DE LUA, DÁ LICENÇA... ALIEN TAMBÉM TEM ESSE DIREITO..



Houve um tempo em que até fazia questão da companhia de outros humanos, nem que fosse pra passar o desassossego da solidão no balanço das horas, em longas conversas “sérias”, ou somente um bate-papo furado, com pessoas de verdade, nada de muito ousado... simples trocas de ideias, jogadas, descartadas, rapidamente deixadas de lado... Houve um tempo em que a gentileza de um sorriso, um olá, um agrado e um gesto desinteressado de amizade, daqui e acolá, me deixavam contente e com boa disposição para com toda gente... Mas, agora, reconheço, sem querer generalizar, na minha esfera de circunferência (conceito matemático... estarei sendo redundante... Hum! Provavelmente...) tirando uns e outros, tanto fez tanto faz, pouco se me apetece tal convivência ou a troca de gestos largos, amigáveis, gentis, espontâneos ou programados, estudados, friamente calculados nesta minha difícil missão sobre a Terra... Um mundo louco, palco de delírios, onde se vive um teatro, cujas armadilhas, infelizmente, muitas vezes (como qualquer armadilha bem ou mal camuflada) são tardiamente percebidas, lhes põem em cheque o amor e o equilíbrio... vão na corda bamba, feito “o bêbado e a equilibrista” e assim, banalizadas as emoções, os sentimentos, mantêm-se todos à superfície de tudo... Amores, amizades como dizia Allan Poe em seu poema O Corvo, “tudo se vai”... A mente humana não é estável, nem confiável as pessoas possuem humores variáveis e confundem “alhos com bugalhos” e pouco importa a idade... são tantos desencontros por coisas tolas, bobas, banais que a desistência de tentar me manter humano é quase iminente, uma verdadeira tentação... Enfim, porque não entregar de vez os pontos e ser como todos são? Esse algo indecifrável, enigmático, francamente acomodado e problemático... Não posso... apesar de tudo, gosto da minha posição de Alien em expansão e um Alien em expansão como eu, digo isso de coração aberto, sem arrogância ou falsa modéstia, é um Alien em expansão e nunca deixará de ser, sinto muito, um Alien da minha estirpe não pode desenvoluir (usei de um neologismo, eu sei)  e portanto, não vejo as coisas por este ângulo... Não, não estou amarga,  talvez decepcionada... porém, faço o que devo fazer e constatado o fato, e sempre surge um item a mais, o anoto no extenso relatório sobre a confusa, frágil estabilidade das relações humanas... É a minha função, o meu trabalho, afinal estou aqui para aprender. Ponto final. Na verdade, mais que decepcionante, tais atitudes, chegam a ser tragicamente engraçadas... Hoje eles conhecem e amam intensamente; amanhã odeiam e esquecem, ou então, simplesmente, tudo lhes é indiferente... “Normal” dizem eles (tudo lhes parece absolutamente normal e deve ser, em se tratando desses seres estranhos seres... Sem dúvida, são coisas da tal personalidade cambiante e manipulável, que neles age, atua conforme as fases da lua...
        

terça-feira, 21 de abril de 2009

TRISTESSE


Que passa, pequenina Estela,

Que nada de te alegra...

Nem o vôo longo do pássaro,

Nem o gato que no tapete desperta

Sossega meu amor

Não dê asas ao dissabor...

O céu é um campo estrelado

A lua branca se espelha no lago...

Anima-te, menina!

Não te apresses em cedo deitar nos braços da dor,

pois logo será tarde e o tempo não espera...

Levanta, e sacode o sono, pequenina Estela

segunda-feira, 20 de abril de 2009

PALEOLITISMO PSIQUICO E ALTA TECNOLOGIA


Hakim Bey

Só porque a AAO (Associação para a Anarquia Ontológica) fala de “paleolitismo” o tempo todo, não fique com a impressão de que queremos nos mandar de volta à Idade da Pedra.
Não temos o menor interesse em “voltar à terra natal”, se o pacote de viagem incluir a entediante vida de camponês chutador-de-bosta – nem queremos o “tribalismo”, se ele vier com tabus, fetiches e má-alimentacão. Não temos nada contra o conceito de
cultura – incluindo a tecnologia; para nós, o problema começa com a civilização.
O que gostamos da vida no Paleolítico foi resumido pela escola de antropologia dos povos sem autoridade: a elegante preguiça da sociedade do caçador/coletor, o trabalho de duas horas por dia, a obsessão pela arte, dança, poesia e afetividade, a “democratização” do “xamanismo”, a cultivação da percepção – em suma, a cultura.
O que nós detestamos na civilização pode ser deduzido da seguinte progressão: a “revolução agrícola”; a emergência das castas; a cidade e seu culto do controle hierático (“Babilônia”); escravidão; dogma; imperialismo (“Roma”). A supressão da sexualidade no “trabalho”sob a égide da ”autoridade”. "O Império nunca terminou.”
Um
paleolitismo psíquico, baseado na Alta Tecnologia – pós-agrícola, pós-industrial, “Trabalho-Zero”, nômade (ou “Cosmopolita Desenraizado”) – uma Sociedade de Paradigma do Quantum – essa constitui uma visão ideal do futuro segundo a Teoria do Caos e a "futurologia” (no sentido que Robert Anton Wilson e T. Leary dão para o termo).
Quanto ao presente: rejeitamos todo tipo de colaboração com a civilização da Anorexia e da Bulimia, com pessoas tão envergonhadas de nunca terem sofrido que inventam máscaras penitentes para si mesmas e para os outros – ou aqueles que empanturram-se sem compaixão e depois despejam o vômito de sua culpa suprimida em grandes acessos masoquistas de exercícios e dietas. Todos os
nossos prazeres e autodisciplina nos pertencem por natureza – nunca nos negamos, nunca desistimos de nada; mas algumas coisas desistiram de nós e nos deixaram, porque somos muito grandes para elas. Sou ao mesmo tempo o homem da caverna, o mutante das estrelas, o seu conterrâneo e o príncipe livre.
Uma vez um chefe indígena foi convidado para um banquete na Casa Branca. À medida que a comida era servida, o chefe encheu seu prato ao máximo possível, não apenas uma, mas três vezes. Enfim, o branquelo sentado ao seu lado disse: "Chefe, he, he, he, você não acha que é um pouco demais? Uh”, disse o chefe, "um pouco demais é
perfeito para o Chefe!”
No entanto, certas doutrinas da "futurologia” continuam problemáticas. Por exemplo, mesmo que aceitemos o potencial libertador das novas tecnologias como a TV, os computadores, a robótica, a exploração espacial etc., ainda percebemos uma grande distância entre potencial e realidade. A banalização da TV, a burguesificação dos computadores e a militarização do espaço sugerem que essas tecnologias, por si só, não oferecem qualquer garantia “especıfica” para seu uso libertário.
Mesmo se rejeitarmos o holocausto nuclear como apenas mais uma diversão espetacular orquestrada para distrair nossa atenção dos problemas reais, devemos admitir que a “Inevitável Destruição Mútua” e a "Guerra Pura” tendem a diminuir nosso entusiasmo por alguns aspectos da aventura da Alta Tecnologia. A Anarquia Ontológica mantêm sua afeição pelo luditismo como tática: se uma dada tecnologia, não importa o quão admirável em termos de potencial (no futuro), é usada para oprimir-me aqui e agora, então eu devo ou empunhar a arma da sabotagem, ou dominar os meios de produção (ou, talvez mais importante, os meios de comunicação). Não há humanidade sem
téchne – mas não há téchne mais valiosa do que minha humanidade.
Desprezamos o anarquismo panaca e antitecnológico – pelo menos, para nós (há aqueles que dizem que gostam da vida do campo) – e rejeitamos também o conceito de uma fixação tecnológica. Para nós, todas as formas de determinismo são igualmente insípidas – não somos escravos nem de nossos genes nem de nossas máquinas. O que é ”natural” é aquilo que
imaginamos e criamos. ”A Natureza não tem leis – apenas hábitos.”
Para nós, a vida não pertence nem ao passado – a terra dos famosos fantasmas amontoando seus bens maculados pela cova – nem ao futuro, cujos cidadãos mutantes com cérebro em forma de bulbo guardam com zelo os segredos da imortalidade, do vôo mais rápido que a velocidade da luz, dos genes desenhados artificialmente e do encolhimento do Estado.
Aut nunc aut nihil. Todo momento contem uma eternidade a ser penetrada – no entanto, nos perdemos em visões assimiladas através dos olhos de cadáveres, ou na nostalgia por uma perfeição ainda não-nascida.
As realizações dos meus ancestrais e descendentes não são, para mim, nada mais do que um conto instrutivo e interessante – eu jamais os verei como superiores, mesmo para desculpar minha própria pequenez. Mandarei imprimir para mim mesmo uma licença para roubar deles tudo o que eu quiser – paleolitismo psíquico ou alta-tecnologia – ou, que seja, os belos detritos da própria civilização, os segredos dos Mestres Ocultos, os prazeres da nobreza frívola e
la vie
boheme.
La decadance.
Pelo contrário, Nietzsche, não obstante, possui um papel tão profundo na Anarquia Ontológica quanto a saúde – cada um toma o que quiser do outro. Estetas decadentes não travam guerras estúpidas nem submergem sua consciência no ressentimento e na ganância microcefálicos. Eles buscam aventura na inovação artística e na sexualidade não-ordinária, ao invés de buscá-la na desgraça alheia. A AAO admira e emula sua indolência, seu desdém pela estupidez e normalidade, sua expropriação das sensibilidades aristocráticas. Para nós, essas qualidades harmonizam-se paradoxalmente com aquelas da Idade da Pedra e sua abundante saúde, ignorância de qualquer hierarquia, cultivo da virtu ao invés da Lei. Exigimos decadência sem doença, e saúde sem tédio!
Assim, a AAO oferece apoio incondicional para todos os povos nativos e tribais em sua luta por completa autonomia – e, ao mesmo tempo, para todas as especulações e exigências mais doidas e fora da realidade dos futurologistas. O paleolitismo do futuro (que, para nós, mutantes, já existe) será alcançado em grande escala apenas através de uma massiva tecnologia da Imaginação, e de um paradigma científico que vá além da mecânica quântica, para o reino da Teoria do Caos e das alucinações da ficção especulativa.
Como cosmopolitas desenraizados, reivindicamos todas as belezas do passado, do oriente, das sociedades tribais – tudo isso deve e pode ser nosso, mesmo os tesouros do Império: nosso para compartilharmos. E, ao mesmo tempo, exigimos uma tecnologia que transcenda a agricultura, a indústria, a simultaneidade da eletricidade, um hardware que faça a intersecção com o aparelho vivo da consciência, que abrace o poder dos quarks, das partículas viajando no tempo, do quasares e dos universos paralelos.
Cada ideólogo enfurecido do anarquismo e do libertarismo prescreve alguma utopia análoga aos vários tipos de visão que têm, da comuna camponesa à cidade espacial.
Nós dizemos, deixemos que um milhão de flores se abram – sem nenhum jardineiro para arrancar ervas daninhas e proibir brincadeiras de acordo com algum esquema moralizante ou eugenista. O único conflito verdadeiro é entre a autoridade do tirano e a autoridade do ser realizado – todo o resto é ilusão, projeção psicológica, verborragia.
Num certo sentido, os filhos e filhas de Gaia nunca deixaram o paleolítico; noutro, todas as perfeições do futuro já são nossas. Apenas a insurreição “resolverá” esse paradoxo – apenas o levante contra a falsa consciência tanto em nós mesmos quanto nos outros vai varrer a tecnologia da opressão e a pobreza do Espetáculo. Nessa batalha, uma máscara pintada ou o chocalho de um xamã podem vir a ser vitais para a captura de um satélite de comunicações ou de uma rede secreta de computadores.
Nosso único critério de julgar uma arma ou uma ferramenta é sua beleza. Os meios já são os fins, de certo modo, a insurreição já é nossa aventura; Tornar-se É Ser. Passado e futuro existem dentro de nós e para nós, alfa e ômega . Não existem outros deuses antes ou depois de nós. Estamos livres no TEMPO – e estaremos livres no ESPAÇO também.

(Nossos agradecimentos a Hagbard Celine, o sábio de Howth e redondezas.)

Revisado por Bruno Cardoso

sábado, 4 de abril de 2009

PEDRO MENTESIMPLES



Conto de tradição oral
Reconto/ Virginia Allan

E haveria alguém, lá em terrinha de meu Deus, que não conhecesse Pedro Mentesimples? Homem bom, bonzinho mesmo, estava ali, correto em seus sentimentos, honesto a mais não poder. Nunca, nunquinha, nunca em toda a sua vida, havia tirado vantagens das desvantagens dos outros, isto é, “não passava a perna” como diriam uns ou “não puxava o tapete” como diriam outros, em/de ninguém. Como disse era um homem bonzinho, amável e muito trabalhador, mas, que, apesar de, ou vai ver, até por isso, ainda não havia tido sorte alguma na vida. Era sozinho no mundo. Não tinha família, nem sequer bicho de estimação. Por ser assim desse jeito, Pedro Mentesimples era sempre, esculachado; traído, explorado, mas isso não lhe martelava o pensamento o tempo todo, não, porque sabia, e nisso estava certo, que a maldade dos outros não poderia manchar a sua própria honestidade... Mas, apesar de tudo, bem no fundo de si mesmo, Pedro Mentesimples não estava lá muito contente e às vezes, ele perguntava o “por quê” da existência? Por quais motivos estávamos aqui nesse mundo, alguns rindo, outros chorando. Como tratar de fazer as coisas ou como deixar simplesmente que elas acontecessem, se ele tampouco sabia qual era, ou seria, a sua sina? Se fizesse algo que lhe fosse contrário, sofreria do mesmo jeito, já que sua sina não mudaria. Se, por outro lado, não fizesse nada, sua sina se encolheria e certamente não teria nela nada de interessante, seria qual e tal a sina de montes e montes de gente por aí, que viviam vidas comuns, sem qualquer relevância. Não queria isso para si. Devia começar, desde já, a pensar num modo de mudar de vida. E Pedro Mentesimples, pensava, pensava, pensava... pensava mais um tanto e não chegava a uma conclusão. A cabeça pesava e lhe doía de tanto que pensava. Homens iguais a Pedro Mentesimples já existiram antes e mesmo depois dele, homens assim continuarão a existir. É sina mal desenhada de quem não tem olhos para ver, nem ouvidos para ouvir.
Pedro Mentesimples danava a falar quando encontrava com alguém sobre como precisava rapidamente mudar de vida e melhorar sua sina. Estava cansado das faltas de oportunidades e de como nada para ele dava certo, embora não duvidasse da justiça divina que tarda, mas nunca falha. Foram anos a fio a só fazer o certo e o bem.

Com o passar do tempo, as pessoas passaram a lhe evitar, fugindo de seus reclamos assim como o diabo fugia da cruz. Mal viam Pedro Mentesimples se aproximando, quem estava por perto, dava uma desculpa e ó, ia embora estrada afora. Contudo, Pedro Mentesimples seguia com seu jeito de ser, sendo generoso e gentil até o mais não poder de suas forças; vivendo para fazer o bem, confiante na justiça que tais atos deveriam vir a somar ao longo do tempo, pois, convenceu-se que desse jeito é que haveria de ser. Mas, isso já havia dito antes, e volto a repetir agora, no fundo de si mesmo, Pedro Mentesimples não estava tranqüilo, de modo que achou por bem procurar um homem que vivia por ali mesmo, naquelas bandas da pacata cidadezinha em que morava; tido por todos na conta de sábio, a fim de saber o que deveria fazer, e, como não tinha satisfações a dar a ninguém, foi ao seu encontro.
O sábio era um homem já velho; altivo como um pé de palmeira, bonito, pouco judiado pelo tempo... ele, um dos mistérios daquele lugar, posto que ninguém sabia dizer com exatidão quem era, de onde viera e nem porque resolvera pousar ali. O fato, público e notório, é que era bastante popular procurado pelos aflitos, indecisos e confusos a mor de dar conselhos e tão bom naquilo que fazia que o sujeito parecia exatinho adivinhar cada pensamento ou intenção, vasculhando com seus olhos miúdos e cansados, cada mente e cada coração e por isso, por causa desses poderes estranhos, era, por todos respeitado e até um tanto temido; apesar de sua humilde aparência e franco bom humor.
Pedro Mentesimples sentiu-se à vontade diante desse homem e apresentou sua queixa.    
Após ouvi-lo, o velho homem lhe disse: “Filho, filho, a honestidade, o trabalho duro, a amabilidade, saiba que todas estas coisas são da maior importância para todos, se quiseres mesmo te sentir realizado; mas, deves antes de tudo estares certo de que és honesto de verdade; de que não estás a provocar um desequilíbrio entre a tua generosidade - esta, desde já, posta numa condição dificultosa, e temo que em alguma circunstância possa vir a te danar - e a obstinação em seguir tuas próprias opiniões sobre teu modo de ser e agir”.    
O velho sábio então, ofereceu-lhe um meio em que pudesse observar-se e desse modo, observando-se, corrigir-se. Porém Pedro Mentesimples não gostou nada de ouvir sua generosidade tachada de teimosia e chegou à conclusão, é claro, de que o velho homem estava errado, só podia estar errado...
Decidiu, assim, viajar até a um povoado vizinho a fim de ver e se consultar com um outro homem, ainda mais sábio e respeitado do que o primeiro; um grande santo. Talvez, ele lhe aconselhasse mais corretamente, quem sabe até lhe desse uma fórmula mágica, sobre não só como mudar a sua sorte, mas como também renovar suas esperanças em uma fonte de confiança que nasce dentro do espírito das gentes.
Com essas idéias fervilhando na cabeça, e como o povoado não fosse tão longe, Pedro Mentesimples, que não gostava de incomodar, e em casa “não tinha um pinto pra dar água”, sem dizer nada a ninguém, colocou algumas roupas dentro de uma mochila e dispensando qualquer outro tipo de condução, se pôs a caminho... 
Andou, andou e andou... Andou mais um tanto... 
Depois de um tempo, cansado de tanto andar, Pedro Mentesimples parou na orla de um bosque para descansar e comer o que tinha trazido consigo, mas eis que de repente, leva um tremendo susto... Deus do céu... é que bem ali, bem pertinho dele uma onça, de aspecto feroz, revolvia-se no solo, rolando de um lado para o outro e que parou tão pronto o viu a sua frente. 
Pedro Mentesimples, assustado, tremendo feito vara verde, achou que havia chegado o seu fim. 
A bicha olhou-o de cima abaixo por uns instantes e então, maliciosamente, lhe disse: “Grr.. grr... Filho do homem, aonde pensas que vai?”. 
Pedro Mentesimples, embora assustado, atentou para o fato de que falava com uma onça, mas controlando-se um pouco, respondeu: “Ai, senhora dona onça... A desventura há muito tempo, tem sido minha sina. Curioso em saber o por que das coisas acontecerem assim em minha vida, consultei um sábio que não me deu uma resposta satisfatória. Então, para acalmar este meu tormento, deixei minha casa e sai numa viagem de descoberta em busca de um outro santo, que mora num povoado um pouco mais distante. Sinto a incerteza do futuro; e, se for preciso, implorarei ao santinho por um conselho que possa mudar a minha situação. Vinha eu pelo cainho, tão distraído em meus pensamentos quando topei com a senhora”. 
“Que história interessante... Grr...grr.. Veja, eu sou uma onça voraz”, disse o animal selvagem, “mas, já que vais ao encontro do santo, faça-me um favor? Grr... grr... Não ando me sentindo bem... também preciso de um conselho. Pergunta a ele o que posso fazer para melhorar minha própria condição, pois, às vezes, me sinto tão miserável e de tão mau-humor...” 
Pedro Mentesimples sentiu-se tão agradecido por não ter sido comido pela onça. e se ela só queria um favor, que pensou e “por que não?”: “Está bem, senhora dona onça voraz,” disse ele com a maior boa vontade, “transmitirei sua mensagem ao sábio com muito gosto”.
Assim, Pedro Mentesimples, agora mais tranqüilo, acabou de comer, levantou-se, despediu-se da onça, retomando seu caminho.
Andou, andou, andou... Andou mais tanto. Não demorou chegou às margens de um rio e viu uma cobra enorme, com uma barriga maior ainda, meio enrolada num galho, meio dentro meio fora da água, abrindo e fechando a boca, tossindo desesperadamente, mas, que ao vê-lo, exclamou: “Aonde vais, cof, cof... filho do homem? Aproxima-te um instante. Não tenhas medo... Nenhum mal te farei... estou tão doente...”
Pedro Mentesimples se aproximou e acocorando-se à beira do rio contou a cobra tudo o que, até ali, tinha lhe sucedido: “Curioso em saber o porque das coisas em minha vida acontecerem de uma forma que não me agradava, consultei um sábio que não me deu uma resposta satisfatória. Então, deixei minha casa e sai numa viagem de descoberta em busca de um outro santo, que mora num povoado um pouco mais distante. Vinha eu em meu caminho, quando, de repente deparei-me com uma onça...”      
“Que história interessante...” Disse a cobra, bastante interessada. “Veja o meu caso... Eu sou uma grande e bela cobra d’água, mas por algum motivo que escapa ao meu entendimento, não posso nadar; algo em mim não está bem. Preciso de ajuda... Por favor, já que vais ao encontro do santo, pede a ele um conselho para que eu possa resolver o meu problema”.
Pedro Mentesimples compadeceu-se da cobra e com a maior boa vontade do mundo, prometeu ajudá-la como antes havia prometido a onça, e, serelepe, continuou sua jornada.
Andou, andou e andou... Andou mais um tanto e aí chegou a um belo campo verdejante, onde em meio à arvores frondosas saltava aos olhos uma velha árvore, de tronco descascado e galhos secos e retorcidos.
“Ai... ai ...” gemia a árvore, “alguém me ajude”. Foi então que viu Pedro Mentesimples e perguntou-lhe: “Aonde vais, filho do homem?”
Pedro Mentesimples ouviu o apelo da árvore e aproximando-se, contou-lhe tudo o que lhe tinha acontecido até ali: “Curioso em saber o porque das coisas em minha vida acontecerem de uma forma que não me agradava, consultei um sábio que não me deu uma resposta satisfatória. Então, deixei minha casa e sai numa viagem de descoberta em busca de um outro santo, que mora num povoado um pouco mais distante. Vinha eu em meu caminho, quando, de repente topei com uma onça voraz, em seguida com uma cobra, meio enrolada num galho, meio dentro, meio fora da água... ”
“Que história interessante”.... disse a árvore. “Já que vais em busca do homem santo vê se ele não tem um conselho para mim? Há dias que não me sinto bem. Estou perdendo minhas folhas e minhas raízes estão frouxas”.
Pedro Mentesimples compadeceu-se da árvore e com a maior boa vontade do mundo, prometeu ajudá-la, como antes havia prometido a cobra e a onça.
Pedro Mentesimples continuou sua jornada. Andou, andou, andou... andou mais um tanto. Eis que chega a um terreno árido; castigado pelo sol, onde três homens, cansados, escavavam arduamente. Detendo-se diante deles, Pedro Mentesimples perguntou: "Olá, amigos... dia quente, não?! Por que se cansam ao escavar uma terra tão pouco promissora?".
"Dia... viajante... Está mesmo um dia muito quente". Disse o primeiro homem, puxando um lenço do bolso da calça e enxugando o suor do rosto.
"Muito, muito quente!” Disse o segundo dos homens, tirando o chapéu de palha da cabeça e abanando-se.
"Muito, muito, muito quente!” Disse o terceiro homem, arregaçando a camisa e apoiando-se, distraidamente, no cabo da enxada.
“Nós somos os três filhos de um homem muito bom, falecido recentemente”. Respondeu o irmão mais velho.
“Muito, muito bom!” Disse o irmão do meio.
“Muito, muito, muito bom!” Disse o irmão mais novo.
“Nosso querido pai deixou-nos por herança esta terra, pedindo que a escavássemos e é isso que estamos fazendo, cumprindo sua última vontade. Mas, puxa, é um trabalho vão, pois como vês, é tão pobre esta terra que nela, nada crescerá. Aquela foi a única árvore que restou, porém está tão fraca, descascada e feia, que nem desfrutar de sua sombra podemos. É vida dura...”
“Muito, muito dura!” Repetiu o segundo irmão.
“Muito, muito, muito dura!” Repetiu o terceiro irmão. 
E tu, viajante, para onde vais? Qual a tua missão?” Perguntou o primeiro dos três irmãos.
“É mesmo, viajante, aonde vais com tanta pressa? Qual a tua tarefa?” Perguntou o segundo dos três irmão.
“Diz lá, viajante, qual a tua prova, para saíres de casa em tão longa caminhada?” Perguntou o terceiro dos três irmãos.    
E Pedro Mentesimples contou, novamente, toda a sua história: “Curioso em saber o por quê das coisas em minha vida acontecerem de uma forma que não me agradava, consultei um sábio que não me deu uma resposta satisfatória. Então, deixei minha casa e sai numa viagem de descoberta em busca de um outro santo, que mora num povoado um pouco mais distante. Vinha eu em meu caminho, quando, de repente topei com uma onça voraz, em seguida com uma cobra, meio enrolada num galho, meio dentro, meio fora da água e logo depois com uma árvore de galhos secos e tronco descascado...”
“Que história interessante...” Disse o primeiro dos irmãos.
“Muito, muito interessante...” Disse o segundo dos irmãos.       
“Muito, muito, muito interessante...” Disse o terceiro dos três irmãos.
Assim, ao saberem para onde Pedro Mentesimples se dirigia lhe suplicaram também que pedisse por eles ao santo.
Pedro Mentesimples, com muita boa vontade; prometeu-lhes ajudar, como antes havia prometido à árvore, a cobra e a onça. Mais uma vez, lá ele se foi no rasto do vento.
Andou, andou e andou... Andou mais um tanto. Cansou-se outra vez. O povoado era perto, mas não parecia tão perto assim. Para seu alivio; viu uma casinha toda bonitinha, de portas e janelas pintadas de azul e enfeitadas com flores, que parecia lhe sorrir. Contente, foi em direção a moça que estava à janela. Ele pediu abrigo e ela se dispôs a abrigá-lo, feliz, depois de tanto tempo, em receber uma visita. Levou-o a cozinha, pediu que sentasse. Arrumou a mesa; serviu-lhe bolo, café com leite e outras gostosuras que havia preparado.
Pedro Mentesimples se sentiu muito bem, como nunca tinha se sentido antes. Então, ela, curiosa, pois pouca gente passava por ali, perguntou-lhe: “Filho do homem, aonde vais?” Conversa vai; conversa vem e ele contou toda a sua história e do seu encontro com a onça, com a cobra, com a árvore, com os três irmãos e das promessas que lhes havia feito. Assim que ela soube aonde ele ia, disse-lhe: “Embora eu tenha uma boa vida aqui neste meu canto, às vezes, me sinto muito só. Pergunta ao sábio se ele não tem um conselho para mim?”.
Pedro Mentesimples prometeu perguntar, como antes tinha prometido aos três irmãos; a árvore, a cobra d’água e a onça feroz. Finalmente, Pedro Mentesimples chegou ao seu destino. Não tardou em achar a casa do santo que se encontrava sentado, como sempre, modestamente e sem ostentação, com um pequeno grupo de gente que tinha acorrido ali a fim de ouvir e aprender suas lições. Pedro Mentesimples se aproximou e o santo pediu que falasse. Ele, sem pestanejar, obedeceu e disse: “A benção meu santinho! Mas que posso eu dizer ou perguntar?! Diga-me que eu, com certeza, poderei reconhecer minha fortuna, já que é bem sabido que o destino de uma pessoa é somente a própria imagem de si mesma e, sendo assim, acho que posso reconhecer alguém que se pareça a mim, tal qual se olhasse num espelho”.
“Não te enganes. Uma imagem de ti mesmo não precisa se parecer contigo feito alguém de carne e osso”. Disse o homem santo. “Todo mundo, e tu também, possui tantas partes que se torna difícil ver a si mesmo refletido, como num espelho, em todas as suas formas. Deves ter cuidado para não seres engolido pela fera da ignorância. A quê vieste meu filho, que conselhos vieste pedir e que conselhos posso te dar?”.
“Meu nome é Pedro e venho aqui em busca de tua ajuda sim, mas antes de pedir para mim, quero pedir em nome de uma moça, três homens; uma árvore, uma cobra e uma onça, para que estenda também a eles a tua bondade e sabedoria”.
O santo balançou a cabeça, concordando, e Pedro Mentesimples contou toda a sua história e tudo o que lhe havia sucedido até aquele momento, falando, sobretudo, das dificuldades pelas quais passavam a moça, os três homens, a cobra e a onça. Depois de ouvi-lo, o santo deu os devidos conselhos e para finalizar, disse: “Meu filho, a tua resposta, aquela ao qual tanto anseias a modo de resolver as questões de tua vida, está contida em tudo isso que já te foi dito”.
Pedro Mentesimples então, despediu-se do santo e volveu sobres seus próprios passos, tentando encontrar entre tudo o que o santo havia dito, a chave da compreensão que o ajudaria a reconhecer o seu próprio destino.
Andou, andou, andou... andou mais um tanto. No tempo determinado, chegou à casinha pintada de azul, enfeitada com flores, onde morava a bela moça.
A moça ficou tão feliz em vê-lo de volta... Convidou-o a entrar e sentar. Outra vez arrumou a mesa, colocando nela vários tipos de guloseimas. Eles comeram e conversaram e Pedro Mentesimples pensou que nunca em sua vida havia se sentido tão bem. A moça, com olhos brilhando, finalmente perguntou: “Então... viste o homem santo? O que ele te disse? Tinha ele um conselho para mim?”.
"Sim” respondeu Pedro Mentesimples, contente em poder ajudar. “Ele disse que às vezes, você se sente infeliz por viver na mais completa solidão. Tens que encontrar uma companhia e se assim o fizer hás de viver feliz, por muito e muitos anos”.
A moça ficou tão ou mais vermelha do que a rosa vermelha do pé de roseira de seu jardim que crescia perto da cerca, mas mesmo assim, cheia de vergonha, olhou para Pedro e perguntou: “Não queres tu ficar aqui comigo? És um homem bom e atencioso e certamente seriamos felizes”.
“Há moça, creia-me, se pudesse ficar... ficaria... mas procuro respostas que me ajudarão a entender minha vida. Não posso ficar parado, quieto a um canto, só comendo e bebendo e jogando conversa fora como se nada tivesse a fazer, mesmo sendo com você, bela e agradável companhia. Deves, desde já, procurar outra pessoa. Hás de encontrar. Adeus”.
E Pedro Mentesimples deixou a moça e seguiu seu caminho. Muito atento, olhando para todos os lados, a ver se encontrava a cópia de si mesmo que lhe mostraria o seu destino e lhe faria entender afinal a finalidade de sua vida.
Andou, andou, andou... andou mais um tanto e logo chegou ao campo ressequido onde se encontravam os três irmãos, cabisbaixos, ainda ocupados em sua peleja.
“Arre, manos, se não o viajante de volta?” Disse o mais velho dos três irmãos.
“E num é que é ele mesmo?” Disse o irmão do meio.
“É ele sim... vivinho e inteirinho da silva!”. Disse o mais novo dos três irmãos.
Pedro Mentesimples se aproximou, parando em frente dos três homens.
“Dia, viajante... Então? Encontraste o santo? Tinha ele um bom conselho a nos dar?” Perguntou o primeiro irmão.
“Diga lá, amigo viajante... tinha o santinho um conselho bom, bom mesmo a nos dar?” Repetiu o segundo irmão
“Tinha lá o santinho um conselho porreta, um conselho daqueles, danado de bom, bom mesmo, bom a mais não poder a nos dar?” Disse o terceiro irmão.
“Bom dia, amigos....” Disse Pedro Mentesimples com um baita sorriso no rosto, contente por poder ajudar, “é um prazer voltar a encontrá-los. O santinho tinha sim, um conselho para vocês. Ele disse que devem cavar exatamente bem no meio do campo. Se assim o fizerem encontrarão um tesouro maravilhoso que só vocês poderão deitar a mão . Este é o significado do pedido de seu pai quando lhes mandou escavarem o campo”.
Pedro Mentesimples juntou-se aos três homens e ajudou-os na escavação do campo. Rapidamente encontraram um tesouro de valor inestimável e entre este tesouro, achavam-se também algumas ferramentas, extraordinárias, que se usadas pelas pessoas certas, deixariam as gentes espantadas, maravilhadas.
Os irmãos ofereceram a Pedro Mentesimples uma parte do tesouro, assim como também metade dos raros instrumentos, mas, disse-lhes Mentesimples: “Ora, meus amigos, deixem disso, eu sou cumpri o meu dever. Tudo isso pertence a vocês e somente a vocês, não tenho direito algum a nada. Não o cobiço. Agradeço a bondade para comigo. Fiquem em paz que eu já vou embora... Estou preocupado é com algo maior.... Preciso entender o porque de minha vida e encontrar assim o meu destino. Para isso deixei minha casa e parti nessa viagem de descobertas. Para que precisaria de um tesouro? Adeus e sejam felizes”.
Pedro Mentesimples se foi, sem nem olhar para trás.
Andou, andou, andou... andou mais um tanto. Não demorou chegou ao campo verdejante aonde a árvore de galhos secos e retorcidos e tronco descascado ainda gemia: “Já voltastes filho do homem? É muito bom vê-lo de volta. Encontraste o santo? Tinha ele um conselho para mim?”
“Encontrei-o sim, disse Pedro Mentesimples com um baita sorriso no rosto, contente por poder ajudar, “te sentes doente porque tens alguma coisa presa entre as tuas raízes. Deves encontrar alguém que possa arrancar o mal que está envenenando as tuas raízes e matando-te aos poucos”.
“Por favor, ajuda-me mais uma vez. Quase não passa ninguém por aqui...”
Pedro Mentesimpels fez o que a árvore lhe pediu... cavou, cavou, cavou... cavou mais um tanto e em pouco tempo encontrou presa as raízes uma caixa cheia de ouro que ele, num só fôlego, retirou.
“É uma bela caixa cheia de ouro...” Disse Pedro Mentesimples, mas a árvore, que na mesma hora, voltou a florir, só queria balançar suas folhas ao vento. Ficou tão agradecida que deu a Pedro Mentesimples a caixa cheia de ouro.
“Não preciso de uma caixa cheia de ouro por mais bela que seja. Fica com ela e seja feliz”.
Mas Pedro Mentesimples, estava preocupado com algo mais sério que era entender o porque da vida e qual era o seu destino. O que faria com uma caixa cheia de ouro? Assim, tomando a caixa andou um pouco mais longe e abrindo outro buraco, enterrou a caixa cheia de ouro, dando por encerrado aquele assunto.
Achando que tinha feito o que era certo Pedro Mentesimples seguiu seu caminho.
Andou, andou, andou... andou mais um tanto. Finalmente alcançou às margens do rio aonde tornou a encontrar a cobra meio enrolada em um galho, meio dentro, meio fora da água, que tão logo o viu, tossindo e silvando, perguntou-lhe: “Shhhhiii, Cof... cof... Já de volta, filho do homem. Então, falaste com o santo? Tinha ele uma solução para por um fim ao meu sofrimento?”
“Cobra” disse Mentesimples, contente em poder ajudar, “o homem santo, como grande sábio que é, mudou a sorte de três irmãos muito pobres, indicando-lhes o lugar onde deveriam cavar e assim encontrar um tesouro. Sobre ti e tua estranha situação, disse o santo o seguinte: ‘A cobra deve comer um bom punhado da erva que cresce em abundância do outro lado da margem do rio em que vive. Quando mastigada, o suco da erva a fará vomitar, livrando-a de seu tormento”.
A cobra, pela segunda vez, implorou ajuda a Mentesimples, de modo que este não pode esquivar-se, já que ela sentia-se tão mal, que nem conseguia se deserrolar do galho em que se encontrava. Pedro Mentesimples jogou-se na água e nadou até a outra margem, onde apanhou uma boa porção da erva, levando-a para a cobra, que, sem esperar mais, pôs-se a mastigá-la para lhe tirar o suco.
O suco, de um sabor amargo, fez a cobra vomitar e ela tornando a se sentir bem, desenrolou-se do galho, caindo dentro da água, nadando e brincando sem parar, tão grande era o seu contentamento. Mentesimples então lhe disse: “Cobra amiga, quando vomitaste os restos de tua última refeição, uma pedra, grande, luminosa e transparente veio também e certamente era isto que parecia estar dificultando a tua digestão, deixando-te doente, mas ó, veja aqui está a pedra, caída na areia e para tua satisfação é uma pedra preciosa; um diamante raro quase do tamanho de uma laranja, não sei como pudeste engoli-lo, pega-o ou alguém o roubará.”
“Ó, sim...” disse a cobra, “devia estar dentro do peixe que comi, mas isto não tem valor nenhum para mim. Ficas tu com ela. Será meu presente para ti; só sei que estou livre agora, livre e bem...” e lá se foi a cobra nadando para longe desejando a Pedro que fosse feliz.
Pedro Mentesimples, da margem, ainda chamou pela cobra, pedindo a ela que levasse consigo o luminoso diamante, mas vendo que os seus chamados em nada resultavam Mentesimples pegou a pedra e jogou-a dentro do rio, justamente no lugar aonde havia visto a cobra pela última vez.
Então, Pedro Mentesimples achando que tinha cumprido o seu dever, virou às costas e seguiu pelo bosque adentro, indo ao encontro da senhora dona onça.
Andou, andou, andou... andou mais um tanto. Finalmente chegou no lugar onde estava a dona onça. Sentou-se no mesmo canto onde outrora tinha parado a descansar quando do começo de sua jornada e após contar a onça tudo o que lhe havia acontecido até aquele momento, esta, ansiosamente lhe perguntou o que o santo receitara para o seu caso. “O santo”, disse Mentesimples, “para o teu caso, declarou com todas as letras e em alto e bom som que só obterás alivio se devorares um idiota completo. Faz isso e não terás mais problemas”.
“E tampouco tu...” rugiu a onça, saltando sobre Pedro Mentesimples, acabando, desse modo, com qualquer preocupação que ainda pudesse ter em relação ao futuro. Homens iguais a Pedro Mentesimples já existiram antes e mesmo depois dele, homens assim continuarão a existir... É, sina mal desenhada que nunca se acaba...