domingo, 18 de janeiro de 2009

O VIAJANTE DAS ESTRELAS [1]



Certa vez, partindo de uma galáxia distante, muito além do que seja possível imaginar, chegou à terra dos aflitos um misterioso visitante.
Fora para lá com a missão de resgatar uma jóia preciosa, de rara beleza, que se encontrava sob a guarda de uma enorme serpente cujo silvo, de tão poderoso, seria capaz de enlouquecer aquele que o ouvisse. Assim, esta serpente vivia no meio de um mar carente de peixes e de tudo o mais que em água salgada pudesse viver, a léguas de distância de lugar nenhum.
Para desempenhar sua tarefa o melhor possível, o viajante, que, na verdade, era um príncipe do país das estrelas, precisou se desfazer de seu glorioso manto, e, uma vez na terra escura e enevoada, para evitar estranheza e rejeição por parte de seus habitantes, modificou também suas feições.
Porém, o príncipe precisava se alimentar e a ingestão dos alimentos daquele lugar, sob a obscura atmosfera, fizeram-no cair em um estado de sonolência profunda. Então, o pior aconteceu. O príncipe esqueceu-se de si mesmo, assim, como também de sua missão. Não sabia mais dizer quem era ou de onde viera.
De vez em quando encontrava pessoas que o ajudavam a se recordar, mas, elas logo desapareciam, engolidas pela névoa do esquecimento. A imagem de um monstro pavoroso atormentava-lhe os sonhos e um silvo longo e infinito, não cessava de ecoar em seus ouvidos.
Nas vezes em que conseguia um pouco de paz, via um mundo iluminado, coberto de estrelas e o faiscar fascinante de uma jóia preciosa. Nesses momentos, sentia que aquele outro mundo realmente existia e desejava ardentemente a ele regressar, mas o que significaria aquela jóia? Sem saber responder tais questões o príncipe tomava tudo por ilusão e novamente voltava a adormecer.
Um dia, no distante país das estrelas, seus pais souberam da difícil situação em que se encontrava o corajoso príncipe. Rapidamente o rei escreveu uma mensagem: “Ergue-te, filho desperta deste teu profundo sono. Lembra-te de quem és e do que fostes fazer na terra dos aflitos e da ilusão. Grande príncipe do país das estrelas, teus pais te esperam. Desperta já e vai à busca da jóia faiscante, pela qual foste mandado para tão longe; parte em busca dela para que possas, o quanto antes, retornar”.
A carta voou como um pássaro e sobre a mão do príncipe foi pousar. A carta falou e recordou ao príncipe a sua origem e o motivo de sua missão. O príncipe, maravilhado, rompeu o sinete e pôs-se a lê-la, feliz em saber que aquilo que a carta lhe dizia, já o sabia, há muito em seu coração. Apressou-se em seguir atrás do monstro que vivia em lugar nenhum. Após matá-lo, resgatou a jóia preciosa e na velocidade da luz, retornou ao país das estrelas, a reverenda casa de seus pais. Lá, pode compreender tudo com mais clareza e outra vez vestiu seu manto glorioso, mas, desta vez muito mais reluzente, bordado que estava com as estrelas da perfeição.



[1] O VIAJANTE DAS ESTRELAS; história também conhecida como O Hino da Pérola; Mircea Eliade; Mito e Realidade; Editora Perspectiva.

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