quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

MAR DE HISTÓRIAS - UM ENSAIO SOBRE O PODER CRIADOR DA PALAVRA E A HISTÓRIA ENSINAMENTO PARTE FINAL



A história de Mushkil Gusha, já aqui narrada, é um exemplo de todo o exposto abaixo. Hoje, apesar dos pesares, estas histórias ainda apresentam evidências de um ensinamento perene, (as fábulas são um bom exemplo disso), entretanto, consideradas como “documentos de alto valor técnico”, elas não produzirão nenhum efeito se não se estiver convenientemente preparado para compreendê-las. O ensinamento ocorre, freqüentemente, de maneira indireta e muitas vezes nem é percebido. Para um melhor entendimento, um mestre sufi do século XIII, Jalaluddin Rumi, costumava explicar o funcionamento de um conto, através de um outro conto.

O MERCADOR E O LORO


Era uma vez, um certo mercador que possuía um papagaio preso em uma gaiola. Um dia, estando de partida para a Índia, a tratar de negócios, dirigiu-se ao pássaro e assim lhe disse: “Eu estou viajando à tua terra natal. Tens alguma mensagem que desejas enviar aos teus parentes de lá?”.
“Diz-lhes simplesmente”, disse o louro, “que estou aqui, vivendo numa gaiola”.
Ao voltar da viagem, o mercador disse ao papagaio: “Sinto dizer-te que quando encontrei os teus parentes na floresta e lhes contei que vivias engaiolado; a comoção foi forte demais para um deles, pois mal ouviu a notícia, caiu do alto do galho onde se achava. Sem dúvida, morreu de tristeza”.
No mesmo instante em que o mercador terminou de falar, o louro caiu duro, no chão de sua gaiola.
Com pena, o mercador o tirou da gaiola e o colocou do lado de fora, no jardim. Então, o louro, que havia recebido e entendido a mensagem, se levantou, bateu asas e voou para longe, muito longe, fora do alcance do mercador.

A pergunta, como fazer uso das histórias-ensinamento? Só poderá ser respondida pelos próprios interessados, quando, ao se devolverem à pergunta examinarem bem suas suposições. Assim, será natural que cheguem, por si mesmos, a uma conclusão. Idries Shah (Un Escórpion Perfumado; La história-enseñanza-2) sugere um método, o método sufi, de se trabalhar com as histórias: “Os sufis aprenderam muito cedo que longe de ser útil adotar uma teoria atrás da outra em psicologia e educação, somente após esgotarem-se os limites, tão rapidamente quanto seja possível, através do estudo, é que se poderá alcançar a verdade que está mais além. Quando você tiver consumido todas as teorias, encontrará os fatos. Quando se houver cultivado a didática a ponto de transcendê-la, se alcançará a compreensão. Por esta razão, poderemos ver claramente a utilidade do método exaustivo de trabalho com histórias-ensinamento que aqui irei resumir: A prática sufi consiste em tomar certo número de contos e pedir a um grupo de pessoas para estudá-los, assinalando os pontos que as interessam nas histórias e deixando-os de lado, em seguida. Devem observar o que deixaram passar por alto e perguntar-se o por que disto ter acontecido. Que censura ou falta de entendimento estava atuando? As pessoas, primeiramente fazem suas anotações em particular, depois estudam-nas juntos, de modo que cada um dos participantes possa acompanhar as reações uns dos outros, montando-se uma espécie de mosaico aonde todos contribuem para um melhor entendimento. Primeiramente, você faz o que pode, depois se beneficia do que estão fazendo os outros”.

Nota: A última etapa deste método visa apresentar o resultado obtido neste tipo de estudo a um mestre, que, ao examiná-lo, indicará os pontos que ninguém notou. Tais pontos serão re-introduzidos na mente do grupo, que então será capaz de integrar este material (que, de qualquer maneira, sem a presença do mestre, não poderia mesmo surgir entre os seus membros) tanto ao seu conhecimento individual quanto ao coletivo. Embora a utilidade das histórias-ensinamento seja infinita, sob as condições corretas, segundo Idries Shah, elas estão seriamente sujeitas a duas situações limitantes:

1) Quando, tomadas como histórias triviais, são usadas apenas como entretenimento ou advertência moral. Ainda mais, quando apresentarem diversas facetas, principalmente, divertidas, do comportamento humano.

2) Quando, por alguma razão, as pessoas são tomadas por uma atitude de temor e de anseios por grandes segredos, e de tão aturdidas, são consumidas pela própria história, completamente aprisionados pela emoção.


No que diz respeito aos estudiosos do assunto, para aquilo que eles chamam de “educação, ensinamento e aprendizagem, exigem mestres, materiais e estudantes que estejam em certo grau de alinhamento ou relação para se obter ótimos resultados. Pode-se preparar o ambiente ao se introduzir idéias, apontando alguns usos que se pode fazer das histórias de ensinamento”. (Idries Shah; Un Escorpion Perfumado; La História-Enseñanza I). Enfim, para se conseguir um bom resultado nos estudos das histórias é preciso partir de bases sólidas. Começar pelo princípio facilitaria, e muito, pois, atualmente, são poucos aqueles que conseguem trabalhar corretamente com elas. É muita responsabilidade passar e dar forma a um conhecimento utilizando um método antigo, porém, ainda insubstituível. Aos que tem pressa de saber, recomenda-se calma. Antes, precisarão dar-se conta de que, para tudo, existe um tempo e um lugar e quiçá, outros requisitos.



BIBLIOGRAFIA

BÍBLIA SAGRADA; Tradução dos originais mediante versão dos monges Maredsous pelo Centro Bíblico Católico; Editora “Ave Maria” Ltda.
CASSIRER; Ernest; Linguagem e Mito; Coleção Debates; Editora Perspectiva.
ELIADE; Mircea; Mito e Realidade; Coleção Debates; Editora Perspectiva.
HISTÓRIAS DA TRADIÇÃO SUFI; Edições Dervish.
JATOBÁ; Maria do Socorro da Silva; A Memória da Criação do Mundo.
ROCHA; Lúcia; No Princípio eram as Musas.
SHAH; Idries; Un escorpión perfumado; Editorial Kairós.
--------;-------; Caravana de sueños; Editorial Kairós.
--------;-------; El Buscador de la verdad; Cuentos y enseñanzas sufíes; Editorial Kairós.
O SUFISMO NO OCIDENTE; Edições Dervish.
TEXTOS SUFIS; Edições Dervish.
O MERCADOR E O LORO: Histórias da Tradição Sufi; pág. 9; Edições Dervish.

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