terça-feira, 20 de janeiro de 2009

MAR DE HISTÓRIAS - UM ENSAIO SOBRE O PODER CRIADOR DA PALAVRA E A HISTÓRIA ENSINAMENTO PARTE XI



Gravita em torno destes contos e histórias a crença de que estão sob a influência de um sortilégio benfazejo e que aqueles que as ouvirem e, assim as repetirem obterão também algum tipo de privilégio; tais como uma benção ou uma brusca mudança de sorte, claro que para melhor. Entretanto, a forma em que as histórias são apresentadas, impede que lhes sejam atribuídas mais e maiores superstições, pois, geralmente, elas são entendidas em seu nível inferior, isto é, apenas como entretenimento ou simples advertências morais. Recitá-las, sem nenhuma explanação prévia pode vir a fazer diferença, mas como em qualquer método de educação, em qualquer lugar do mundo ou instituição, sempre haverá aquelas pessoas, muito poucas, que terão a capacidade de compreender todo esse delicado material sem precisar sequer de uma introdução.
Ouvir, contar ou ler histórias-ensinamento requer o uso de várias de nossas faculdades. Falar e escutar; “estar presente”, é extremamente importante, pois a eficiência das percepções dependerá de se saber quais delas se encontram inoperantes ou atuando ineficientemente e o que está se sentindo em um determinado momento.
Alguns passos devem ser dados na auto-observação, como, por exemplo, observar como um material de ensino o está afetando ou ainda aproveitar-se das vantagens emocionais e intelectuais, mantendo-se aberto, ao mesmo tempo, as suposições operacionais de que pode haver algumas outras vantagens e conteúdos que, por ventura, passaram despercebidos.
Numa audição de histórias, o modo holístico obterá uma parte e o mais literal, outras. Mas, devo alertar que somente o uso de certas práticas e ensinamentos especializados o tornarão capaz de exercitar percepções superiores, porém, antes, algo precisa ser feito para concentrar sua atenção sobre suas próprias associações e fatores emocionais para que um certo nível seja alcançado. Alguns pontos a pensar...

Na audição de histórias é importante considerar:

1) Que ela deva ser narrada ou cotada por alguém que possa transmitir o conteúdo, a essência do conto. Não bata apenas ter boa voz ou ser popular, isso não é suficientemente relevante, e muito menos o fato de ter se oferecido de livre e espontânea vontade.
2) As histórias precisam ser constantemente renovadas no seio de uma comunidade, quando o auditório não puder mais se beneficiar com elas torna-se necessária a renovação, é como o remédio que perdeu a validade e o beneficio de um remédio reformulado e bem ministrado não é fruto da imaginação.
3) Um repertório não deve ser escolhido de forma aleatória, conduzido ao acaso ou a seu bel-prazer, e nem as histórias deverão ser narradas de qualquer forma, antes se deve levar em conta, as características do público presente.
4) O público, para que consiga captar o sentido profundo da história, não pode ter sua atenção desviada por advertências literárias ou para as características superficiais nela existente.
5) Requisitos de tempo, lugar e as circunstâncias também devem ser observados. Incluindo nestes requisitos a ocasião, o lugar onde se relata o conto assim como os eventos que precedem ou sucedem a uma narração.
Se não forem levadas em consideração, observados atentamente estes passos, a história agirá por sua própria conta, causando efeito com seu conteúdo, somente no lado dramático, intelectual ou lúdico, afastando então a possibilidade de um contacto interno que facilitaria a apresentação e melhor aceitação do material. Uma das funções de um organismo de estudo é assegurar que tais recomendações sejam estritamente levadas a cabo. Uma mesma história; devo salientar, relatada em diferentes situações ou ocasiões, mesmo em diferentes etapas do desenvolvimento, poderá vir a ser utilizada a fim de ativar outras partes do entendimento, provendo dessa maneira a possibilidade de se conseguir um maior e profundo conhecimento.
Sobre o processo de falar e escutar; transcreverei o que aconteceu a Idries Shah, numa de suas conferências, relatado em seu livro Un Sscorpión Perfumado quando versava ele das dificuldades das pessoas em absorver coisas, especialmente, a certa velocidade, ainda que de modo seqüencial; e de como uma história, ou mesmo uma declaração, pode converter-se em propriedade sua, por assim dizê-lo, de modo que possa ser considerada e recordada sob os mais diversos pontos de vista. Tendo ele feito a observação de que grande parte de informação não é absorvida, porque muita gente não pode reter realmente algo quando a tenha ouvido apenas uma única vez... Imediatamente, após o breve discurso, uma mão se levantou, e alguém sentado na primeira fila lhe perguntou: ‘Será que poderia repetir isso outra vez?’.
Mais tarde, Idries Shah averiguou e constatou que, o dito cujo, não era surdo e muito menos um perspicaz humorista.

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