sábado, 17 de janeiro de 2009

MAR DE HISTÓRIAS - UM ENSAIO SOBRE O PODER CRIADOR DA PALAVRA E A HISTÓRIA ENSINAMENTO PARTE IX






Deus é um notável contador de histórias, um guardador de rebanhos e Senhor de segredos sem fim.

No princípio era O Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus

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E Deus disse: faça-se a luz.[2]

Assim começou a nossa história, a história do mundo. Pelo poder da palavra, Deus separou as trevas da luz e deu vida ao Seu pensar, mas dentre todos os seres por Ele criados, o homem foi sempre o mais amado, posto que feito a Sua imagem e semelhança trazia consigo todos os dons principalmente, o dom da fala e o poder de transformação. E o dom da fala levou o homem, aos poucos, também a separar as trevas da luz de seu pensar. Perplexo diante da vida, este herdeiro das coisas divinas, tentou se explicar, explicando para si mesmo, o começo de tudo, sem esquecer nunca o que jamais poderia ser esquecido, para que a vida e o sutil conhecimento adquiridos fossem, dessa maneira, preservados. Então, cada pensar que chegava ao seu turbado coração ganhava vida ao sair pela sua boca. As palavras eram o mágico fio condutor, que, assim como o levavam para fora, também o traziam de volta. Recordar era sua fonte de poder e constante oração; através da memória, o momento único da criação, para sempre, se manteria vivo.
Como um ser “superior”, dotado de saber e grande inteligência, o homem selou o seu destino como fiel zelador da terra e de tudo o que havia sobre ela, tanto em cima quanto embaixo; mas a fatal pergunta “Quem sou?” Só seria realmente respondida quando ele fosse capaz de se olhar, e assim também olhar ao outro, não com os olhos da piedade ou da emoção, mas sim, com os olhos da compreensão. Entretanto, o que compreender? O que devia compreender? O que o fazia aceitar em si, o que não conseguia aceitar nos outros? Compreensão requer conhecimento, mas onde encontrá-lo?



O ser humano se esforçou, cresceu, evoluiu, mas, em certo sentido, perdeu-se entre tantos enganos e isso se deveu, em parte, à necessidade de adaptação, e foi aí que, a partir de então, lembrar / esquecer tornou-se bastante confuso. O que lembrar? O que esquecer? O que, afinal, deveria ele saber? Outra vez se lhe apresentavam questões que ele não conseguia responder. Inseguro de seu querer, ignorante de si, incapaz de distinguir quais eram suas reais necessidades, o homem deixou que as impressões importantes que chegavam ao seu espírito; fossem ficando relegadas ao segundo plano, enfraquecendo assim a vontade de “seguir em frente”. A ambição e a arrogância sobrepujaram a razão e instaurou-se um desequilíbrio. As palavras perderam a importância, o poder e o sentido, e esquecer o que deveria ser lembrado e lembrar o que deveria ser esquecido, fez a humanidade inteira, como na história da bela adormecida, submergir num estado de sonolência profunda. Entretanto, nem tudo estava perdido e o sutil conhecimento ambicionado, direito comum a todos, e o correto despertar desta “bela caprichosa”, foi entregue aos cuidados daqueles que temeram adormecer.


[1] Evangelho de São João; 1,1-2. Bíblia Sagrada; TRADUÇÃO DOS ORIGINAIS mediante a versão dos monges de Maredsous (Bélgica) pelo centro Bíblico Católico; Editora “Ave Maria” Ltda.
[2] Gênesis; 1,2 Bíblia Sagrada; Tradução dos Originais mediante a versão dos monges de Maredsous (Bélgica) pelo Centro Bíblico Católico; Editora “Ave Maria” Ltda.

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