quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

MAR DE HISTÓRIAS - UM ENSAIO SOBRE O PODER CRIADOR DA PALAVRA E A HISTÓRIA ENSINAMENTO PARTE VI

O FILHO DE UM CONTADOR DE HISTÓRIAS PARTE IV



Após muitas aventuras, chegou a uma pousada e, ali viu, vestidos com farrapos e os pés encadeados, servindo miseravelmente a mesa dos hóspedes, nada mais nada menos que as desastradas figuras do el emir e do el wazir.
Estes, quando o reconheceram, lhe rogaram piedosamente que os ajudassem no que foram logo atendidos pelo jovem que lhes comprou roupas decentes e pagou-lhes o resgate, libertando-os, deste modo, do jugo do senhor da pousada.
El emir e el wazir, ficaram desconcertados ao saber que este homem, para eles relativamente humilde, tinha ordens do rei para acompanhá-los na busca e seu desgosto ficou ainda maior, por ter sido justamente ele, uma pessoa assim, audaz o bastante para os libertar do cativeiro. Pensavam desta maneira porque a antiga arrogância estava voltando, muito rapidamente por sinal, mas, querendo ou não, teriam que aceitar tê-lo por companheiro. Então, eles seguiram seu caminho, sem saber para onde iam até que, ao anoitecer chegaram a uma pequena cabana em cuja porta, sentada, estava uma velha e pobre mulher, reparando um cesto de juncos. O contador de histórias se deteve e todos se sentaram, a conversar.
Depois de compartilharem com a mulher a humilde ceia, o contador de histórias para entreter a todos, narrou um conto dos dias antigos.
Logo após o termino da história, a velha mulher perguntou o que os fizera chegar até ali.
‘Somos os três, senhora, membros da corte do rei’, disse um deles, ‘e, viemos em busca das três formosas princesas; filhas de Sua Majestade, que desapareceram há muitos meses, mas, até agora, apesar de termos passado por tantas dificuldades, não vimos nada, nem ouvimos sequer uma palavra sobre o paradeiro delas’.
‘Ah’! Disse a mulher, ‘pode ser que eu seja capaz de ajudá-los, já que demonstraram sabedoria através do conto que um de vós havíeis relatado. Penso que podereis ter uma oportunidade, entretanto, ouçam bem, apenas uma oportunidade, de êxito. As três princesas foram capturadas por três gênios maléficos que as levaram para as profundezas de um lago, perto daqui. Debaixo d’água há um castelo mágico onde a entrada, para qualquer ser humano, é quase impossível’.
Após uma noite mal dormida, passada ao lado da cabana, os três homens se dirigiram ao lago. Um halo de maldade pairava sobre este lugar, rodeado de árvores cobertas por um emaranhado de trepadeiras.
‘Eu descerei primeiro’, disse o chefe do exército, ‘porque sou o mais forte e posso lutar e vencer qualquer tipo de inimigo. O que podem fazer um ministro e um poeta em um caso como este?’.
Assim dizendo, retorceu seus bigodes num gesto de vangloria e tirou quase toda a sua roupa.
Os três fizeram cordas com as trepadeiras e o guerreiro, com a espada desembainhada e empunhando-a com a sua mão direita, começou a descer na água. ‘Quando eu der um puxão, subam-me’. Disse ele.
À medida, porém, que o emir ia descendo, ele notava que a água cada vez ficava mais fria e de repente, ouviu um barulho parecido com mil redobrar de trovões que chegava das obscuras profundezas. O medo assaltou o seu coração e o valoroso guerreiro, agitado, puxou a corda para que o subissem.
Então, foi vez do ministro, que insistiu em descer porque ansiava, como muitos administradores, o poder que obteria se pudesse casar-se com uma das filhas do rei. Mas, passou-se com ele a mesma coisa que se passara com o emir e logo tiveram que trazê-lo de volta à superfície.


Continua...
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