domingo, 11 de janeiro de 2009

MAR DE HISTÓRIAS - UM ENSAIO SOBRE O PODER CRIADOR DA PALAVRA E A HISTÓRIA ENSINAMENTO PARTE III


O FILHO DE UM CONTADOR DE HISTÓRIAS[1]

Era uma vez, na corte de um certo rei, isso já faz muito tempo, um contador de histórias proveniente de uma antiga linhagem de bardos, cuja tradição era a de preservar e relatar os contos dos tempos de antanho.
Este jovem poeta tinha bastante orgulho de sua descendência, assim como também de seu vasto repertório. Seus contos possuíam um elevado grau de sabedoria e eram utilizados como registros do passado, indicadores do presente e como alusões às coisas do mundo dos sentidos e do mundo que está para mais além. Mas, na corte, (como é natural e útil), havia especialistas de toda sorte, tais como chefes militares, cortesãos, conselheiros, embaixadores, engenheiros (peritos em construir e demolir); homens religiosos e ainda outros, voltados para os mais diversos tipos de aprendizagens. Em uma palavra, havia gente de todo tipo e condição e cada uma delas se achava melhor do que todas as outras.
Um dia, depois de uma larga disputa acerca da ordem de importância entre tais personagens, chegaram à conclusão, a única a que fatalmente poderiam chegar, que, dentre todos eles, o contador de histórias era o menos importante, o menos útil, o menos hábil em qualquer arte. A Assembléia, portanto, decidiu que, para começar o processo de reduzir o número de gente inútil, eliminariam primeiro o contador de histórias. Em particular, cada um dizia de si para si: “Assim que nos livrarmos do contador de histórias, chegará a vez dos outros, e quando ficar provado por A + B que todos eles também são desnecessários, apenas eu ficarei e sem outra alternativa o rei, certamente, me nomeará como seu único conselheiro”.
Com esta intenção, uma delegação de cortesãos, devidamente escolhidos, dirigiu-se ao contador de histórias e lhe disse: “Fomos encarregados pelo resto dos cavalheiros do reino que servem à Sua Majestade para informar-te que ficou decidido que, entre todos aqueles ligados à corte, tu és o menos importante. Não vais à guerra para assegurar a glória do reino ou para estender os domínios de nosso vitorioso soberano; não julgas casos para a preservação da tranqüilidade do Estado; não atendes às necessidades das almas das pessoas como fazem nossos líderes religiosos e não és prestativo tal qual os nossos elegantes pajens... enfim, não és nada!”.
“Veneráveis e respeitáveis pavões reais de sabedoria e pilares da fé”, exclamou o contador de histórias, “longe de mim, não estar de acordo com qualquer coisa que hajam resolvido, mas, por lealdade a Sua Majestade, devo dizer que há um conto antigo e profundamente sábio que prova corretamente que um contador de histórias é essencialmente necessário ao bem-estar e ao poder do império. Se assim o permitirem, terei muito gosto em relatá-lo”.
A delegação de cortesãos não estava precisamente ansiosa para que tal figura tomasse a palavra, entretanto, naquele exato momento, o rei chamou a todos à sala do trono e quis saber o que estava acontecendo. Quando acabou de ouvir tudo aquilo que até aqui é de nosso conhecimento, o rei ordenou ao contador de histórias que começasse seu conto, sem omitir nenhum detalhe.

Continua...

[1] Texto retirado do livro El Buscador de la Verdad; Cuentos y Enseñanzas Sufíes; Idries Shah; El Hijo de un Narrador de Histórias, pág. 255; Editorial Kairós, Barcelona; tradução; Virgínia Allan.
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