segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

MAR DE HISTÓRIAS - UM ENSAIO SOBRE O PODER CRIADOR DA PALAVRA E A HISTÓRIA ENSINAMENTO PARTE IV



O FILHO DE UM CONTADOR DE HISTÓRIAS PARTE II



O contador de histórias, que já esperava por isto prontamente obedeceu: “Ó Pavão Real! Fonte de Sabedoria; Grande Majestade; Sombra de Allah sobre a Terra; escutai: Houve certa vez, em tempos que lá se vão, um rei poderoso e justo como Sua Majestade, estimado em muitas terras; amado por sua gente e temido por seus inimigos.
Este rei tinha três lindas filhas, resplandecentes como a lua, que um dia foram passear num bosque próximo ao palácio e não mais retornaram... simplesmente desapareceram, e apesar das buscas empreendidas, nada, nenhum rasto, nenhuma pegada, nada, nada mesmo se encontrou.
Os dias se passaram sem qualquer novidade, então, o rei, cansado de esperar, convocou os arautos e ordenou que fossem por toda parte apregoando aos quatro cantos a seguinte mensagem: ‘Em nome do rei! Que ninguém diga que não ouviu. Aquele que encontrar as três filhas de Sua Majestade e devolvê-las sãs e salvas, será recompensado ao ter a honra de receber a mão de uma das princesas em casamento!’
Mesmo após aviso tão auspicioso, ainda assim, semanas transformaram-se em meses e nada de notícias. Foi como se a terra tivesse se fendido e tragado às três jovens e lindas donzelas.
Mas então, quando toda esperança parecia haver esmaecido, o rei reuniu aos seus cortesãos, incluindo os líderes espirituais, militares e temporais, aos juizes dos juizes e a todos os cavalheiros e nobres do reino e lhes disse: ‘Reverendos doutores da lei e da fé! Leões e tigres dos meus invencíveis exércitos, algozes sem trégua dos infiéis e reis das artes do comércio e da indústria, escutai e conhecei o meu mandato. Elegerei representantes dentre vós, uns dois ou três, que sairão à procura das princesas e que não poderão retornar enquanto não as encontrá-las. Aqueles dentre vós que forem os escolhidos e tiverem êxito em sua missão, herdarão o reino. Se falharem, porém, nunca mais poderão por os pés em meus domínios e serão fatalmente mortos se mo desobedecerem’.
A corte, antes reunida, dividiu-se em grupos para eleger seus respectivos representantes e por sua vez, estes nomearam e votaram em seus próprios deputados, até que, finalmente, foram eleitos apenas dois homens: el Ami Al-Jaish, comandante dos vitoriosos exércitos, um furioso bebedor de sangue; e o primeiro ministro, conhecido como el wazir Al-Wuzura, tido como o mais sábios dos homens daquele país.
Chegada a uma conclusão, o rei deu suas últimas instruções aos dois escolhidos, que então, após a real preleção, se despediram tocando em suas cabeças, olhos e corações e dizendo baixinho: ‘Escutar é obedecer’. E em seguida, os dois homens subiram em suas montarias e se foram; porta afora, afastando-se cada vez mais do palácio, sob o estridente ressoar de centenas de trombetas.

Continua...

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