quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

RECORDAÇÕES DA CASA DA COBRA-INVERNOS ENTRE VERÕES


INVERNOS ENTRE VERÕES


Tenho vivido tantos invernos
mesmo em meio aos verões que já nem estranho...
Uma saudade de um raio de sol me invade

Um pai leva com cuidado a filha ao colo
Sorriso suave estampado no rosto onde o sol se derrama
em mornas caricias... Fios de cabelos de anjo solto ao vento
de uma cálida, límpida manhã

Fui feliz assim, um dia, nessa constância de uma vida in - comum

Sopram agora outros ventos
Sussurram agora em meus ouvidos outras doces, monótonas cantigas
E antigas vertigens retornam aos meus dias

Invisíveis tormentos me acalentam os sentimentos
Fogo brando que nunca se apaga...

Revolvo minha alma nessa estranha saudade
de tempo idos, que não mais voltam
Dói-me o peito
Brota a mágoa
Invernos de solidão em meio a verões de silêncios





segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

PETICIÓN DE UN FALCON



Abd Al-Aziz Ben Al-Qabturnuh (fallecido después de 1126)
Traducion: Emilio Garcia Gomez



¡Oh rey, cuyos padres fueron altaneros y del más egregio rango! Tú, que adornaste mi cuello con el collar de tus favores, grandes como perlas y engarzados como las perlas en el hilo, adorna ahora mi mano con un halcón.

Hónrame con uno de límpidas alas, cuyo plumaje se haya combado por el viento del Norte. ¡Con qué orgullo saldré con él al alba, jugando mi mano con el viento, para apresar lo libre con lo encadenado!


PEDIDO POR UM FALCAO


Abd Al-Aziz Ben Al-Qabturnuh (fallecido después de 1126)
Tradução: Virgínia Allan


Oh rei, cujos magníficos pais pertenceram a mais antiga linhagem! Tu, que enfeitaste meu colo com o colar de teus favores, grandes como pérolas encadeadas em um colar enfeita agora minha mão com um falcão .
Honra-me com uma de suas límpidas asas, em que a plumagem tenha sido vergada pelo vento Norte. Com que orgulho com ele sairei ao alvorecer. Minha mão ao vento, a balouçar pára, juntos, a liberdade fazer de presa


http://www.webislam.com/?idc=1976

domingo, 25 de janeiro de 2009

TOM BRASILEIRO




A 25 de Janeiro de 1927, a casa No. 634, do bairro da Tijuca, nascia Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o nosso maestro Tom Jobim... mas, o que dizer de um músico, poeta e compositor como este? Completo, perfeito... por causa dele minha primeira filha se chama "Luisa", então, para homenageá-lo resolvi brindar a vocês com a letra de FELICIDADE... a música é belíssima, e a letra... bom... tirem suas próprias conclusões... Algumas pessoas nos deixam em uma saudade eterna... Tom Jobim, certamente, é uma delas.
Tom Jobim /Vinicius de Moraes (1959)

Tristeza não tem fim

Felicidade sim
A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta feira
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite
Passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Prá que ela acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor
Tristeza não tem fim
Felicidade sim



sábado, 24 de janeiro de 2009

SEM...



Sem chão... Sem pão... Sem inspiração...
Sobram-me versos encruados, desencantados, medíocres pontos soltos perdidos no branco espaço
Palavras sem sentido, distorcidas, que revoam pra lá e pra cá que nem pássaro engaiolado, de triste cantiga
Espero na ante-sala, sentado em um sofá, uma porta ser-me aberta... Longa espera entremeada de silêncios e decepções
Faço por onde concretizar meus planos, porém, desagradam-me os meus pensamentos... E não vejo saída às contradições da vida
Preocupa-me a longa espera... Levanto-me do sofá e vou à porta, devagar, mas ela continua fechada
Retorno ao ponto de partida e desabo meu corpo cansado no sofá mal arrumado e deixo meu espírito inquieto vagar descontente, solitário, sobre a superfície nua, lisa e fria de um céu-mar verde azulado, vazio de estrelas

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

15 MINUTOS




A carapuça que nos cabe...

“Não sou nada
Eu nunca serei nada
Aparte isso tenho em mim
todos os sonhos do mundo” (F. P)

E eles estão à venda... quem dá mais?

Vende-se ou troca-se sonhos
Por uma parcela ínfima de encanto
Um afago no ego e no reconhecimento, um brinde em taça de cristal
ao engano e ao talento

Vende-se ou troca-se sonhos
Por um momento de glória e descanso
Na fútil cama da fama, entre lençóis de cetim e colchas de seda
Um instante de descanso sem pensar em grana, por um tempo de fartura
Por um bafejo de esperança

Vende-se ou troca-se sonhos
Por moedinhas de cobre dourado
Um mísero cachê contado ou mesmo ainda uma bolsinha de couro remendado

Venha apreciar, por favor, o meu trabalho
Veja como faço bem a minha arte
Mereço ou não uma consideração?
Por favor, um pouco de atenção...

Continuarei “artista” apesar de tudo...
Adverso ou não aos prós e contras
Tenho direito aos meus 15 minutos
Estou à venda e não discuto
Aceito a esmola atirada no chapéu da mendicância









quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

MAR DE HISTÓRIAS - UM ENSAIO SOBRE O PODER CRIADOR DA PALAVRA E A HISTÓRIA ENSINAMENTO PARTE FINAL



A história de Mushkil Gusha, já aqui narrada, é um exemplo de todo o exposto abaixo. Hoje, apesar dos pesares, estas histórias ainda apresentam evidências de um ensinamento perene, (as fábulas são um bom exemplo disso), entretanto, consideradas como “documentos de alto valor técnico”, elas não produzirão nenhum efeito se não se estiver convenientemente preparado para compreendê-las. O ensinamento ocorre, freqüentemente, de maneira indireta e muitas vezes nem é percebido. Para um melhor entendimento, um mestre sufi do século XIII, Jalaluddin Rumi, costumava explicar o funcionamento de um conto, através de um outro conto.

O MERCADOR E O LORO


Era uma vez, um certo mercador que possuía um papagaio preso em uma gaiola. Um dia, estando de partida para a Índia, a tratar de negócios, dirigiu-se ao pássaro e assim lhe disse: “Eu estou viajando à tua terra natal. Tens alguma mensagem que desejas enviar aos teus parentes de lá?”.
“Diz-lhes simplesmente”, disse o louro, “que estou aqui, vivendo numa gaiola”.
Ao voltar da viagem, o mercador disse ao papagaio: “Sinto dizer-te que quando encontrei os teus parentes na floresta e lhes contei que vivias engaiolado; a comoção foi forte demais para um deles, pois mal ouviu a notícia, caiu do alto do galho onde se achava. Sem dúvida, morreu de tristeza”.
No mesmo instante em que o mercador terminou de falar, o louro caiu duro, no chão de sua gaiola.
Com pena, o mercador o tirou da gaiola e o colocou do lado de fora, no jardim. Então, o louro, que havia recebido e entendido a mensagem, se levantou, bateu asas e voou para longe, muito longe, fora do alcance do mercador.

A pergunta, como fazer uso das histórias-ensinamento? Só poderá ser respondida pelos próprios interessados, quando, ao se devolverem à pergunta examinarem bem suas suposições. Assim, será natural que cheguem, por si mesmos, a uma conclusão. Idries Shah (Un Escórpion Perfumado; La história-enseñanza-2) sugere um método, o método sufi, de se trabalhar com as histórias: “Os sufis aprenderam muito cedo que longe de ser útil adotar uma teoria atrás da outra em psicologia e educação, somente após esgotarem-se os limites, tão rapidamente quanto seja possível, através do estudo, é que se poderá alcançar a verdade que está mais além. Quando você tiver consumido todas as teorias, encontrará os fatos. Quando se houver cultivado a didática a ponto de transcendê-la, se alcançará a compreensão. Por esta razão, poderemos ver claramente a utilidade do método exaustivo de trabalho com histórias-ensinamento que aqui irei resumir: A prática sufi consiste em tomar certo número de contos e pedir a um grupo de pessoas para estudá-los, assinalando os pontos que as interessam nas histórias e deixando-os de lado, em seguida. Devem observar o que deixaram passar por alto e perguntar-se o por que disto ter acontecido. Que censura ou falta de entendimento estava atuando? As pessoas, primeiramente fazem suas anotações em particular, depois estudam-nas juntos, de modo que cada um dos participantes possa acompanhar as reações uns dos outros, montando-se uma espécie de mosaico aonde todos contribuem para um melhor entendimento. Primeiramente, você faz o que pode, depois se beneficia do que estão fazendo os outros”.

Nota: A última etapa deste método visa apresentar o resultado obtido neste tipo de estudo a um mestre, que, ao examiná-lo, indicará os pontos que ninguém notou. Tais pontos serão re-introduzidos na mente do grupo, que então será capaz de integrar este material (que, de qualquer maneira, sem a presença do mestre, não poderia mesmo surgir entre os seus membros) tanto ao seu conhecimento individual quanto ao coletivo. Embora a utilidade das histórias-ensinamento seja infinita, sob as condições corretas, segundo Idries Shah, elas estão seriamente sujeitas a duas situações limitantes:

1) Quando, tomadas como histórias triviais, são usadas apenas como entretenimento ou advertência moral. Ainda mais, quando apresentarem diversas facetas, principalmente, divertidas, do comportamento humano.

2) Quando, por alguma razão, as pessoas são tomadas por uma atitude de temor e de anseios por grandes segredos, e de tão aturdidas, são consumidas pela própria história, completamente aprisionados pela emoção.


No que diz respeito aos estudiosos do assunto, para aquilo que eles chamam de “educação, ensinamento e aprendizagem, exigem mestres, materiais e estudantes que estejam em certo grau de alinhamento ou relação para se obter ótimos resultados. Pode-se preparar o ambiente ao se introduzir idéias, apontando alguns usos que se pode fazer das histórias de ensinamento”. (Idries Shah; Un Escorpion Perfumado; La História-Enseñanza I). Enfim, para se conseguir um bom resultado nos estudos das histórias é preciso partir de bases sólidas. Começar pelo princípio facilitaria, e muito, pois, atualmente, são poucos aqueles que conseguem trabalhar corretamente com elas. É muita responsabilidade passar e dar forma a um conhecimento utilizando um método antigo, porém, ainda insubstituível. Aos que tem pressa de saber, recomenda-se calma. Antes, precisarão dar-se conta de que, para tudo, existe um tempo e um lugar e quiçá, outros requisitos.



BIBLIOGRAFIA

BÍBLIA SAGRADA; Tradução dos originais mediante versão dos monges Maredsous pelo Centro Bíblico Católico; Editora “Ave Maria” Ltda.
CASSIRER; Ernest; Linguagem e Mito; Coleção Debates; Editora Perspectiva.
ELIADE; Mircea; Mito e Realidade; Coleção Debates; Editora Perspectiva.
HISTÓRIAS DA TRADIÇÃO SUFI; Edições Dervish.
JATOBÁ; Maria do Socorro da Silva; A Memória da Criação do Mundo.
ROCHA; Lúcia; No Princípio eram as Musas.
SHAH; Idries; Un escorpión perfumado; Editorial Kairós.
--------;-------; Caravana de sueños; Editorial Kairós.
--------;-------; El Buscador de la verdad; Cuentos y enseñanzas sufíes; Editorial Kairós.
O SUFISMO NO OCIDENTE; Edições Dervish.
TEXTOS SUFIS; Edições Dervish.
O MERCADOR E O LORO: Histórias da Tradição Sufi; pág. 9; Edições Dervish.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

RECORDAÇÕES DA CASA DA COBRA-APENAS UM DETALHE


APENAS UM DETALHE

Ainda dando asas ao meu melancólico estado de desencanto (me aguentem mais um pouco...) darei um exemplo de como somos tolos, ao deixar-nos levar pelo desânimo. Faço isto mais como um exercício... quem sabe me ajudando, me confessando, acabe, por fim a ajudar alguém? Espero que pro bem... Um tempo atrás, um pequeno acidente tomou para mim a proporção de um desastre gigantesco... uma coisinha de nada, de repente, virou um dragão, um bicho de sete –cabeças. Nós, “humanos”, temos essa mania besta de transformar tudo em algo medonhamente gigantesco, dramático e o pior, sem saída... Bom, não sei o que aconteceu, só sei que meu leitor de CD do meu notebook não funciona mais, apesar de, aparentemente, o programa não apresentar nenhum problema e o PC ser novo, nem um ano de uso... Não seria nada demais se as músicas que tinha gravado no computador, um vasto e variado repertório, simplesmente também não houvessem desaparecido sem deixar vestígios. Lá se foram os meus blues na voz do velho Big Bill Broonzy e alguns outros bluesmen de responsa... Na verdade, ter perdido as músicas foi somente um detalhe, um detalhe muiiiiiiiiiito chato, mas é claro que não estou chateada só por causa disso... Recomeçar, seja com o que for ou de que jeito for, é a nossa missão de todo dia, mas levando-se em conta tempo, satisfação e amor pelo que já estava em andamento, recomeçar é uma chateação, além de requerer coragem, esforço, determinação e paciência qualidades, que até tenho, e falo isso sem falsa modéstia, mas, não estou animada para nada, estou numa fase de plena insatisfação e olha que estou falando de um “probleminha”... Caso a se pensar... se estou agindo assim agora, o que será que farei diante dos “grandes problemas” ou direi, dilemas que a vida sempre nos apresenta? Não sei... ou melhor, eu sei, tenho umas regras as quais recorro quando me encontro nesse estado de espírito, regras preciosas que, aliás, já deveria ter assimilado e usado quase que por instinto. Em minha displicência, é fato notório de que talvez esteja de “mal a pior” comigo mesma. Isso me faz lembrar de um episódio de COLD CASE, uma de minhas séries prediletas, em que um psicopata colecionador assassino pegava suas vitimas, sempre mulheres, e as trancava em um quarto escuro.Todas estas mulheres, suas vitimas, tinham um motivo especial para viver, motivos estes que, em sua mente doente, justificava o seu crime: Uma tinha um lindo bebê, a outra uma voz maravilhosa com a qual louvava ao Senhor e a outra, um amor de verdade, daqueles que são pra vida toda, na alegria e na tristeza. O prazer do colecionador psicopata, e assim era o seu método de matar, era justamente tirar dessas mulheres a vontade de viver, tirar delas a fé, a esperança, até o ponto que nem o motivo que, antes, as mantinha presa a vida tivesse mais a menor importância. Em relação a elas, levá-las a desistência era o seu maior e principal objetivo. Sua primeira vítima morreu afogada em um poço, quando ele, adolescente ainda, ao passear pela floresta, ouviu pedidos de socorro e foi então que, recusando-se em ajudar, deparou-se com a cena que ele julgou a mais insólita, a mais linda, a mais sublime que já havia visto: Alguém, por total falta de esperança, por decepção, desistindo de viver. Ele ficou lá, à beira do poço, apenas ouvindo e observando, e em vez de ajudar, cuspiu na água, olhando fixamente nos olhos da moça, esboçando no rosto juvenil um sorriso sutil e feliz. Suas duas outras vítimas tiveram a mesma reação. A mãe se esqueceu do seu filho; a moça devota se esqueceu de seu Deus e, mesmo com todas as saídas, de forma proposital, facilitadas (não seria impedida se quisesse fugir) ainda assim; ela aquiesceu, e, deixou-se morrer, mas, a moça que encontrou seu amor verdadeiro todo dia recomeçava, na escuridão da cela úmida e infecta, ao som do badalo de um sino que todo dia, às mesmas horas, tocava o refrão de uma canção. Para não morrer de tristeza naquele lugar, a moça se agarrou a poesia desses instantes breves e mágicos, repletos de luz; ao soar do sino ela sabia exatamente o dia e a hora em que estava e acompanhava o badalo com sua voz fraquinha, baixinha, quase um murmúrio... Ela não se perdeu, nem esqueceu o seu amor... encheu de luz a escuridão e todo dia recordava a si mesma, todo dia recomeçava nem que fosse na solidão agonizante de uma espera longa e mortal. Hummmmm! Depois de ler o que escrevi, eu deveria me “tocar”... não? Recomece minha senhora, recomece já de onde e do jeito em que está... é tempo ainda... E, cá entre nós, tens muitos motivos, não citarei cada um, para continuares viva. Enche de luz a escuridão e recomeças a contar a tua própria história; nem que sejas tu mesma, a única ouvinte.

MAR DE HISTÓRIAS - UM ENSAIO SOBRE O PODER CRIADOR DA PALAVRA E A HISTÓRIA ENSINAMENTO PARTE XI



Gravita em torno destes contos e histórias a crença de que estão sob a influência de um sortilégio benfazejo e que aqueles que as ouvirem e, assim as repetirem obterão também algum tipo de privilégio; tais como uma benção ou uma brusca mudança de sorte, claro que para melhor. Entretanto, a forma em que as histórias são apresentadas, impede que lhes sejam atribuídas mais e maiores superstições, pois, geralmente, elas são entendidas em seu nível inferior, isto é, apenas como entretenimento ou simples advertências morais. Recitá-las, sem nenhuma explanação prévia pode vir a fazer diferença, mas como em qualquer método de educação, em qualquer lugar do mundo ou instituição, sempre haverá aquelas pessoas, muito poucas, que terão a capacidade de compreender todo esse delicado material sem precisar sequer de uma introdução.
Ouvir, contar ou ler histórias-ensinamento requer o uso de várias de nossas faculdades. Falar e escutar; “estar presente”, é extremamente importante, pois a eficiência das percepções dependerá de se saber quais delas se encontram inoperantes ou atuando ineficientemente e o que está se sentindo em um determinado momento.
Alguns passos devem ser dados na auto-observação, como, por exemplo, observar como um material de ensino o está afetando ou ainda aproveitar-se das vantagens emocionais e intelectuais, mantendo-se aberto, ao mesmo tempo, as suposições operacionais de que pode haver algumas outras vantagens e conteúdos que, por ventura, passaram despercebidos.
Numa audição de histórias, o modo holístico obterá uma parte e o mais literal, outras. Mas, devo alertar que somente o uso de certas práticas e ensinamentos especializados o tornarão capaz de exercitar percepções superiores, porém, antes, algo precisa ser feito para concentrar sua atenção sobre suas próprias associações e fatores emocionais para que um certo nível seja alcançado. Alguns pontos a pensar...

Na audição de histórias é importante considerar:

1) Que ela deva ser narrada ou cotada por alguém que possa transmitir o conteúdo, a essência do conto. Não bata apenas ter boa voz ou ser popular, isso não é suficientemente relevante, e muito menos o fato de ter se oferecido de livre e espontânea vontade.
2) As histórias precisam ser constantemente renovadas no seio de uma comunidade, quando o auditório não puder mais se beneficiar com elas torna-se necessária a renovação, é como o remédio que perdeu a validade e o beneficio de um remédio reformulado e bem ministrado não é fruto da imaginação.
3) Um repertório não deve ser escolhido de forma aleatória, conduzido ao acaso ou a seu bel-prazer, e nem as histórias deverão ser narradas de qualquer forma, antes se deve levar em conta, as características do público presente.
4) O público, para que consiga captar o sentido profundo da história, não pode ter sua atenção desviada por advertências literárias ou para as características superficiais nela existente.
5) Requisitos de tempo, lugar e as circunstâncias também devem ser observados. Incluindo nestes requisitos a ocasião, o lugar onde se relata o conto assim como os eventos que precedem ou sucedem a uma narração.
Se não forem levadas em consideração, observados atentamente estes passos, a história agirá por sua própria conta, causando efeito com seu conteúdo, somente no lado dramático, intelectual ou lúdico, afastando então a possibilidade de um contacto interno que facilitaria a apresentação e melhor aceitação do material. Uma das funções de um organismo de estudo é assegurar que tais recomendações sejam estritamente levadas a cabo. Uma mesma história; devo salientar, relatada em diferentes situações ou ocasiões, mesmo em diferentes etapas do desenvolvimento, poderá vir a ser utilizada a fim de ativar outras partes do entendimento, provendo dessa maneira a possibilidade de se conseguir um maior e profundo conhecimento.
Sobre o processo de falar e escutar; transcreverei o que aconteceu a Idries Shah, numa de suas conferências, relatado em seu livro Un Sscorpión Perfumado quando versava ele das dificuldades das pessoas em absorver coisas, especialmente, a certa velocidade, ainda que de modo seqüencial; e de como uma história, ou mesmo uma declaração, pode converter-se em propriedade sua, por assim dizê-lo, de modo que possa ser considerada e recordada sob os mais diversos pontos de vista. Tendo ele feito a observação de que grande parte de informação não é absorvida, porque muita gente não pode reter realmente algo quando a tenha ouvido apenas uma única vez... Imediatamente, após o breve discurso, uma mão se levantou, e alguém sentado na primeira fila lhe perguntou: ‘Será que poderia repetir isso outra vez?’.
Mais tarde, Idries Shah averiguou e constatou que, o dito cujo, não era surdo e muito menos um perspicaz humorista.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

MAR DE HISTÓRIAS - UM ENSAIO SOBRE O PODER CRIADOR DA PALAVRA E A HISTÓRIA ENSINAMENTO PARTE X



Para cumprir missão tão importante, os atentos guardiões dos adormecidos deveriam usar formas e palavras adequadas, pois “debaixo da linguagem do poeta jaz a chave do tesouro”, é o que nos diz Nizami, poeta sufi. Assim, as palavras, por eles, narradas ou cantadas, readquiriam a força e o poder e, outra vez, abriam aos simples mortais a caixa dos segredos imperecíveis. Um conhecimento valioso escondia-se sob a forma de fábulas, contos populares, lendas etc... Mas, os tempos mudam e nestas condições os sábios guardiões tiveram que também recorrer à palavra escrita e aos demais tipos de linguagem e fontes de informação. Desta maneira, cada história narrada era preservada e passada adiante, habilmente resguardada de qualquer processo degenerativo; artifícios ou deturpações - que ao serem utilizados fazem-na perder toda a sua eficiência - por gente que ao exercerem o humilde ofício de “contador de história”, sabia exatamente o quê e como fazer; agiam assim para que as futuras gerações tivessem um marco e um guia em sua evolução, já que eles sabiam que, se usadas de modo correto, as histórias-ensinamento, feitas de um outro material, bem diferente daquele utilizado nas histórias comuns, sugeririam novas formas de ser e de pensar ao nos colocar - através dos personagens ou até mesmo de lugares e movimentos - em contato direto com faculdades superiores da mente ao espelharem o próprio modo da consciência humana de se comportar. Porém, mesmo após tantos desdobramentos, mesmo assim, nem todos puderam captar a mensagem contida nas palavras das histórias de ensinamento, cuja compreensão varia de acordo com o nível de condicionamento de cada um. Ouvi-las ou lê-las, nos leva a um comportamento bastante comum que é a vontade de interpretá-las por meio de associações de idéias, embora seu conteúdo vá muito além de simples divertimento ou aconselhamento moral.
A emoção é outro grande empecilho para a devida compreensão, já que, geralmente as pessoas são levadas a crer que através dela estão extraindo para si algo muito importante e útil. A emoção, embora não se descarte o real valor de suas funções, é algo limitado. O pensamento de enaltecer ou mergulhar fundo neste tipo de sentimento e considerar isto um ato sublime, foi gerado por anos e anos de condicionamento, quando se ensinava que a melhor maneira para se alcançar a verdade, precisava de abordagens analíticas e associativas; porém apenas em parte isto é correto; apenas em parte... Portanto, devido a diversos fatores, as histórias-ensinamento ficaram então restritas a uma pequena parcela da sociedade.

domingo, 18 de janeiro de 2009

O VIAJANTE DAS ESTRELAS [1]



Certa vez, partindo de uma galáxia distante, muito além do que seja possível imaginar, chegou à terra dos aflitos um misterioso visitante.
Fora para lá com a missão de resgatar uma jóia preciosa, de rara beleza, que se encontrava sob a guarda de uma enorme serpente cujo silvo, de tão poderoso, seria capaz de enlouquecer aquele que o ouvisse. Assim, esta serpente vivia no meio de um mar carente de peixes e de tudo o mais que em água salgada pudesse viver, a léguas de distância de lugar nenhum.
Para desempenhar sua tarefa o melhor possível, o viajante, que, na verdade, era um príncipe do país das estrelas, precisou se desfazer de seu glorioso manto, e, uma vez na terra escura e enevoada, para evitar estranheza e rejeição por parte de seus habitantes, modificou também suas feições.
Porém, o príncipe precisava se alimentar e a ingestão dos alimentos daquele lugar, sob a obscura atmosfera, fizeram-no cair em um estado de sonolência profunda. Então, o pior aconteceu. O príncipe esqueceu-se de si mesmo, assim, como também de sua missão. Não sabia mais dizer quem era ou de onde viera.
De vez em quando encontrava pessoas que o ajudavam a se recordar, mas, elas logo desapareciam, engolidas pela névoa do esquecimento. A imagem de um monstro pavoroso atormentava-lhe os sonhos e um silvo longo e infinito, não cessava de ecoar em seus ouvidos.
Nas vezes em que conseguia um pouco de paz, via um mundo iluminado, coberto de estrelas e o faiscar fascinante de uma jóia preciosa. Nesses momentos, sentia que aquele outro mundo realmente existia e desejava ardentemente a ele regressar, mas o que significaria aquela jóia? Sem saber responder tais questões o príncipe tomava tudo por ilusão e novamente voltava a adormecer.
Um dia, no distante país das estrelas, seus pais souberam da difícil situação em que se encontrava o corajoso príncipe. Rapidamente o rei escreveu uma mensagem: “Ergue-te, filho desperta deste teu profundo sono. Lembra-te de quem és e do que fostes fazer na terra dos aflitos e da ilusão. Grande príncipe do país das estrelas, teus pais te esperam. Desperta já e vai à busca da jóia faiscante, pela qual foste mandado para tão longe; parte em busca dela para que possas, o quanto antes, retornar”.
A carta voou como um pássaro e sobre a mão do príncipe foi pousar. A carta falou e recordou ao príncipe a sua origem e o motivo de sua missão. O príncipe, maravilhado, rompeu o sinete e pôs-se a lê-la, feliz em saber que aquilo que a carta lhe dizia, já o sabia, há muito em seu coração. Apressou-se em seguir atrás do monstro que vivia em lugar nenhum. Após matá-lo, resgatou a jóia preciosa e na velocidade da luz, retornou ao país das estrelas, a reverenda casa de seus pais. Lá, pode compreender tudo com mais clareza e outra vez vestiu seu manto glorioso, mas, desta vez muito mais reluzente, bordado que estava com as estrelas da perfeição.



[1] O VIAJANTE DAS ESTRELAS; história também conhecida como O Hino da Pérola; Mircea Eliade; Mito e Realidade; Editora Perspectiva.

sábado, 17 de janeiro de 2009

MAR DE HISTÓRIAS - UM ENSAIO SOBRE O PODER CRIADOR DA PALAVRA E A HISTÓRIA ENSINAMENTO PARTE IX






Deus é um notável contador de histórias, um guardador de rebanhos e Senhor de segredos sem fim.

No princípio era O Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus

[1]

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E Deus disse: faça-se a luz.[2]

Assim começou a nossa história, a história do mundo. Pelo poder da palavra, Deus separou as trevas da luz e deu vida ao Seu pensar, mas dentre todos os seres por Ele criados, o homem foi sempre o mais amado, posto que feito a Sua imagem e semelhança trazia consigo todos os dons principalmente, o dom da fala e o poder de transformação. E o dom da fala levou o homem, aos poucos, também a separar as trevas da luz de seu pensar. Perplexo diante da vida, este herdeiro das coisas divinas, tentou se explicar, explicando para si mesmo, o começo de tudo, sem esquecer nunca o que jamais poderia ser esquecido, para que a vida e o sutil conhecimento adquiridos fossem, dessa maneira, preservados. Então, cada pensar que chegava ao seu turbado coração ganhava vida ao sair pela sua boca. As palavras eram o mágico fio condutor, que, assim como o levavam para fora, também o traziam de volta. Recordar era sua fonte de poder e constante oração; através da memória, o momento único da criação, para sempre, se manteria vivo.
Como um ser “superior”, dotado de saber e grande inteligência, o homem selou o seu destino como fiel zelador da terra e de tudo o que havia sobre ela, tanto em cima quanto embaixo; mas a fatal pergunta “Quem sou?” Só seria realmente respondida quando ele fosse capaz de se olhar, e assim também olhar ao outro, não com os olhos da piedade ou da emoção, mas sim, com os olhos da compreensão. Entretanto, o que compreender? O que devia compreender? O que o fazia aceitar em si, o que não conseguia aceitar nos outros? Compreensão requer conhecimento, mas onde encontrá-lo?



O ser humano se esforçou, cresceu, evoluiu, mas, em certo sentido, perdeu-se entre tantos enganos e isso se deveu, em parte, à necessidade de adaptação, e foi aí que, a partir de então, lembrar / esquecer tornou-se bastante confuso. O que lembrar? O que esquecer? O que, afinal, deveria ele saber? Outra vez se lhe apresentavam questões que ele não conseguia responder. Inseguro de seu querer, ignorante de si, incapaz de distinguir quais eram suas reais necessidades, o homem deixou que as impressões importantes que chegavam ao seu espírito; fossem ficando relegadas ao segundo plano, enfraquecendo assim a vontade de “seguir em frente”. A ambição e a arrogância sobrepujaram a razão e instaurou-se um desequilíbrio. As palavras perderam a importância, o poder e o sentido, e esquecer o que deveria ser lembrado e lembrar o que deveria ser esquecido, fez a humanidade inteira, como na história da bela adormecida, submergir num estado de sonolência profunda. Entretanto, nem tudo estava perdido e o sutil conhecimento ambicionado, direito comum a todos, e o correto despertar desta “bela caprichosa”, foi entregue aos cuidados daqueles que temeram adormecer.


[1] Evangelho de São João; 1,1-2. Bíblia Sagrada; TRADUÇÃO DOS ORIGINAIS mediante a versão dos monges de Maredsous (Bélgica) pelo centro Bíblico Católico; Editora “Ave Maria” Ltda.
[2] Gênesis; 1,2 Bíblia Sagrada; Tradução dos Originais mediante a versão dos monges de Maredsous (Bélgica) pelo Centro Bíblico Católico; Editora “Ave Maria” Ltda.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

RECORDAÇÕES DA CASA DA COBRA-DESENCANTO


DESENCANTO

Desencanto... hoje sou, estou puro desencanto... desencantado com tudo... com o meu futuro, o futuro do mundo... A causa disso deve ser o tempo... chuvoso e sempre apressado... não encontro um jeito de fazê-lo ficar ao meu lado... corro com ele, contra ele, mas nunca ao seu lado... Mas isso são coisas de gente que desencantou; quem desencanta desperta para outra realidade, talvez, desencantado, abra os olhos para a verdadeira realidade da vida. Não temos chance com aqueles que estão surdos, mudos, cegos... “Em terra de cego quem tem olho é rei? É, certamente, mas com poucas chances de exercer o seu poder de modo eficiente... Conheço alguns reis que nunca tem suas ordens acatadas, pois os cegos além de cegos, são surdos, ou melhor, ouvem o que querem e quando querem, sendo também poucas vezes mudos, falam quando deveriam calar... Acho que esta minha apreciação faça jus a mim... deveria estar agora de boca fechada, vedado os pensamentos, predisposto a inação... deveria eu simplesmente estar quieto no meu canto, curtindo a minha solidão, o mau tempo e o meu mau-humor... mas, infelizmente para uns e felizmente para mim, enxergo, ouço e falo bem demais e me recuso a deixar passar tudo em brancas nuvens...

MAR DE HISTÓRIAS - UM ENSAIO SOBRE O PODER CRIADOR DA PALAVRA E A HISTÓRIA ENSINAMENTO PARTE VIII




O FILHO DE UM CONTADOR DE HISTÓRIAS PARTE FINAL



Depois de um tempo, os dois homens, vendo que nada acontecia, decidiram tomar as duas princesas e voltar à corte para reclamar o prêmio que, por direito, corresponderia ao seu companheiro abandonado.
Os malvados ameaçaram as duas jovens, que, se caso elas não apoiassem a sua história de que eram eles os verdadeiros heróis, certamente as matariam. Deste modo, retornaram ao palácio aonde foram recebidos como conquistadores. Eles disseram ao rei que a mais jovem das princesas, havia morrido na caverna e o rei ordenou que se observassem quarenta dias de luto. Passados estes dias, o emir e o ministro se casariam com as duas jovens, as quais, supostamente, tinham resgatado.
Enquanto isso, nas profundezas da caverna dos gênios, o contador de histórias e a jovem princesa se deram conta de que haviam sido abandonados quando a corda não baixou pela última vez. Buscando uma solução, os dois jovens revistaram todas as salas e até que numa delas encontraram uma caixa de latão incrustada de jóias. Quando a princesa a abriu, ouviu-se uma voz que disse: ‘Quais são tuas ordens? Sou o espírito desta caixa. Pede e te será concedido.
O contador de histórias adiantou-se e fez um pedido: que naquele mesmo instante, ele e a princesa fossem transportados, com a caixa, à margem do lago, e foi isso que aconteceu num abrir e fechar de olhos. Em seguida, pediu um grande barco carregado de tesouros e que a espada; a coroa e a corrente; fossem bordados nas velas. Quando ele e a princesa estavam a bordo, o jovem ordenou que voasse no mesmo instante para o porto que ficava ao lado do palácio do pai da princesa.
Assim que viu o barco, o rei pensou: ‘Este é um navio de um poderoso monarca. Apresentar-me-ei para fazer-lhe as honras, já que tem três símbolos de realeza em suas velas, deve ser três vezes mais importante do que eu’.
Então, o rei subiu a bordo do barco e, humildemente, começou a falar com o contador de histórias, pois não o reconhecera debaixo daquelas túnicas e jóias que havia obtido da caixa mágica. Porém, a princesa foi incapaz de se conter e, alegremente, saiu de seu esconderijo e logo contou ao seu pai toda a história.
O rei, ao saber de tudo, expulsou os dois homens, o malvado ministro e o guerreiro, das terras do reino e o contador de histórias casou-se com a princesa, para, juntos, herdarem o reino, na plenitude do tempo.
“E isto, nobres senhores”, disse o filho de um contador de histórias ao terminar seu relato, “vêm apenas vos mostrar o quão importante pode ser um ‘simples’ contador de histórias”.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

MAR DE HISTÓRIAS - UM ENSAIO SOBRE O PODER CRIADOR DA PALAVRA E A HISTÓRIA ENSINAMENTO PARTE VII



O FILHO DE UM CONTADOR DE HISTÓRIAS PARTE V


Aí, chegou-se ao contador de histórias que sem dizer nada tratou de descer. A água estava bastante fria, mas ele a suportou com vontade de ferro. O ruído novamente aconteceu e foi tão forte quanto mil tormentas e ele se preparou para fechar seus ouvidos. Finalmente, quando pensou que teria que se render, percebeu que havia atravessado os feitiços protetores dos gênios e estava dentro de uma enorme caverna, embaixo d’água. Abriu uma porta e chegou a uma sala aonde a primeira coisa que viu foi uma das princesas, sentada no chão, em companhia de um gênio de horrendo aspecto, em forma de serpente de dezoito cabeças, enrolada, dormindo em um canto.
O contador de histórias agarrou uma cintilante espada que pendia de uma parede e de um só golpe, cortou as cabeças do maléfico gênio.
A princesa correu e beijou sua mão e ao redor de seu pescoço colocou uma corrente de ouro do tesouro real.
‘Onde estão tuas irmãs?’ Perguntou-lhe o contador de histórias.
Ela então abriu outra porta, e dentro da sala contígua estava a segunda princesa, guardada por um gênio em forma de uma gigantesca caveira com pequenas patas. Imediatamente, o jovem pegou de uma adaga que enfeitava uma das paredes e, de um só golpe, separou a atroz cabeça das pernas e o gênio, soltando um gemido, expirou.
Os três jovens, juntos, foram em seguida à próxima sala aonde se encontrava a caçula das princesas, guardada por um gênio, com cabeça de abutre e corpo de lagarto.
O contador de histórias, ao ver que o gênio estava dormindo, rapidamente, se apoderou de um garrote pendurado na parede e o estrangulou.
As duas princesas puseram uma coroa em sua cabeça e uma espada real em sua mão. Então, se apressaram a voltar ao lugar em que a corda se encontrava pendurada, e, o contador de histórias fez com que a primeira princesa a segurasse enquanto que ele puxava a corda, avisando que ela já podia ser içada.
A primeira princesa logo chegou, sã e salva, a margem do lago.
Em seguida, chegou à vez da segunda princesa a ser içada, tornando a corda para o resgate da última jovem.
‘Sobe’, disse-lhe o contador de histórias. Mas a princesa se recusou a fazê-lo e assim lhe disse: ‘Tu és que deveria ir por primeiro... Temo uma traição. Poderiam deixar-te aqui, já que nós três estaríamos a salvo. Teus companheiros poderiam livrar-se de ti e reclamar o prêmio’. Todavia, o jovem recusou-se a subir e o mesmo fez a princesa.


Continua...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

MAR DE HISTÓRIAS - UM ENSAIO SOBRE O PODER CRIADOR DA PALAVRA E A HISTÓRIA ENSINAMENTO PARTE VI

O FILHO DE UM CONTADOR DE HISTÓRIAS PARTE IV



Após muitas aventuras, chegou a uma pousada e, ali viu, vestidos com farrapos e os pés encadeados, servindo miseravelmente a mesa dos hóspedes, nada mais nada menos que as desastradas figuras do el emir e do el wazir.
Estes, quando o reconheceram, lhe rogaram piedosamente que os ajudassem no que foram logo atendidos pelo jovem que lhes comprou roupas decentes e pagou-lhes o resgate, libertando-os, deste modo, do jugo do senhor da pousada.
El emir e el wazir, ficaram desconcertados ao saber que este homem, para eles relativamente humilde, tinha ordens do rei para acompanhá-los na busca e seu desgosto ficou ainda maior, por ter sido justamente ele, uma pessoa assim, audaz o bastante para os libertar do cativeiro. Pensavam desta maneira porque a antiga arrogância estava voltando, muito rapidamente por sinal, mas, querendo ou não, teriam que aceitar tê-lo por companheiro. Então, eles seguiram seu caminho, sem saber para onde iam até que, ao anoitecer chegaram a uma pequena cabana em cuja porta, sentada, estava uma velha e pobre mulher, reparando um cesto de juncos. O contador de histórias se deteve e todos se sentaram, a conversar.
Depois de compartilharem com a mulher a humilde ceia, o contador de histórias para entreter a todos, narrou um conto dos dias antigos.
Logo após o termino da história, a velha mulher perguntou o que os fizera chegar até ali.
‘Somos os três, senhora, membros da corte do rei’, disse um deles, ‘e, viemos em busca das três formosas princesas; filhas de Sua Majestade, que desapareceram há muitos meses, mas, até agora, apesar de termos passado por tantas dificuldades, não vimos nada, nem ouvimos sequer uma palavra sobre o paradeiro delas’.
‘Ah’! Disse a mulher, ‘pode ser que eu seja capaz de ajudá-los, já que demonstraram sabedoria através do conto que um de vós havíeis relatado. Penso que podereis ter uma oportunidade, entretanto, ouçam bem, apenas uma oportunidade, de êxito. As três princesas foram capturadas por três gênios maléficos que as levaram para as profundezas de um lago, perto daqui. Debaixo d’água há um castelo mágico onde a entrada, para qualquer ser humano, é quase impossível’.
Após uma noite mal dormida, passada ao lado da cabana, os três homens se dirigiram ao lago. Um halo de maldade pairava sobre este lugar, rodeado de árvores cobertas por um emaranhado de trepadeiras.
‘Eu descerei primeiro’, disse o chefe do exército, ‘porque sou o mais forte e posso lutar e vencer qualquer tipo de inimigo. O que podem fazer um ministro e um poeta em um caso como este?’.
Assim dizendo, retorceu seus bigodes num gesto de vangloria e tirou quase toda a sua roupa.
Os três fizeram cordas com as trepadeiras e o guerreiro, com a espada desembainhada e empunhando-a com a sua mão direita, começou a descer na água. ‘Quando eu der um puxão, subam-me’. Disse ele.
À medida, porém, que o emir ia descendo, ele notava que a água cada vez ficava mais fria e de repente, ouviu um barulho parecido com mil redobrar de trovões que chegava das obscuras profundezas. O medo assaltou o seu coração e o valoroso guerreiro, agitado, puxou a corda para que o subissem.
Então, foi vez do ministro, que insistiu em descer porque ansiava, como muitos administradores, o poder que obteria se pudesse casar-se com uma das filhas do rei. Mas, passou-se com ele a mesma coisa que se passara com o emir e logo tiveram que trazê-lo de volta à superfície.


Continua...

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

MAR DE HISTÓRIAS - UM ENSAIO SOBRE O PODER CRIADOR DA PALAVRA E A HISTÓRIA ENSINAMENTO PARTE V


O FILHO DE UM CONTADOR DE HISTÓRIAS PARTE III


Assim, os dois homens, juntos, viajaram, caminharam e cavalgaram, percorrendo lugares distantes e enfrentando muitas dificuldades. Em uma só palavra, fizeram tudo o que seu valor e sagacidade, unidos, puderam pensar; porém, antes mesmo de encontrar quaisquer rastro das princesas perdidas, foram capturados por bandidos e vendidos como escravos ao proprietário de uma pousada que os fez trabalharem duro, feito duas bestas de carga; deixando também aos seus cuidados os escravos e os animais dos viajantes que passavam por ali.
Enquanto isso, no palácio do rei, novamente os dias transcorreram sem novidades. Nenhuma notícia chegava dos dois homens.
Já um longo tempo havia se passado e o rei e sua corte estavam mergulhados no mais profundo pesar. Foi aí então, que, diante de todo este abatimento, certo jovem, contador de histórias; filho de um contador de histórias, que por sua vez, era filho de um contador de histórias, que, fora também filho de um contador de histórias e assim sucessivamente, por incontáveis gerações, se apresentou perante o rei e toda a corte pedindo permissão para partir em busca das desditosas donzelas.
A princípio, o rei recusou-se a atender o pedido, perguntando-se o quê, afinal de contas, poderia fazer um simples contador de histórias, aonde dois de seus melhores homens haviam evidentemente falhado. Mas, depois, dando-se conta de que não poderia, de qualquer modo, piorar ainda mais a situação acabou cedendo e permitindo que o jovem seguisse o seu destino.
O contador de histórias, sem perder tempo, saltou por sobre o seu cavalo e galopou, rápido como uma flecha, em direção ao nascente.

Continua...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

MAR DE HISTÓRIAS - UM ENSAIO SOBRE O PODER CRIADOR DA PALAVRA E A HISTÓRIA ENSINAMENTO PARTE IV



O FILHO DE UM CONTADOR DE HISTÓRIAS PARTE II



O contador de histórias, que já esperava por isto prontamente obedeceu: “Ó Pavão Real! Fonte de Sabedoria; Grande Majestade; Sombra de Allah sobre a Terra; escutai: Houve certa vez, em tempos que lá se vão, um rei poderoso e justo como Sua Majestade, estimado em muitas terras; amado por sua gente e temido por seus inimigos.
Este rei tinha três lindas filhas, resplandecentes como a lua, que um dia foram passear num bosque próximo ao palácio e não mais retornaram... simplesmente desapareceram, e apesar das buscas empreendidas, nada, nenhum rasto, nenhuma pegada, nada, nada mesmo se encontrou.
Os dias se passaram sem qualquer novidade, então, o rei, cansado de esperar, convocou os arautos e ordenou que fossem por toda parte apregoando aos quatro cantos a seguinte mensagem: ‘Em nome do rei! Que ninguém diga que não ouviu. Aquele que encontrar as três filhas de Sua Majestade e devolvê-las sãs e salvas, será recompensado ao ter a honra de receber a mão de uma das princesas em casamento!’
Mesmo após aviso tão auspicioso, ainda assim, semanas transformaram-se em meses e nada de notícias. Foi como se a terra tivesse se fendido e tragado às três jovens e lindas donzelas.
Mas então, quando toda esperança parecia haver esmaecido, o rei reuniu aos seus cortesãos, incluindo os líderes espirituais, militares e temporais, aos juizes dos juizes e a todos os cavalheiros e nobres do reino e lhes disse: ‘Reverendos doutores da lei e da fé! Leões e tigres dos meus invencíveis exércitos, algozes sem trégua dos infiéis e reis das artes do comércio e da indústria, escutai e conhecei o meu mandato. Elegerei representantes dentre vós, uns dois ou três, que sairão à procura das princesas e que não poderão retornar enquanto não as encontrá-las. Aqueles dentre vós que forem os escolhidos e tiverem êxito em sua missão, herdarão o reino. Se falharem, porém, nunca mais poderão por os pés em meus domínios e serão fatalmente mortos se mo desobedecerem’.
A corte, antes reunida, dividiu-se em grupos para eleger seus respectivos representantes e por sua vez, estes nomearam e votaram em seus próprios deputados, até que, finalmente, foram eleitos apenas dois homens: el Ami Al-Jaish, comandante dos vitoriosos exércitos, um furioso bebedor de sangue; e o primeiro ministro, conhecido como el wazir Al-Wuzura, tido como o mais sábios dos homens daquele país.
Chegada a uma conclusão, o rei deu suas últimas instruções aos dois escolhidos, que então, após a real preleção, se despediram tocando em suas cabeças, olhos e corações e dizendo baixinho: ‘Escutar é obedecer’. E em seguida, os dois homens subiram em suas montarias e se foram; porta afora, afastando-se cada vez mais do palácio, sob o estridente ressoar de centenas de trombetas.

Continua...

domingo, 11 de janeiro de 2009

MAR DE HISTÓRIAS - UM ENSAIO SOBRE O PODER CRIADOR DA PALAVRA E A HISTÓRIA ENSINAMENTO PARTE III


O FILHO DE UM CONTADOR DE HISTÓRIAS[1]

Era uma vez, na corte de um certo rei, isso já faz muito tempo, um contador de histórias proveniente de uma antiga linhagem de bardos, cuja tradição era a de preservar e relatar os contos dos tempos de antanho.
Este jovem poeta tinha bastante orgulho de sua descendência, assim como também de seu vasto repertório. Seus contos possuíam um elevado grau de sabedoria e eram utilizados como registros do passado, indicadores do presente e como alusões às coisas do mundo dos sentidos e do mundo que está para mais além. Mas, na corte, (como é natural e útil), havia especialistas de toda sorte, tais como chefes militares, cortesãos, conselheiros, embaixadores, engenheiros (peritos em construir e demolir); homens religiosos e ainda outros, voltados para os mais diversos tipos de aprendizagens. Em uma palavra, havia gente de todo tipo e condição e cada uma delas se achava melhor do que todas as outras.
Um dia, depois de uma larga disputa acerca da ordem de importância entre tais personagens, chegaram à conclusão, a única a que fatalmente poderiam chegar, que, dentre todos eles, o contador de histórias era o menos importante, o menos útil, o menos hábil em qualquer arte. A Assembléia, portanto, decidiu que, para começar o processo de reduzir o número de gente inútil, eliminariam primeiro o contador de histórias. Em particular, cada um dizia de si para si: “Assim que nos livrarmos do contador de histórias, chegará a vez dos outros, e quando ficar provado por A + B que todos eles também são desnecessários, apenas eu ficarei e sem outra alternativa o rei, certamente, me nomeará como seu único conselheiro”.
Com esta intenção, uma delegação de cortesãos, devidamente escolhidos, dirigiu-se ao contador de histórias e lhe disse: “Fomos encarregados pelo resto dos cavalheiros do reino que servem à Sua Majestade para informar-te que ficou decidido que, entre todos aqueles ligados à corte, tu és o menos importante. Não vais à guerra para assegurar a glória do reino ou para estender os domínios de nosso vitorioso soberano; não julgas casos para a preservação da tranqüilidade do Estado; não atendes às necessidades das almas das pessoas como fazem nossos líderes religiosos e não és prestativo tal qual os nossos elegantes pajens... enfim, não és nada!”.
“Veneráveis e respeitáveis pavões reais de sabedoria e pilares da fé”, exclamou o contador de histórias, “longe de mim, não estar de acordo com qualquer coisa que hajam resolvido, mas, por lealdade a Sua Majestade, devo dizer que há um conto antigo e profundamente sábio que prova corretamente que um contador de histórias é essencialmente necessário ao bem-estar e ao poder do império. Se assim o permitirem, terei muito gosto em relatá-lo”.
A delegação de cortesãos não estava precisamente ansiosa para que tal figura tomasse a palavra, entretanto, naquele exato momento, o rei chamou a todos à sala do trono e quis saber o que estava acontecendo. Quando acabou de ouvir tudo aquilo que até aqui é de nosso conhecimento, o rei ordenou ao contador de histórias que começasse seu conto, sem omitir nenhum detalhe.

Continua...

[1] Texto retirado do livro El Buscador de la Verdad; Cuentos y Enseñanzas Sufíes; Idries Shah; El Hijo de un Narrador de Histórias, pág. 255; Editorial Kairós, Barcelona; tradução; Virgínia Allan.

sábado, 10 de janeiro de 2009

MAR DE HISTÓRIAS - UM ENSAIO SOBRE O PODER CRIADOR DA PALAVRA E A HISTÓRIA ENSINAMENTO PARTE II



Introdução


As histórias, de um modo geral (mitos, fábulas, parábolas, contos de fadas) sempre fizeram parte de nossas vidas, primeiro por serem para nós, absolutamente necessárias.
O ser humano, assim que passou a evoluir de forma consciente, precisou, a cada dia, reinventar o próprio mundo, deixando que o poder criador da palavra atuasse sobre o fabuloso reino da imaginação.
O retorno aos tempos ancestrais, ou a sua relação com os acontecimentos a sua volta, expressos de vários modos; eram apenas uma maneira de dar e, talvez, se possível, através da imperfeição de sua arte e de seu claudicante linguajar, apreender um certo sentido à existência, que, aos seus olhos, lhe aparecia, tão frágil e constrangedoramente misteriosa. O homem, ao contar para si mesmo a sua própria história, buscava um meio de se encontrar, embora, algumas vezes, fosse necessário que também tivesse que se perder. Perdendo-se e encontrando-se, ele se tornou capaz de ser o senhor de seu destino, alcançando, depois de um árduo e lento esforço, um raro conhecimento que seria impossível para qualquer um calcular o seu devido valor. Portanto, se existe conhecimento, existe uma maneira de comunicá-lo e não de outro modo, mas sim por meio das histórias que se dá tal comunicação; uma comunicação preciosa e, profunda, vasta como o mar, que nos diverte, informa, mas, sobretudo, nos ensina. Veículos, ferramentas, envoltórios, tanto faz como as chamemos, queiramos ou não, são elas que nos conduzem de volta para casa, proporcionando-nos um saudável e sábio reencontro com nós mesmos
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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

MAR DE HISTÓRIAS - UM ENSAIO SOBRE O PODER CRIADOR DA PALAVRA E A HISTÓRIA ENSINAMENTO PARTE I


Música ao longe! O pequeno pastor se levanta, olhando para além do horizonte. Rapidamente, ele toca o rebanho, atravessando o vale verdejante. Ao chegar ao centro da praça da aldeia tranqüila, grita aos quatro cantos: “Eles estão chegando...! Os trovadores estão chegando...!” Assim avisados, os habitantes da aldeia acodem ao chamado, enquanto, cada vez, mais perto, ouve-se o barulho ensurdecedor de tímbales, flautas e tambores... A alegria logo toma conta da praça, repleta de gente. Não é à toa! Conhecidos por espalharem conforto e esperança por onde passam, os trovadores são sempre bem-vindos... Ao cruzarem os portões da aldeia tranqüila, tocando e dançando, gritos de satisfações são ouvidos por todos os lados. As crianças, num instante, rodeiam o contador de histórias, que, ao sentar-se no chão, pede silêncio e com as mãos, faz um leve movimento... Eis, que, de repente, não estão mais na praça de uma pequena aldeia, mas sim, num reino muito distante onde sonha uma princesa radiante como o sol; bela e suave como a lua. E no chão da praça do mercado, deste lugar fabuloso, entre barracas de frutas, vendedores de tapetes (quase todos mágicos), essências raras, gente de língua estranha e brincadeiras de crianças, senta-se um contador de histórias, que, ao pedir silêncio, faz com as mãos um leve movimento...



quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

SEGREDOS QUE PERMEIAM A NOSSA IGNORÂNCIA




Clarice Lispector


Há muitos segredos, Clarice, que permeiam a minha, a nossa, ignorância, que, por vezes, a sinto de forma por demais brutal. Ignorância cheira sempre a omissão, tens razão, é obvia a sensação de mal-estar, de ignorância... enfim, é mesmo uma horrível sensação. E, se cresce, como a escuridão, até se tornar palpável, como dizes, chega a ser uma ofensa descomunal, sem tamanho... a ignorância que nos é imposta (e aceita por nós) é propositalmente sustentada por aqueles que deveriam nos abrir os olhos e a mente, realmente é uma ofensa impar, imperdoável a qualquer um de nós enquanto seres pensantes. Ainda estamos como na Idade Média, pois o que me ofende mesmo é o descaso com que somos tratados cotidianamente. Somos patos, bobocas, prato cheio para políticos mau-intencionados que nos roubam no maior cinismo e disfarçam tudo com discursos floreados, distorcidos, de suas pretensas boa vontade inexistentes. E nós sem entendermos nada, porque sempre somos "vítimas" e até parecemos gostar dessa posição... pobre de nós, pobre povo... sempre vítima das situações. O que nunca entendemos, é que nós, como povo, temos poder, mas sempre intimidados, deixamos de usá-lo. O povo é roubado, espoliado sempre em sua própria época, seja lá em que espaço de tempo for. Coitado do povo. Porém, entenderia o povo se soubesse que é tão poderoso? O que falta ao povo... discernimento? Será que essa ignorância precisa ser permanente... precisa perdurar para sempre... por que não termos um povo sábio, ciente e condutor de seu próprio destino? Será que isto nunca será possível? Será que os segredos físicos e psíquicos, o sumo bem, estão velados ao povo?... bom... há um ditado que diz “que toda maioria é burra”... Será? Nos tratam como crianças tolas, incultas, nada modestas com a alegria, embevecidas, comovidas, com a piedade e os “cuidados” de quem nos humilha, e o fio de esperança realizáveis, quase invisível, que por Deus nos é estendido, não por piedade, mas, por nos ser de direito, este fio de esperança, dádiva divina, matéria do qual são feitos os sonhos, passa por nós “quase” desapercebido... “quase” nunca é visto.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

MAIS QUE FÁBULA, VIDA REAL...


Tradução Virgínia Allan
Era uma vez, não faz muito tempo, certo edifício infestado por ratos. Os administradores deste decidiram por bem exterminá-los, então, certa noite espalharam raticida de cima abaixo da construção, porém, na manhã seguinte o veneno tinha desaparecido, os ratos o haviam comido. “Trocaremos o veneno”, disseram os administradores e fizeram nova tentativa. Mas, também esta segunda dose mortal, foi gulosamente ingerida pelos ratos, que, ainda deram mostras de que muito haviam aproveitado a nova dieta.
Decidiram-se recorrer às velhas ratoeiras e para tentar aos ratos imunes a veneno, utilizaram como isca, suculentos pedaços de queijo. Entretanto, os ratos nem tocaram o queijo. Foi aí, que, um dos administradores, pensou: “Talvez os ratos tenham desenvolvido gosto pelo veneno, talvez lhes faça bem”. Assim supondo, comunicou aos outros e armaram um plano, que foi posto em execução na mesma noite: colocaram nas ratoeiras, queijo polvilhado com veneno. Na manhã seguinte, as ratoeiras estavam cheias de ratos fortes e saudáveis.

Desta história, pode-se extrair toda sorte de moral e ensinamentos, mas, a citamos aqui, por ser absolutamente verídica ou pensa você que as fábulas são meros produtos da imaginação, tolas fantasias, destinadas somente a divertir ou instruir? As melhores fábulas se extraem da vida real, da própria comunidade e dos processos mentais do individuo.

De uma notícia impressa no Daily Mail, Londres, 2 de Dezembro de 1967, pág. 9, col. 3... coletada por Idries Shah e posta como nota introdutória de seu livro REFLEXIONES, Edições PAIDOS.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

AFORISMOS


Tradução: Virgínia Allan


Otimismo/Pessimismo: Às vezes, um pessimista é tão somente um otimista com informação adicional.


Os fins e os meios: Estarão à deriva aqueles que crêem, todavia, que um meio possa ser um fim.


Oportunidade: As pessoas se esquecem que, quando se aceita uma oportunidade, esta não seja, talvez, o que crêem que seja. Um homem reconhece e aceita uma oportunidade de acordo com o grau de homem que é, e também se esta oportunidade é uma que realmente lhe corresponde.


Fama e esforço: O esforço torna famosos a alguns gandes homens. Um esforço ainda maior, permite que a outros grandes homens permaneçam desconhecidos.


Prejuízo: As gentes não podem manobrar o prejuízo porque tentam entender-se com o sintoma. O prejuízo é o sintoma, as suposições erradas são a causa. "O prejuízo é o filho da suposição.


Talento: O talento é a presença da habilidade e a ausência da compreensão sobre a fonte e funcionamento do conhecimento.


Conhecimento x Crença: O conhecimento é algo que tu podes utilizar. A crença é algo que utiliza a ti.


Sombra: Hás notado que quanta gente que caminha na sombra, maldiz o sol?


Idries Shah; REFLEXIONES, Ediciones Paidos


sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

NOTA DISSONANTE



No céu do Oriente, há tempos não brilha a luz da estrela de Belém. Ela foi empanada por outra espécie de brilho, certamente menos belo, menos amável, menos intenso... porém, certeiro, rápido e mortal. Hoje, o que brilha no céu do Oriente, não são os foguetes de festas, nem de felicidades, e a fumaça que sobe não é um sinal de paz... O brilho, no céu do Oriente, é traiçoeiro, medonho e voraz. Ultimamente, as crianças palestinas tem sofrido bastante... elas estão levando a pior... pais assustados, desesperados... famílias inteiras, há anos, raramente escapam dos bombardeios lançados ou do brilho de ódio que percebem nos olhos do estranho que mora ao lado; ódio acumulado, tanto de um lado quanto de outro, por décadas e décadas de uma guerra interminável. Acontece agora tal e qual aconteceu outrora, em tempos remotos, quando Jesus e sua família fugiam da ira assassina dos soldados romanos; a história se repete do mesmo modo, brutal e cruel, mas neste cenário atual, nos dois lados, não há reis magos, nem José e Maria, há apenas meninos Jesus assassinados, homens e mulheres, seres humanos massacrados, desamparados, que recebem de presente do mundo calado porções de mísseis, fuzis, bombas, mártires suicidas e granadas de indiferença; indiferença que campeia triunfante por entre os homens errantes desta terra, que exercem em seus domínios, em puro delírio, egoístico poder... infelizmente, parece não haver solução... irredutiveis sãos os dogmas, as ideologias apregoadas, o ensinamento religioso deturpado... A Jihad islâmica, certamente continuará, Israel resitirá e será assim, até a destruição total... até o fim dos dias... Tomara que não... Estamos todos a espera de um milagre e não do Juízo Final...