quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Do livro Masnavi de Jalaluddin Rumi; Edições Dervish
Tradução: Mônica Udler Cromberg/Ana Maria Sarda



Escuta a flauta de bambu, como se queixa,
Lamentando seu desterro: “Desde que me separaram de minha raíz,
Minhas notas queixosas arrancam lágrimas de homens e mulheres.
Meu peito se rompe, lutando para libertar meus suspiros,
E expressar os acessos de saudade de meu lugar.
Aquele que mora longe de sua casa
Está sempre ansiando pelo dia em que há de voltar.
Ouve-se meu lamento por toda a gente,
Em harmonia com os que se alegram e os que choram.
Cada um interpreta minhas notas de acordo com seus sentimentos,
Mas ninguém penetra os segredos de meu coração.
Meus segredos não destoam de minhas notas queixosas,
E, no entanto, não se manifestam ao olho e ao ouvido sensual.
Nenhum véu esconde o corpo da alma, nem a alma do corpo,
Mas, não obstante, homem algum jamais viu a alma.”



O lamento da flauta é fogo, e não puro ar.
Que aquele que carece desse fogo seja tido como morto!
É o fogo do amor que inspira a flauta,
É o amor que fermenta o vinho.
A flauta é confidente dos amantes infelízes;
Sim, sua melodia desnuda meus segredos mais íntimos.
Quem viu veneno e antídoto como a flauta?
Quem viu consolador gentil como a flauta?
A flauta conta a história do caminho, manchado de sangue, do amor,
Conta a história das penas de amor de Majnun
Ninguém sabe desses sentimentos senão aquele que está louco,
Como um ouvido que se inclina aos sussurros da língua.
De pena, meus dias são trabalho e dor,
Meus dias passam de mãos dadas com a angústia
E, todavia, se meus dias se esvaem assim, não importa,
Faz tua vontade, ó Puro Incomparável!
Mas quem não é peixe logo se cansa da água;
E àqueles a quem falta o pão de cada dia, o dia parece muito longo;
Portanto o “Verde” não compreende o estado do “Maduro”,
Eis que cabe a mim abreviar meu discurso.


Levanta-te, ó filho! Rompe tuas cadeias e sê livre!
Quanto tempo serás cativo da prata e do ouro?
Embora despejes o oceano em teu cântaro,
Este não pode conter mais que a provisão de um dia.
O cântaro do desejo do ávido nunca se enche,
A ostra não se enche de pérolas até a saciedade;
Somente aquele cuja veste foi rasgada pela violência do amor
Está inteiramente puro, livre de avidez e de pecado.


A ti entoamos louvores, ó Amor, doce loucura!
Tu que curas todas as nossas enfermidades!
Que és médico de nosso orgulho e presunção!
Tu que és nosso Platão e nosso Galeno
O amor eleva aos céus nossos corpos terrenos,
E faz até os montes dançarem de alegria!
Ó amante, foi o amor que deu vida ao Monte Sinai,
Quando “o monte estremeceu e Moisés perdeu os sentidos.”
Se meu amado apenas me tocasse com seus lábios,
Também eu, como a flauta, romperia em melodias.
Mas aquele que se aparta dos que falam sua língua,
Ainda que tenha cem vozes, é forçosamente mudo.
Depois que a rosa perde a cor e o jardim fenece,
Não se ouve mais a canção do rouxinol.


O Amado é tudo em tudo, o amante, apenas seu véu;
Só o Amado é que vive, o amante é coisa morta.
Quando o amante não sente mais as esporas do Amor,
Ele é como um pássaro que perdeu as asas.
Ai! Como posso manter os sentidos,
Quando o Amado não mostra a luz de Seu semblante?
O Amor quer ver seu segredo revelado,
Pois se o espelho não reflete, de que servirá?
Sabes por que teu espelho não reflete?
Porque a ferrugem não foi retirada de sua face.
Fosse ele purificado de toda ferrugem e mácula,
Refletiria o brilho do Sol de Deus.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

PERDIDO PAÍS DE SIÃO




Liberdade coração
(legenda e foto: Wilson Gorj) 





Achava tão triste àquelas tardes
Em que da minha casa ouvia
A cantilena monótona
Da Ave Maria

Os pássaros passavam em revoada
(Constantes, cantantes revoadas)
Como que em alegre procissão
Enquanto na modesta igrejinha
Prostravam-se as senhorias em solenes confissões 

Fundi-me a essas tardes melancólicas
Que impregnaram-me a alma
Com a essência dessa tristeza infinita
Onde, agora, nem o mais doce e puro vinho
Pode alegrar-me a tempo

As cores rapidamente esmaecem
Assim como meus dias

Quisera ainda saber do amor...

Mas, perdi o rumo, o coração
Ao regar com lágrimas de aflição
As rosas secas, desfolhadas
Que crescem ao longo da ignorada, impossível estrada
Que conduz ao país perdido de Sião





sábado, 26 de dezembro de 2009

LUA NO POÇO



De dentro do poço, vejo a lua e ela atingi-me com sua tênue luz esbranquiçada, que ilumina  somente uma pequena parte da escuridão profunda do poço em que me encontro. E eu estou lá, sozinha com meus demônios, buscando a sorte dentro das partículas de poeira que se soltam das estrelas ou procurando as cores do arco-íris nas gotículas de água que são tocadas pela luz, tênue luz esbranquiçada... De dentro do poço, quase nunca vejo a aurora chegar. Impede-me a visão ruim, que turva, distorce, tudo que me chega do éter. A verdade eterna nunca chegará intacta, inteira até mim... restam-me apenas os vestígios, os pedaços, confusas peças de retalho. Serei para sempre como um pobre andarilho, que incansavelmente bate a porta de estranhos à espera que esta lhe seja aberta e, por esse momento, aguarda, sentado à soleira, horas a fio... Medieval é a música que ecoa em meus ouvidos, e em sonhos, suavemente subo no dorso do dragão e suas gigantescas asas são como dois leques a abrandarem a chama de meu espírito, vou, por entre as nuvens, em busca de auxilio. Eu, prisioneiro do poço, vejo a lua pela lua do meu olho, janela aberta de minha alma, e anseio pela corda que há de me salvar e levar-me daqui, do limo e do lodo, para o campo minado de estrelas do céu...

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

UM CONVITE INESPERADO









O convite fora colocado por debaixo da porta, seguido de dois toques da campainha.
Surpresa, Maria Luisa apressou-se em abri-la esperando encontrar o autor da brincadeira... Sim... Só podia ser uma brincadeira, coisa de criança, talvez, já que suas correspondências, quando havia, eram todas entregues na portaria do prédio, aos cuidados de seu Nestor, o porteiro. Nenhum estranho passava por ele, nem mesmo o carteiro. Homem sisudo, pouco sociável, considerava o recebimento das correspondências de cada morador do prédio, como sendo de sua inteira responsabilidade, uma parte essencial de seu trabalho.
Mas, contudo, fato é, que ela, ao abrir a porta a ninguém encontrou e assim voltou para dentro do apartamento levando o convite nas mãos; um convite, escrito e enfeitado de forma artesanal, em um tipo de papel esverdeado que Maria Luisa não conhecia, de tão bonito e raro, parecia antigo. Desdobrando-o com muito cuidado, leu a seguinte mensagem:

“José e Maria, com imensa satisfação, convidamos a senhorita Maria Luisa a participar do feliz acontecimento, o nascimento de nosso filho, a se realizar na noite de 24 de Dezembro, véspera de Natal, às 24:00 horas em Belém de Judá. É imprescindível o seu comparecimento.”

P.S: Para encontrar o caminho, siga a estrela.”

Maria Luisa virou e revirou o cartão, mais uma vez... achou o texto muito original, mas... Maria e José, um casal sem sobrenome? O cartão só continha o nome da rua, nada quanto ao número da casa, e ela, com toda certeza, não conhecia o casal. Embora José e Maria fossem nomes comuns, em suas relações não havia um José e Maria; havia o José e a Rita; havia a Maria e o Antônio, mas José e Maria, não... Engraçado. José e Maria! Só faltava o menino se chamar Jesus... Bem, de um jeito ou de outro teria que se apressar, era 24 de Dezembro, véspera de Natal. Logo os familiares chegariam e ela nem ainda estava pronta. Os afazeres para a ceia e a ornamentação da sala lhe tomaram todo o dia. Assim que as crianças chegassem tanto trabalho seria num instante destruído. Ora, nada é para sempre, entretanto, a casa ficaria quente e cheia de alegria.


Releu o convite e pensou que seria melhor comprar um presente e fazer uma rápida visita. Quem sabe não estava se esquecendo de algum velho amigo, que estava a lhe pregar uma peça?! Melhor esclarecer tudo o quanto antes. Todos sabiam o quanto ela detestava essas brincadeiras que deixam as pessoas com cara de bobas.

A rua Belém de Judá não ficava longe dali, era até mesmo, fácil encontrá-la, pois os seus moradores haviam colocado à entrada, como enfeite natalino, uma enorme estrela dourada. Quanto ao casal, mesmo sem sobrenome, também seria muito simples. José e Maria existem em todo canto. É claro, a se notar pela delicadeza do convite, que este simpaticíssimo casal não levaria em conta se ela passasse por lá um pouquinho antes do previsto.
Maria Luisa, casando o pensamento à ação, foi até seu quarto, abriu o armário de onde tirou um vistoso casaco, (fazia frio), pegou a bolsa e a chave do carro e avisou a empregada que ia resolver um assunto de última hora. A pressa não a deixou esperar o elevador, descendo imediatamente as escadas.
Parada no sinal vermelho, Maria Luisa reparou a sua volta. No ar, uma mistura de bondade e melancolia. A cidade estava uma beleza, enfeitada de luzes que já agora, no princípio da tarde, começavam a se acender. As frases de praxe “FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO” ou os votos de “BOAS FESTAS”, escritas em letras gigantes e brilhantes, estavam dependuradas nas fachadas ou nos altos dos prédios e das árvores, como se dessa maneira, elas pudessem mesmo transmitir e espalhar felicidade e prosperidade, mas ainda assim, quantos hoje não estarão prontos a saltarem de edifícios e pontes? Quantos hoje não maquinam planos de morte e destruição, simplesmente por inveja ou sede de poder, gerando mágoas, desgostos e invejas? Quantas desesperanças, hoje, não serão manchetes nos jornais e revistas de amanhã? Quantos conseguem ver o lado bom de todas as coisas? Maria Luisa abanou a cabeça, afastando tais reflexões.
Pessoas passavam numa pressa inconsciente procurando evitar os encontrões. Um grupo de crianças vendia balas no sinal tentando convencer os motoristas resistentes com olhares inocentes e humildes, recitando frases decoradas e chorosas. Uma ambulância pedia passagem.

“Alguém, pensou Maria Luisa; está prestes a nascer... ou prestes morrer! Espero que seja um nascimento, um lindo nascimento. Se não é possível uma vida harmoniosa e feliz para todos; ao menos em época de Natal, fome e morte, poderiam não existir.”
Maria Luisa torna a se refugiar num mundo branco, cheio de casinhas com chaminés e papais-noéis rechonchudos e risonhos, espalhando ho-ho-hos para tudo quanto é lado. Maria Luisa desejava um mundo de fantasia; um mundo de cartão-postal.
Logo o sinal ficou verde, e a cor lhe fez lembrar-se do estranho convite. A curiosidade a atiçou.
O que será que levou este misterioso e desconhecido casal a lhe enviar um convite participando do nascimento de seu filho? Ela nem gostava de crianças... Quer dizer... não é que não gostasse... (até participava de obras assistenciais que envolviam crianças) mas a verdade é que gostava e amava mesmo poucas coisas e poucas pessoas. Amava sua família, principalmente seus sobrinhos (Clarinha, mais que todos) seus amigos, e Kalila e Dimna, seus gatos, que eram como duas crianças. Ah... amava também o seu velho piano alemão onde, através das teclas amareladas compunha a trilha sonora de sua vida solitária, e por vezes sua solidão chegava ao extremo. A campainha não tocava, o telefone não chamava... Silêncio, absoluto silêncio do qual enfim soubera tornar-se amiga e como estava sempre presente, com ele dialogava durante horas... dias.... semanas... meses e até por anos, somente nas horas em que tocava conseguia vislumbrar as debilidades de cada ser humano e isto lhe causava muita pena, muita pena...
Apesar de parecer indiferente ou descrente, Maria Luisa não é uma assim, talvez seja só um pouquinho infeliz. Mas, sem tirarmos conclusões precipitadas, ela guarda uma razão no fundo de seu coração, mas que, entretanto, nem para si ela ousa confessar. Saibam que ela se esconde por detrás deste amor amigo que dispensa aos sobrinhos (a Clarinha principalmente) usando este amor-consolo ao participar das obras de caridade, como compensação; uma forma de se perdoar e pedir perdão ao filho que nunca nasceu; ao filho que ela nunca deixou nascer. Isso foi há muito tempo. Maria Luisa era muito jovem e os tempos difíceis, mas, até hoje, carrega essa dor, doída e inesquecível. Por tal motivo, para que nunca mais chorasse tanto, não se apegou a ninguém, não casou e nem teve mais filhos. De lágrimas bastavam aquelas que ainda lhe restavam para chorar por seus pais, seus irmãos, seus sobrinhos, seus amigos... Menos mal seria - egoísmo de sua parte? - se eles lhes chorassem antes. Recolhida à solidão dos dias e das noites ansiava pelo perdão que ela, a si mesma ,não conseguia dar.
Maria Luisa disfarçou a tristeza. Estacionou o carro em frente à lojinha de artigos para bebês e antes de saltar, puxou o espelho; beliscou as bochechas, ajeitou os cabelos e ensaiou um sorriso.
Uma vez dentro da loja, Maria Luisa não sabe o que comprar. Eram tantos mimos! A vendedora se aproximou, solícita, mas ela dispensou sua ajuda. Queria por si mesma escolher o presente. Finalmente, após um longo tempo entre brinquedos, roupas, sapatinhos e mamadeiras, ela escolheu, pela fineza do trabalho, uma manta de lã azul claro, a qual pede à moça que embrulhasse para presente. A frase Feliz Natal saiu da boca da vendedora quase que involuntariamente junto com um risinho mecânico. Maria Luisa retribuiu a felicitação. Saiu da loja e abriu a porta do carro, porém, antes de partir, ela escutou os sinos da igreja repicando ao longe. O som rítmico e sereno voou pelos céus e pousou nas nuvens, imitando os anjos. Fim de tarde. A lua, branca e redonda, surgiu e os sentimentos de paz e amor que a envolveram neste momento foram tão profundos que, por um instante, Maria Luisa pensou ter vislumbrado a face de Deus. Maria Luisa pretendia ser uma lua, talvez uma lua maior do que aquela que pairava, soberba, tranqüila e solitária no céu! Seria isto possível? 
A rua Belém de Judá era antiga e situava-se no lado mais importante e privilegiado da cidade. Larga e longa, dividia-se em quatro direções. Maria Luisa parou o carro, indecisa. O que fazer? Não poderia, simplesmente, escolher uma dessas ruas e sair batendo de porta em porta, perguntando se ali moravam José e Maria. Sentiu-se ridícula e censurou-se por ter agido de um modo tão inconseqüente ao responder um convite que bem poderia ser uma brincadeira feita por alguém; amigo ou não, sabe-se lá com que intenção. 


Esta conclusão provocou-lhe um súbito desânimo que fê-la pensar em voltar para casa. Olhou para o céu, em busca de uma inspiração. À noite, apesar da lua, estava tão escura... então, viu a estrela brilhando, piscando, como que querendo chamar sua atenção O contentamento substituiu o desânimo,  seguiria sua intuição. Assim, estacionou o carro, pegou o presente e seguiu a pé, sempre de olho na estrela Estranhamente, iam rareando os transeuntes, as casas e as praças e estaria na mais absoluta escuridão se não fosse a luz brilhante da estrela. Maria Luisa teve a certeza de que estava sonhando. Tentou não se incomodar com o que estava acontecendo. Continuou andando com o presente nas mãos e um leve temor no coração.
Um pouco mais adiante, viu alguns homens caminhando, que, para seu espanto, pelas roupas, pareciam ter saído de dias antigos. Levavam consigo algumas ovelhas e Maria Luisa, perplexa e tímida, porém, sabendo em seu intimo que seria compreendida, aproximou-se e perguntou-lhes: “Senhores, por favor, aonde vão?”
Um deles, um belo jovem de olhos meigos e gentis, que carregava em seus ombros um filhote de ovelha, respondeu-lhe: “Descansávamos de nossa labuta conversando ao redor de uma fogueira, quando, de repente, se fez um imenso clarão. Um anjo, imerso em luz, desceu do céu e disse-nos: ´Alegrem-se! Trago-vos boas novas. O menino tão esperado nasceu em Belém´. Levantamo-nos imediatamente e tomamos o rumo de Belém, pois venturoso é aquele que pode ver o que nós vimos e ouvir o que nós ouvimos e atender ao chamado.”
Maria Luisa não podia acreditar.... Voltara no tempo...?! Como isso teria acontecido? Um sonho ou milagre de Natal!?
Seguiu com os pastores, sob a proteção da estrela, até chegarem a um pequeno estábulo iluminado por uma luz que não era deste mundo. Naquele lugar apertado e humilde, vigiados por uma vaca e um burro, Maria Luisa encontrou o casal Maria e José com o filho, o menino Jesus.
Os pastores, cheios de júbilo, ajoelharam-se e, não demorou, logo apareceram três homens, ricamente trajados, os três reis magos, que carregados de presentes; ouro incenso e mirra, ajoelharam-se também para prestarem suas homenagens ao menino salvador dos homens.

Maria Luisa, diante daquela cena familiar e antiga, lnão quis mais pensar se sonhava ou não, entregu-se e libertou sua alma cansada de todos os anseios e temores e, com lágrimas nos olhos, ajoelhou-se, junto a todos, em adoração. Maria, mulher e mãe; aquela que compreende e ameniza todas as dores, chamou Maria Luisa para mais perto de si, e, retirando o menino da manjedoura, delicadamente, colocou-o em seus braços.
                                                                            

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

NATAL... NATAL... NATAL...





Nos afazeres do dia a dia, nem me apercebi da chegada do Natal.
Ao longe, dobram os sinos de uma velha igreja 
e o ar impregna-se com o cheiro de velas e incensos.
Rumores de vozes, calorosas, chegam até mim.
No pátio ainda restam os vestígios da última chuva.
Nesta noite, silenciosa e fria, o menino Jesus espera renascer dentro de cada coração...
Uno-me ao brilho de uma estrela radiante e solitária
que lá do alto me chama e, em paz, dirijo meus passos
na direção do infinito.







terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A HISTÓRIA DOS DUENDES QUE ROUBARAM O COVEIRO PARTE FINAL




Já rompera o dia quando Gabriel Grub despertou e se achou deitado sobre a laje lisa do cemitério, tendo ao seu lado, vazia, a garrafa de vime, e a casaca, a pá e a lanterna recobertas da geada alvacenta da véspera, espalhadas pelo chão. A pedra em que vira o duende sentado pela primeira vez erguia-se diante dele e a cova em que trabalhara não ficava muito longe. A principio começou por duvidar da realidade das suas aventuras, mas a dor aguda que sentiu nos ombros quando tentou levantar-se indicou-lhe que os pontapés não haviam, por certo, sido irreais. De novo lhe abalou o espírito a ausência de vestígios de passos na neve sobre a qual haviam pinoteado os duendes, mas explicou rapidamente a circunstância quando se lembrou de que, sendo espíritos, não deixariam impressões visíveis. Por conseguinte, ergueu-se em pé com pode, apesar da dor nas costas; e tirando a neve da casaca, vestiu-se e voltou o rosto para a cidade.
Mas ele era um homem mudado, e não podia suportar a ideia de regressar a um sitio em que seu arrependimento seria chacoteado, e a sua reformação posta em dúvida. Hesitou alguns momentos; e logo, voltou-se, decidido a buscar outro lugar em que pudesse ganhar o pão.
A lanterna, a pá e a garrafa de vime foram encontradas, nesse dia, no cemitério. De inicio, muito se falou sobre o destino do coveiro, mas logo ficou estabelecido que fora carregado pelos trasgos; e não faltaram testemunhas, muito dignas de fé, que o tinham visto distintamente transportado pelo ar no lombo de um cavalo castanho, cego de um olho, com os quartos traseiros de leão e a cauda de urso. Por fim, em tudo isso se acreditou piamente; e o novo coveiro costumava exibir aos curiosos, por uma gorjeta insignificante, um bom pedaço de catavento da igreja, acidentalmente derrubado pelo sobredito cavalo em sua fuga aérea, e por ele apanhado no cemitério, um ou dois anos depois.
Infelizmente, porém, foram essas histórias algo prejudicadas pela reaparição inesperada do próprio Gabriel Grub, uns dez anos depois, quando já era um velho esfarrapado, reumático, mas contente.Ele contou sua história ao vigário e também ao prefeito; e, com o tempo, começou ela a ser aceita, como fato histórico, forma em que continua a sê-lo até hoje. Percebendo os que haviam crido no conto do catavento que a sua boa fé fora iludida, protestaram não cair noutra; assumiram a expressão mais esperta que puderam, encolheram os ombros, bateram na testa e murmuraram qualquer coisa a respeito de haver Gabriel Grub bebido toda a genebra e, a seguir, adormecido sobre a lápide lisa; e fingiram explicar o que ele imaginava ter visto na caverna dos duendes, dizendo que percorrera o mundo e tomara mais juízo. Mas essa teoria, que não logrou popularizar-se, aos poucos se extinguiu; e, seja como for, visto haver Gabriel Grub sofrido de reumatismo até o fim de seus dias, essa história tem, pelo menos, uma moral, à falta de coisa melhor: quando um homem de mau gênio bebe sozinho na véspera do Natal, pode ter certeza de que não há de sentir-se melhor por causa disso, ainda que os espíritos do licor sejam menos fortes, ou melhor retificados, do que os que viu Gabriel Grub na caverna dos duendes.               

domingo, 20 de dezembro de 2009

OS SINOS


OS SINOS



Edgar Allan Poe

Tradução – Oscar Mendes

I



Escuta: nos trenós tilintam sinos argentinos

Ah! Que mundo de alegria o som cantante prenuncia!

Como tinem, lindo, lindo, no ar da noite fria e bela!

Vão tinindo e o céu inteiro se constela, florescente,

refulgindo com deleites cristalinos!

Dão ao Tempo uma cadência tão constante

como um único descante com os tintinabulares, pequeninos sons

bem finos que nascendo vão dos sinos

sim, dos sinos, sim, dos sinos.



II



Escuta: em núpcias vão cantando os sinos, áureos sinos!

Quantos mundos de ventura seu tanger nos prefigura!

No ar da noite, embalsamado, como entoam

seu enlevo abençoado!

Tons dourados, lentas notas, concordantes...

E tão límpido poema aí flutua para as rolas,

que o escutam, divagantes, vendo a lua!

Volumoso, vem das celas retumbantes todo um jorro

de euforia que se amplia! Que se amplia!

“O futuro é belo e bom!” – clama o som,

que arrebata, como em êxtases divinos,

no balanço repicante que lá soa, que tão bem, tão bem ecoa,

na vibrante voz dos sinos, sinos, sinos

carrilhões e sinos, sinos, no rimado, consoante

som dos sinos.



III



Escuta: em longo alarma bradam os sinos, brônzeos sinos!

Ah! que história de agonia, turbulenta, se anuncia!

Treme a noite, com pavor, quando os ouve

em seu bramido assustador! Tanto é o medo que,

incapazes de falar se limitam a gritar em tons frouxos,

desiguais, clamorosos, apelando por clemência ao surdo fogo,

contendendo loucamente com o frenesi do fogo,

que se lança bem mais alto, que em desejo audaz estua de,

no empenho resoluto de algum salto

(sim! agora ou nunca mais!), alcançar a fronte pálida da lua!

Oh! os sinos, sinos, sinos!

De que lenda pavorosa, de alarmar, falam tanto?

Clangorantes, ululantes, graves, finos, quanto espanto vertem

quanto, no fremente seio do ar!

E por eles bem a gente sabe – ouvindo seu tinido, seu bramido –

se o perigo é vindo ou findo.

Bem distintamente o ouvido reconhece pela luta, na disputa,

se o perigo morre ou cresce, pela ampliante ou decrescente

voz colérica dos sinos, badalante voz dos sinos

sim, dos sinos, sim, dos sinos,

carrilhões e sinos, sinos, no clamor e no clangor que vêm dos sinos!



IV



Escuta: dobram, lentamente, os sinos, férreos sinos!

Ah! que mundo de pensares tão solenes põem nos ares!

Na silente noite fria, quanto a alma se arrepia à ameaça desse canto

melancólico de espanto!

Pois em cada som saído da garganta enferrujada

há um gemido!

E os sineiros (ah! essa gente que, habitando o campanário solitário,

vai dobrando, badalando a redobrada voz monótona

e envolvente...), quão ufanos ficam eles, quando vão

tombar pedras sobre o humano coração!

Nem mulher nem homem são, nem são feras: nada mais

Do que seres fantasmais.

E é seu Rei quem assim tange, é quem tange, e dobra, e tange.

E reboa triunfal, do sino, a loa!

E seu peito de ventura se entumesce com os hinos funerários

lá dos sinos; dança, ulula e bem parece ter o Tempo

num compasso tão constante qual de rúnico descante

pelos hinos lá dos sinos! ha! dos sinos!

leva o Tempo num compasso tão constante

como em rúnico descante, pela pulsação dos sinos, a plangente

voz dos sinos, pelo soluçar dos sinos!

Leva o Tempo num compasso tão constante

que a dobrar se sente, ovante, bem feliz com esse rúnico descante

com o reboar que vem dos sinos, a gemente voz dos sinos

o clamor que sai dos sinos, alucinação dos sinos, o angustioso,

lamentoso, longo e lento som dos sinos!

sábado, 19 de dezembro de 2009

A HISTÓRIA DOS DUENDES QUE ROUBARAM O COVEIRO PARTE VI


- Mostrem-lhe novos quadros – ordenou o rei dos duendes.

A essas palavras, dissipou-se a nuvem e à sua vista se apresentou formoso e rico panorama – o mesmo que se vê, até hoje, a meia milha da velha cidade abacial. Brilhava o sol no céu azul, muito claro, refulgia as água debaixo dos seus raios, e as arvores pareciam mais verdes, e as flores mais alegres, sob sua benéfica influência. Marulhavam as águas, com agradável murmúrio; as folhas se agitavam à suave brisa que sussurrava entre elas; cantavam os pássaros nos ramos; e a cotovia saudava, alegre, o romper da manhã. Sim, era de manhã; uma brilhante e balsâmica manhã de verão; na menor das folhas, na mais delicada haste de relva, sentiam-se estos de vida. Saia a formiga para o seu cotidiano labor, a borboleta esvoaçava e se aquecia aos quentes raios do sol; miríades de insetos estendiam as asas transparentes, e gozavam da existência breve, mas feliz.

O homem caminhava enlevado, pela cena; e tudo era esplendor e harmonia.

- Você! Miserável criatura! – disse o rei dos duendes, em tom ainda mais desdenhoso. E voltou a agitar a perna; e esta volveu a descer sobre os ombros do coveiro; e tornaram os outros duendes a imitar-lhe o exemplo.

Muitas e muitas vezes tornou e passou a nuvem, ensinando muitas lições a Gabriel Grub, que, embora tivesse os ombros doloridos pelas freqüentes aplicações dos pontapés, olhava para tudo com um interesse que nada poderia diminuir. Viu que os homens que trabalhavam muito e obtinham a custo o seu escasso pão eram alegres e felizes; e que até para o mais ignorante era o aspecto meigo da natureza fonte inesgotável de prazeres e alegria. Viu os que tinham sido criados com mimos e crescido entre carinhos, contentes a despeito das privações, e superiores ao sofrimento que teria esmagado outros mais fortes, porque traziam dentro de si os germes da conformação e da paz. Viu que as mulheres, as mais delicadas e frágeis de todas as criaturas de Deus, eram, o mais das vezes, superiores à tristeza, à adversidade e à desgraça; e compreendeu que o motivo residia em trazerem nos corações uma fonte inexorável de afeto e dedicação. Viu, sobretudo, que homens como ele próprio, que remoqueavam a jovialidade e a alegria dos outros, eram as piores ervas más que se encontravam na bela superfície da terra; e, comparando todos os bens do mundo com todos os seus males, chegou à conclusão de que, afinal de contas, era um mundo assaz decente e respeitável. Assim que chegou a essa conclusão, a nuvem que se fechara sobre o último quadro pareceu envolver-lhe os sentidos e convidá-lo ao repouso. Um por um, desvaneceram-se os duendes; e quando o último desapareceu, caiu num sono profundo.


Continua...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

A HISTÓRIA DOS DUENDES QUE ROUBARAM O COVEIRO PARTE VI




A nuvem tornou a passar e a cena tornou a se modificar. O pai e a mãe estavam agora velhos e enfermos, e o número dos que o rodeavam diminuíra mais da metade; o contentamento e a jovialidade, porém, estampavam-se em cada rosto e brilhavam em todos os olhos, quando, reunidos à volta do lar, ouviam e contavam histórias de tempos passados. Lenta e suavemente desceu ao tumulo o pai e, logo a companheira de todas as suas penas e trabalhos o acompanhou a um sitio de repouso. Os poucos que lhe haviam sobrevivido ajoelharam-se-lhe à beira da sepultura e regaram, com lagrimas, a verde relva que a recobria; depois, levantando-se, partiram: tristes e enlutados, mas sem gritos agudos nem lamentações desesperadas, pois sabiam que um dia haveriam de encontrar-se outra vez; e de novo se engolfaram na azáfama do mundo, e o contentamento e a jovialidade lhes voltaram. A nuvem parou diante do quadro e ocultou-o da vista do coveiro.

- Que é que você acha disso? – inquiriu o duende, voltando o rosto enorme para Gabriel Grub.

Gabriel murmurou qualquer coisa, dizendo que achava muito bonito, e pareceu meio envergonhado quando o duende pousou nele os olhos de fogo.

- Você! Miserável criatura! – revidou o trasgo, num tom de supremo desdém. – Você! – e parecia disposto a acrescentar alguma coisa, mas a indignação o impediu de continuar; ergueu, portanto, uma das flexibilissimas pernas e, agitando-a pouco acima da sua cabeça, para fazer melhor pontaria, administrou a Gabriel Grubb um belo pontapé; em vista do que, todos os duendes da corte se apinharam à volta do desditoso coveiro e distribuíram-lhe pontapés sem misericórdia, segundo o invariável e estabelecido costume dos cortesãos na terra, que flagelam os que o rei flagela e agradam os que o rei agrada.


Continua...