domingo, 7 de dezembro de 2008

TROVADORISMO PARTE IV






Cantiga de escárnio e maldizer

De fundo satírico, que se apresenta de forma velada, encoberta, assim colocada através do sarcasmo e da ironia, as cantigas de escárnio são usadas com o propósito de esconder as más intenções como a maledicência e a imoralidade, enquanto na cantiga de maldizer o trovador mostra suas reais intenções; nada esconde... a sátira é feita às claras, e o assunto ridículo e escandaloso, aparece num linguajar chulo, até mesmo pornográfico.
Tanto uma quanto a outra forma de cantiga, eram decantadas pelos jograis de má fama e bem refletiam o ambiente rústico e boêmio das tabernas e seus freqüentadores. Os poetas adeptos deste tipo de cantigas eram chamados de Sirventés.
Características:
01. Representantes do gênero satírico, aonde, em tais composições, uma pessoa em particular é exposta ao ridículo, apresentando dentro deste contexto, vários problemas, oferecendo excelente material de estudo da sociedade medieval.

02. Usa-se um linguajar mais popular, sendo constante o uso de palavras e termos de baixo calão.

As cantigas do tempo do trovadorismo tinham como artistas o trovador (oriundo de casa nobre, compunha a letra e a música das cantigas) o segrel (o trovador, porém de origem humilde, do povo) o jogral ou menestrel (apenas o intérprete das cantigas).

Cantiga de escárnio

Nesta cantiga de escárnio, de autoria de Airas Nunes, percebe-se claramente, a crítica feita à sociedade e ao clero da época, que, não sabiam ao certo donde se encontrava a verdade.

Porque no mundo menguou (1) a verdade,
punhei (2) um dia de a ir buscar
e u (3) por ela fui a preguntar
disseron todos: “alhur (4) lá buscade,
ca de tal guisa (5) se foi a perder
que non podemos em novas haver, (6)
nen já non anda na irmandade”.

Nos mosteiros dos frades regrados
a demandei (7) e disseron: m’ assi:
“non busquedes vós a verdad’ aqui,
ca muitos anos havemos passados
que non morou nosco, per boa fé,
nen sabemos ond’ ela agora este (8)
e d’al (9) havemos maiores cuidados”. (10)

(Airas Nunes)

(1) menguou: minguou
(2) punhei: esforcei-me
(3) u: onde
(4) alhur: em outro lugar
(5) ca de tal guisa: porque de tal modo
(6) em novas haver: ter noticias dele
(7) a demandei: perguntei por ela
(8) este: esteja
(9) d’al: de outras coisas
(10) cuidados: preocupações


Cantiga de maldizer

Aqui, neste exemplo de cantiga de maldizer, Pero da Ponte, critica abertamente a pessoa de Don Martin Marco.


Mort’é Don Martin Marcos
ay Deus, se é verdade!
sey ca se ele é morto
morta é torpidade,

***

e morta neycedade,
morta é covardia
e morta é maldade.

Se Don Martinh’ é morto
sen prez e sen bondade,
ay mays mãos costumes
outro senhor catade,
mays non o acharedes
de Roma atá a cidade,
se tal senhor queredes
alhú-lo dermandade.
Pero hu cavaleyro
sey eu par caridade
que vos ajudaria
tolher d’ Il soydade,
mays que vos diga
ende bem a verdade;
non este rey nen conde
mays he outra podestade
que non direy, que dyrei,
que non direy...



A trama conspiratória contra D. Sancho II, levou os trovadores a se insurgirem, criticando amargamente, a vil traição, a cruel deslealdade dos alcaides para com esse rei, surgindo daí uma série de cantigas de escárnio e maldizer. A música, a poesia e a dança se juntaram, solidários no mesmo sentimento e por isso, enquanto o trovador cantava, fazia-se acompanhar por guitarras, saltérios, violas, pandeiros, dos jograis e ministréis.

Continua...

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