terça-feira, 25 de novembro de 2008

TROVADORISMO



Há uma linha de pensamento que defende a Arábia como lugar de origem da poesia (não só da poesia) medieval, e que ganhou força incorporada ao folclore local das regiões por onde andou.
Eu sou uma defensora dessa corrente, que, para mim, é a que apresenta os aspectos mais lógicos e aceitáveis. Porém, não quero me deter neste ou naquele ponto de divergência... me aterei aos fatos, acho que, “indiscutíveis” (?!) que me forneceram algumas pesquisas.
A Provença, por exemplo, que eu já havia citado no texto anterior, sobre São Francisco de Assis, foi uma região de notável importância, exercendo uma enorme influência nos poetas populares.
A Provença (do latim “província”) ou ainda Proença é uma região situada ao sudeste da França, banhada pelo Mar Mediterrâneo e habitada desde o período pré-histórico. Por lá já passaram os gregos, que fundaram Marselha (antiga Massália) sua mais importante cidade, e depois foi ocupada pelos lígures e celtas, sendo a partir do século II uma província do Império Romano. Provavelmente, um pouco antes disso, o cristianismo tenha alcançado a Provença, uma vez que no século III era considerada totalmente cristã.
Com a queda do Império Romano do Ocidente, a região foi invadida pelos visigodos (séc. V) francos (séc.VI) e finalmente pelos árabes (séc.VIII) padecendo ainda incursões de piratas bérberes. Tempos depois, passa para os condes de Tolouse, como feudo dos condes de Barcelona (futuros reis de Aragão).
Em 973, os piratas árabes, baseados Fraxinetum, foram derrotados na batalha de Tourtour pelo conde Guilherme I, assumindo este, então, o título honorifico de Pater Patriae.
A Provença fez parte do Sacro Império Romano durante o período que compreende os anos de 1032 a 1246, tornando-se, neste mesmo ano (1246) feudo da coroa francesa, governado pela dinastia angevina.
Em 1481, a Provença é herdada por Luis XI e incorporada definitivamente ao domínio real da França.
Por toda a Idade Média a Provença esteve definitivamente ligada por laços dinásticos a Portugal (Península Ibérica).
No tempo das Cruzadas, era comum os trovadores provençais (troubador; assim era chamado o poeta medieval) adentrarem em Lisboa para de lá, partirem então rumo a Jerusalém.
A língua do poeta provençal era um dialeto de langue d’oc, que ao norte da França era por sua vez designado por trouver, que significa achar.
A poesia trovadoresca dividia-se em lírico-amorosa (que se subdividia em cantiga de amor e cantiga de amigo) e satírica (que também se “bipartia” em
cantiga de escárnio e cantiga de maldizer).



http://pt.wikipedia.org/wiki/Proven%C3%A7a
Curso Prático da Língua Portuguesa e sua Literatura; Jânio Quadros



TROVADORISMO PARTE II



Cantiga de Amor

Jeanroy discorda da opinião corrente de que as cantigas de amor mais antigas são aquelas atribuídas a Guilherme IX, Duque de Aquitânia (1071/1127), já que chegara ele, Jeanroy, à conclusão de que a “perfeição de seu estilo e de sua versificação” o impediam de crer na dita autoria outorgada ao cancioneiro. Claro que esta é uma discussão que não nos cabe agora, tratemos antes de saber o que seria então uma cantiga de amor; suas características e seu conteúdo.

Uma cantiga de amor era o meio pelo qual o poeta apaixonado expunha, extravasava, os seus mais recônditos sentimentos. Tais cantigas surgiam talvez, ocasionadas por um quadro de inferioridade social perante as belas damas freqüentadoras da corte.
Nas cantigas de amor fala o homem apaixonado à sua amada; exprimindo desse modo, para ela, todo o desejo em realizar ao seu lado, os seus mais belos sonhos, sonhos, sonhos estes que, esbarram, por fim, no código de ética da época, que o tornam um vassalo, um servo fiel da mulher amada, cuja separação é capaz de fazê-lo “morrer de amor”.
Notemos algumas características das composições de cantigas de amor: Em primeiro lugar é um amor cortês... movido por um puro sentimento, profundamente espiritual, totalmente influenciado pela religião. Nesse tipo de amor, o poeta contenta-se em contemplar, de longe, o objeto de sua paixão. O homem é apenas seu humilde adorador, desejando o amor impossível, submisso, de joelhos, eternamente sofredor. Essencialmente masculina, pois é o homem que fala, pedindo, implorando, lamentando o amor, este sentimento que o mantêm aprisionado... Neste contexto, é a mulher divinizada, um ser etéreo, mágico, sobrenatural... dotada de toda pureza, dignidade e mansidão.
As cantigas de amor variam entre Tensão ( diálogo entre cavaleiros) Pastorela (onde canta-se o amor de uma pastora) Plang (canção amorosa, cheia de lamentos).

Observa-se aqui, nesta cantiga o óbvio distanciamento entre a dama e o poeta. É tão grande a comoção que ele sente, ao vê-la, que nem mesmo sabe se conseguiu, bem ou mal, expressar o terno sentimento que nutre por ela.



Cantiga de Amor



João Garcia de Guilhade



Esso mui pouco que oj’ eu falei
com mia senhor, (1) gradeci-o a Deus,
e gran prazer (2) viron os olhos meus!
Mais do que dixe (3) gran pavor per hei; (4)ca me tremi’ assi o coraçon (5)que non sei se lh’o dixe ou se non.

Tan grand sabor (6) houv’ eu de lhe dizer
e mui gran coita (7) que sofr’ e sofri
por ela! Mais tan mal dia nasci,
se lh’o oj’ eu (8) bem non fiz entender!
Ca me tremi’ assi o coraçon
que non sei se lh’o dixe ou se non.

Ca nunca eu falei com mia senhor
se non mui pouc’ oj’; e direi-vos al (9)non sei se me lh’o dixe bem, se mal.
Mais do que dixeestou a gran pavor;
ca me tremi’ assi o coraçon
que non sei se lh’o dixe ou se non.

E a quem muito trem’ ocoraçon,
nunca bem pod’ acabar sa razon. (10)



(1) senhor – amada
(2) prazer – alegria
(3) dixe – disse
(4) gran pavor per hei – estou preocupado
(5) ca me tremi assi o coraçon – pois estava tão emocionado
(6) sabor – prazer
(7) coita – pena de amor
(8) se lh’ o oj’ eu – se hoje eu a ela
(9) al – outra coisa
(10) – acabar as razon – transmitir a sua mensagem amorosa


TROVADORISMO PARTE III



Cantiga de Amigo



Na cantiga de amigo, embora fossem os mesmos trovadores a decantá-la (assim como também sucede à cantiga de escárnio e de maldizer) na cantiga de amigo, as palavras são postas na boca de uma mulher de origem humilde; uma rapariga do povo, como uma pastora ou camponesa, que ama o poeta, mas que sente a dor do abandono quando o trovador se enamora de outra mulher ou então quando este atende o chamado para a guerra. Muitos destes trovadores, sob forma de disfarce, usavam roupas femininas (cantigas de mulher). Diferente da cantiga de amor, que apresenta uma face idealista e algumas vezes, erudita, a cantiga de amigo se mostra mais simples, realista. Suas principais características são:
1. De caráter mais popular, as cantigas de amigo fazem uso mais freqüente do refrão, uma vez que é dirigido às festas, ao canto e a dança.
2.Trata dos mais variados assuntos... desde os domésticos aos políticos, portanto, serve como tema de estudos sobre os usos e costumes da época. Dependendo do assunto tratado, as cantigas de amigo se agrupam em bailias (festas e danças) alvas (falam do mar e dos perigos que o cercam) romarias (visitas aos santuários) pastorelas (mostram a vida no campo, assim como o trabalho das pastoras).
3. Existem três espécies de cantiga de amigo: cantiga de meestria (sem estribilho e dealma provençal) cantiga de refrão (com rosto popular) canção paralelística, autóctone (de cunho popular) esta é tida como a mais antiga forma poética da Península Ibérica.

Segue abaixo uma cantiga de amigo, uma das mais antigas conhecidas, de autoria de D. Sancho I, dedicada a uma formosa, porém, perversa mulher, Maria Pais Ribeiro, a que o soberano ofereceu muitas terras. Sua musa inspiradora podia não ter lá os melhores requisitos morais, coisa que, aliás, é de admirar em se tratando de D. Sancho I, que era um monarca preocupado e voltado com as coisas do espírito, mandando, inclusive muita gente estudar em Paris.



Ai eu coitada,
como vivo em gram cuidado
por meu amigo
que ei alongado!
muito me tarda
o meu amigo na Guarda!
Ai eu coitada,
como vivo em gram desejo
por meu amigo
que tarda e não vejo!
muito me tarda
o meu amigo na Guarda!


Mais um exemplo de cantiga de amigo, do cancioneiro de Martin Codax, que segundo alguns viveu entre a segunda metade do século XIII e começo do século XIV.



Ondas do mar de Vigo
se vistes meu amigo?
E ay Deus, se verrá cedo!
Ondas do mar levado,
se vistes meu amado?
E ay Deus, se verrá cedo!
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro?
E ay Deus, se verrá cedo!
Se vistes meu amado,
o por que ey gran coydado?
E ay Deus, se verrá cedo



Estudos de Português para o 2º. Grau, 1º. Volume; Elda Randoli Marino
Curso Prático da Língua Portuguesa e sua Literatura; Jânio Quadros


TROVADORISMO PARTE IV






Cantiga de escárnio e maldizer

De fundo satírico, que se apresenta de forma velada, encoberta, assim colocada através do sarcasmo e da ironia, as cantigas de escárnio são usadas com o propósito de esconder as más intenções como a maledicência e a imoralidade, enquanto na cantiga de maldizer o trovador mostra suas reais intenções; nada esconde... a sátira é feita às claras, e o assunto ridículo e escandaloso, aparece num linguajar chulo, até mesmo pornográfico.
Tanto uma quanto a outra forma de cantiga, eram decantadas pelos jograis de má fama e bem refletiam o ambiente rústico e boêmio das tabernas e seus freqüentadores. Os poetas adeptos deste tipo de cantigas eram chamados de Sirventés.
Características:
01. Representantes do gênero satírico, aonde, em tais composições, uma pessoa em particular é exposta ao ridículo, apresentando dentro deste contexto, vários problemas, oferecendo excelente material de estudo da sociedade medieval.

02. Usa-se um linguajar mais popular, sendo constante o uso de palavras e termos de baixo calão.

As cantigas do tempo do trovadorismo tinham como artistas o trovador (oriundo de casa nobre, compunha a letra e a música das cantigas) o segrel (o trovador, porém de origem humilde, do povo) o jogral ou menestrel (apenas o intérprete das cantigas).



Cantiga de escárnio

Nesta cantiga de escárnio, de autoria de Airas Nunes, percebe-se claramente, a crítica feita à sociedade e ao clero da época, que, não sabiam ao certo donde se encontrava a verdade.



Porque no mundo menguou (1) a verdade,
punhei (2) um dia de a ir buscar
e u (3) por ela fui a preguntar
disseron todos: “alhur (4) lá buscade,
ca de tal guisa (5) se foi a perder
que non podemos em novas haver, (6)
nen já non anda na irmandade”.

Nos mosteiros dos frades regrados
a demandei (7) e disseron: m’ assi:
“non busquedes vós a verdad’ aqui,
ca muitos anos havemos passados
que non morou nosco, per boa fé,
nen sabemos ond’ ela agora este (8)
e d’al (9) havemos maiores cuidados”. (10)
(Airas Nunes)

(1) menguou: minguou
(2) punhei: esforcei-me
(3) u: onde
(4) alhur: em outro lugar
(5) ca de tal guisa: porque de tal modo
(6) em novas haver: ter noticias dele
(7) a demandei: perguntei por ela
(8) este: esteja
(9) d’al: de outras coisas
(10) cuidados: preocupações


Cantiga de maldizer

Aqui, neste exemplo de cantiga de maldizer, Pero da Ponte, critica abertamente a pessoa de Don Martin Marco.

Mort’é Don Martin Marcos
ay Deus, se é verdade!
sey ca se ele é morto
morta é torpidade,

***

e morta neycedade,
morta é covardia
e morta é maldade.

Se Don Martinh’ é morto
sen prez e sen bondade,
ay mays mãos costumes
outro senhor catade,
mays non o acharedes
de Roma atá a cidade,
se tal senhor queredes
alhú-lo dermandade.
Pero hu cavaleyro
sey eu par caridade
que vos ajudaria
tolher d’ Il soydade,
mays que vos diga
ende bem a verdade;
non este rey nen conde
mays he outra podestade
que non direy, que dyrei,
que non direy...




A trama conspiratória contra D. Sancho II, levou os trovadores a se insurgirem, criticando amargamente, a vil traição, a cruel deslealdade dos alcaides para com esse rei, surgindo daí uma série de cantigas de escárnio e maldizer. A música, a poesia e a dança se juntaram, solidários no mesmo sentimento e por isso, enquanto o trovador cantava, fazia-se acompanhar por guitarras, saltérios, violas, pandeiros, dos jograis e ministréis.


Estudos de Português para o 2º. Grau, 1º. Volume; Elda Randoli Marino
Curso Prático da Língua Portuguesa e sua Literatura; Jânio Quadros

TROVADORISMO PARTE FINAL





Desaparecimento do Trovadorismo, Escola Palaciana e Cancioneiros...


A poesia, em Portugal, devido aos afazeres políticos e muita diversão, propagados pela administração dos reis Afonso IV, D. Pedro e D. Fernando, que se ocupavam mais das coisas materiais que espirituais, a poesia lírica entrou em decadência e ficou esquecida durante certo período de tempo ressurgindo em meados do século XV, desta vez sob a influência da Corte espanhola, que nunca deixou de praticá-la. A poesia desta época apresenta as seguintes características:

1. O linguajar está mais desenvolvido, mais evoluído
2. As formas poéticas apresentam maior variação e o uso do refrão é bem menos freqüente.
3. A poesia já não é mais cantada e, portanto, o poeta (não mais trovador) preocupa-se com a sonoridade e cadência dos versos.
4. Os temas usados continuam os mesmos, porém a distância homem-mulher não recebe mais tanta ênfase.
5. Ao lado da poesia lírica, surge a poesia didática e religiosa, de aspecto extremamente burguês, e praticamente a substitui. Com o fim da fase lírica criativa dos provençais, é natural o curso que se segue, ou seja, o desaparecimento da literatura trovadoresca assim como de seus compositores.

Dentre os principais trovadores do período medieval, se encontram D. Dinis, João Soares de Paiva, Paio Soares de Taveirós, João Garcia de Guilhade, Aires Corpancho, Airas Nunes, João Zorro, Afonso Sanches, Nuno Fernandes Torneol e muitos outros... As poesias do período medieval foram condensadas em coletâneas (cancioneiros) sob a forma de pergaminhos, contendo, muitas vezes, iluminuras ou partituras musicais. Dentre os cancioneiros portugueses estão:

Cancioneiro da Ajuda: A princípio guardado no Colégio dos Nobres, sendo, tempos depois, transferido para a Biblioteca da Ajuda, daí o seu nome, data, a primeira edição, de 1825. Vinte e seis anos mais tarde, Varnhagen lança uma segunda edição, acrescentando-lhe quarenta e duas composições, intitulando-o de Trovas e Cantares de um Códice do XIV Século, ou antes mui provavelmente o Livro das Cantigas do Conde de Barcelos, por achar ser este obra de apenas um poeta. Entretanto, a melhor edição, coube o mérito a ilustre romanista Carolina Michaelis, que, apresentou-o em dois tomos, contendo o primeiro o texto das cantigas, enquanto o segundo trazia as investigações bibliográficas, biográficas e histórico-literárias sobre os trovadores. Pensava ela ainda em um terceiro com notas e glossário, que, infelizmente, referindo-me as notas, não chegaram a aparecer, surgindo, porém o glossário em 1920 no volume 23 da Revista Lusitana. No ano de 1941, O Cancioneiro da Ajuda, foi publicado em Nova York pela Modern Language Association of America, uma edição diplomática completa, com texto de Henry Hare Carter e por fim, em 1945, surge o volume I do Cancioneiro da Ajuda entre a Coleção de Clássicos Sá da Costa, cujo prefácio e notas do professor Marques Braga constam como plágio de Carolina Michaelis. Contêm, este cancioneiro, segundo uns, 310 cantigas, quase todas de amor do século XIII, ou ainda, segundo outros, 467 poesias, todas anônimas.

Cancioneiro da Vaticana: Descoberto em Roma no anos 1843, na Biblioteca Vaticana, por bibliófilos, que tiveram sua atenção despertada por F.Wolf, que, por sua vez, fora espicaçado em sua curiosidade pelo cronista Duarte Nunes de Leão (1530/1608) sobre um Cancioneiro de El-Rei D. Dinis, este cancioneiro possui mais de duzentas folhas, com mil e duzentas cantigas de cento e sessenta autores, do século XIV e nele também estão incluídas as composições de D. Dinis. A primeira edição foi lançada em 1875 por Ernesto Monacci. A segunda edição é de Teófilo Braga e contêm uma introdução histórico-literária sobre os cancioneiros e um glossário.

Cancioneiro Colocci-Brancutti ou Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa: Sem muitas referências, sabe-se apenas que pertenceu antes, a Angelo Colocci e posteriormente ao conde Antônio Brancutti. Com a morte do conde o Cancioneiro passou as mãos de Ernesto Monacci que o vendeu ao governo português, passando este então a figurar na Biblioteca Nacional. Possui trezentas e cinco folhas e pelo menos, mil e quinhentas cantigas de diferentes épocas. Nela aparece a primeira poesia espanhola, e talvez a última composição poética do ciclo trovadoresco. Escrita depois de 1329, é da autoria de Afonso XI (1311/1350) de Castela.

Catigas de Santa Maria: Em idioma galaico-português constituem-se tais cantigas em trechos deveras impressionantes de conteúdo históricos e religiosos.

Cancioneiro Geral de Garcia de Resende: Nele se encontram reunidas todas as composições da Escola Palaciana.


Estudos de Português para o 2º. Grau, 1º. Volume; Elda Randoli Marino
Curso Prático da Língua Portuguesa e sua Literatura; Jânio Quadros


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