sábado, 29 de novembro de 2008

TROVADORISMO PARTE II



Cantiga de Amor

Jeanroy discorda da opinião corrente de que as cantigas de amor mais antigas são aquelas atribuídas a Guilherme IX, Duque de Aquitânia (1071/1127), já que chegara ele, Jeanroy, à conclusão de que a “perfeição de seu estilo e de sua versificação” o impediam de crer na dita autoria outorgada ao cancioneiro. Claro que esta é uma discussão que não nos cabe agora, tratemos antes de saber o que seria então uma cantiga de amor; suas características e seu conteúdo.

Uma cantiga de amor era o meio pelo qual o poeta apaixonado expunha, extravasava, os seus mais recônditos sentimentos. Tais cantigas surgiam talvez, ocasionadas por um quadro de inferioridade social perante as belas damas freqüentadoras da corte.
Nas cantigas de amor fala o homem apaixonado à sua amada; exprimindo desse modo, para ela, todo o desejo em realizar ao seu lado, os seus mais belos sonhos, sonhos, sonhos estes que, esbarram, por fim, no código de ética da época, que o tornam um vassalo, um servo fiel da mulher amada, cuja separação é capaz de fazê-lo “morrer de amor”.
Notemos algumas características das composições de cantigas de amor: Em primeiro lugar é um amor cortês... movido por um puro sentimento, profundamente espiritual, totalmente influenciado pela religião. Nesse tipo de amor, o poeta contenta-se em contemplar, de longe, o objeto de sua paixão. O homem é apenas seu humilde adorador, desejando o amor impossível, submisso, de joelhos, eternamente sofredor. Essencialmente masculina, pois é o homem que fala, pedindo, implorando, lamentando o amor, este sentimento que o mantêm aprisionado... Neste contexto, é a mulher divinizada, um ser etéreo, mágico, sobrenatural... dotada de toda pureza, dignidade e mansidão.
As cantigas de amor variam entre Tensão ( diálogo entre cavaleiros) Pastorela (onde canta-se o amor de uma pastora) Plang (canção amorosa, cheia de lamentos).

Observa-se aqui, nesta cantiga o óbvio distanciamento entre a dama e o poeta. É tão grande a comoção que ele sente, ao vê-la, que nem mesmo sabe se conseguiu, bem ou mal, expressar o terno sentimento que nutre por ela.



Cantiga de Amor



João Garcia de Guilhade



Esso mui pouco que oj’ eu falei
com mia senhor, (1) gradeci-o a Deus,
e gran prazer (2) viron os olhos meus!
Mais do que dixe (3) gran pavor per hei; (4)
ca me tremi’ assi o coraçon (5)
que non sei se lh’o dixe ou se non.

Tan grand sabor (6) houv’ eu de lhe dizer
e mui gran coita (7) que sofr’ e sofri
por ela! Mais tan mal dia nasci,
se lh’o oj’ eu (8) bem non fiz entender!
Ca me tremi’ assi o coraçon
que non sei se lh’o dixe ou se non.

Ca nunca eu falei com mia senhor
se non mui pouc’ oj’; e direi-vos al (9)
non sei se me lh’o dixe bem, se mal.
Mais do que dixeestou a gran pavor;
ca me tremi’ assi o coraçon
que non sei se lh’o dixe ou se non.

E a quem muito trem’ ocoraçon,
nunca bem pod’ acabar sa razon. (10)




(1) senhor – amada
(2) prazer – alegria
(3) dixe – disse
(4) gran pavor per hei – estou preocupado
(5) ca me tremi assi o coraçon – pois estava tão emocionado
(6) sabor – prazer
(7) coita – pena de amor
(8) se lh’ o oj’ eu – se hoje eu a ela
(9) al – outra coisa
(10) – acabar as razon – transmitir a sua mensagem amorosa


Continua ...




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