sábado, 29 de novembro de 2008

TROVADORISMO PARTE II



Cantiga de Amor

Jeanroy discorda da opinião corrente de que as cantigas de amor mais antigas são aquelas atribuídas a Guilherme IX, Duque de Aquitânia (1071/1127), já que chegara ele, Jeanroy, à conclusão de que a “perfeição de seu estilo e de sua versificação” o impediam de crer na dita autoria outorgada ao cancioneiro. Claro que esta é uma discussão que não nos cabe agora, tratemos antes de saber o que seria então uma cantiga de amor; suas características e seu conteúdo.

Uma cantiga de amor era o meio pelo qual o poeta apaixonado expunha, extravasava, os seus mais recônditos sentimentos. Tais cantigas surgiam talvez, ocasionadas por um quadro de inferioridade social perante as belas damas freqüentadoras da corte.
Nas cantigas de amor fala o homem apaixonado à sua amada; exprimindo desse modo, para ela, todo o desejo em realizar ao seu lado, os seus mais belos sonhos, sonhos, sonhos estes que, esbarram, por fim, no código de ética da época, que o tornam um vassalo, um servo fiel da mulher amada, cuja separação é capaz de fazê-lo “morrer de amor”.
Notemos algumas características das composições de cantigas de amor: Em primeiro lugar é um amor cortês... movido por um puro sentimento, profundamente espiritual, totalmente influenciado pela religião. Nesse tipo de amor, o poeta contenta-se em contemplar, de longe, o objeto de sua paixão. O homem é apenas seu humilde adorador, desejando o amor impossível, submisso, de joelhos, eternamente sofredor. Essencialmente masculina, pois é o homem que fala, pedindo, implorando, lamentando o amor, este sentimento que o mantêm aprisionado... Neste contexto, é a mulher divinizada, um ser etéreo, mágico, sobrenatural... dotada de toda pureza, dignidade e mansidão.
As cantigas de amor variam entre Tensão ( diálogo entre cavaleiros) Pastorela (onde canta-se o amor de uma pastora) Plang (canção amorosa, cheia de lamentos).

Observa-se aqui, nesta cantiga o óbvio distanciamento entre a dama e o poeta. É tão grande a comoção que ele sente, ao vê-la, que nem mesmo sabe se conseguiu, bem ou mal, expressar o terno sentimento que nutre por ela.



Cantiga de Amor



João Garcia de Guilhade



Esso mui pouco que oj’ eu falei
com mia senhor, (1) gradeci-o a Deus,
e gran prazer (2) viron os olhos meus!
Mais do que dixe (3) gran pavor per hei; (4)
ca me tremi’ assi o coraçon (5)
que non sei se lh’o dixe ou se non.

Tan grand sabor (6) houv’ eu de lhe dizer
e mui gran coita (7) que sofr’ e sofri
por ela! Mais tan mal dia nasci,
se lh’o oj’ eu (8) bem non fiz entender!
Ca me tremi’ assi o coraçon
que non sei se lh’o dixe ou se non.

Ca nunca eu falei com mia senhor
se non mui pouc’ oj’; e direi-vos al (9)
non sei se me lh’o dixe bem, se mal.
Mais do que dixeestou a gran pavor;
ca me tremi’ assi o coraçon
que non sei se lh’o dixe ou se non.

E a quem muito trem’ ocoraçon,
nunca bem pod’ acabar sa razon. (10)




(1) senhor – amada
(2) prazer – alegria
(3) dixe – disse
(4) gran pavor per hei – estou preocupado
(5) ca me tremi assi o coraçon – pois estava tão emocionado
(6) sabor – prazer
(7) coita – pena de amor
(8) se lh’ o oj’ eu – se hoje eu a ela
(9) al – outra coisa
(10) – acabar as razon – transmitir a sua mensagem amorosa


Continua ...




Estudos de Português para o 2º. Grau, 1º. Volume; Elda Randoli Marino
Curso Prático da Língua Portuguesa e sua Literatura; Jânio Quadros

terça-feira, 25 de novembro de 2008

TROVADORISMO



Há uma linha de pensamento que defende a Arábia como lugar de origem da poesia (não só da poesia) medieval, e que ganhou força incorporada ao folclore local das regiões por onde andou.
Eu sou uma defensora dessa corrente, que, para mim, é a que apresenta os aspectos mais lógicos e aceitáveis. Porém, não quero me deter neste ou naquele ponto de divergência... me aterei aos fatos, acho que, “indiscutíveis” (?!) que me forneceram algumas pesquisas.
A Provença, por exemplo, que eu já havia citado no texto anterior, sobre São Francisco de Assis, foi uma região de notável importância, exercendo uma enorme influência nos poetas populares.
A Provença (do latim “província”) ou ainda Proença é uma região situada ao sudeste da França, banhada pelo Mar Mediterrâneo e habitada desde o período pré-histórico. Por lá já passaram os gregos, que fundaram Marselha (antiga Massália) sua mais importante cidade, e depois foi ocupada pelos lígures e celtas, sendo a partir do século II uma província do Império Romano. Provavelmente, um pouco antes disso, o cristianismo tenha alcançado a Provença, uma vez que no século III era considerada totalmente cristã.
Com a queda do Império Romano do Ocidente, a região foi invadida pelos visigodos (séc. V) francos (séc.VI) e finalmente pelos árabes (séc.VIII) padecendo ainda incursões de piratas bérberes. Tempos depois, passa para os condes de Tolouse, como feudo dos condes de Barcelona (futuros reis de Aragão).
Em 973, os piratas árabes, baseados Fraxinetum, foram derrotados na batalha de Tourtour pelo conde Guilherme I, assumindo este, então, o título honorifico de Pater Patriae.
A Provença fez parte do Sacro Império Romano durante o período que compreende os anos de 1032 a 1246, tornando-se, neste mesmo ano (1246) feudo da coroa francesa, governado pela dinastia angevina.
Em 1481, a Provença é herdada por Luis XI e incorporada definitivamente ao domínio real da França.
Por toda a Idade Média a Provença esteve definitivamente ligada por laços dinásticos a Portugal (Península Ibérica).
No tempo das Cruzadas, era comum os trovadores provençais (troubador; assim era chamado o poeta medieval) adentrarem em Lisboa para de lá, partirem então rumo a Jerusalém.
A língua do poeta provençal era um dialeto de langue d’oc, que ao norte da França era por sua vez designado por trouver, que significa achar.
A poesia trovadoresca dividia-se em lírico-amorosa (que se subdividia em cantiga de amor e cantiga de amigo) e satírica (que também se “bipartia” em
cantiga de escárnio e cantiga de maldizer).



http://pt.wikipedia.org/wiki/Proven%C3%A7a
Curso Prático da Língua Portuguesa e sua Literatura; Jânio Quadros



TROVADORISMO PARTE II



Cantiga de Amor

Jeanroy discorda da opinião corrente de que as cantigas de amor mais antigas são aquelas atribuídas a Guilherme IX, Duque de Aquitânia (1071/1127), já que chegara ele, Jeanroy, à conclusão de que a “perfeição de seu estilo e de sua versificação” o impediam de crer na dita autoria outorgada ao cancioneiro. Claro que esta é uma discussão que não nos cabe agora, tratemos antes de saber o que seria então uma cantiga de amor; suas características e seu conteúdo.

Uma cantiga de amor era o meio pelo qual o poeta apaixonado expunha, extravasava, os seus mais recônditos sentimentos. Tais cantigas surgiam talvez, ocasionadas por um quadro de inferioridade social perante as belas damas freqüentadoras da corte.
Nas cantigas de amor fala o homem apaixonado à sua amada; exprimindo desse modo, para ela, todo o desejo em realizar ao seu lado, os seus mais belos sonhos, sonhos, sonhos estes que, esbarram, por fim, no código de ética da época, que o tornam um vassalo, um servo fiel da mulher amada, cuja separação é capaz de fazê-lo “morrer de amor”.
Notemos algumas características das composições de cantigas de amor: Em primeiro lugar é um amor cortês... movido por um puro sentimento, profundamente espiritual, totalmente influenciado pela religião. Nesse tipo de amor, o poeta contenta-se em contemplar, de longe, o objeto de sua paixão. O homem é apenas seu humilde adorador, desejando o amor impossível, submisso, de joelhos, eternamente sofredor. Essencialmente masculina, pois é o homem que fala, pedindo, implorando, lamentando o amor, este sentimento que o mantêm aprisionado... Neste contexto, é a mulher divinizada, um ser etéreo, mágico, sobrenatural... dotada de toda pureza, dignidade e mansidão.
As cantigas de amor variam entre Tensão ( diálogo entre cavaleiros) Pastorela (onde canta-se o amor de uma pastora) Plang (canção amorosa, cheia de lamentos).

Observa-se aqui, nesta cantiga o óbvio distanciamento entre a dama e o poeta. É tão grande a comoção que ele sente, ao vê-la, que nem mesmo sabe se conseguiu, bem ou mal, expressar o terno sentimento que nutre por ela.



Cantiga de Amor



João Garcia de Guilhade



Esso mui pouco que oj’ eu falei
com mia senhor, (1) gradeci-o a Deus,
e gran prazer (2) viron os olhos meus!
Mais do que dixe (3) gran pavor per hei; (4)ca me tremi’ assi o coraçon (5)que non sei se lh’o dixe ou se non.

Tan grand sabor (6) houv’ eu de lhe dizer
e mui gran coita (7) que sofr’ e sofri
por ela! Mais tan mal dia nasci,
se lh’o oj’ eu (8) bem non fiz entender!
Ca me tremi’ assi o coraçon
que non sei se lh’o dixe ou se non.

Ca nunca eu falei com mia senhor
se non mui pouc’ oj’; e direi-vos al (9)non sei se me lh’o dixe bem, se mal.
Mais do que dixeestou a gran pavor;
ca me tremi’ assi o coraçon
que non sei se lh’o dixe ou se non.

E a quem muito trem’ ocoraçon,
nunca bem pod’ acabar sa razon. (10)



(1) senhor – amada
(2) prazer – alegria
(3) dixe – disse
(4) gran pavor per hei – estou preocupado
(5) ca me tremi assi o coraçon – pois estava tão emocionado
(6) sabor – prazer
(7) coita – pena de amor
(8) se lh’ o oj’ eu – se hoje eu a ela
(9) al – outra coisa
(10) – acabar as razon – transmitir a sua mensagem amorosa


TROVADORISMO PARTE III



Cantiga de Amigo



Na cantiga de amigo, embora fossem os mesmos trovadores a decantá-la (assim como também sucede à cantiga de escárnio e de maldizer) na cantiga de amigo, as palavras são postas na boca de uma mulher de origem humilde; uma rapariga do povo, como uma pastora ou camponesa, que ama o poeta, mas que sente a dor do abandono quando o trovador se enamora de outra mulher ou então quando este atende o chamado para a guerra. Muitos destes trovadores, sob forma de disfarce, usavam roupas femininas (cantigas de mulher). Diferente da cantiga de amor, que apresenta uma face idealista e algumas vezes, erudita, a cantiga de amigo se mostra mais simples, realista. Suas principais características são:
1. De caráter mais popular, as cantigas de amigo fazem uso mais freqüente do refrão, uma vez que é dirigido às festas, ao canto e a dança.
2.Trata dos mais variados assuntos... desde os domésticos aos políticos, portanto, serve como tema de estudos sobre os usos e costumes da época. Dependendo do assunto tratado, as cantigas de amigo se agrupam em bailias (festas e danças) alvas (falam do mar e dos perigos que o cercam) romarias (visitas aos santuários) pastorelas (mostram a vida no campo, assim como o trabalho das pastoras).
3. Existem três espécies de cantiga de amigo: cantiga de meestria (sem estribilho e dealma provençal) cantiga de refrão (com rosto popular) canção paralelística, autóctone (de cunho popular) esta é tida como a mais antiga forma poética da Península Ibérica.

Segue abaixo uma cantiga de amigo, uma das mais antigas conhecidas, de autoria de D. Sancho I, dedicada a uma formosa, porém, perversa mulher, Maria Pais Ribeiro, a que o soberano ofereceu muitas terras. Sua musa inspiradora podia não ter lá os melhores requisitos morais, coisa que, aliás, é de admirar em se tratando de D. Sancho I, que era um monarca preocupado e voltado com as coisas do espírito, mandando, inclusive muita gente estudar em Paris.



Ai eu coitada,
como vivo em gram cuidado
por meu amigo
que ei alongado!
muito me tarda
o meu amigo na Guarda!
Ai eu coitada,
como vivo em gram desejo
por meu amigo
que tarda e não vejo!
muito me tarda
o meu amigo na Guarda!


Mais um exemplo de cantiga de amigo, do cancioneiro de Martin Codax, que segundo alguns viveu entre a segunda metade do século XIII e começo do século XIV.



Ondas do mar de Vigo
se vistes meu amigo?
E ay Deus, se verrá cedo!
Ondas do mar levado,
se vistes meu amado?
E ay Deus, se verrá cedo!
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro?
E ay Deus, se verrá cedo!
Se vistes meu amado,
o por que ey gran coydado?
E ay Deus, se verrá cedo



Estudos de Português para o 2º. Grau, 1º. Volume; Elda Randoli Marino
Curso Prático da Língua Portuguesa e sua Literatura; Jânio Quadros


TROVADORISMO PARTE IV






Cantiga de escárnio e maldizer

De fundo satírico, que se apresenta de forma velada, encoberta, assim colocada através do sarcasmo e da ironia, as cantigas de escárnio são usadas com o propósito de esconder as más intenções como a maledicência e a imoralidade, enquanto na cantiga de maldizer o trovador mostra suas reais intenções; nada esconde... a sátira é feita às claras, e o assunto ridículo e escandaloso, aparece num linguajar chulo, até mesmo pornográfico.
Tanto uma quanto a outra forma de cantiga, eram decantadas pelos jograis de má fama e bem refletiam o ambiente rústico e boêmio das tabernas e seus freqüentadores. Os poetas adeptos deste tipo de cantigas eram chamados de Sirventés.
Características:
01. Representantes do gênero satírico, aonde, em tais composições, uma pessoa em particular é exposta ao ridículo, apresentando dentro deste contexto, vários problemas, oferecendo excelente material de estudo da sociedade medieval.

02. Usa-se um linguajar mais popular, sendo constante o uso de palavras e termos de baixo calão.

As cantigas do tempo do trovadorismo tinham como artistas o trovador (oriundo de casa nobre, compunha a letra e a música das cantigas) o segrel (o trovador, porém de origem humilde, do povo) o jogral ou menestrel (apenas o intérprete das cantigas).



Cantiga de escárnio

Nesta cantiga de escárnio, de autoria de Airas Nunes, percebe-se claramente, a crítica feita à sociedade e ao clero da época, que, não sabiam ao certo donde se encontrava a verdade.



Porque no mundo menguou (1) a verdade,
punhei (2) um dia de a ir buscar
e u (3) por ela fui a preguntar
disseron todos: “alhur (4) lá buscade,
ca de tal guisa (5) se foi a perder
que non podemos em novas haver, (6)
nen já non anda na irmandade”.

Nos mosteiros dos frades regrados
a demandei (7) e disseron: m’ assi:
“non busquedes vós a verdad’ aqui,
ca muitos anos havemos passados
que non morou nosco, per boa fé,
nen sabemos ond’ ela agora este (8)
e d’al (9) havemos maiores cuidados”. (10)
(Airas Nunes)

(1) menguou: minguou
(2) punhei: esforcei-me
(3) u: onde
(4) alhur: em outro lugar
(5) ca de tal guisa: porque de tal modo
(6) em novas haver: ter noticias dele
(7) a demandei: perguntei por ela
(8) este: esteja
(9) d’al: de outras coisas
(10) cuidados: preocupações


Cantiga de maldizer

Aqui, neste exemplo de cantiga de maldizer, Pero da Ponte, critica abertamente a pessoa de Don Martin Marco.

Mort’é Don Martin Marcos
ay Deus, se é verdade!
sey ca se ele é morto
morta é torpidade,

***

e morta neycedade,
morta é covardia
e morta é maldade.

Se Don Martinh’ é morto
sen prez e sen bondade,
ay mays mãos costumes
outro senhor catade,
mays non o acharedes
de Roma atá a cidade,
se tal senhor queredes
alhú-lo dermandade.
Pero hu cavaleyro
sey eu par caridade
que vos ajudaria
tolher d’ Il soydade,
mays que vos diga
ende bem a verdade;
non este rey nen conde
mays he outra podestade
que non direy, que dyrei,
que non direy...




A trama conspiratória contra D. Sancho II, levou os trovadores a se insurgirem, criticando amargamente, a vil traição, a cruel deslealdade dos alcaides para com esse rei, surgindo daí uma série de cantigas de escárnio e maldizer. A música, a poesia e a dança se juntaram, solidários no mesmo sentimento e por isso, enquanto o trovador cantava, fazia-se acompanhar por guitarras, saltérios, violas, pandeiros, dos jograis e ministréis.


Estudos de Português para o 2º. Grau, 1º. Volume; Elda Randoli Marino
Curso Prático da Língua Portuguesa e sua Literatura; Jânio Quadros

TROVADORISMO PARTE FINAL





Desaparecimento do Trovadorismo, Escola Palaciana e Cancioneiros...


A poesia, em Portugal, devido aos afazeres políticos e muita diversão, propagados pela administração dos reis Afonso IV, D. Pedro e D. Fernando, que se ocupavam mais das coisas materiais que espirituais, a poesia lírica entrou em decadência e ficou esquecida durante certo período de tempo ressurgindo em meados do século XV, desta vez sob a influência da Corte espanhola, que nunca deixou de praticá-la. A poesia desta época apresenta as seguintes características:

1. O linguajar está mais desenvolvido, mais evoluído
2. As formas poéticas apresentam maior variação e o uso do refrão é bem menos freqüente.
3. A poesia já não é mais cantada e, portanto, o poeta (não mais trovador) preocupa-se com a sonoridade e cadência dos versos.
4. Os temas usados continuam os mesmos, porém a distância homem-mulher não recebe mais tanta ênfase.
5. Ao lado da poesia lírica, surge a poesia didática e religiosa, de aspecto extremamente burguês, e praticamente a substitui. Com o fim da fase lírica criativa dos provençais, é natural o curso que se segue, ou seja, o desaparecimento da literatura trovadoresca assim como de seus compositores.

Dentre os principais trovadores do período medieval, se encontram D. Dinis, João Soares de Paiva, Paio Soares de Taveirós, João Garcia de Guilhade, Aires Corpancho, Airas Nunes, João Zorro, Afonso Sanches, Nuno Fernandes Torneol e muitos outros... As poesias do período medieval foram condensadas em coletâneas (cancioneiros) sob a forma de pergaminhos, contendo, muitas vezes, iluminuras ou partituras musicais. Dentre os cancioneiros portugueses estão:

Cancioneiro da Ajuda: A princípio guardado no Colégio dos Nobres, sendo, tempos depois, transferido para a Biblioteca da Ajuda, daí o seu nome, data, a primeira edição, de 1825. Vinte e seis anos mais tarde, Varnhagen lança uma segunda edição, acrescentando-lhe quarenta e duas composições, intitulando-o de Trovas e Cantares de um Códice do XIV Século, ou antes mui provavelmente o Livro das Cantigas do Conde de Barcelos, por achar ser este obra de apenas um poeta. Entretanto, a melhor edição, coube o mérito a ilustre romanista Carolina Michaelis, que, apresentou-o em dois tomos, contendo o primeiro o texto das cantigas, enquanto o segundo trazia as investigações bibliográficas, biográficas e histórico-literárias sobre os trovadores. Pensava ela ainda em um terceiro com notas e glossário, que, infelizmente, referindo-me as notas, não chegaram a aparecer, surgindo, porém o glossário em 1920 no volume 23 da Revista Lusitana. No ano de 1941, O Cancioneiro da Ajuda, foi publicado em Nova York pela Modern Language Association of America, uma edição diplomática completa, com texto de Henry Hare Carter e por fim, em 1945, surge o volume I do Cancioneiro da Ajuda entre a Coleção de Clássicos Sá da Costa, cujo prefácio e notas do professor Marques Braga constam como plágio de Carolina Michaelis. Contêm, este cancioneiro, segundo uns, 310 cantigas, quase todas de amor do século XIII, ou ainda, segundo outros, 467 poesias, todas anônimas.

Cancioneiro da Vaticana: Descoberto em Roma no anos 1843, na Biblioteca Vaticana, por bibliófilos, que tiveram sua atenção despertada por F.Wolf, que, por sua vez, fora espicaçado em sua curiosidade pelo cronista Duarte Nunes de Leão (1530/1608) sobre um Cancioneiro de El-Rei D. Dinis, este cancioneiro possui mais de duzentas folhas, com mil e duzentas cantigas de cento e sessenta autores, do século XIV e nele também estão incluídas as composições de D. Dinis. A primeira edição foi lançada em 1875 por Ernesto Monacci. A segunda edição é de Teófilo Braga e contêm uma introdução histórico-literária sobre os cancioneiros e um glossário.

Cancioneiro Colocci-Brancutti ou Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa: Sem muitas referências, sabe-se apenas que pertenceu antes, a Angelo Colocci e posteriormente ao conde Antônio Brancutti. Com a morte do conde o Cancioneiro passou as mãos de Ernesto Monacci que o vendeu ao governo português, passando este então a figurar na Biblioteca Nacional. Possui trezentas e cinco folhas e pelo menos, mil e quinhentas cantigas de diferentes épocas. Nela aparece a primeira poesia espanhola, e talvez a última composição poética do ciclo trovadoresco. Escrita depois de 1329, é da autoria de Afonso XI (1311/1350) de Castela.

Catigas de Santa Maria: Em idioma galaico-português constituem-se tais cantigas em trechos deveras impressionantes de conteúdo históricos e religiosos.

Cancioneiro Geral de Garcia de Resende: Nele se encontram reunidas todas as composições da Escola Palaciana.


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domingo, 23 de novembro de 2008

RECORDAÇÕES DA CASA DA COBRA-REI DE MIM



REI DE MIM

Tem dia em que custo a me perder ou a me encontrar. Fico assim, entre um meio termo, que é puro exagero. Teimo em me afogar em um imenso mar de solidão, lá aonde os sonhos deixam de ser sonhos... Mas, aí o que eles são? Mistérios intraduzíveis... sem solução.
A lua paira no céu e eu me imagino também no alto, um ponto brilhante, uma estrela antiga a iluminar os amantes, e só quem me vê e entende são aqueles com almas de poetas.
Fujo as agonias, despisto a infelicidade e vou ao jardim colher uma rosa cor-de-rosa que nunca murchará; uma rosa eterna, cujo perfume preencherá a casa, e cuja beleza adornará a fugacidade do lento/veloz passar das horas e a fragilidade dos dias de chuva ou de sol.
Bem no meio do pátio da casa mais encantadora do bairro há um poço que nunca seca... mas não é um poço dos desejos, nem em suas profundezas habita um gênio servo de nossas vaidades, capaz de nos curar ou tornar-nos ricos ou famosos num abrir e fechar de olhos...
Assim, inconformado, sigo eu nas águas do abandono; sigo eu na esteira de um sonho; sigo eu, enfim, sem dar por mim, nas pegadas de um mito obscuro e medonho, que confronta meu rosto desconhecido a um espelho de dupla face... ambíguo...
Corro contra o tempo... ou o tempo é que corre contra mim... ?! Tanto faz...
O tempo... o tempo parece brincar... ora se estira, ora se encolhe, ora torna a se esticar e eu, por mais que corra, não posso tocá-lo, enrolá-lo ou esquecê-lo... Qu
em sou eu...? Um pobre rei destronado... um nobre senhor sem palácio... um mendigo escondido, traído, apaixonado... perdido de mim!

sábado, 22 de novembro de 2008

RECORDAÇÕES DA CASA DA COBRA-OS PRIMEIROS LIVROS DO "RESTO DE NOSSAS VIDAS"

para Clarice


OS PRIMEIROS LIVROS DO RESTO DE NOSSAS VIDAS



Meu amor pelos livros, Clarice, começou muito cedo e por causa deles aprendi a ler em tempo recorde, já que ninguém do mundo adulto, queria gastar o seu tempo comigo lendo gibis ou histórias de príncipes e princesas, mas, de qualquer jeito, estes vieram depois, já que comecei mesmo pelos gibis do Popeye, o Marinheiro, Esqualidus, (que tinha. se não me engano, um jeito único e engraçado de falar, além de ser esquisito e magérrimo) Tio Patinhas; as bruxas; Maga Patalógika e Madame Mim, os Irmãos Metralha, Mancha Negra, (adorável) Zé Carioca, Professor Pardal... ai, então, vieram as revistas de terror como KRIPTA, DRÁCULA e outras do gênero, cujo nome não me vem agora à memória. Geralmente, nestes tipos de revista, muitas em preto e branco, vinham os clássicos, recontados, ou melhor, reescritos, de escritores até certo tempo atrás considerados malditos, como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft, .Bram Stocker, etc...
Entre todos, porém, Clarice, Edgar Allan Poe foi o que exerceu maior influência sobre mim nos primeiros anos de adolescência. Berenice, Eleonora, Morella, O Corvo, O Gato Preto, O Coração Denunciador, O Barril de Amontillado... Lembro-me com que ansiedade ficava esperando meu irmão mais velho chegar em casa com aquele monte de revistas em quadrinhos, revistas de “sonhos”. Sim, não é algo muito “natural” de acontecer, mas o terror, o fantástico, foram os primeiros temas dos primeiros livros do resto de “nossas vidas” e ao contrário do que muitos podem pensar, não vivia assombrada (vivia encantada) e não desenvolvi, por causa disso, distúrbios de personalidade (pelo menos do que eu conheço de mim).
A Nona Arte, que sempre foi rodeada por preconceitos, considerada mesmo como “sub-literatura”, abriu-me novas portas, levando-me a mundos até então, por mim, desconhecidos.
O contacto com uma literatura mais adulta; através dos quadrinhos, facilitou-me o desenvolvimento das idéias, posto que, levou-me a dar-me conta de questões que lutei para resolver, questões existenciais.
No colégio, os livros que logo me agradaram foram os de História do Brasil e História Geral, cuja professora, de Estudos Sociais, (esqueci o seu nome) também ensinava Português, nos estimulava, fazendo com que lêssemos em voz alta, várias passagens importantes, fazendo o mesmo nas aulas de Português. Foi assim que Cecília Meireles, Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e você, Clarice, entraram em minha vida. Nesse tempo ainda não havia brotado em mim a vontade de escrever. Queria apenas participar, apreciar a beleza das palavras e extrair a sabedoria daquilo tudo.
Os contos de fadas me deixavam melancólica, mas, adorava. Branca de Neve, Cinderela, O Alfaiate Valente...
Hans Christian Andersen resisti a ler durante algum tempo dada a tristeza que me transmitia; assim O Patinho Feio só aquietou em minhas mãos, na fase adulta. Outro conto dele inesquecível para mim é A Sombra, tão sombrio quanto o titulo.
Creio Clarice, que todos nós, com raras exceções, somos meio “patinho feio” e só o tempo, nossa competência, força de vontade e um mínimo de sorte, é que nos ajuda a fazer a transformação para cisne. Infelizmente, nem sempre dá certo, transformar-se em cisne requer trabalho duro sobre si mesmo e poucos conseguem manter a disposição para fazer o que é necessário.
Oscar Wilde me apareceu com seu Príncipe Feliz, O Pescador e sua Alma, O Retrato de Dorian Gray e Di Profundis. Tomei gosto e enveredei pelos romances clássicos, como Madame Bovary de Flaubert, Senhora e O Guarani de José de Alencar.
Em seguida, aconteceu-me o episódio da perda dos livros de Machado de Assis e para me consolar, fui de livro em livro sem me dedicar, em especial, a um autor e, vieram os best-sellers: Ernest Hemingway (O Sol também se levanta), Robert Graves (Eu, Claudius, Imperador, A Filha de Homero) e muitos outros.
Herman Hesse, com o Lobo da Estepe e Damian também passou pela minha vida, assim como certamente passou pela vida de todos que gostam de ler. Vivia pelos sebos atrás de tudo o que me interessava e costumava, graças a Deus, ganhar muitos livros e pela minha ânsia e sede de saber, pela incansável busca interior fui recompensada e encontrei Goethe, Dostoyeviski. ..
Herman Melville e sua baleia branca, Moby Dick, me impressionam até hoje e os santos sufis, que com seu modo peculiar tocaram minha essência, fazendo-me despertar para um jeito novo de olhar o mundo.
Se eu fosse listar todos os livros que me influenciaram e fizeram diferença, não caberia mesmo em uma só vida.
Nesta atual fase de minha existência, dessa “nova vida” Clarice; não possuo biblioteca devidamente projetada e equipada, mas, o que tenho me basta. Poucos livros, agora, suscitam meu respeito, minha atenção e paixão. O tempo passou, estou com os pés firmes, muito bem fincados no chão e raras vezes me vejo arrebatada para um lugar de sonhos. Tudo passa. A gente aprende quando quer realmente aprender, e sei que vais concordar comigo, que, tudo o que foi e ainda é importante, está guardado, impresso na alma, pois os verdadeiros livros, aqueles que nos encantam e ensinam, estão vivos, inscritos, eternamente, dentro do coração.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

FELICIDADE DE PASSARIM



Horizontes que se abrem a perderem-se de vista...
No topo da árvore à beira do caminho
Um passarim faz seu ninho

Voa pra lá pra cá
Trazendo no bico, galhinhos secos, retorcidos
Folhinhas amareladas e palhas mortas
Canta uma canção, sozinho... o solitário passarim

Não tem com quem compartilhar
Os segredos, os desejos, os desassossegos
Não tem com quem compartilhar o seu ninho
O nobre passarim
Mas isto não parece incomodá-lo
E vai juntando aqui e ali pedaços de felicidade

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

RECORDAÇÕES DA CASA DA COBRA-MAIS UMA VEZ



MAIS UMA VEZ


Queria que, mais uma vez, você me aparecesse
Como sempre... sorrindo e morrendo de saudade
Queria que você pudesse me dizer que partiu sem sofrer
E que não se despediu para não me deixar preocupada e triste

Queria que, mais uma vez, você entrasse por essa porta
Como sempre... sorrindo e morrendo de saudade
Cansado do trabalho e da faculdade
Correndo para o contrabaixo

Queria que, mais uma vez, você me aparecesse
Como sempre... sorrindo e morrendo de saudade
E abraçasse tuas filhas e com elas brincasse

Hoje eu amanheci assim... sou só saudade... uma saudade só

E choro enquanto escrevo
Pensando em teu rosto amigo, tão querido
Lembrando do teu sorriso e do teu jeito

Saudade... dor doída/doida dolorida...

Que me aperta o peito e cala

Mágoa guardada que me arrasta e maltrata

Ainda te espero
Ainda te chamo
Ainda te amo

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

JAPANESE BLUES



Hey man... Existirá, dentre os sentimentos, algo pior que paixão recolhida? Sim... Aquele amor que jamais se esquece, mas, o qual, entretanto, a alma não aquece, pois pensar na mulher ingrata, bad dream, é manter aberta no peito a chaga... é lamber a ferida, dolorida, para sempre viva... Que, às vezes, cede, cala, porém, dissimulada, nunca sara! Afim de me livrar um pouco desse tormento, canto aqui, para vocês, o meu blues japonês...

My baby, mal me disse um alô
E logo me deixou...
Cavou daqui até o Japão
Em busca de uma nova paixão

Foi daqui pra nunca mais...
Ai, que falta ela me faz!

Sua indiferença grande mágoa me causou
Doeu fundo a sua ingratidão...
E por ter me deixado só, na solidão
Partiu meu coração

My baby, hoo, my soul, me deixou
E fugiu para o Japão
Descansar à sombra do imperador
Em busca de uma nova paixão

Foi daqui pra nunca mais...
Ai, que falta ela me faz!

Ela veio assim...
E mais rápido se foi de mim
Veloz como o tufão
Breve como a ilusão

Em um piscar de olhos
My baby, my soul, ooh no, me deixou....
Fugiu para o Japão

Foi daqui pra nunca mais, oh yá...
Mal me disse olá...
Nem me deu Sayonara...

terça-feira, 18 de novembro de 2008

RECORDAÇÕES DA CASA DA COBRA-DORIAN GRAY




DORIAN GRAY


Tradutor fiel de mim mesmo... sou um esboço imperfeito que em linhas tortas... amargas... quase apagadas... procura manter uma imagem... forte... sábia... e tenta sobressair-se... entre tantos outros esboços... com os mesmos defeitos... Auto-retrato... claro... de um Dorian Gray deturpado... Juventude... beleza... e perfeição... em sépia ou preto-acinzentado... restos de nada... pura ilusão... de ótica... de olhos que não vêem... além... de ambições malfadadas... de almas e corações... do impossível nunca dito... do fato nunca consumado...Tudo passa... sim... tudo se perde? Não... tudo se transforma...! É a natureza... o não aceitável... das coisas... e das situações... impermanência... ponto... e mais pontos... mutação... Por onde andará minha sorte...? Encolhida... Perdida por entre tantos descaminhos...? Adormecida no cimo de um monte... ou esquecida... escondida... no fundo de um abismo... mera lembrança... levada... lavada... misturada... nas águas de um rio que corre... célere... para o mar... Lá aonde se encontram as águas... ou... as mágoas... doces e salgadas... Violenta... e/terna... pororoca... de sentimentos e tormentos... amor e/terno... de rio e mar... deixa passar... deixa navegar... em águas tranqüilas... contente... feliz da vida... Mas... e eu... meu Deus... Por onde andei...? Em que falhei...? Que pontos não observei...? Que fiz eu... de meus sonhos...? Que fiz eu... de meus enganos...? Quantas chances... desperdicei... deixei passar? Quantas escolhas... ao azar...? Tudo fora de lugar... peixe preso no anzol... não há como escapar... Estou aqui... agora... só... do lado de cá... mais adiante... olá... não consigo enxergar... Meus olhos arregalados não me adiantaram... só fizeram chorar... e meus ouvidos atentos... apurados... deram crédito somente as mentiras... as ilusões... contadas pelos desafortunados... pobres... “caçadores de emoções”... maus atores... em apuros... vestidos de andrajos... em frangalhos... no papel... amarelado... imoral... da virtudesvirtuada... tratada como coisa normal... banal... pedaços desconexos de peças escritas às pressas... mal ajambradas... desajeitadas... mediocrementes... mentes... pensadas... representadas... pavorosas colagens... des/construções... da arte... no palco... em ruínas... do teatro... da vida... e na platéia... os vermes... à espera... longa mas não interminável... do banquete ambicionado... pausa... atos entre atos... Abomináveis... são... não?... Todos os pecados... perdoáveis... são... não...?! Junte as mãos... então... em oração... talvez assim... preocupado... rezes... e encontres... finalmente... a verdade... aquela... que salva... e liberta... na hora certa... a quem... alguém que... certamente... bem merece viver bem... em paz... com o “coração tranqüilo”... a bater no peito... desapertado... “a espinha ereta”... “a alma quieta”... para sempre... digo... Amém.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O HOMEM QUE SAIU EM BUSCA DE SUA SORTE PARTE FINAL



www.infobrasil.org

Dois homens jovens na ladeira da montanha

(foto, John Fries)

A sorte, de forma muito calma, disse a João: ‘És um idiota. Estás mesmo até menos preparado para buscar a tua fortuna quanto aqueles, que, se limitaram a realizar um ato de bondade sem estarem com o pensamento enraizado na realização de seu destino ou de seus desejos pessoais. És um idiota, porque em vez de seguir o teu destino te afastas dele cada vez mais pelo teu comportamento e na falha de não ver o que estava bem debaixo de teu nariz. Mas, acima de tudo, és um idiota por não prestares atenção ao que eu sou, ao que te disse, ao que te mandei que fizesses, ao que deixei de falar’.
João, como muitos antes dele já fizeram e mesmo depois continuarão a fazer, ficou tremendamente zangado e gritou para sua sorte assim, a plenos pulmões: ‘Oras... Falou o grande sabichão! Depois do acontecido, qualquer um pode ser sábio. Dei-me conta de que tu, além de preguiçoso és um péssimo conselheiro. De nada me valeu ter te acordado e trazido comigo nesta jornada. Era de teu dever... por que então não fizeste o teu trabalho?’.
‘Foste avisado de que pouco adiantaria ter-me ao teu lado se não soubesses me aproveitar. Ainda agora... depois de tudo não te deste conta de que sou a tua sina... a tua fortuna, o teu destino’.
Então, no mesmo instante, sumiu a sorte de João e nunca mais apareceu, nem dela se ouviu falar. Dizem uns e outros por aí, que ela voltou ao cimo da montanha, onde tornou a deitar e adormecer, desta vez, para sempre.

domingo, 16 de novembro de 2008

O HOMEM QUE SAIU EM BUSCA DE SUA SORTE PARTE V



Ao longo do caminho, foram colhendo raízes e frutos e em dado momento, pararam perto de uma rocha para descansar e matar a fome, mas um zumbido, muito leve, muito baixo, parecia sair de lá de dentro.
João, antes que sua sorte abrisse a boca e mandasse mais um daqueles conselhos estúpidos, tomou a dianteira e encostou seu ouvido; enquanto escutava pode compreender o que se passava. Dizia assim um grupo de formigas: ‘Se pudéssemos remover esta rocha ou mesmo atravessá-la, poderíamos aumentar nosso território e ter mais espaço para nosso povo. Se algo ou alguém pudesse vir em nossa ajuda... Sem ajuda nada poderemos fazer, pois a rocha é dura demais... Impossível de atravessar... Se ao menos algo ou alguém a pudesse afastar...!
João voltou-se então para sua sorte e disse: ‘As formigas desejam que a rocha seja afastada para que possam aumentar seus domínios, mas que tenho eu haver com rochas, formigas e aumento de território? Preciso é encontrar logo minha fortuna. Isso sim é o que me é importa’.
A sorte de João não disse nada e mais uma vez continuaram a sua jornada.
Andaram, andaram, andaram... andaram mais um tanto... Na manhã seguinte, enquanto se levantavam de sua dormida no descampado, João e sua sorte escutaram vozes de gente se aproximando, brincando, cantando, dançando, gritando, tocando flautas e gaitas em grande alegria.
‘Oras... que diabos de confusão é esta?’ Resmungou João.
‘São diabos em forma de gente muito contente’. Retrucou a sorte.
Acorreram para ver o que acontecia e se depararam com um bando de campônios. Curioso João perguntou a um dos festeiros: ‘O que aconteceu? Qual o motivo de tanta euforia?’
O homem, sossegando um instante, respondeu: ‘Acreditem ou não, ouçam bem o que vou lhes contar... Imaginem vocês... vinha um vaqueiro passando meio encolhido em seu cavalo, quando escutou um bando de formigas, murmurando, aflitas, debaixo de uma rocha. Ele, penalizado, moveu a rocha do lugar para que as formigas pudessem aumentar o seu ninho e o que pensam que encontrou? Um baú de tesouros, cheio de peças de ouro. O vaqueiro o apanhou e o repartiu com seus vizinhos, que, não por acaso, somos nós, os abençoados pela sorte’.
Mal cabendo em seu contentamento lá se foram os campônios descampado afora.

Continua...

sábado, 15 de novembro de 2008

O HOMEM QUE SAIU EM BUSCA DA SUA SORTE PARTE IV



Andaram, andaram, andaram... andaram mais um tanto... Logo chegaram a uma ponte sobre um rio e pararam a fim de admirar a linda paisagem. De repente, um peixe pôs sua cabeça para fora d’água, com a boca se abrindo e fechando, olhando-os de um jeito muito bobo.
‘Oras... Diga-me, sorte, sem me enrolar, isso quer lá dizer alguma coisa?’
‘O que tu achas? Pensas que pode significar alguma coisa?’
‘Oras… Disse para me responderes sem me enrolar. Eu não preciso de eco. Pergunto-te e tu como resposta me devolves a mesma pergunta?
‘Junta tuas mãos em prece e vês se dessa maneira podes compreender o que o peixe está a dizer’.
Mesmo emburrado João fez como a sorte lhe mandou e percebeu que podia entender o que o peixe estava a dizer: ‘Ajuda-me, ajuda-me...’
‘Como podemos te ajudar?’ Perguntou-lhe a sorte de João.
‘Engoli uma pedra muito pontuda. Bate-me no lado esquerda da cabeça e com certeza, poderei voltar a nadar e a brinca na água normalmente’.
‘Oras... um peixe falante... Era só o que me faltava. Só podes ser tu a fazer algum truque de magia. Não sou nenhum tolo. Estou em busca de minha fortuna. Não tenho tempo a perder com tolices. Se te importas tanto, ajudas tu o peixe’.
‘Não!’ Disse a sorte de João. ‘Eu não me intrometerei. Continuemos nosso caminho’.
Andaram, andaram, andaram... andaram mais um tanto... Um tempo depois, chegaram a uma vila e sentaram-se para descansar num banco da pracinha. Eis então que um homem a cavalo entra em disparada, parando somente no meio da praça, em frente a João e sua sorte, e muito contente põe-se a gritar pra toda gente: ‘Um milagre! Um milagre!’
Assim que a pracinha ficou lotada, o risonho cavaleiro voltou a falar: ‘Cruzava a velha ponte, quando, creiam-me vocês ou não, um peixe me pediu que eu batesse com força ao lado esquerdo de sua cabeça, pois assim o livraria de um sofrimento terrível. A dor da pancada seria menor do que o padecimento ao qual estaria condenado se ninguém lhe ajudasse. O que pensam que fiz? Mesmo temendo machucá-lo atendi ao seu pedido e assim que bati uma pedra grande e transparente soltou-se, vindo parar aos meus pés. O peixe voltou a nadar e a brincar sem problema nenhum, mergulhando de volta para as profundezas da água. Para terminar e deixar a todos de queixo caído igual a mim, ao examinar a pedra, grande e transparente, notei que era um diamante, um dos mais raros e perfeitos que já vi’.
‘Oras e como sabes que é mesmo um diamante?’ Perguntou João, abrindo caminho entre a multidão.
‘Bem...meu amigo... não por acaso sou um joalheiro que viaja muito pelos garimpos. Então, conheço as pedras como ninguém’.
‘É um capricho da vida que um homem rico como tu enriqueça cada vez mais. Como dizia meu avô, ganha dinheiro quem tem dinheiro’. Deixei de socorrer o peixe porque me encontro numa missão importante e me vejo obrigado a implorar por um pedaço de pão por causa dos péssimos conselhos que recebo de minha nada admirável sorte’.
A sorte, ao ouvir a reclamação de João, lhe respondeu: ‘Hum... vai ver nem era o mesmo peixe. Talvez isso não passe de uma mera coincidência. Vai ver até este homem esteja a contar balelas. De qualquer modo, já foi... se perdeu... Vais agora chorar pelo leite derramado? Deixemos o que ficou para trás e tratemos de olhar para frente’.
‘Falas com sabedoria. Isso o que acabaste de dizer, pensava eu neste justo momento’.
Feita as considerações, lá se foram João e sua sorte, a favor do vento. Andaram, andaram, andaram... andaram mais um tanto...


Continua...

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O HOMEM QUE SAIU EM BUSCA DE SUA SORTE PARTE III



No meio do caminho João perguntou: ‘Por onde devemos começar? Tu és a minha sorte e deves saber como tratar desse assunto’.
‘É mais fácil acreditar nisso que acabaste de dizer do que realmente realizá-lo’. Disse-lhe a sorte. ‘Embora eu esteja ao teu lado não há garantias de que reconhecerás aquilo que te está destinado, pois isto exige certa preparação. Deverias, antes de tudo, perguntar a ti mesmo como poderias fazer tal reconhecimento’.
‘Oras, contigo ao meu lado, estou seguro que posso fazer tal reconhecimento, como bem fazes questão de dizer’.
‘Está bem... se assim acreditas... Vem, sigamos por aqui toda a vida e então vejamos o que acontece’.
Andaram, andaram, andaram... andaram mais um tanto. Pararam perto de uma árvore que havia a beira do caminho e um forte zumbido saía de lá de dentro.... A sorte de João disse-lhe então: ‘Encosta teu ouvido no tronco da árvore e escuta’.
João que era teimoso e um tremendo cabeça dura, zangou-se, não via utilidade naquilo, mas se a sua sorte estava mandando, melhor obedecer.
‘Oras... Esta árvore está seca e dentro do seu tronco há somente algumas abelhas que se encontram presas’.
‘Sim, é verdade. As abelhas estão presas, mas, se quiseres podes dar um jeito nisso é só quebrares o galho e elas poderão escapar. Além de ser um gesto generoso pode dar em algum lugar’.
‘Oras...’ disse João, que, como já se sabe, era um tanto teimoso e cabeça dura. ‘Estás a brincar comigo?! Não quero distrações que me desviem do que me é de direito, ainda mais em se tratando de assuntinhos bestas como este. Quem sabe se me fosse oferecido uma certa quantia em dinheiro para quebrar o galho e salvar as abelhas eu me dispusesse a perder um pouco do meu tempo, pois estou sem um tostão e há um longo caminho a ser percorrido. Seria muito burro fazer tal ação sem receber nada em troca’.
‘Tá... Se pensas assim...’ respondeu, bocejando, a sorte de João, ‘será como queres, então. Sigamos adiante’.
Andaram, andaram, andaram... andaram mais um tanto. Tão logo escureceu se estenderam em um descampado para dormir.
No dia seguinte foram acordados por um homem que passava levando atado em ambos os lados de seu burrinho dois enormes potes.
‘Aonde vais; homem de Deus?’ Perguntou a sorte de João.
E o homem respondeu: ‘Vou ao mercado, vender este mel. Com certeza, vale pelo menos, três moedas de ouro. Ontem, quando passava perto da velha árvore que se encontra a beira do caminho ouvi o zumbido de algumas abelhas que lutavam por querer sair. O que pensam que fiz? Quebrei um galho seco e logo um enxame delas começou a voar. Deparei-me com uma grande quantidade de mel! Como podem ver, sou pobre e tenho uma família a sustentar... Adeus, amigos’.
E lá se foi o homem, feliz, seguindo o seu caminho.
João virou-se para a sua sorte, dizendo-lhe: ‘Oras... Era para mim ter recolhido esse mel. Mas, por outro lado, pode não ser a mesma árvore e neste caso, talvez, quem sabe, poderiam ter me picado... e quer saber? De mais a mais não é esta a fortuna que estou buscando’.
A sorte ficou calada. Levantaram-se e prosseguiram a jornada.

Continua...

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O HOMEM QUE SAIU EM BUSCA DE SUA SORTE PARTE II




Com o dinheiro em mãos, deu inicio a jornada, mas como era um pouco avarento, comprou um cavalo meio capenga; cego de um olho e teimoso como uma mula. João tinha pressa, muita pressa... tinha tanta pressa que nem se lembrou de se abastecer com água e alguma refeição e lá se foi, lentamente marchando... ‘po-co-tó, po-co-tó...’, no dorso do cavalo manco.
Ele andou, andou, andou... andou mais um tanto.... Estava cansando dos ‘maus bofes’ do cavalo e quanto mais o fustigava mais o cavalo se enfezava. Não demorou e o cavalo se enfezou de vez e derrubando João, correu numa velocidade que diria-se impossível para um cavalo coxo e cego de um olho. Pobre João...! O dia estava quente e ele já sentia um tremendo cansaço, fome, e sede. Nenhuma estância; nenhuma alma amiga pelo caminho... nenhum teto para servir de abrigo. Achou que sua má estrela tinha terminado quando avistou um poço (um poço dos desejos?) e parou para tomar um gole d’água. Infelizmente, a bolsa onde guardara todo o seu dinheiro, e, que, graças a sua falta de cuidado, se encontrava mal amarrada a sua cintura, desprendeu-se, indo ao fundo. Bem... não era um poço dos desejos e ele, sentindo-se injustiçado, agora mais do que nunca, teve que se conformar e continuar andando.
Andou, andou, andou... andou mais um tanto... Depois de três dias inteiro de caminhada e após gastar mais algumas horas subindo a montanha, João, sujo, desgrenhado, com a língua de fora, por fim, encontrou a sua sorte, tão grande quanto a de seu irmão, deitada de comprido no topo da montanha, de boca aberta e roncando em alto e bom som, dormindo a sono solto. Quase não havia lugar para João, tão cômoda a sua sorte se encontrava.
João zangou-se e pôs-se a sacudi-la, dizendo: ‘Acorda, acorda, acorda... Não achas que já dormiste demais... É por conta dessa tua preguiça que o azar tem me sido constante. Ora, vamos... acorda já!’
‘Ai, ai... pára com isso... já estou acordado. Tens toda razão. Sinto não ter te ajudado antes. Mas agora daqui pra frente, tudo vai ser diferente, fica tranqüilo... Eu não durmo mais’.
João ficou tão contente em saber que sua sorte não dormiria mais que até se esqueceu do cansaço e deu pulos de alegria quase caindo montanha abaixo. Sua sorte é que sua sorte estava atenta e o segurou firmemente pelas pernas no momento exato.
‘Ouça-me’, disse-lhe João, ‘quero que venhas comigo. Assim, estando ao meu lado, saberei aproveitar-te com mais facilidade’.
A sorte de João concordou e lá se foram ambos, juntos, descendo a montanha.

Continua...

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O HOMEM QUE SAIU EM BUSCA DE SUA SORTE




Era uma vez dois irmãos, João e José, que haviam herdado de seu pai um terreno dividido em partes iguais. Enquanto José enriquecia, João só conseguia o suficiente para não cair duro no chão.
João começou a pensar que seu irmão possuía algum tipo de segredo; quem sabe uma fórmula mágica...? e ansioso por descobri-lo, João caminhou até o terreno de José, seu irmão, porém, antes que nele colocasse os pés, um homem alto, que ele nunca tinha visto antes, barrou-lhe a entrada.
“Oras... Se mal lhe pergunte...” Disse João, espantado com o tamanho do sujeito, “quem és tu?”
“Eu sou a sorte de José, o teu irmão”, respondeu o homem, “e sinto te dizer, mas daqui, não poderás passar. Estou sempre de olho, cuidando para que nada de mal lhe suceda”.
“Mas que danado é meu irmão com sua boa sorte. Oras... Quisera eu saber onde posso encontrar a minha”.
“Ah... Se isso é o que queres”, disse-lhe sorrindo o desconhecido, “posso te dizer onde encontrá-la. Mas saiba logo que a tua sorte é um homem muito preguiçoso que dorme o tempo todo no cimo daquela montanha. Deves subir até lá e acordá-lo, se quiseres que tua sorte aconteça, embora devas saber que não é o bastante tê-la ao teu lado, tens que saber aproveitá-la”.
João achava que precisava mudar de vida. Não podia ficar parado ali, vendo o tempo passar... Decidiu-se: Se sua sorte não vinha até ele, ele iria atrás de sua sorte. Venderia sua parte do terreno a João, e, quando voltasse, rico, compraria de volta.
Desse modo, unindo o pensamento à ação, dirigiu-se ao seu irmão José e vendeu-lhe sua parte, pois precisaria de dinheiro para chegar ao topo da montanha aonde sua sorte se encontrava adormecida; a viagem seria longa... a montanha, uma lonjura sem fim...
Continua...

História da tradiçao oral; do livro El Buscador de la Verdad; cuentos e enseñanzas sufíes; Idries Shah; Editorial Kairós por Virgínia Allan

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

DIA ETERNO



Enquanto o tempo não nos fere em desventura, ousemos por bem aproveitar o dia, gozemos então da mocidade, que, por vezes, muito cedo, desfaz-se em agonia.


E a aurora, que agora desponta, clara e radiante, em um instante, se fará noite escura, enquanto a lua crescente, serena, límpida, brilhante, penderá bendita por sobre a terra nua!


E as estrelas... Ah, belas e etéreas, dispersas pelo vento, serão meros enfeites a adornarem os semblantes dos viventes...


Outra manhã nascerá e com ela virá o silêncio e a solidão... Os sonhos serão herança apenas daqueles que herdarão a terra.


Mas, para o nosso consolo, na hora do crepúsculo que chega, prisioneiros, nunca mais haveremos de ser... Unidos na alegria e na tristeza, entregues estaremos à beleza do dia eterno que nos vem

domingo, 9 de novembro de 2008

TUA PRESENÇA






Amor, arrepios por minha pele sobem
Quando no sossego da noite me desejas
E se no aconchego de meus braços
em ardorosos prazeres te deleitas

Passa o dia lentamente
Se te demoras a chegar
Paira a tristeza em meu pensamento
Sombras turvam-me o olhar
E se é dia e o sol existe, ele não brilha, nem queima
E se é noite, não há lua, nem céu, não brilham as estrelas...
É noite fria, vazia e escura, em desencanto desfeita

Arroubos de impaciência me transtornam
e uma nuvem cinza meu rosto encobre
Tomam-me por ausente ou desvalido
Se teu nome repetidamente pronuncio

Quero tua presença, amor, constante, amante,
sempre ao meu lado, pois sem ti o que sou?
Um simples nada...coberto de nada
Um peixe fora d’água

Alma abandonada
Sem descanso, envelhecida
Semente fugidia
Destituída de esperança
Esquecida da lembrança

Ferida antiga, amiga, exposta no peito
O lamentoso pranto de uma dor doída

Um lago drenado
Uma flor que murchou
Um cântaro quebrado
A angústia que não passou

Um jardim fechado
Ai, ai... uma fonte que não jorrou
Um pássaro cativo, amor, descuidado
Que um dia voou e nunca mais voltou

sábado, 8 de novembro de 2008

EROS E PSIQUÊ


Eros e Psiquê, Antony Van Dick (1639/1640)


Quem amor, contou-te este segredo
Que do vulgo tento esconder
Quem amor me tirou o sossego
De te amar sem você saber

Quem amor contou-te este segredo
Que minha face de rubor encobre
Quem deixou-me o coração, célere a bater
Por ter te revelado quem tanto sofre

A tímida Paloma arribou para o norte
Foi fazer seu ninho em lugar escondido
Aonde nem a lua nem o sol
Possam descobri-lo

Assim como a Paloma é o amor que te tenho
Tímido, anseia voar...
Mas me impedem as asas cortadas
Que a esperança e a saudade, na verdade,
Desejam quebrar