sexta-feira, 17 de outubro de 2008

SORTILÉGIO


























Era uma vez, sob uma colina, ao pé mar, um castelo maravilhoso.

O senhor deste castelo, um duque da mais antiga linhagem e de bonita presença, Tibeau de Algier, viu-se, um dia, totalmente perdido de amor pela encantadora Melisande, jovem lady de doiradas madeixas, quase adolescente ainda... Romântico; sedutor e determinado, loucamente apaixonado, o jovem senhor não mediu esforços para conquistar a dona de seu coração e após uma longa corte, cheia de encontros e desencontros, a donzela em questão, filha de um nobre sem posses, mas muito respeitado por sua conhecida honestidade e generosidade, resolveu, finalmente, ceder aos seus encantos e aceitá-lo por marido.

O jovem duque, tão comovido ficou com a resposta que, com a intenção de agradar a noiva e provar também dessa maneira, a força e a sinceridade de seu coração, viajou até o fim do mundo, a fim de escalar uma famosa e íngreme montanha, tida por todos como mágica. Dizia-se desta montanha que quem a escalasse, voltava louco ou aleijado, mas considerava-se de bom augúrio se um homem apaixonado alcançasse o seu topo e de lá, das ruínas do que outrora havia sido um templo, trouxesse uma pedra e a ofertasse a mulher amada. O corajoso duque foi bastante feliz em sua empresa.

Esta romântica aventura deixou os moradores do castelo mais ainda cheios de júbilo e, para comemorar o seu regresso glorioso e o esperado noivado, uma festa suntuosa foi devidamente preparada.


O convite do casamento foi expedido a todos aqueles que participavam daquele pequeno e distante mundo e todos, sem exceção foram convidados, desde os esnobes representantes da decadente aristocracia, até os moradores da humilde aldeia que circundava a colina em que o maravilhoso castelo orgulhosamente se erguia.

Os anjos benfazejos também não se fizeram de rogados e compareceram à cerimônia. Como presente, aos jovens enamorados, trouxeram dos céus incensos perfumados. Mas, Asmodeus, o demônio metade anjo, metade homem e que detesta a felicidade daqueles que estão apaixonados, resolveu também dar o dispensável ar de sua graça e resguardado pelas sombras, amaldiçoou-lhes a sagrada união. Somente os anjos e a bela noiva, jovem mulher de um saber já esquecido, estudiosa da alta magia, deram-se conta do que estava acontecendo e tentaram, em vão, esconjurá-lo, pois sua presença havia sido percebida tarde demais; eis que Melisande, em sua ingenuidade, pensou que poderia, com a ajuda de seus livros de magia e dos poderes ocultos celestes e infernais; desfazer a praga, o nó, o feitiço que por ventura, este demônio, senhor da loucura e da luxúria, houvesse por mal lhes lançado, porém, era tanta felicidade naquela noite que a duquesa acabou por se esquecer da vil, nefanda presença.

Durante alguns anos, o casal viveu próspero e feliz e para coroar tamanha felicidade, foram abençoados com a chegada de uma herdeira.

O jovem duque, como todo cavalheiro de nobre berço, educado nas melhores escolas de seu tempo, possuía um notável pendor para as artes, especialmente para a música e constantemente, com algum agradável instrumento, preenchia as horas ociosas, espantando, com sua voz, o silêncio ou a tristeza que, por ventura, ousasse pairar sobre os aconchegantes aposentos.

Entretanto, apesar do amor e da paz que o rodeavam, o jovem senhor foi chamado para a guerra e, deixando a contragosto a meiga esposa e a pequena filha, dirigiu-se, vacilante, ao encontro das hostes inimigas.

Porém, a saudade de casa o deixou distraído, algo muito grave de se acontecer num campo de batalha, e, embora fosse um guerreiro bravo e experiente, se transformou em alvo fácil de atingir, e, eis que, uma chuva de dardos e flechas envenenados, repentinamente, caiu sobre ele, que, tentando esquivar-se, protegeu-se com o escudo. Todavia, o ataque fora rápido e cruel e, num instante, cavalo e cavaleiro, foram ao chão.

 O terror dominou então, a todos os seus comandados, quando o poderoso inimigo, um voraz bebedor de sangue, adorador das trevas e dos demoníacos poderes; senhor das terras escuras, que se estendiam para além do outro lado do mar, aproximou-se, e dando um terrível brado de vitória, levantou à espada e ameaçou enterrá-la no peito do seu destemido inimigo, mas, antes que, tal fato, realmente se sucedesse uma lança certeira; vinda não se sabe de onde o acertou no coração e os dois exércitos novamente, com os ânimos exaltados, deram continuidade à carnificina.

Continua...

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