segunda-feira, 20 de outubro de 2008

SORTILÉGIO PARTE FINAL




















A duquesa, consumida pela tristeza e pelo anseio de que tudo terminasse, estava magra e abatida, embora ainda conservasse certa altivez que emprestava ao seu rosto um ar de beleza antiga. Mas, era tanto o sofrimento que ela nem mais conseguia pensar; só fazia chorar e se lamentar, maldizendo a sorte e o dia em que se conheceram e se apaixonaram perdidamente. Ah, paixão, cruel tormento para os tolos mortais enamorados; fatal veneno para os fracos de alma e de coração. Tanto fugiu dessa ilusão e acabou presa em sua armadilha; culpa de sua avó, a velha bruxa, que por causa de um desejo contrariado lançou sobre ela, um sortilégio de amor e dor. Lutara muito tempo na tentativa de anulá-lo e agora, ainda havia Asmodeus e seu encanto de terror.


O impetuoso senhor, em pouco tempo, se tornara um completo estranho, e, o “erro” por ela cometido em nome dessa paixão vinha agora cobrar o seu preço; um preço, deveras, muito alto; a desgraça montava um cavalo muito veloz e os sinais de sua chegada não se fizeram esperar... Portas e janelas, que, mesmo sem as correntes de ar, se abriam e se fechavam sem parar; ruídos de chaves e passos pela noite, no escuro e solitário corredor; batidas na porta quando todos já haviam se recolhido e uma voz, que, repetidamente, chamava por seu nome... e ainda, o pássaro aziago; que, todas as tardes vinha pousar em sua janela, emitindo um piado pungente. Seu jardim secara, e no pé de roseira brava só vingavam os espinhos. A gata branca, de triste sina, cruelmente devorada pelos cães; um gato preto que passava seus dias vagando ao redor do castelo, entrando e saindo como dos cômodos sem fazer qualquer barulho, lançando um olhar cheio de promessas assustadoras quando surpreendido... Até que, um dia, à beira do mar, ser atacado e devorado pelos cães; uma criança da aldeia arrancada dos braços de seus pais e, horas depois, encontrada morta, também à beira do mar, assassinada por cães; demônios sob a forma humana. Os cães, sempre os cães... Não paravam de ladrar e atacar; e os lobos cinzentos, comandados por um enorme lobo de frios olhos vermelhos, deixando a segurança da floresta para virem uivar à porta dos aldeões, principalmente nas noites de lua cheia, quando o duque também saia em seus longos passeios, demorando muito a regressar, às vezes só voltando ao amanhecer e uma vez em casa, durante todo o dia, trancava-se em seus aposentos, deixando o quarto às escuras e no mais completo silêncio, saindo dele apenas para tratar de seus afazeres mais urgentes. Algumas vezes, quase não se alimentava; outras vezes, mostrava um apetite voraz e assustador. Esquecera-se da família; esquecera-se da música e uma nuvem negra há dias, lhe turvava os pensamentos.

Entretanto, apesar disso tudo, ele continuava belo e forte, amando-a como sempre a amou, talvez até ainda mais, agindo para com os outros, estranhos ou não, da mesma forma que agia antes, isto é, gentil e delicado; correto nas atenções, assim como nas intenções. Ninguém diria que o duque estava num estado terminal, quase cruzando a fronteira que separam a sanidade da loucura. Pobre alma atormentada; que nem as preces mais sinceras; nem os amores correspondidos, nem os segredos da mais antiga magia, jamais, poderiam salvar ou proteger. Logo, logo, a lua cobriria o sol e aí então, seria muito tarde; o mal, enfim, estaria livre para fechar e dominar todos os caminhos; a alma de seu esposo estaria lamentavelmente perdida. Dura realidade... Seu tempo estava acabando. Um soluço partiu de seu peito e o desespero a tomou. O sentimento de impotência e morte a possuiu e todos aqueles avisos, que pareciam vir de fora, na verdade vinham de dentro dela; vinham de dentro de seu ser frágil e adoentado, de seu coração partido, de sua alma atribulada, então ela soube que os laços que os ligavam foram finalmente partidos e apesar de toda a sua coragem; paciência, conhecimento, sabedoria e esperança, apesar de tudo isso, ela, por ele, nada podia fazer, há não ser aguardar os funestos acontecimentos; seu marido era agora apenas uma presa de demônios e alimento dos vampiros, e, de certa maneira confusa e sombria, ele também sabia disso.

Os esconjuros e encantamentos; amuletos e fórmulas de proteção já não lhe serviriam, pois o duque em nada mais acreditava, duvidando inclusive da existência da fonte misteriosa de poder da qual emanavam todas as coisas. Atenta e previdente, a duquesa com a intenção de amenizar os sofrimentos que estavam prestes a desabar, criou em torno de si e de suas filhas um círculo mágico de poder, uma aura de proteção benigna e divina. Apenas dentro dele ela poderia enfrentar o que fosse preciso... mesmo a força negra e maléfica que emanava do próprio marido.


Numa  manhã fria de um dia de dezembro, a duquesa passeava com sua pequena filha pelo pátio do castelo. Dirigia-se ao jardim onde a alegria, embora tímida, ainda se fazia presente. Foi quando ela o viu a andar inquieto no alto da torre. De repente, o duque parou e deixou seu olhar perdido vagar pelo céu. O que pensava ele o que maquinava em seu coração? Que dor atroz, tanto perturbava sua alma? Como um pássaro ferido, o duque lançou-se ao mar. Nada o impediu, nem mesmo o amor sem fim...


 A duquesa ficou desesperada, sem saber o que fazer... A dor da perda, o silêncio da partida, nenhuma despedida... o que era a morte afinal? Ela não mais o sabia. Sentia apenas a tristeza, cravada como espinho no seu coração... Morte; porta de passagem para o mundo espiritual; o inicio de uma nova etapa, onde a vida e o aprendizado continuariam, mas, de uma forma invisível aos olhos do homem, entretanto, apesar de ela saber de tudo isso, a morte para ela, naquele momento, só representava saudade e solidão, pois para quem fica, a ausência do ser amado é a mais suprema e lenta das agonias.

O duque foi resgatado das águas do mar e sepultado no pequeno cemitério da família, nas propriedades do castelo, no meio de uma encruzilhada. Para que seu espírito pudesse descansar em paz e ele não se transformasse em morto-vivo, a duquesa em pessoa, teve de cumprir um ritual mágico. Ele já passara e sofrera por muitos infortúnios e foi para deles fugir que se atirou ao mar, por isso, a duquesa prometeu, diante de seu cadáver e depois diante de seu túmulo, resguardá-lo dos demônios e das forças malignas, para que assim ele próprio, ela, suas filhas e todos da aldeia, ficassem protegidos e novamente pudessem viver livres, perto do mar, do precioso e adorado mar, morada dos seres mágicos e encantados, que, por tantas vezes tranqüilo, ora bramia com furor, com as ondas que rapidamente se elevavam e se quebravam violentamente de encontro aos rochedos.


   

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