sábado, 18 de outubro de 2008

SORTILÉGIO PARTE II



 Após a batalha, vencida a guerra, o jovem duque foi mandado de volta para casa, aos macios e ternos braços de sua amada esposa, a fim de recuperar-se, e, todavia, apesar da gravidade de seus ferimentos, ele escapou de morrer, mas, o nobre senhor embora parecesse, já não era mais o mesmo.

A esposa notou a sutil mudança que dia a dia se operava no caráter de seu gentil companheiro; e, embora possuísse força e amor bastante para ambos ela viu, com tristeza, ele sucumbir ao fatal desenlace, que rapidamente se avizinhava, de seu trágico destino, como se a ele já estivesse fadado desde o principio. Muito tempo antes, a jovem senhora indagara as estrelas para saber se poderia aceitar o amor que lhe era ofertado com tanto ardor, pois ela temia a arrogância obstinada do jovem duque, que muitas vezes ousava zombar até mesmo da força divina. As previsões lhe foram funestas... o céu cobriu-se de pesadas nuvens negras, prenunciando futuros tormentos, mas, mesmo vendo com seus próprios olhos, ela não quis acreditar e manteve-se firme, com fé na abominável e enganadora esperança, de que o cavalheiro teria coragem e motivos suficientes para se modificar e assim poder se salvar. Ela estaria sempre ao seu lado e para isso dispensara os mais cobiçados pretendentes. O que seria de sua vida agora com uma filha para cuidar e outra a caminho? Fora tola e arrogante em demasia ao desafiar aquilo que há muito tempo estava determinado... e poder nenhum, a não ser o dele mesmo, poderia controlar ou anular.

Mais alguns anos se passaram e o lindo castelo perto do mar voltou a se encher de alegria com a chegada de mais uma filha. A aldeia se aquietou, pois o duque sorria e sonhava e ninguém poderia acreditar que ele já não estivesse curado. Seu bom-humor e carisma eram uma fonte de segurança, esteio, força, para os mais necessitados; uma pessoa assim o mal jamais poderia alcançar.
         
 A duquesa Melisande vendo-o em tão boa disposição tornou a enganar o seu penalizado, sofrido coração. Outra vez pensou ser possível a salvação para seu bem amado. Mas, novos e terríveis presságios não se fizeram esperar. O ar estava carregado por uma tristeza sombria e a duquesa, aflita, resolveu consultar os ossos do abibe. Porém, seu semblante transformou-se assim que a consulta acabou e um frio repentino perpassou pela sua alma. Desde esse dia, suas noites foram compostas somente de pesadelos ou de desalentadora agonia quando então as passava insone esperando a chegada do marido que vagava pela noite em companhia dos condenados, os amaldiçoados de almas dilaceradas e corações despedaçados. Pela manhã, estava exausta, e mesmo que o sol brilhasse lá fora, ela já não encontrava mais alegria, nem boa vontade para cuidar de si e das próprias filhas.

 As sombras foram caindo sobre o castelo e a força negra, maldita, invadiu e dominou todos os seus compartimentos; parecia um castelo assombrado. Assim, a força oculta, negra; magra, maltrapilha, negativa pequenina, tornou-se poderosa e ousada subiu os degraus do palácio, exigindo que lhe abrissem a porta; a porta lhe foi aberta pelo pobre senhor, foi convidada a entrar e a participar, como especial convidada, de seu lauto banquete, mal sabendo ele que o alimento de que ela necessitava partia de sua própria fraqueza; fraqueza esta que, vergonhosamente constatada, acabava por mergulhá-lo num mar de grande tormento. A jovem duquesa não conseguia mais detê-la, posto que, em tempos difíceis ela, esta força negra e maligna, fora para o duque fonte de alivio e proteção e ele não mais sabia, ou podia, dizer-lhe não.


Continua...
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