quinta-feira, 9 de outubro de 2008

RECORDAÇÕES DA CASA DA COBRA-SEM MAIS VERGONHA DE VIVER




SEM MAIS VERGONHA DE VIVER

Para Clarice


Eu ainda sou tímida Clarice, mas ando perdendo a vergonha de tudo, principalmente a vergonha de viver. Preciso achar e manter meu lugar no mundo; e, quem sabe, encontrar um “cantinho” ao sol afinal, dei-me conta, enfim, de que tenho todo e total direito de viver e fazer o melhor por mim e por aqueles que estão ao meu redor. Não peço mais desculpas Clarice por eu ser quem e o quê sou...?! E quem ou o quê sou eu afinal? Já me fizeram essa pergunta, constantemente me faço essa pergunta... Ainda não sei quem sou... sei o que não sou, ou pelo menos, o que não tento ser. Sei apenas que, como todos, busco uma saída às incertezas da vida, tentando ver e extrair de cada momento a reposta certa para tão enigmática pergunta que sempre vem no sopro do vento. Quem sou eu...?! Sou um desenho rabiscado; mosaico fragmentado de realidade, talvez sonhada, talvez vivida, mas, que, entretanto, está sempre em busca de aperfeiçoar-se e assim já não peço desculpas por existir.
Dizes que a alma do tímido anseia pela solidão, pois, somente assim consegue se libertar, mas, eu, apesar de toda a minha atrapalhada e indesejável timidez, não quero mais estar sempre só, não sou mais tão contraditória e em alguns casos desejo ardentemente o calor do aconchego com outras pessoas.
Não trabalho fora; não tenho chefe Clarice e, portanto, tenho a vantagem / desvantagem de não precisar pedir aumento de salário a ninguém, nem como escolher o melhor modo de me apresentar e me comportar nesse tipo de situação, uma tortura a menos. Tímida e ousada, posso me definir assim também, e, lembro-me que uma vez, em meu tempo de estudante de colégio, tive a coragem de interpelar um guarda que espancava um garoto de rua com um cacetete, um “gesto heróico” que deveria ser comum a quem luta contra a omissão e a indiferença que nos rodeiam e mantêm-nos reféns. Rompi meu próprio invólucro de medo, soltei a voz e consegui ajudar o garoto. Na tarde deste acontecimento, outras pessoas juntaram-se a mim. Fizemos a diferença ao nos unirmos e gritarmos a uma só voz: “basta!”.
Nunca montei a cavalo, nunca joguei xadrez, nem nunca conheci alguém tão simpático quanto o japonês que você conheceu e ainda hoje me confundo na hora de ler o cardápio, sempre solicito a ajuda de quem está ao lado. Minhas audácias foram pequenas, mas me ajudaram a compor a quem ou o quê agora sou e muito agradeço a mim mesma por isso. O encabulamento, que me atrapalhou algumas vezes, não foi empecilho para seguir em frente. Sabe Clarice, vou te contar um segredo: ainda pergunto aos “meninos” se querem brincar comigo e vez ou outra, sou desprezada. Não importa. Há tempos só falo de amor e continuarei a falar de amor, sempre, já que aos nove precoces anos eu nem pensava em “amor” tanto assim.

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