sexta-feira, 31 de outubro de 2008

POSSÍVEL ORIGEM DAS BRUXAS



Do Oriente para o Ocidente

Seguindo as informações que se tem desde a Idade Média, foi uma possível combinação de cultos anteriores e posteriores que acabaram por culminar no grande temor que acometeu a Igreja na Idade Média. Entre os principais responsáveis como propagadores da "antiga fé" consta-se a tribo Aniza; numerosa, rica, poderosa, oriunda dos remotos desertos da Arábia, aparentada ao clã dos faquires ou os “humildes de espírito”, que chegou à Espanha antes dos meados do século V, como aqueles, que, através de sua ferocidade nos campos de batalhas, acabaram por inspirar aos bardos tribais, com a expansão do Islã, vasto material a ser decantado, prática que muito contribuiu mais tarde, para o desenvolvimento do código de honra da cavalaria assim como dos poemas épicos de amor.
Estes beduínos remontam aos tempos pré islâmicos, Dias dos árabes, cuja vida cotidiana era um conjunto de ações atribuladas e fabulosas. Guerreiros dotados de astúcia, habilidade estratégica e uma capacidade de, em um abrir e fechar de olhos, desfazerem-se de tudo. O preceito antigo “crescei e multiplicai-vos” era uma prerrogativa da tribo, que rapidamente se expandiu, chegando até aos nossos dias, em grande número nos desertos da Síria.
Abu El Atahiyya (748-c 828) “o pai da poesia sacra árabe” era um oleiro que viveu ao tempo do culto dos foliões (dervixes maskhara ou mabrush, "marcados na pele" ou talvez ainda "embriagados pelo estramônio") e do grande califa Harum al-Raschid. Voltado à contemplação, Abu el-Atahiyya almejava um maior equilíbrio entre as glórias e o poder de Bagdá aliado a um desenvolvimento das faculdades humanas e foi com esta proposta que ele dirigiu-se ao califa, que lhe concedeu uma verba anual de cinqüenta mil moedas de prata.
Com a morte de Abu El-Atahiyya, “os sábios”, o círculo de seus discípulos, votou-lhe um culto à personalidade e para simbolizar o clã a qual pertencia, escolheram a cabra por possuir a mesma raiz do nome da tribo, ou seja (anz, aniza). Uma tocha era posta entre os chifres da cabra, (o que, talvez, na Espanha, veio a resultar na aparição do Diabo) o que, representava para eles, na verdade, a luz da iluminação intelectual. A marca tribal (wasm) lembrava muito a uma seta larga, também conhecida por pé-de-águia, ou o temido pé-de-pato das feiticeiras, que sinalava o local das reuniões. As mulheres do grupo, principalmente as mais jovens, eram marcadas com uma tatuagem, conforme o costume beduíno. É por essa época, como já foi dito, antes dos meados do século V, depois da morte de Abu el-Atahiyya, que uma parte de sua escola, ainda de acordo com a tradição, emigrou para a Espanha, que então se encontrava a mais de um século sob o domínio árabe, e vivia por lá um grande número de sírios... E foi assim que os Aniza, e entre eles um mestre dervixe, versado nas canções, usos e costumes de sua tribo, chegaram à Europa, trazendo na bagagem toda a sua cultura heróica e mágica, envolto em muitas lendas...

Continua...

Do livro Os Sufis; Idries Shah; Editora Cultrix; por Virgínia Allan


Fórmula indiana para se ficar mais bela

Ó Arati, esse Demônio, que feia me faz, a ti expulso. Toda a falta de graça que tenho comigo será corrigida pelos poderosos Varuna e Mitra. Aryaman, belas faça minhas mãos, deixe-me ser feliz, pois a felicidade é o fim para o qual, nós, as mulheres, fomos criadas!
Pelo espírito Savitar, toda feiúra, banida seja! Todas as coisas indesejadas da mente, do corpo e da aparência, desapareçam... Toda imperfeição, toda falta de beleza expulsas sejam!

Ritos Mágicos e Ocultos; Idries Shah; Biblioteca Planeta por Virgínia Allan

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

ALBERTUS MAGNUS E O PODER DAS ERVAS



Saint Albertus Magnus - Bispo, confessor e doutor da Santa Madre Igreja (afresco de 1352, Treviso, Itália)

Albertus Magnus, que descobriu a verdade em muitas coisas, inclusive em certa parte,assim acreditava, do Livro de Chirander e também no Alcorão, escreveu certa vez que para Aristóteles a magia não era ilícita. Ele acreditava que todas as ciências eram boas... a medida e a finalidade em que eram usadas é que decidiam o caminho bom ou ruim das operações. Portanto, a magia não é maligna, uma vez que pelo seu conhecimento pode-se evitar o mal e alcançar o bem. Como toda ciência, quando estudada e praticada, possui um resultado louvável se deseja o bem e a virtude, e desprezada se assim não ocorre.
Albertus era um profundo estudioso das ervas e pedras curativas e em seu livro DAS VIRTUDES DAS ERVAS faz uma descrição do poder e do uso de 16 delas. Para que as ervas ajam em toda a sua força é preciso observar as épocas e estações propícias ao seu colhimento, e a maneira certa de prepará-las e ministrá-las.

3. Da quinta erva e um amuleto de amor: em latim, Provinca ou Provinsa... em tempos remotos era conhecida na Caldéia por Interisi; pelos gregos, Vorax, pelos ingleses é planta Periwinkle.

Para fazer surgir o amor entre um homem e uma mulher pulverize a Provinca junto com minhocas da terra e faça um embrulho com outra erva, a Semperuina, conhecida em português por Pervinca, isto feito, devem ambos a usarem na comida.

4. Da quarta erva e um amuleto para a vitória: Chamada pelos caldeus de Aquillaris, est erva costuma surgir quando as andorinhas e as águias constroem seus ninhos. É conhecida dos gregos que a chamam de Vallias, e Celidonia pelos latinos; Celindine, os ingleses.

Se um homem, qualquer um, fizer um amuleto desta erva e o coração de uma toupeira, será capaz de derrotar todos os inimigos, saindo vencedor em todas as demandas, debates e batalhas.

4.1. Irás morrer... ou não?

Para saber se um homem doente vai morrer ou não, basta que se coloque a Celindine na cabeça deste. Se ele estiver com os dias ou as horas contadas, cantará em voz alta; senão, cairá em prantos.

Continua...



Do livro A TRADIÇÃO SECRETA DA MAGIA; Idries Shah; Editora Bertrand Brasil


quarta-feira, 29 de outubro de 2008

FÓRMULAS E ENCANTAMENTOS



A magia amorosa ou magia venérea (strikarmani) é bastante popular na India e abarca tudo o que tem a ver com o sexo oposto. Lá, é comum pedir-se ajuda aos práticos para quase qualquer coisa... o homem, se quer o amor de uma mulher com a qual pretende se casar; as mulheres fazem o mesmo, ou então se querem filhos, compram e usam amuletos com este fim; o casal já casado, usa invocar os espíritos para acalmar as discórdias e promover a reconciliação...

2. Vejamos então, agora uma fórmula de amor altamente funcional para o homem que deseja o amor apaixonado de uma mulher. Atenção... deve-se repeti-la, durante a lua crescente, quantas vezes for possível.

Penetro o teu coração, ó mulher, com a flecha todo-poderosa do amor! Amor, amor que perturba, por mim em ti há de surgir!
Esta flecha, voará, reta e certeira e de desejos te fará arder. Tem ela a ponta do meu amor, a sua lâmina é minha determinação em te possuir!
Sim, ferido está o teu coração. A flecha ao alvo certo chegou. Estás mudada! Por estas artes quebrei tua relutância! Vem a mim, querida, fiel e submissa, sem orgulho, assim com eu... pois eu orgulho não tenho, tenho somente querer! Nem tua mãe nem teu pai poderão impedir que tu venhas até mim... ninguém conseguirá deter-te. Estás sob o meu poder.
Ó Mitra, ó Varuna, retira dela a força de vontade! Eu, que apenas eu, tenha poder sobre o coração e a mente de minha amada!

Esta fórmula faz-se acompanhar da feitura e manuseio de uma flecha que é a contraparte física da flecha imaginária citada no texto. Neste tipo de encantamento, como em outros parecidos, pode o ritual ser realizado pelo homem interessado ou por uma feiticeira a seu dispor.

Continua...

Ritos Mágicos e Ocultos; Idries Shah, Biblioteca Planeta


terça-feira, 28 de outubro de 2008

YO NO ACREDITO EM BRUJAS...


Existe um ditado espanhol que diz: “Eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem...” as brujas (os) ou feiticeiras (os), eram as (os) praticantes da “velha religião” ou “fé” ou ainda “tradição antiga” que, na Europa Ocidental, celebravam seus rituais e crenças em grandes festividades e eram por isso, perseguidos e tachados pela Igreja como devotos do demônio.
Feiticeiro (bruxo, palavra em espanhol, que lhe é correspondente) significa “sábio” e eram pessoas estudiosas, ligadas à natureza e suas práticas, que penetravam os segredos mais profundos, passados depois de geração em geração, que lhes permitiam obter das ervas e outras fontes naturais, elixires e fórmulas de “encantamento” que ajudavam na cura de doentes. Eram eles os “médicos”, conhecidos dos vizinhos e aldeões, que confortavam o corpo e o espirito, e durante muito tempo não foram perturbados nem ameaçados por qualquer motivo. Mas, minha intenção aqui não é tratar da origem das bruxas, nem o que levou a Igreja Católica a persegui-las. Como nos aproximamos do Halloween, que, embora não seja exatamente uma tradição da cultura brasileira, mas que está começando a se disseminar, pois temos nós também, sempre tivemos, como em qualquer lugar nossos mágicos, bruxos, xamãs e afins...) gostaria de transcrever algumas fórmulas antigas e curiosas. Irei começar com a magia amorosa.

1. Para conquistar a paixão de um homem: Esta fórmula é de origem indiana e a mulher não deve confiar a outra a sua prática, deve ela mesma recitá-la pelo menos por sete vezes:

Possuída estou pelo amor abrasador que sinto por este homem, e este amor vem a mim de Apsaras, o que sempre vence.
Que ele, este homem, pense em mim, só em mim... que me deseje somente e que seu desejo queime... que esse amor nasça do espírito e que o envolva totalmente, eternamente!
Que me deseje como nunca antes me desejou! Eu o amo, eu o quero... deve ele por mim o mesmo sentir!
Ó Maruts, que de amor ele fique cheio, ó espírito do ar, o encha de amor; ó Agni, que ele arda em amor, fogo eterno e invisível, mas somente por mim!

Continua...


Do livro Ritos Mágicos e Ocultos; Idries Shah; Biblioteca Planeta - por Virgínia Allan

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

SORTILÉGIO PARTE FINAL




















A duquesa, consumida pela tristeza e pelo anseio de que tudo terminasse, estava magra e abatida, embora ainda conservasse certa altivez que emprestava ao seu rosto um ar de beleza antiga. Mas, era tanto o sofrimento que ela nem mais conseguia pensar; só fazia chorar e se lamentar, maldizendo a sorte e o dia em que se conheceram e se apaixonaram perdidamente. Ah, paixão, cruel tormento para os tolos mortais enamorados; fatal veneno para os fracos de alma e de coração. Tanto fugiu dessa ilusão e acabou presa em sua armadilha; culpa de sua avó, a velha bruxa, que por causa de um desejo contrariado lançou sobre ela, um sortilégio de amor e dor. Lutara muito tempo na tentativa de anulá-lo e agora, ainda havia Asmodeus e seu encanto de terror.


O impetuoso senhor, em pouco tempo, se tornara um completo estranho, e, o “erro” por ela cometido em nome dessa paixão vinha agora cobrar o seu preço; um preço, deveras, muito alto; a desgraça montava um cavalo muito veloz e os sinais de sua chegada não se fizeram esperar... Portas e janelas, que, mesmo sem as correntes de ar, se abriam e se fechavam sem parar; ruídos de chaves e passos pela noite, no escuro e solitário corredor; batidas na porta quando todos já haviam se recolhido e uma voz, que, repetidamente, chamava por seu nome... e ainda, o pássaro aziago; que, todas as tardes vinha pousar em sua janela, emitindo um piado pungente. Seu jardim secara, e no pé de roseira brava só vingavam os espinhos. A gata branca, de triste sina, cruelmente devorada pelos cães; um gato preto que passava seus dias vagando ao redor do castelo, entrando e saindo como dos cômodos sem fazer qualquer barulho, lançando um olhar cheio de promessas assustadoras quando surpreendido... Até que, um dia, à beira do mar, ser atacado e devorado pelos cães; uma criança da aldeia arrancada dos braços de seus pais e, horas depois, encontrada morta, também à beira do mar, assassinada por cães; demônios sob a forma humana. Os cães, sempre os cães... Não paravam de ladrar e atacar; e os lobos cinzentos, comandados por um enorme lobo de frios olhos vermelhos, deixando a segurança da floresta para virem uivar à porta dos aldeões, principalmente nas noites de lua cheia, quando o duque também saia em seus longos passeios, demorando muito a regressar, às vezes só voltando ao amanhecer e uma vez em casa, durante todo o dia, trancava-se em seus aposentos, deixando o quarto às escuras e no mais completo silêncio, saindo dele apenas para tratar de seus afazeres mais urgentes. Algumas vezes, quase não se alimentava; outras vezes, mostrava um apetite voraz e assustador. Esquecera-se da família; esquecera-se da música e uma nuvem negra há dias, lhe turvava os pensamentos.

Entretanto, apesar disso tudo, ele continuava belo e forte, amando-a como sempre a amou, talvez até ainda mais, agindo para com os outros, estranhos ou não, da mesma forma que agia antes, isto é, gentil e delicado; correto nas atenções, assim como nas intenções. Ninguém diria que o duque estava num estado terminal, quase cruzando a fronteira que separam a sanidade da loucura. Pobre alma atormentada; que nem as preces mais sinceras; nem os amores correspondidos, nem os segredos da mais antiga magia, jamais, poderiam salvar ou proteger. Logo, logo, a lua cobriria o sol e aí então, seria muito tarde; o mal, enfim, estaria livre para fechar e dominar todos os caminhos; a alma de seu esposo estaria lamentavelmente perdida. Dura realidade... Seu tempo estava acabando. Um soluço partiu de seu peito e o desespero a tomou. O sentimento de impotência e morte a possuiu e todos aqueles avisos, que pareciam vir de fora, na verdade vinham de dentro dela; vinham de dentro de seu ser frágil e adoentado, de seu coração partido, de sua alma atribulada, então ela soube que os laços que os ligavam foram finalmente partidos e apesar de toda a sua coragem; paciência, conhecimento, sabedoria e esperança, apesar de tudo isso, ela, por ele, nada podia fazer, há não ser aguardar os funestos acontecimentos; seu marido era agora apenas uma presa de demônios e alimento dos vampiros, e, de certa maneira confusa e sombria, ele também sabia disso.

Os esconjuros e encantamentos; amuletos e fórmulas de proteção já não lhe serviriam, pois o duque em nada mais acreditava, duvidando inclusive da existência da fonte misteriosa de poder da qual emanavam todas as coisas. Atenta e previdente, a duquesa com a intenção de amenizar os sofrimentos que estavam prestes a desabar, criou em torno de si e de suas filhas um círculo mágico de poder, uma aura de proteção benigna e divina. Apenas dentro dele ela poderia enfrentar o que fosse preciso... mesmo a força negra e maléfica que emanava do próprio marido.


Numa  manhã fria de um dia de dezembro, a duquesa passeava com sua pequena filha pelo pátio do castelo. Dirigia-se ao jardim onde a alegria, embora tímida, ainda se fazia presente. Foi quando ela o viu a andar inquieto no alto da torre. De repente, o duque parou e deixou seu olhar perdido vagar pelo céu. O que pensava ele o que maquinava em seu coração? Que dor atroz, tanto perturbava sua alma? Como um pássaro ferido, o duque lançou-se ao mar. Nada o impediu, nem mesmo o amor sem fim...


 A duquesa ficou desesperada, sem saber o que fazer... A dor da perda, o silêncio da partida, nenhuma despedida... o que era a morte afinal? Ela não mais o sabia. Sentia apenas a tristeza, cravada como espinho no seu coração... Morte; porta de passagem para o mundo espiritual; o inicio de uma nova etapa, onde a vida e o aprendizado continuariam, mas, de uma forma invisível aos olhos do homem, entretanto, apesar de ela saber de tudo isso, a morte para ela, naquele momento, só representava saudade e solidão, pois para quem fica, a ausência do ser amado é a mais suprema e lenta das agonias.

O duque foi resgatado das águas do mar e sepultado no pequeno cemitério da família, nas propriedades do castelo, no meio de uma encruzilhada. Para que seu espírito pudesse descansar em paz e ele não se transformasse em morto-vivo, a duquesa em pessoa, teve de cumprir um ritual mágico. Ele já passara e sofrera por muitos infortúnios e foi para deles fugir que se atirou ao mar, por isso, a duquesa prometeu, diante de seu cadáver e depois diante de seu túmulo, resguardá-lo dos demônios e das forças malignas, para que assim ele próprio, ela, suas filhas e todos da aldeia, ficassem protegidos e novamente pudessem viver livres, perto do mar, do precioso e adorado mar, morada dos seres mágicos e encantados, que, por tantas vezes tranqüilo, ora bramia com furor, com as ondas que rapidamente se elevavam e se quebravam violentamente de encontro aos rochedos.


   

sábado, 18 de outubro de 2008

SORTILÉGIO PARTE II



 Após a batalha, vencida a guerra, o jovem duque foi mandado de volta para casa, aos macios e ternos braços de sua amada esposa, a fim de recuperar-se, e, todavia, apesar da gravidade de seus ferimentos, ele escapou de morrer, mas, o nobre senhor embora parecesse, já não era mais o mesmo.

A esposa notou a sutil mudança que dia a dia se operava no caráter de seu gentil companheiro; e, embora possuísse força e amor bastante para ambos ela viu, com tristeza, ele sucumbir ao fatal desenlace, que rapidamente se avizinhava, de seu trágico destino, como se a ele já estivesse fadado desde o principio. Muito tempo antes, a jovem senhora indagara as estrelas para saber se poderia aceitar o amor que lhe era ofertado com tanto ardor, pois ela temia a arrogância obstinada do jovem duque, que muitas vezes ousava zombar até mesmo da força divina. As previsões lhe foram funestas... o céu cobriu-se de pesadas nuvens negras, prenunciando futuros tormentos, mas, mesmo vendo com seus próprios olhos, ela não quis acreditar e manteve-se firme, com fé na abominável e enganadora esperança, de que o cavalheiro teria coragem e motivos suficientes para se modificar e assim poder se salvar. Ela estaria sempre ao seu lado e para isso dispensara os mais cobiçados pretendentes. O que seria de sua vida agora com uma filha para cuidar e outra a caminho? Fora tola e arrogante em demasia ao desafiar aquilo que há muito tempo estava determinado... e poder nenhum, a não ser o dele mesmo, poderia controlar ou anular.

Mais alguns anos se passaram e o lindo castelo perto do mar voltou a se encher de alegria com a chegada de mais uma filha. A aldeia se aquietou, pois o duque sorria e sonhava e ninguém poderia acreditar que ele já não estivesse curado. Seu bom-humor e carisma eram uma fonte de segurança, esteio, força, para os mais necessitados; uma pessoa assim o mal jamais poderia alcançar.
         
 A duquesa Melisande vendo-o em tão boa disposição tornou a enganar o seu penalizado, sofrido coração. Outra vez pensou ser possível a salvação para seu bem amado. Mas, novos e terríveis presságios não se fizeram esperar. O ar estava carregado por uma tristeza sombria e a duquesa, aflita, resolveu consultar os ossos do abibe. Porém, seu semblante transformou-se assim que a consulta acabou e um frio repentino perpassou pela sua alma. Desde esse dia, suas noites foram compostas somente de pesadelos ou de desalentadora agonia quando então as passava insone esperando a chegada do marido que vagava pela noite em companhia dos condenados, os amaldiçoados de almas dilaceradas e corações despedaçados. Pela manhã, estava exausta, e mesmo que o sol brilhasse lá fora, ela já não encontrava mais alegria, nem boa vontade para cuidar de si e das próprias filhas.

 As sombras foram caindo sobre o castelo e a força negra, maldita, invadiu e dominou todos os seus compartimentos; parecia um castelo assombrado. Assim, a força oculta, negra; magra, maltrapilha, negativa pequenina, tornou-se poderosa e ousada subiu os degraus do palácio, exigindo que lhe abrissem a porta; a porta lhe foi aberta pelo pobre senhor, foi convidada a entrar e a participar, como especial convidada, de seu lauto banquete, mal sabendo ele que o alimento de que ela necessitava partia de sua própria fraqueza; fraqueza esta que, vergonhosamente constatada, acabava por mergulhá-lo num mar de grande tormento. A jovem duquesa não conseguia mais detê-la, posto que, em tempos difíceis ela, esta força negra e maligna, fora para o duque fonte de alivio e proteção e ele não mais sabia, ou podia, dizer-lhe não.


Continua...

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

SORTILÉGIO


























Era uma vez, sob uma colina, ao pé mar, um castelo maravilhoso.

O senhor deste castelo, um duque da mais antiga linhagem e de bonita presença, Tibeau de Algier, viu-se, um dia, totalmente perdido de amor pela encantadora Melisande, jovem lady de doiradas madeixas, quase adolescente ainda... Romântico; sedutor e determinado, loucamente apaixonado, o jovem senhor não mediu esforços para conquistar a dona de seu coração e após uma longa corte, cheia de encontros e desencontros, a donzela em questão, filha de um nobre sem posses, mas muito respeitado por sua conhecida honestidade e generosidade, resolveu, finalmente, ceder aos seus encantos e aceitá-lo por marido.

O jovem duque, tão comovido ficou com a resposta que, com a intenção de agradar a noiva e provar também dessa maneira, a força e a sinceridade de seu coração, viajou até o fim do mundo, a fim de escalar uma famosa e íngreme montanha, tida por todos como mágica. Dizia-se desta montanha que quem a escalasse, voltava louco ou aleijado, mas considerava-se de bom augúrio se um homem apaixonado alcançasse o seu topo e de lá, das ruínas do que outrora havia sido um templo, trouxesse uma pedra e a ofertasse a mulher amada. O corajoso duque foi bastante feliz em sua empresa.

Esta romântica aventura deixou os moradores do castelo mais ainda cheios de júbilo e, para comemorar o seu regresso glorioso e o esperado noivado, uma festa suntuosa foi devidamente preparada.


O convite do casamento foi expedido a todos aqueles que participavam daquele pequeno e distante mundo e todos, sem exceção foram convidados, desde os esnobes representantes da decadente aristocracia, até os moradores da humilde aldeia que circundava a colina em que o maravilhoso castelo orgulhosamente se erguia.

Os anjos benfazejos também não se fizeram de rogados e compareceram à cerimônia. Como presente, aos jovens enamorados, trouxeram dos céus incensos perfumados. Mas, Asmodeus, o demônio metade anjo, metade homem e que detesta a felicidade daqueles que estão apaixonados, resolveu também dar o dispensável ar de sua graça e resguardado pelas sombras, amaldiçoou-lhes a sagrada união. Somente os anjos e a bela noiva, jovem mulher de um saber já esquecido, estudiosa da alta magia, deram-se conta do que estava acontecendo e tentaram, em vão, esconjurá-lo, pois sua presença havia sido percebida tarde demais; eis que Melisande, em sua ingenuidade, pensou que poderia, com a ajuda de seus livros de magia e dos poderes ocultos celestes e infernais; desfazer a praga, o nó, o feitiço que por ventura, este demônio, senhor da loucura e da luxúria, houvesse por mal lhes lançado, porém, era tanta felicidade naquela noite que a duquesa acabou por se esquecer da vil, nefanda presença.

Durante alguns anos, o casal viveu próspero e feliz e para coroar tamanha felicidade, foram abençoados com a chegada de uma herdeira.

O jovem duque, como todo cavalheiro de nobre berço, educado nas melhores escolas de seu tempo, possuía um notável pendor para as artes, especialmente para a música e constantemente, com algum agradável instrumento, preenchia as horas ociosas, espantando, com sua voz, o silêncio ou a tristeza que, por ventura, ousasse pairar sobre os aconchegantes aposentos.

Entretanto, apesar do amor e da paz que o rodeavam, o jovem senhor foi chamado para a guerra e, deixando a contragosto a meiga esposa e a pequena filha, dirigiu-se, vacilante, ao encontro das hostes inimigas.

Porém, a saudade de casa o deixou distraído, algo muito grave de se acontecer num campo de batalha, e, embora fosse um guerreiro bravo e experiente, se transformou em alvo fácil de atingir, e, eis que, uma chuva de dardos e flechas envenenados, repentinamente, caiu sobre ele, que, tentando esquivar-se, protegeu-se com o escudo. Todavia, o ataque fora rápido e cruel e, num instante, cavalo e cavaleiro, foram ao chão.

 O terror dominou então, a todos os seus comandados, quando o poderoso inimigo, um voraz bebedor de sangue, adorador das trevas e dos demoníacos poderes; senhor das terras escuras, que se estendiam para além do outro lado do mar, aproximou-se, e dando um terrível brado de vitória, levantou à espada e ameaçou enterrá-la no peito do seu destemido inimigo, mas, antes que, tal fato, realmente se sucedesse uma lança certeira; vinda não se sabe de onde o acertou no coração e os dois exércitos novamente, com os ânimos exaltados, deram continuidade à carnificina.

Continua...

terça-feira, 14 de outubro de 2008

ORA PRO NOBIS



Há um mar por dentro de mim
que ora calmo, ora violento
vai em ondas quebrar
na praia do meu desalento
Não sofro mais como antes
porém, não sorrio com tanta avidez
Não desperdiço o tempo que necessito
iludindo-me com insatisfeito,
torto viver
Preencho com este mar bravio
o que ainda me resta de vazio
Sinto sede, sinto frio...
Mas, ciente da dor que se foi
que aos poucos, lentamente,
se esvaiu
Sorrio, agora, incerto da certeza mortal
que tudo encerra, do silêncio sepulcral que nos cerca
o cotidiano feito as pressas, cheios de emendas e detalhes
que nunca se desfazem
Aonde foram parar as horas?
Enfim, deixarei de lado
meu rosário de lamentos
Ai, minha Nossa Senhora Desatadora dos Nós
Ora pro nobis







segunda-feira, 13 de outubro de 2008

À NEGRA SENHORA DOS OLHOS DE ESTRELAS



Meu coração está só e de aflição ele chora

Não ouço os vossos passos, senhora,

e não mais escuto a vossa voz

O sol esfriou e a aurora perdeu a sua cor

A solitária andorinha voou, partiu para além do mar

Triste, o pássaro cativo também anseia voar,

pois noutra terra está a donzela de negras tranças e suave sorriso

Ela, mais bela que a distante lua,

despiu-se do seu manto de grandeza e humildemente,

para o chão volveu seus olhos de estrelas:

“Ouve”, disse ela, “o amado já vem”

domingo, 12 de outubro de 2008

AS ROSAS NÃO FALAM

Angenor de Oliveira - Cartola (1908-1980)




Composição: Cartola


Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão,
Enfim
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim
Queixo-me às rosas,
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai
Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhavas meus sonhos
Por fim

sábado, 11 de outubro de 2008

O FOGO QUE DERRETE O VÉU



Jalal ud-Din Rumi




Atenta para as sutilezas
que não se dão em palavras
compreende o que não se deixa
capturar pelo entendimento

Dentro do coração empedernido do homem
arde o fogo que derrete o véu de cima abaixo
Desfeito o véu
o coração descobre a história de amor
entre a alma e o coração
Regressa sempre
em vestes renovadas

Ao recitares “sol”
Contempla o sol
Sempre que recitares “não sou”
contempla a fonte do que és




Poemas Místicos, Divan de Shams de Tabriz; Tradução de José Jorge de Carvalho; Attar Editorial

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

RECORDAÇÕES DA CASA DA COBRA-SEM MAIS VERGONHA DE VIVER




SEM MAIS VERGONHA DE VIVER

Para Clarice


Eu ainda sou tímida Clarice, mas ando perdendo a vergonha de tudo, principalmente a vergonha de viver. Preciso achar e manter meu lugar no mundo; e, quem sabe, encontrar um “cantinho” ao sol afinal, dei-me conta, enfim, de que tenho todo e total direito de viver e fazer o melhor por mim e por aqueles que estão ao meu redor. Não peço mais desculpas Clarice por eu ser quem e o quê sou...?! E quem ou o quê sou eu afinal? Já me fizeram essa pergunta, constantemente me faço essa pergunta... Ainda não sei quem sou... sei o que não sou, ou pelo menos, o que não tento ser. Sei apenas que, como todos, busco uma saída às incertezas da vida, tentando ver e extrair de cada momento a reposta certa para tão enigmática pergunta que sempre vem no sopro do vento. Quem sou eu...?! Sou um desenho rabiscado; mosaico fragmentado de realidade, talvez sonhada, talvez vivida, mas, que, entretanto, está sempre em busca de aperfeiçoar-se e assim já não peço desculpas por existir.
Dizes que a alma do tímido anseia pela solidão, pois, somente assim consegue se libertar, mas, eu, apesar de toda a minha atrapalhada e indesejável timidez, não quero mais estar sempre só, não sou mais tão contraditória e em alguns casos desejo ardentemente o calor do aconchego com outras pessoas.
Não trabalho fora; não tenho chefe Clarice e, portanto, tenho a vantagem / desvantagem de não precisar pedir aumento de salário a ninguém, nem como escolher o melhor modo de me apresentar e me comportar nesse tipo de situação, uma tortura a menos. Tímida e ousada, posso me definir assim também, e, lembro-me que uma vez, em meu tempo de estudante de colégio, tive a coragem de interpelar um guarda que espancava um garoto de rua com um cacetete, um “gesto heróico” que deveria ser comum a quem luta contra a omissão e a indiferença que nos rodeiam e mantêm-nos reféns. Rompi meu próprio invólucro de medo, soltei a voz e consegui ajudar o garoto. Na tarde deste acontecimento, outras pessoas juntaram-se a mim. Fizemos a diferença ao nos unirmos e gritarmos a uma só voz: “basta!”.
Nunca montei a cavalo, nunca joguei xadrez, nem nunca conheci alguém tão simpático quanto o japonês que você conheceu e ainda hoje me confundo na hora de ler o cardápio, sempre solicito a ajuda de quem está ao lado. Minhas audácias foram pequenas, mas me ajudaram a compor a quem ou o quê agora sou e muito agradeço a mim mesma por isso. O encabulamento, que me atrapalhou algumas vezes, não foi empecilho para seguir em frente. Sabe Clarice, vou te contar um segredo: ainda pergunto aos “meninos” se querem brincar comigo e vez ou outra, sou desprezada. Não importa. Há tempos só falo de amor e continuarei a falar de amor, sempre, já que aos nove precoces anos eu nem pensava em “amor” tanto assim.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

OS MEIOS ADEQUADOS




Um mendigo aproximou-se de um homem rico e pediu-lhe que, por caridade, lhe desse uma esmola.
- Pede a Deus que te ajude – Disse o homem rico.
- Já pedi e Deus me respondeu dizendo: Vai e pede ajuda daquele homem - Objetou o mendigo.
- Finalmente encontro um homem que se dá conta de que cada coisa deve seguir os procedimentos adequados. Seria magnífico que as pessoas estivessem aqui presentes e pudessem assim comprovar este principio.
Como conseqüência deste episódio, o mendigo foi devidamente recompensado
.

Do livro El Caballo Mágico, Caravana de Sueños, Idries Shah; adaptação e tradução Virgínia Allan

terça-feira, 7 de outubro de 2008

REFLETE EM TEU VIVER



Reflete em teu pensar, em teu viver
O tamanho da chama de teu querer
O poder; a força e por causa dela, aonde ainda ou quê,
poderás ir ou vir a ter

Sê como as velhas histórias
Que o povo repete sem parar
Ora contada em breves partes
Ora contada como se nunca fosse acabar

Aprende com o passado, vive o presente...
O futuro o que será... será...?!
O desejo ardente leva-te para frente
Se não te detiveres por muito tempo
Consumido, desolado a olhar para trás a chorar

Há culpa, “pecado”, ciúme e orgulho entrelaçados
na tiara encantada do poder, do pudor e do desengano
Há tristezas e alegrias ao longo do percurso
Há fantasmas, almas penadas, solitárias à beira da estrada

Lanças ao ar as últimas notas
De um blues azul antigo e espera tranqüilo à porta de entrada
de um paraíso almejado mas não idealizado
E por fim, digo-te apenas, como um ponto final:
Insere-te por inteiro na paisagem como parte do sol

sábado, 4 de outubro de 2008

SÃO FRANCISCO DE ASSIS




04 de Outubro é dia de São Francisco,
protetor dos animais e dos excluídos
No céu, brilham irmão sol e irmã lua
Na terra, de alegria cantam os pássaros,
pululam os peixes nas águas
O fogo murmura consigo uma prece
em louvor ao santo amigo





No ano de 1181 (2?) no dia 04 de Outubro do calendário romano, nascia na Itália, na cidade de Assis, o menino Francisco, único filho de Pedro Bernardone, um rico negociante de tecidos, e de sua esposa Madonna Pica.
O seu nome, a principio, seria Giovanni, possível escolha de sua mãe, porém, seu pai, que, dizem, possuía um grande amor pela França, acabou por rebatizá-lo como Francisco.
Na juventude, Francisco era um boêmio; um alegre trovador e como trovador, falava a linguagem dos trovadores, o provençal. Devo esclarecer que é fato sabido que os trovadores eram descendentes de músicos e poetas sarracenos, e um ponto de concordância entre os estudiosos é que a penetração de ordens dervixes muçulmanas no Ocidente, foi de enorme influência para o florescimento e o desenvolvimento de ordens monacais religiosas na Idade Média, estando Francisco, mais tarde como fundador de uma delas, a Ordem dos Frades Menores, entretanto, antes disso, temos de admitir, segundo alguns historiadores, que Francisco tentou, sem sucesso, seguir os passos do pai na lucrativa carreira de comerciante.
Pensando encontrar sua vocação nas armas, entrou para o exército aos vinte anos, na companhia militar de Gualtieri de Brienne.
Conta-se que Francisco foi chamado três vezes por Deus à conversão religiosa e depois de convertido adquiriu um estranho poder sobre pássaros e animais, chegando inclusive a amansar um lobo feroz que andava a atormentar as redondezas.
Sobre o santo Francisco de Assis versam muitas histórias, todas bastante interessantes, (desde problemas familiares, passando por doenças, romances, estigmas e milagres) mas, aqui quero ressaltar o seu lado poeta místico e de onde afinal, tirava inspiração para poemas belíssimos como o Cântico del Sole (Cântico do Sol), considerado o primeiro poema italiano, poema este composto logo após sua volta do Oriente... Bem, tudo indica que Francisco bebeu direto da fonte do sufismo.
Idries Shah, em seu livro OS SUFIS, nos conta que Francisco de Assis, homem de percepção extraordinária, ao chegar a idade dos trinta anos, fez três tentativas (novamente o numero três) de chegar ao Oriente, em busca talvez, de suas raízes trovadorescas, tendo na última destas três, partido para as Cruzadas em direção a cidades de Damieta, sitiada então pelo sultão Malik El-Kamil, acampado do outro lado da margem do Nilo.
Francisco adentrou o acampamento sarraceno na intenção de converter o sultão ao cristianismo. Porém, apesar de não conseguir o seu intento, mesmo assim, caiu nas graças do sultão Malik, admirado da imensa capacidade de Francisco, e ele além de dar-lhe um salvo conduto para ir vir quando quisesse ainda deixou que este pregasse abertamente o cristianismo aos seus comandados.
Essas idas e vindas ao acampamento “inimigo”, e a extrema simpatia que lhe devotava o sultão, tiveram seus efeitos e provocaram profundas mudanças em Francisco. Muitos acreditam que finalmente Francisco, entre o exército sarraceno, sua corte e seus príncipes, achara o que estava procurando.
Francisco morreu em Assis em 1225 e foi sepultado na Igreja de São Jorge. Dois anos após sua morte, em 16 de Julho de 1228, é canonizado pelo Papa Gregório IX.

Paz a todos e repito, para finalizar, os dizeres do poeta Jalaludin Rumi, citado ainda por Idries Shah: "Ainda que faças uma centena de nós, a corda continuará sendo uma só"




CÂNTICO DO SOL


Altíssimo, onipotente, bom Senhor,
Teus são o louvor, a glória e a honra
E toda a bênção
Só a ti, Altíssimo, são devidos
E homem algum é digno
De te mencionar

Louvado sejas, meu Senhor,
Com todas as tuas criaturas,
Especialmente o Senhor Irmão Sol,
Que clareia o dia
E com sua luz nos alumia
E ele é belo e radiante
Com grande esplendor
De ti, Altíssimo, é a imagem

Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Lua e as Estrelas,
Que no céu formaste claras
E preciosas e belas

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão Vento,
Pelo ar, ou nublado
Ou sereno, e todo o tempo
Pela qual às tuas criaturas dás sustento

Louvado sejas, meu Senhor,
Pela irmã Água,
Que é mui útil e humilde
E preciosa e casta.

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelo irmão fogo
Pelo qual iluminas a noite
E ele é belo e jucundo
E vigoroso e forte

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a mãe terra
Que nos sustenta e governa,
E produz frutos diversos
E coloridas flores e ervas

Louvado sejas, meu Senhor,
Pelos que perdoam por teu amor,
E suportam enfermidades e tribulações
Bem aventurados os que sustentam a paz,
Que por ti, Altíssimo, serão coroados

Louvado sejas, meu Senhor,
Por nossa irmã a Morte corporal,
Da qual homem algum pode escapar
Ai dos que morrerem em pecado mortal!
Felizes os que ela achar
Conformes á tua santíssima vontade,
Porque a morte segunda não lhes fará mal!

Louvai e bendizei a meu Senhor,
E dai-lhe graças
E servi-o com grande humildade


sexta-feira, 3 de outubro de 2008

RECORDAÇÕES DA CASA DA COBRA-FELIZ ANIVERSÁRIO




FELIZ ANIVERSÁRIO


Perdoa meu amor
Em não ter vindo antes
Aliás há muito tempo
que aqui não venho
Mas quero que saibas
que não me sais do pensamento

 
Não te trouxe amigos
Não te trouxe flores
Não te trouxe vinho
Não te trouxe filhos
Vim eu só comigo
Perturbar a paz de teu espírito

Vai-se o verão
Vacilo por um instante...

Em que triste abandono te encontro
Quase em ruínas está a tua casa
Cinza pequena e fria laje
Sem enfeites sobre a dura campa
Dormes de forma confortável
no pedaço de terra tão desejado?
Os vermes ainda te consomem?
Ainda são longas as dores infames?
Sou pássaro de piar tristonho
Saudade do que fomos


Não deito mais a cabeça em teu ombro
Hoje minhas noites são só agonia
Pouca quase nenhuma alegria
Enquanto teu corpo volta ao pó da terra
Continuo eu na vivência incerta de uma longa espera, 

no monótono passar das horas
  Da falsa tranqüilidade dos repetitivos dias

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

UM CERTO VERÃO

(Quadro_Henri Matisse _Dinner)





Logo a casa se encherá de risos
Mas a alegria não será mais a mesma
Foram-se os tempos felizes
Em que todos brindavam à mesa

Há uma alegria solitária
Escondida pelos cantos e vãos das janelas e portas
Doces versos, rimas mortas
Sem espaço para se expressarem

Sim... Sobram espaços vazios
Cheios de alegre tristeza
Família aumenta, diminui
Multiplicam-se incertezas

Os fios de cabelos outrora negros, tão escuros
Hoje são de prata sobre a cabeça cansada
Lindo véu tecido pelo passar do tempo
Juventude que se foi, como um dia, em um certo verão que, num instante chegou
e mais rápido passou!

O coração agora já não bate descompassado, apaixonado
Bate em ritmo calmo, controlado
Guiado pela tranqüila certeza
Da vida construída com justeza
Da fé cultivada no peito
E do amor, claro e duradouro, que a tudo isso tornou possível

Logo a casa se encherá de risos
Mas a alegria, certamente, não será mais a mesma...

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

RECORDAÇÕES DA CASA DA COBRA-O EXERCÍCIO DA MALDADE





O EXERCÍCIO DA MALDADE

para Clarice

O exercício da maldade pela pura maldade eu não o senti. Questionamentos sobre maldade / bondade requerem reflexões mais profundas e complexas (será?!) e, que sei eu? Mas das “pequenas maldades”, destas sim posso falar, as conheci, as senti literalmente na pele, desde o colégio.
Naquela época uma menina adorava nos dar beliscões; puxar-nos cabelos e outras coisinhas mais. Era um terror encontrá-la todo santo dia na escola, em sala de aula, pois o “anjinho de candura” em questão era minha colega de classe. Bem, seu pai não era dono de livraria e sua mãe não parecia com mãe nenhuma. Lembrava mais uma boneca pintada demais, uma caricatura, uma bruxa de pano. A menina também era assim; puro exagero. Gorduchinha, moreninha, cabelos curtíssimos e um busto que já prometia; ela, realmente era precoce, precoce em tudo menos no bom uso da inteligência; talvez não pudesse... Apesar das reinações; digo essas pequenas torturas que gostava de nos infligir, eu não conseguia sentir raiva, sentia pavor e pena por ela ser desse jeito. Minha intuição dizia que tinha algo muito errado com ela, com a mãe dela, não era “normal”, digamos assim, ser como elas eram e agir do modo que agiam.
Minha intuição se confirmou ao saber, anos depois, que ela ficara completamente louca, em dado momento de sua vida, sua mente oscilou, vagueou e se perdeu para todo o sempre. As suas “maldadezinhas” infantis não passavam das primeiras manifestações de um cérebro doente.
Em minha adolescência, conheci outro garoto com o mesmo gosto pelo sadismo, precisavas ver com que prazer nos mordia e nos tascava beliscões, nós, garotas, fugíamos dele como o diabo da cruz.
Em relação a livros e o exercício da maldade posso te contar a minha experiência. Ainda na adolescência, tive uma vizinha que possuía um tesouro inestimável (e que ela não dava o menor valor) que eu muito ambicionava; a obra completa de Machado de Assis, de capa dura e verde, a cor da esperança, esperança que tinha eu de que um dia ela viesse parar mim. A coleção, já principiando um estado de deterioração causado por mofos; ácaros, traças e baratas, devido ao estado de abandono, metida e esquecida que estava por dentro de caixas de papelões, sempre encostadas, esquecidas em um canto. Minha vizinha nem sequer se dava ao trabalho de trocá-las.
Além de Machado de Assis, ela ainda possuía, para dor em meu coração, pois estes também viviam por dentro de caixas de papelões alimentando todo um mundo de pequenos seres, visíveis e invisíveis, uma coleção de contos de autores russos, que iam do antigo ao contemporâneo.
Um dia, Clarice, meu sonho se realizou. Imagina você que num ataque de limpeza, ela resolveu desfazer-se dos livros, de todos eles, mas para sua “insatisfação”, ao abrir as caixas; muitos já não prestavam tão carcomidos e envelhecidos pela falta de uso, e poucos deles foram de proveito. Baratas e aranhas saltavam aos montes, isso sem falar dos cupins... Meu coração bateu descompassado. E se Machado estivesse no mesmo estado lamentável? Que desperdício.! Que triste fim para um tesouro de inefável valor...
Ela dirigiu-se a caixa onde estavam os livros de Machado e a abriu com cuidado... Não queria outra vez ser surpreendida pela rapidez de um salto de aranha ou o nojo causado pelo rápido e agonizante passeio nos braços que costuma dar uma barata, e eu, por minha vez, ficaria livre de seus pulos e gritos.
Para nosso alivio, Machado resistira com bravura, mesmo amarelado e combalido da batalha contra o tempo em que mofos; traças; ácaros; baratas e seus derivados reinam absolutos.
Minha vizinha foi bem generosa, mas o mesmo já não posso dizê-lo de sua mãe... Pois é minha alegria logo se converteu em decepção. Minha vizinha, sabendo de meu interesse por leitura, especialmente no que dizia respeito àqueles livros, fez-me uma proposta irrecusável. Eu levaria a coleção comigo e poderia pagá-la em lentas prestações. Aceitei; óbvio, Clarice, sem nem pestanejar, farias o mesmo, e, muito contente (contente é pouco para se dizer) trouxe os livros para casa, o que não me custou nada, já que a mesma morava defronte a minha... e que alegria sentia ao saber que a obra completa de Machado de Assis, era, agora, minha, só minha, sempre ali, tão verdinha, a qualquer hora, a minha espera. Poderia lê-la sem pressa, acariciá-la, namorá-la, degustar cada palavra, entrar em cada história, em cada personagem. Amando com eles, odiando com eles, vivendo com eles. Pegava um; pegava outro, abria, lia uma frase, relia... e meu lugar predileto, era a cama, em que deitada de bruços, punha-me a sonhar.
Ah, Clarice, posso dizer que, como tu, eu vivia no ar, e o pudor e a graça, e até o recato, eram constantes em mim, porém eu não tinha um; mas sim vários amantes. Era de lamber os beiços de tanto prazer.
Todavia, minha alegria durou pouco, na verdade, só o tempo de ler Os contos; e, os romances, Helena e Dom Casmurro. E casmurra fiquei eu depois do que aconteceu.
A mãe de minha vizinha, ao saber da transação, não gostou, e num ato de egoísmo, misturado a despeito, inveja e ciúme, ela que nunca havia lido um livro, nem mesmo sabia quem havia sido Machado de Assis, foi, em pessoa a minha casa pegar os livros de volta; e fez tamanho estardalhaço que me vi obrigada a devolver a coleção. Que pesar...! Ver o meu sonho realizado, de repente, sair porta afora, levado por mãos arredias e alma ignorante. A esperança, desde então, para mim, se me afigurou como um sentimento intimidador, enganador. Quando sinto esperança, sinto-me enganada em minhas expectativas, burlada em minha intuição. O “mal” que a mãe de minha vizinha tinha me infligido, fruto apenas da ignorância, não deixa de ser uma das piores formas de maldade existente.
Se eu sei, enfim, o que aconteceu a obra de Machado? Disseram-me que a mãe de minha vizinha, a deu a uma sobrinha que acabara de se formar em magistério, mas, que nem por isso o velho e bom Machado; teve um tratamento digno. Continuava sublocado, metido por dentro de caixas de papelões ou largado, indiferente, em algum canto.
Recuso-me a guardar ressentimentos, procuro exorcizá-los, mandá-los para longe, para que não cresçam e apodreçam o que há de bom dentro de mim, mas esta é uma das recordações ruins, uma das banais, senão a mais, que custo a esquecer... Esquecer não... Esquecer o que tanto marcou a gente nunca esquece, mas não deixei que virasse mágoa, rancor, dor doída que amarga a vida.
Minhas recordações doloridas, hoje, são pura melancolia e estão adormecidas no fundo de uma caixa de vidro que, certamente, mais cedo ou mais tarde, se quebrará.
Ainda não possuo as obras completas de Machado de Assis, mas, um dia, quem sabe... Hiii... lá vou eu... Xô, esperança... fora, vai embora, pra longe daqui
!