terça-feira, 2 de setembro de 2008

LADRÃO QUE ROUBA LADRÃO...


Para Clarice


Confesso-te, Clarice. Eu já roubei...Tenho experiência no assunto. Sou uma ladra de corações. Tenho muito deles em minha caixa e sem falsa modéstia, alguns estão partidos até hoje. É uma pena... Coração remendado, assim como as flores, não duram, então eu posso te entender Clarice, muito bem, embora as flores, as rosas principalmente, nunca tenham me apetecido...tinha pena de colhê-las, doía-me quebrar-lhes o talo, pois, sabia que, se isso fizesse, elas não durariam, mesmo com minha redobrada atenção e carinho, tão efêmero se lhe afiguram os seus dias, gostava mesmo era de colher corações...! Como te disse, embora as flores não tenham sido os objetos preferidos de meus anseios sei o que é ficar completamente perdida, embevecida, encantada diante de algo que está anos luz de qualquer explicação, e, que, por um estranho e impertinente sentimento, você se julga no direito de pegá-lo, de tomá-lo para si, simplesmente porque, por obra e graça de Deus, este objeto é, ou deve ser, seu, somente seu; estava destinado a você, só a você e a mais ninguém. E, para acalmar o espírito e o absurdo da situação, você arranja todo tipo de desculpas para si mesmo, que vão desde as mais esfarrapadas às mais justas, desculpas estas que agem no espírito, apaziguando-o, e que, acabam por te convencer de que você não fez realmente nada de errado e, aí, a partir desse teu convencimento, tenta convencer aos outros de que agiu guiado pelas mais íntegras, nobres e sinceras intenções. Quando criança, roubei uma boneca e uns anos depois um berloque de Papai Noel de uma exposição que fizemos no colégio. O berloque era tão insignificante e a dona dele tão descuidada, que com a ajuda de uma amiga, me achei no direito de pegá-lo; pensei que ninguém daria falta, mas, deram... Resultado...Tive que devolver o brinquedo, pedir desculpas, engolir o vexame, agüentar pacientemente a bronca de minha mãe e ouvir um interminável discurso sobre os Dez Mandamentos, dando-se sempre maior ênfase ao “Não roubarás”. O discurso, Clarice querida, fez efeito e a culpa e o medo me fizeram recuar diante de várias situações "interessantes", digamos assim, e, durante algum tempo me contentei com aquela brincadeira de criança de “esse lado é teu, esse é meu”...que fazíamos em todo lugar, fosse em casa ou nas ruas, a caminho da escola, até mesmo quando folheávamos revistas, “essa página é minha essa é tua”...numa disputa tola, porém divertida. Contudo, não perdi totalmente a mania de “dar conta do alheio”. Continuei roubando coisinhas sem qualquer importância, como um ou outro bombozinho, folhas de árvores, uma fruta...Só um pouco mais tarde é que fiquei saliente outra vez e roubei alguns corações. Todavia Clarice, numa dessas curvas do caminho, depois de tanto roubar, eu é que fui roubada, despojada de meu coração, do meu amor e por pouco de minha vida. Deparei-me um dia com um jovem ladrão que surrupiou meu coração num momento de distração. O ladrãozinho era mais jovem do que eu e não tinha muito a oferecer, mas ofertou-me uma flor; uma flor que de tão rubra e perfumada metia medo, dado o brilho intenso de suas pétalas aveludadas, e, quando o sol incidia sobre ela, era como se fosse inflamada por um fogo divino. Sim, Clarice, uma rosa, não uma bela “rosa cor-de-rosa apenas entreaberta”, mas uma rosa, com alguns espinhos, de um vermelho vivo, resplandecente, puro ardor, louca paixão. Porém, mesmo fascinada e boba pelo objeto ofertado e pelo gesto ousado do jovem ladrão, recusei a rosa vermelha e com a recusa o amor tornou-se ainda mais violento / sedento / tormento. Ah, como eu queria Clarice, aceitar aquela flor...a linda flor que me ofertava o ladrão, “que nem homem feito era ainda”, não passava de um menino. Eu queria do fundo do meu coração aceitar a flor. Eu queria, mas não podia...Ele não se contentou com a recusa. Perseguia-me. Não desistia, confrontando-me nas horas mais silenciosas, pegando-me desprevenida, justamente naqueles momentos em que a paixão acaba se sobrepondo a razão. E em atos de exagero ao extremo, jogava-se aos meus pés, lamentava-se de sua dor e prometia-me amor, amor, infinito amor...Foi em um momento de total fragilidade/fatalidade, ele se aproveitou e me pegou, roubando de vez meu coração. Cedi, enfim, a tentação e cai nos braços do ladrão. Emocionada pela insistência, pela querência, pela carência, desafiei os fados que desde o inicio me foram desalentadores e prometiam-me inconstâncias, sofrimentos e ressentimentos, mas sem pensar duas vezes aceitei o jovem ladrão tresloucado. Todos nos vigiavam e com olhares reprovadores se forçaram a aceitar nossa união. Para nós pouco importava. Tínhamos “nossa” casa, canteiros de rosas, músicas, crianças, sol e chuva e o mais importante, tínhamos um ao outro e por alguns anos muita felicidade com pouquíssimas nuvens ameaçadoras, chegava a ficar tonta de tanta alegria. Tive esperança, perdão e vontade de perdoar. Meu coração se engrandeceu, a alma se aqueceu e o espírito se aquietou. Mas, para nossa desdita, ele já conhecia, antes mesmo de me conhecer um ladrão maior, mais hábil e mais forte, já que tinha o dom de farsante e sabia iludir, que o tiranizava, sem compaixão, pairando, como uma sombra sobre sua / nossas cabeças. E este ladrão audaz roubou-lhe de todas as maneiras, tanto material quanto espiritual. Roubou-lhe a paz, a vontade, até, por fim, levá-lo por inteiro, mas não de livre e espontânea vontade, pois muito ele resistira. O meu jovem ladrão, cujo amor era como uma rosa de um vermelho vivo, vermelho paixão, foi-se, misturando-se à poeira do infinito, voltando a fazer parte da grande rosa que é o Universo. Agora está por aí, alma encantada, tocando a música das esferas. Falo Clarice, em inconstância, sofrimento e ressentimento, mas não passam de palavras, pois a inconstância não foi tanta, o sofrimento não foi tanto e os ressentimentos dissiparam-se com o tempo. Tudo se dissipou com o tempo. Tudo passa, não? O que me restou? Restou o amor; as lembranças, a saudade, as duas crianças e uma solidão desmedida...Mas, ainda roubo corações, acreditas!? Ah...E alguns livros...Eu já tive pressa, muita pressa de viver, pois sentia que logo tudo iria terminar e estabanada, fazia como tu, que, ao meter a mão na sebe com o propósito de recolher as pitangas que se escondiam, na pressa de apanhá-las, sem querer, acabava por esmagar alguma, amadurecida demais. Eu, nessa pressa de viver, passei por alto alguns momentos, me esquivando, nunca percebendo a real importância das coisas e o que poderia fazer a diferença. Eu, ladra que fui talvez tenha, do meu “pequeno príncipe”, lhe roubado algo também, quem sabe a juventude, a energia e o juízo. Ele roubou-me, eu o roubei, mas no que diz respeito a minha vida com ele ou a vida em si, como um todo, o certo e o errado, o justo e o injusto, ainda não sou capaz de separar. Entretanto, não tenho do que me queixar. Ele só queria amar e ser amado. Eu só queria amar e ser amada. O amor, como uma flor ou um fruto, como disseste, pedia para ser colhido. Não queria crescer; amadurecer e depois morrer num galho seco qualquer, velho, virgem e solitário, não é este o destino do amor. Ganhei uma rosa de um vermelho vivo, intenso, vermelho paixão, que de tão forte o brilho iluminou tudo ao redor, rosa em vaso de cristal, singela, mas, ao mesmo tempo, tão preciosa, da qual cuidei e amei, até que um dia, como tudo na vida, ressecou e morreu. Mas, a essência das coisas nobres Clarice, esta sim sabemos que nunca morre e no mistério profundo onde repousa a verdade absoluta há sempre lugar para o perdão, perdão para todas as fraquezas, leviandades e misérias, há perdão, inclusive para o amor demais, há perdão para sempre, há perdão para tudo e todas as coisas, há perdão, enfim, Clarice, até para o “ladrão que rouba ladrão...”

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