sábado, 9 de agosto de 2008

A PARÁBOLA DOS FILHOS COBIÇOSOS [1]



por Virgínia Allan

Este conto de origem sufi, é bem conhecido e nas palavras de Idries Shah, enfatiza a afirmação de que é possível alguém desenvolver certas faculdades à revelia de seus próprios esforços para desenvolver outras. Tal como acontece na história acontece o mesmo ao ensinamento sobre as formas de entender o destino e o significado da vida. Vejamos: Levemos em conta que alguém mais experiente, alguém assim como um professor, ao deparar-se com a impaciência, a confusão e ansiedade de seus pupilos, sabiamente, irá direcioná-los para uma tarefa que ele bem sabe lhes será benéfica e instrutiva, mas, cuja verdadeira função e objetivo, por causa da total inexperiência deles, frequentemente lhes permanecerá oculto. Ao longo do tempo, A PARÁBOLA DOS FILHOS COBIÇOSOS foi publicada e divulgada por gente como, apenas a título de exemplo, o frade Roger Bacon, que ensinava em Oxford, de onde foi afastado por ordem do Papa, e pelo químico Boehaave (séc. XII).
A última versão conhecida desta história é atribuída a Hasan de Basra que viveu há doze séculos atrás.


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Da janela de sua humilde casa, o velho lavrador aspirou o doce perfume que vinha do campo. Árvores carregadas de frutos estendiam sua sombra generosamente e flores alegres e coloridas, enfeitavam o percurso de um longo caminho. O vinhedo, que era a menina de seus olhos, enchia-o de ternura e encanto. A primavera chegara cheia de novidades, como sempre, trazendo felicidade com a renovação da vida.
Cansado, soltou um profundo suspiro e voltou para sua cama. Estava muito doente. Pensou no quanto era bela aquela estação, bela para tudo; bela para viver e bela também para morrer. Sim, a morte andava por perto, perto demais...!
O velho lavrador; homem generoso e trabalhador, estava preocupado e com toda razão. Seus sete filhos, apesar de venderem saúde, eram todos, sem nenhuma exceção, preguiçosos, cobiçosos e briguentos. O velho, com toda razão, temia pelo futuro de suas crianças. Que seria deles, sem os seus conselhos e a sua presença constante? Precisava urgentemente encontrar uma solução.
Consultou o seu coração e depois de um tempo, pressentindo que finalmente havia chegado a sua hora, chamou-os ao pé de si e falou-lhes que se cavassem em certo lugar, encontrariam um maravilhoso tesouro.
Movidos pela ambição, os rapazes enterraram, às pressas o velho pai e em seguida, munidos de pás e enxadas, acorreram ansiosamente ao campo.
Entretanto, após o escavarem de ponta a ponta, nada encontraram e decepcionados, tomaram o rumo de casa.
Na manhã seguinte, os irmãos se levantaram cedo e prosseguiram nas buscas, mas o resultado foi igual ao do dia anterior, e assim aconteceu de novo no outro dia, no outro e no outro, até cansarem-se completamente. Concluíram que, por ser o pai um homem bondoso houvera repartido o dito tesouro com os mais necessitados. Porém, apesar da decepção, os rapazes habituaram-se a cuidar do campo, principalmente do vinhedo. Tanto era assim, que já nem brigavam mais. Plantaram novas sementes e continuaram em sua labuta, seguindo sempre o curso das estações. A prosperidade, então, veio bater-lhes à porta.
Um dia, ao olharem para o extenso campo cultivado, assim como o formoso vinhedo, cheio de uvas belas e maduras, foi que então os irmãos perceberam o sábio artifício usado por seu velho e generoso pai.
A história de um tesouro escondido foi uma forma de os disciplinarem e transformá-los em homens honestos e satisfeitos de sua condição. Agora possuíam riqueza suficiente e compreenderam afinal, onde se encontrava o verdadeiro tesouro.

[1] Idries Shah; História dos Dervixes; 1976; Editora Nova Fronteira.


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